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Complexo de Outsider

plague-doctorOutsider. Em português, estrangeiro, ou, talvez mais adequado, forasteiro. Se me perdoam o estrangeirismo, vou ficar com o termo em inglês dessa vez. Gosto dele; acho que ele confere um significado mais objetivo: aquele que está do lado (side[r]) de fora (out). Como geralmente acontece, o sentido do termo não precisa ser literal ou físico. Pode ser um “lado de fora” psicológico, ideológico ou mesmo social. Ser um outsider pode ser uma mácula, um motivo para ser tratado com frieza e desprezo pelos outros; mas também pode ser uma bênção: poder ver as coisas criticamente, sem a visão distorcida do envolvimento direto. Não é à toa que a antropologia fala muito do olhar antropológico, de olhar as coisas como quem os vê de fora; significa ter esse olhar crítico do outsider, não necessariamente para exercer um julgamento, mas com uma vontade sincera de compreensão.

Lembro de quando, anos atrás, eu li o primeiro volume de As Máscaras de Deus, tetralogia do Joseph Campbell em que ele analisa e compara os temas de mitologias do mundo todo, fazendo um complemento mais aprofundado e detalhado do que no seu clássico-mor (e infame, segundo alguns) O Heroi de Mil Faces. No caso, este falava sobre as “mitologias primitivas,” aquelas de povos selvagens e arcaicos, desde os neandertais paleolíticos com as suas pinturas rupestres até os aborígenes australianos mais contemporâneos. Um dos muitos temas que ele aborda no livro é o dos xamãs, que, em muitas destas sociedades, possuem uma função mista entre a de um sacerdote e a de um médico, que cura males físicos através de viagens e rituais no mundo espiritual.

Aí talvez entre um pouco a minha ingenuidade de garoto, e a fonte de onde vinha anteriormente o meu conhecimento sobre o tema, qual seja, livros de cenários de fantasia para RPG. O xamã na maioria deles era um membro importante da tribo de que fazia parte, respeitado e admirado, a quem todos recorriam atrás de sabedoria e conselhos. O xamã que fiquei conhecendo pelo livro, através de diversos relatos antropológicos citados por Campbell, era bem diferente: um ser estranho, respeitado mais por medo do que por admiração, a quem a tribo recorria quando necessário mas preferia manter distância na maior parte do tempo. O mundo a que ele pertencia não era o dos demais; ele não caçava com a tribo, não ensinava os garotos, não celebrava com eles. Vivia, ao contrário, muito mais no mundo dos espíritos do que no dos vivos, que conhecia como ninguém e que visitava na hora de curar uma enfermidade, mas que despertava um terror profundo em todos os demais. Era, para resumir, um outsider.

Lembrei bastante disso quando estava lendo The Way of Kings, do Brandon Sanderson. Entre as diversas histórias que o autor conta para enrolar o leitor e fingir que está tendo algum avanço no enredo, está a da juventude de um dos protagonistas, quando seu pai era um médico e cirurgião de uma cidade pequena, trabalhando de graça e vivendo basicamente de doações dos demais habitantes como agradecimento pelos seus serviços. A relação que possuía com eles, no entanto, é bem semelhante a dos xamãs descritos por Campbell, um misto de respeito e medo. Todos os aldeões recorriam a Lirin (o médico em questão) quando precisavam, para tratar de uma doença ou cuidar de um filho acidentado; mas eram frios e distante na relação com ele no resto do tempo. Ele não trabalhava com eles, afinal; não suava arando a terra nem carregava o peso das colheitas. Como tratá-lo como um igual?

Sanderson deve entender alguma coisa do assunto, acredito, visto que outro dos seus livros tem como dedicatória um pedido de desculpas para sua mãe, que queria vê-lo médico, de onde podemos supor que ele tenha ao menos começado os estudos para a profissão. Eu pessoalmente não sou especialista, mas, pelo meu conhecimento da História de maneira geral, consigo imaginar que a da Medicina tenha passado por situações como esta. Penso nos próprios pioneiros das ciências medievais e renascentistas, como o belga Andreas Vesalius, que visitava cemitérios para dissecar cadáveres e estudar anatomia, uma prática que não deveria torná-lo muito popular. E basta olhar também para as máscaras aviárias que médicos usavam para se proteger da Peste Negra, que os davam aquele ar um tanto monstruoso e assustador.

Hoje em dia os médicos são em geral bem mais respeitados. É uma carreira nobre, que paga bem para os melhores profissionais, e é por isso desejada por muitos e possui os vestibulares mais disputados. Nas grandes cidades, ao menos, é difícil vê-los como outsiders. Aquele conhecimento místico que tornava os xamãs assustadores hoje se tornou mundano, mesmo que não seja de livre acesso (apesar de que você sempre pode recorrer ao Google). Mas é difícil imaginar que não haja um resquício desse complexo de outsider na atitude de médicos recentes, não só nas críticas programas como o Mais Médicos como em toda essa agressividade com que os médigos estrangeiros que vêm trabalhar aqui estão sendo recebidos.

É claro que há razões muito mais profundas por trás, razões políticas e ideológicas que ficam bem explícitas em qualquer análise de discurso das notícias a respeito. Mas não há como não ver um certo sentimento de superioridade, de estar fora e acima dos padrões dos “comuns,” quando se vê declarações de médicos sugerindo sobrecarregar os laboratórios públicos com exames, não socorrer eventuais vítimas de erros de médicos estrangeiros, e outras atitudes que parecem vir de garotos birrentos de sete anos de idade; como se o resto da sociedade, esses que vão levar o golpe destas atitudes, não importassem. Afinal, eles são eles, e não nós.

Enfim, sei lá. Talvez quem esteja sendo o outsider aqui seja eu mesmo. Mas eu sempre fui um, de qualquer forma.

The Way of Kings

the-way-of-kings-by-brandon-sandersonNo Livro Sagrado das Convenções dos Gêneros Literários, geralmente se considera a “alta” fantasia como aquela dos mundos alternativos ao nosso, com outras geografias e raças e leis naturais. Não interessa se estamos em um mundo medieval semi-histórico como Westeros, com guerras épicas maniqueístas como a Terra-Média, ou repleto bugigangas e tranqueiras mágicas como Toril; não é a nossa Terra, ou pelo menos uma versão levemente alterada dela, então é alta fantasia do mesmo jeito. O jargão popular, no entanto, acabou dando ao termo um significado diferente: uma fantasia é mais “alta” quanto mais espalhafatosa for a sua relação com o sobrenatural, ou quanto mais absurdos e recorrentes forem os seus deus ex machina. Um mundo como Westeros, onde a magia é rara e custosa, seria uma fantasia bastante “baixa;” enquanto uma Toril, com seus Elminsters visitando o inferno e espadas mágicas jogadas nos cantos de masmorras, já seria um bocado “alta.”

Se adotarmos esta segunda concepção, podemos dizer que Roshar, o mundo de The Stormlight Archive, série do autor norte-americano Brandon Sanderson cujo primeiro volume é este The Way of Kings, seria algo como o Monte Everest da fantasia. Tudo nele é espalhafatoso e exagerado: os nomes são rocambólicos, os monstros são grandes, as batalhas são destruidoras, a magia é semi-divina, chegando ao ponto em que acampamentos de guerra contam com fortalezas de pedra erguidas em instantes e certos povos chegam a dispensar a agricultura em prol de alimentos gerados magicamente. O esforço em criar um mundo mágico e maravilhoso ao extremo é tanto que algumas vezes chega a ser até cômico – os nomes com mais consoantes do que vogais dão vontade de rir mesmo, e há uma profusão de detalhes vazios nos costumes e vestimentas dos personagens que não conseguem mais do que entediar.

O exemplo mais icônico da “altura” da fantasia no livro são as Shards, espadas e armaduras poderosíssimas deixadas para trás pelos Radiant Knights, ordens de cavaleiros que as teriam recebido dos Apóstolos do Todo-Poderoso para proteger a humanidade contra os Voidbringers, seres demoníacos que desejam expulsar os homens para o equivalente local do inferno. Após estes cavaleiros traírem seus protegidos e debandarem, seus artefatos passaram a ser disputados pelos diversos reinos e povos que se formaram pelo mundo, muitas vezes definindo as relações de poder e dominação entre eles. É graças a eles que muitos personagens são capazes de feitos de heroísmo dignos de um anime ou mangá shonen, como enfrentar em igualdade exércitos inteiros e monstros gigantes, dando à ação do livro muitas vezes um certo quê de Cavaleiros do Zodíaco medieval.

Mas isso, claro, é o que ele tem de mais legal. O contra-ponto é que a história contada neste primeiro volume é tão arrastada quanto é espalhafatosa e exagerada. Para quem não sabe, Sanderson, o autor, foi o escolhido pelo próprio Robert Jordan para terminar a sua consagrada série The Wheel of Time após a sua morte, e quem leu ao menos o primeiro livro sabe o quanto ela é arrastada e enrolona – e, lendo este, pode-se ver bem como a escolha foi acertada e perfeita. Há quatro protagonistas – definidos na sinopse da contra capa como “o cirurgião, o assassino, a mentirosa e o príncipe,” embora o segundo na verdade só apareça nos interlúdios entre as partes maiores do livro – cujos capítulos se intercalam de forma bem George-Martiniana, sem necessariamente se encontrarem diretamente mas girando em torno de um mesmo conjunto de lugares, personagens e situações, em especial as profecias sobre o retorno dos Apóstolos e uma guerra de vingança de um reino recém unificado contra os supostos assassinos do seu rei. Destes quatro, no entanto, apenas dois são realmente interessantes, e mesmo o enredo deles demora pelo menos um terço do livro para começar a engrenar. Como se não bastasse, o autor ainda perde tempo com ironias fracas e sub-enredos românticos sem qualquer propósito fora o de seguir alguma receita de bolo aprendida em oficinas de escrita, além capítulos de interlúdio com coadjuvantes que pouco ou nada tem de relação com os demais, e servem praticamente apenas para ele exibir todo o worldbuilding que fez.

Pra ser sincero, eu desisti de ler o livro duas vezes, e na verdade só decidi retomá-lo e me esforçar para ir até o fim por causa de um amigo que insistia que ele ficava bom lá pela página seiscentos ou setecentos das suas mais de mil. E a pior parte? Ele tinha razão. O terço final do livro, quando coisas finalmente começam a acontecer e o enredo a andar a passos de elefante, é realmente empolgante, e te deixa com vontade de ir atrás da continuação. E é então que finalmente chega aquele momento em que são duas horas da manhã e você tem que acordar cedo no dia seguinte, mas simplesmente não consegue parar de ler para ir deitar… Exceto que então você já está na página 1200 e faltam só três capítulos para terminar o maldito.

É bastante frustrante, na verdade. O segundo volume (de dez planejados pelo autor) deve ser publicado ainda este ano. Eu devo procurá-lo apenas quando sair a edição em paperback – não acho que ele valha o preço de um hardcover. Para quem começar a ler agora, no entanto, as chances são boas de que o termine apenas quando o próximo já estiver disponível…


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