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R. I. P.

Esse me deixou triste mesmo. R. I. P.

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Auto-Retrato

belchior1ai2A MPB é um bicho esquisito, a começar pela própria definição do gênero, que é um tanto dúbia e questionável. Nunca me esqueço de algumas entrevistas do Lenine, em que ele dizia que MPB, pra ele, era Música Popular Babilônica, bem como outras do Zezé di Camargo dizendo que a MPB de verdade era o que ele e outros artistas sertanejos-pagodeiros-românticos faziam, que é a música realmente popular do Brasil, aquela que se ouve em rádios de empregadas domésticas e botecos de pedreiros. Há quem diga também que a MPB são os ritmos brasileiros, incluindo aí o próprio sertanejo e o pagode; tudo bem, mas aí vai tentar dizer pra alguém que Gilberto Gil tocando reggae não é MPB.

No fundo, MPB é só mais um daqueles rótulos aleatórios que se coloca em artistas e que pouco dizem a respeito de música propriamente dita; algo assim como rock. Em geral, principalmente em tempos mais recentes, o termo é associado principalmente a um certo tipo de elite pretensamente intelectual, querendo abordar ritmos populares de forma erudita ou com excesso de pompa. Gente chata, pra resumir, como a maioria da música que é associada ao rótulo. Pois é, sejamos honestos uma vez na vida: apesar de Geni e o Zeppelin ser legal, Chico Buarque é muito chato, e o mesmo vale para Caetano Veloso e um punhado de outros medalhões e pseudo-medalhões (mas Gilberto Gil é legal).

O que não quer dizer que não haja música interessante na assim chamada MPB, claro. Eu gosto muito de Oswaldo Montenegro, por exemplo, apesar de ele estar justamente em um dos extremos desse excesso de pompa. Em geral, no entanto, são os artistas mais periféricos do pseudo-gênero que possuem os trabalhos mais interessantes; gente tipo Alceu Valença, por exemplo, ou Zé Ramalho, que é realmente muito bom. Principalmente, no entanto, estou me referindo a Belchior.

Cortando então esse longo e pretenso monólogo pseudo-intelectual da minha parte, Auto-Retrato é, justamente, uma coletênea de músicas do cantor cearense, que é o artista que pessoalmente mais me cativa nessa assim chamada MPB. Dividido em dois discos – Perfil do Cidadão Comum e Pequeno Mapa do Tempo -, ele reúne muito do melhor que o cantor já fez. Há desde o romantismo pop de Medo de Avião à anti-filosofia de Alucinação, passando pela introspecção de Pequeno Mapa do Tempo, pelo surrealismo pós-moderno de Balada de Madame Frigidaire, e, claro, clássicos como Como Nossos Pais, Mucuripe e Apenas um Rapaz Latino-Americano.

Certamente, o grande destaque de todas as músicas são as letras, misturando referências de cultura pop com uma visão de mundo bastante pessoal, sempre com grande habilidade e poesia, repleto de introspecção, filosofia e imagens fortes. Talvez haja quem reclame da voz fora do tom e muitas vezes fora do tempo também, mas são apenas detalhes técnicos; na prática, isso até colabora para destacar a beleza das letras, tornando sua atuação mais potente e expressiva, especialmente nas apresentações ao vivo. A linhagem a qual Belchior pertence é muito mais a de gente como os Refugee All-Stars e certos artistas de blues e rock proletário do que do samba eletrônico erudito da nova MPB; é muito mais a dos bardos e trovadores do que a das apresentações pomposas em teatros aristocráticos.

Enfim, é um artista que me agrada aos ouvidos, e que eu certamente recomendo.


Sob um céu de blues...

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