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Glasshouse

glasshouseÉ curioso como um livro pode não causar um impacto muito grande em você logo após ser lido, mas acabar retornando em algum momento posterior e causar uma pequena explosão de ideias. Você o termina e pensa que não é grande coisa, mas então semanas, meses ou anos depois ele subitamente retorna ao seu pensamento, e de repente você se dá conta de que ele tinha um significado muito maior do que você percebeu inicialmente.

Glasshouse foi o primeiro livro do autor inglês Charles Stross que li, anos atrás, antes mesmo de Accelerando (seu livro mais conhecido) ou The Atrocity Archives. Na época, talvez por ter menos referências a seu respeito, achei uma ficção científica curiosa e instigante, mas acho que não consegui realmente entendê-lo na sua totalidade. Foi preciso algum tempo de maturação das minhas próprias ideias para que a sua história retornasse à minha memória, e eu pudesse entender o quão provocante ela é realmente.

O enredo se passa no século XXVII, muito depois da humanidade atingir a singularidade – alguns leitores defendem que ele divide o mesmo universo com Accelerando, mas trata-se na verdade de uma obra independente, que retoma muito dos temas daquela sem referi-la diretamente. A base da sociedade é uma extrapolação da tecnologia da informação, que transforma os próprios corpos humanos em pouco mais além de bits e bytes; você pode até mesmo fazer uma gravação de todas as informações contidas no seu corpo e então recriá-lo no caso de uma morte acidental, como se fosse um save point de um jogo eletrônico.

Outra consequência desta tecnologia é que é possível fazer alterações no próprio corpo alterando as suas linhas de código, recebendo habilidades únicas, membros extras ou o que mais você quiser. Talvez este seja o elemento que torne o livro mais provocante, e extremamente atual em vista de debates recentes da nossa sociedade: o seu próprio gênero, aqui, é apenas uma linha de código, que pode ser alterada livremente de acordo com a vontade do usuário. O protagonista, que abre o livro no gênero masculino, em um determinado momento muda-se para uma mulher para participar de um experimento social em uma estação espacial, e passa a maior parte do livro desta forma; e o mesmo acontece com outros personagens importantes.

Isso é posto em um forte contraste com a sociedade puritana norte-americana da década de 1950, cuja recriação é o objetivo do referido experimento social. É um período tratado como uma “idade das trevas” pelos personagens, não só pelas suas características intrínsecas, que o transformam rapidamente em um panóptico de pesadelo e dão ao enredo a sua característica de thriller literário, mas também porque poucos registros confiáveis a seu respeito sobreviveram – o que ecoa, aliás, certas entrevistas recentes de especialistas sobre a perenidade nem sempre lembrada de arquivos digitais. Claro, trata-se de um livro já com dez anos, então talvez algumas das respostas a que chegam neste debate pareçam datadas e não muito satisfatórias; mas em última instância, acredito que ainda valha mais pelas perguntas que faz e as ideias que provoca.

E talvez essa seja mesmo a principal função da (boa) ficção científica – não necessariamente encontrar as melhores respostas, mas pelo menos fazer as melhores perguntas. Trata-se, em todo caso, de um livro bastante instigante e provocador, como me acostumei a encontrar nos outros trabalhos do autor que li depois.

Para não dizer que eu não falei do Mandela

Nelson MandelaTodo esse morre-não-morre do Nelson Mandela me lembrou uma reflexão que eu fiz tempos atrás sobre a morte de outro grande contemporâneo, o escritor José Saramago. Na época ela acabou ficando no meio de um longo pensamento sobre a última Copa de Mundo, a de 2010, justamente, olha só, na África do Sul. Acho que posso citar ela toda aqui, já que é uma reflexão que vale bastante para o caso do Madiba também.

E então chegamos ao outro assunto do fim de semana, a morte de José Saramago, primeiro (e acredito que até o momento único) escritor de língua portuguesa a ser premiado com o Nobel de literatura. Confesso que nunca li realmente qualquer obra dele, embora haja algumas em particular que me interesse em conhecer – em especial, História do Cerco de Lisboa. Mas já li entrevistas e alguns ensaios curtos perdidos pela internet, e não posso dizer que não admirava algumas das suas ideias.

Saramago tinha 87 anos, e, portanto, já não era exatamente um jovem. Sua carreira como escritor já estava consagrada, inclusive com adaptações cinematográficas de algum sucesso, então podemos dizer que ele certamente já havia dado a sua contribuição para a vida cultural e intelectual do mundo. Há sempre aquela expectativa de que ele pudesse dar mais, é claro, sobretudo se lembrarmos que não muito tempo atrás ele estava lançando Caim, seu último romance. Mas pessoas também morrem todo dia, principalmente pessoas velhas – e, mesmo assim, não faltaram as viúvas inconformadas, se perguntando nos twitters da vida por que se vão os escritores bons quando a Stephanine Meyer continua por aí (acredito, mas posso estar errado, é claro, que a juventude dela possivelmente lhe dê uma saúde um pouco mais estável).

Acho que, no fundo, todos temos alguma esperança inconsciente de que o mérito possa vencer a morte. A mortalidade do homem sempre foi um mistério estranho – é um grande problema filosófico (como viver sabendo que irei morrer?), além de uma situação esquisita (como acordar um dia e de repente não encontrar mais alguém que sempre esteve com você?), e acho que todas as religiões sempre tentaram oferecer uma resposta, transformando-a na passagem para um plano superior ou uma nova vida em outra encarnação ou qualquer outra coisa que permita alguma possibilidade de fuga. Alguém já disse por aí que o que nos difere de um animal comum é justamente  essa consciência da morte, muito embora eu realmente não saiba como os cachorros e os gatos foram questionados sobre o assunto. Arrisco até a dizer que algumas das dificuldades da ciência em enfrentar as crenças religiosas têm a ver com isso – a ciência pode te explicar como o seu corpo funciona, mas não tem ainda uma boa resposta para por que (ou pra que) ele funciona, e nem por que ele deve morrer um dia.

Talvez por isso a morte de alguém como o Saramago cause este tipo de comoção, mesmo quando já estava em uma idade em que ela deixa de ser uma surpresa. Não nos apoiando mais na religião para entendê-la, afinal, o que nos resta? É mais fácil imaginar que as pessoas que nos interessam e que admiramos estarão sempre por aí, e não pensar sobre o que vai ser quando se forem. E, numa sociedade que tenta ser individualista e meritocrática, pode ser reconfortante acreditar que alguma entidade transcedental de justiça cósmica concederia a vida eterna a alguém que fizesse por merecer. Claro, há quem diga que as grandes obras sobrevivem ao seu autor, conferindo a ele algum grau de imortalidade, mas então eu rebato com aquela genial citação a Woody Allen: Eu não quero alcançar a imortalidade pela minha obra. Eu quero tornar-me imortal não morrendo.

Por acaso, estou lendo atualmente um livro chamado Singularity Sky, do escritor inglês Charles Stross. É uma ficção científica bastante interessante, que tenta especular sobre a sociedade e a tecnologia do futuro a partir de teses e idéias científicas mais contemporâneas, com direito a espaçonaves quânticas e uma extrapolação genial das ciências da informação. E uma das tecnologias maravilhosas do futuro criado pelo autor trata justamente de técnicas de rejuvenescimento, capazes de tornar um ser humano efetivamente imortal. No entanto, por todas os problemas sociais e ambientais que uma civilização de imortais traria, uma das poucas regras com que todas as nações da Terra concordam sem restrições é justamente a de limitar o acesso a tais tecnologias; assim, apenas se qualificam candidatos que tenham feito grandes contribuições para a humanidade, ou que por acaso tenham funções importantes a cumprir nos governos e organizações que têm acesso a elas. Não deixa de ser uma especulação interessante, a ideia do mérito capaz de vencer a morte.

Em todo caso, é também uma reflexão curiosa que se pode fazer.

The Jennifer Morgue

The Jennifer Morgue é o segundo livro da série dos Laundry Files estrelada pelo Bob Howard, personagem criado pelo escritor de ficção científica Charles Stross. Para quem não sabe, o primeiro volume, The Atrocity Archives, já foi resenhado por a qui, e ela versa sobre o dia-a-dia de uma agência governamental britânica de espionagem sobrenatural – digamos assim, é mais ou menos o que você consegue quando Ian Flemming e H. P. Lovecraft fazem uma dança da fusão.

O primeiro livro, a bem da verdade, não tinha tanto da super-espionagem que tornaram o primeiro autor tão célebre – ao invés de James Bond, sua inspiração era muito mais os suspenses de Len Deighton, com sua visão mais mundana e burocrática do trabalho de um espião. The Jennifer Morgue, por outro lado, faz uma sátira/homenagem bem mais evidente ao personagem de Flemming, de uma forma que é mesmo incorporada ao enredo através de um deus ex machina bastante criativo.

Claro, ainda é um livro dos Laundry Files antes do que do James Bond, o que quer dizer que muitos elementos devem ser adaptados. Assim, não se surpreenda se encontrar guelras na Bond girl da vez, ou um milionário excêntrico que, ao invés de satélites com raios da morte, possui um plano para despertar seres antigos além da nossa compreensão. Do outro lado, todo universo burocrático da Laundry também se faz presente, de forma que o nosso herói, com sérias restrições orçamentarias, deve, por exemplo, dirigir um Smart 42 (uma espécie de versão alemã do nosso Uno Mille) ao invés de um Aston Martin.

E mais do que tudo, deve-se levar em conta que o protagonista Bob Howard é um simples técnico em informática, e não um assassino galanteador com sangue frio e licença para matar em nome da Inglaterra. Se sente mais à vontade com uma namorada fixa do que trocando de parceira a cada ato da história, é mais efetivo com os aplicativos sobrenaturais do seu smartphone do que com uma Walther P99,  e meramente pensar em perder todo o seu orçamento em um jogo de cartas é o suficiente para lhe dar náuseas. É um James Bond às avessas, enfim, e é assim que deverá sobreviver a um enredo de ação envolvente com tensão em crescendo, levando a um clímax explosivo que não deve nada a qualquer superprodução hollywoodiana.

Como no primeiro volume, este também fecha com uma história curta e um pequeno ensaio sobre a literatura de espionagem. O primeiro é um conto chamado Pimpf, em que Bob deverá usar os seus conhecimentos ocultos em uma arena perigosa e incomum: um jogo de RPG eletrônico on-line. E o segundo se chama The Golden Age of Spying, e versa um pouco sobre aquele que é inegavelmente o mais famoso espião da literatura (e que eu acredito que não preciso nomear, certo?) – incluindo uma pequena e muito elucidativa entrevista com Ernst Stavro Blofeld, líder da S.P.E.C.T.R.E. e principal antagonista de Bond nos filmes e livros, que se mostra como um homem à frente do seu tempo, um empresário filantrópico lutando pela liberdade em um mundo dominado pelo socialismo velado do estado de bem-estar social.

Na soma final, The Jennifer Morgue é um ótimo livro, com uma história de ação que não deve nada aos melhores Bond movies, e que ao mesmo tempo faz uma sátira muito divertida a todos eles, com um ou dois momentos momentos mesmo que me fizeram rir em voz alta. Recomendo bastante para quem se interessar por tudo isso.

Accelerando

Existem algumas coisas sobre a ficção científica que a tornam facilmente um dos mais efêmeros dos gêneros literários. A forma como ela necessariamente lida com o conhecimento humano, através de especulações em cima de ciências naturais e humanas, bem como toda a concepção de gadgets fabulosos pela qual é geralmente mais conhecida (admita, você sempre quis ter uma pistola de raios ou um sabre de luz), faz com que qualquer obra esteja sujeita a se tornar obsoleta com alguma rapidez, na medida em que estas ciências se desenvolvem e as idéias que a inspiraram em primeiro lugar vão sendo suplantadas por outras mais atuais. Some-se a isso ainda o fato de que o próprio interesse das pessoas pelos diversos campos da ciência tende a variar bastante com o passar das décadas, quando mudanças de contextos políticos, sociais e econômicos podem tornar um ou outro deles mais atrativo às massas do que os demais.

Assim, por mais que autores como Isaac Asimov, Ray Bradbury ou Arthur C. Clarke sejam clássicos incontestáveis dentro do gênero, muitas das suas obras já não têm tanto a dizer a uma geração onde a sua ciência está ultrapassada e os seus questionamentos muitas vezes já não são tão relevantes. (Ok, na verdade eu abro uma exceção aí para o Bradbury, cuja obra de maneira geral tinha um aspecto de especulação social e política que ainda pode ser interessante e relevante mesmo nos dias de hoje). Viagens espaciais já não têm o mesmo apelo de quando a Guerra Fria e a corrida espacial estavam no auge e notícias a respeito saíam nas primeiras páginas dos jornais; da mesma forma, questionamentos filosóficos sobre a humanidade de robôs e inteligências artificiais também parecem um pouco fora de contexto em um mundo onde os próprios seres humanos ainda estão por demais divididos. Nesse sentido, o cyberpunk da década de 1980 ao menos parece um subgênero mais atual, lidando com a tecnologia da informação e outras ciências mais próximas da geração corrente; mesmo ele, no entanto, também já tem os seus vícios e idéias ultrapassadas, que já soam irremediavelmente retrô (que o diga a famigerada Matriz e as suas paisagens formadas por linhas verde-luminosas).

Isso talvez explique um pouco por que hoje em dia a fantasia está muito mais em voga na literatura do que a ficção científica. Tem muito a ver com sucessos do gênero em outras mídias, é claro, em especial o cinema, mas a própria FC nunca deixou de estar presente nelas – Star Trek / Jornada nas Estrelas mesmo teve uma adaptação recente de relativo sucesso. (E eu prefiro não contar Star Wars nesse grupo, uma vez que ela é muito mais uma fantasia travestida de FC do que uma FC propriamente dita). Mas, como me questionou recentemente um amigo, onde temos um Harry Potter da ficção científica? Ou mesmo um Senhor dos Anéis? A fantasia ao menos tem a vantagem de lidar com a imaginação de uma forma mais pura, e por isso mesmo demorar mais em se tornar obsoleta – um arco mágico pode ser um arco mágico por cinqüenta anos, mas uma pistola de raios mudará bastante nesse tempo, tanto em funcionamento como em aparência. É esse tipo de noção que muitas vezes me parece faltar aos autores mais contemporâneos do gênero, em especial no Brasil, onde parece que todos estão ainda muito presos aos vícios e paradigmas de uma FC tradicional demais e que responde muito pouco aos questionamentos das gerações mais atuais.

E assim chegamos a Charles Stross. Fazia um bocado de tempo que eu não tinha contato com uma ficção científica tão atual e contemporânea, que especula sobre a ciência e o futuro de um ponto de vista que realmente parece sair da nossa própria época. Acho que a melhor forma de descrever Accelerando, talvez seu livro mais conhecido, é como uma space opera cyberpunk – e mesmo ela talvez seja mais uma tentativa minha de rotulá-lo, é claro. Temos lá as viagens espaciais, encontros com alienígenas e seres artificiais autômatos que são tão caros à FC de todas as épocas; todos eles, no entanto, são apresentados com uma roupagem atualizada, desenvolvidos a partir de conceitos e idéias contemporâneas, e com gadgets e afins que não soam completamente inconcebíveis nos dias de hoje. Misture a isso ainda uma visão provocante do futuro fundamentada na tecnologia da informação (o próprio Stross, aliás, é graduado e trabalhou por anos na área, então pode-se dizer que ele sabe bem do que está falando), pensada até as suas últimas conseqüências políticas, econômicas e mesmo jurídicas, e você tem como resultado um cenário complexo e único, que soa atual como poucas FCs, mesmo algumas das mais recentes, conseguem, e capaz de fazer a sua cabeça quase que literalmente explodir com a quantidade de informação passada em cada frase.

Claro, antes que corram atrás dela achando que é a última obra-prima da ficção científica, é bom deixar claro que ela também tem alguns problemas sérios do ponto de vista mais formal. Não se trata propriamente de um romance no sentido tradicional, em que a história segue linearmente de um capítulo ao outro até o desfecho; ao invés disso, a história é formada por nove contos fechados, ainda que não exatamente independentes, aonde acompanhamos três gerações da família Macx ao longo de todo século XXI e além, e a forma como ela acaba influenciando o destino final da humanidade no sistema solar. Essa estrutura fragmentada é bastante confusa algumas vezes, quando a narrativa se perde em meio a flashbacks de eventos importantes ocorridos entre os contos, sem contar em diversos momentos em que o narrador assume o tom de um locutor de documentário descrevendo as mudanças tecnológicas e sociais que ocorreram em cada década. Isso pode passar algumas vezes a impressão de que a história toda é mais complicada do que realmente é, ainda mais se considerarmos a quantidade de tecnologias novas e estranhas a que somos apresentados a cada parágrafo.

Por outro lado, o grande espaço de tempo percorrido pelo enredo também permite uma visão panorâmica não de um único futuro, mas vários deles, e a forma como um vai abrindo espaço e sendo sobreposto pelo outro, desde as mais próximas e menos impressionantes primeiras décadas deste século, até o caos de tecnologias e simulações virtuais que é a virada para o próximo século. Isso faz com que se adicionem à leitura comentários e reflexões interessantes sobre o choque de futuro e a velocidade crescente das inovações e revoluções técnicas, muitas vezes até com um tom meio cômico e satírico bastante divertido.

Em todo caso, Accelerando acaba valendo muito mais por toda a revolução de idéias e concepções provocantes que promove do que propriamente a história que conta, ainda que ela não seja de todo desinteressante ou mal-executada. Mesmo assim, não pode deixar de ser lido por qualquer um que tenha algum interesse sério em ficção científica, pela forma como atualiza diversos conceitos já ultrapassados mas que ainda são onipresentes no gênero. E quem se interessar, enfim, pode mesmo baixá-lo gratuitamente no site do autor, que tomou a iniciativa de disponibilizá-lo através da licença Creative Commons.

The Atrocity Archives

Acho que poucos autores têm uma influência na literatura de massas contemporânea tão significativa como a de H. P. Lovecraft. O seu universo de males ancestrais, deuses alienígenas e ciências obscuras possui ecos em dezenas de autores de inúmeras mídias, da literatura em prosa aos videogames, passando pelos quadrinhos, o cinema e até a música. Sempre que você vir em uma história segredos enlouquecedores, monstros além da compreensão, e, é claro, tentáculos em profusão, é bem possível que esteja diante de uma das inúmeras homenagens à sua obra. E os seus próprios mitos já foram usados e reinterpretados à exaustão, seguindo a lógica do pastiche em histórias de ação, aventura, ficção científica, super-heróis, humor, etc.

Charles Stross, apesar de ser mais conhecido pelos seus trabalhos de ficção científica, é um dos autores que se aventurou neste campo, na sua série The Laundry Files. Nela conhecemos Bob Howard, agente da Laundry (ou Lavanderia), um setor secreto do governo britânico encarregado de lidar com ameaças sobrenaturais de diversos tipos – algo como um MI6 paranormal, digamos assim -, e suas missões para salvar o mundo de criaturas cósmicas em meio a reuniões, cortes de orçamento e formulários em três vias. The Atrocity Archives é o primeiro livro da série, contando como se deu a sua transformação em agente de campo; e as suas edições mais recentes trazem ainda a novela The Concrete Jungle, ganhadora do prêmio Hugo, que dá seqüência às suas aventuras.

O elemento que primeiro chama a atenção na série é como ela atualiza os temas e mitos de Lovecraft para o nosso tempo. É um cenário onde teoremas místicos viram fórmulas matemáticas, um PDA pode possuir programas de invocações arcanas, e mesmo entidades sobrenaturais são muitas vezes descritas com termos da tecnologia da informação – simplificando bastante, podemos dizer que é quase um cybercthulhu. Bob, o protagonista, não é apenas um agente de campo de um serviço secreto, mas também um técnico em informática capaz de literalmente hackear os rituais dos cultos que deve enfrentar. As referências históricas e políticas também estão bastante atualizadas, desde os onipresentes nazistas e suas experiências misteriosas com ciências ocultas, até as mais recentes redes de terrorismo árabes. O resultado é um universo bastante envolvente e criativo, pelo menos para quem souber reconhecer as referências, e muito interessante de se descobrir durante a leitura.

Para além das ameaças sobrenaturais e o horror cósmico, há também uma segunda dimensão muito divertida explorada na série, que é o universo da própria Laundry, descrita como um setor público com todas as suas virtudes e, principalmente, os seus vícios. Qualquer um que já tenha trabalhado em um, ou ao menos perdido horas ou dias correndo de um guichê a outro de atendimento ao público, sabe o filme de terror que eles podem ser – os tentáculos de deuses ancestrais pouco representam frente aos tentáculos da burocracia, e às vezes a missão para salvar o mundo pode ser mesmo menos importante do que a reunião que definirá os cortes do orçamento para o seu setor. As próprias disputas internas por verbas podem acabar pondo Londres, ou o universo inteiro, em perigo.

A edição pocket que eu adquiri, além das duas histórias, também continha um pequeno posfácio do autor, em que ele discute um pouco das referências usadas na concepção da série. É um texto muito interessante, pelo menos para quem gosta de se aventurar pelo universo da literatura fantástica, mostrando como referências aparentemente desconexas podem ser reunidos em uma obra única – da literatura de horror à de espionagem (em especial os livros de Len Deighton, em oposição ao muito mais popular Ian Flemming) ao universo dos hackers contemporâneos. Mesmo do ponto de vista crítico, ele possui também alguns insights bastante interessantes, como a sua descrição da literatura de espionagem como uma forma de terror durante a Guerra Fria, quando ameaças de holocausto nucleares eram mesmo plausíveis, bem como a sua descrição da obra de Lovecraft nos termos da literatura de espionagem.

No fim, The Atrocity Archives é uma leitura bastante divertida, com um universo envolvente e personagens interessantes, que eu recomendo para fãs de Lovecraft e literatura fantástica em geral.

Pra não dizer que não falei da Copa (e do Saramago)

E chegamos, então, ao perído de mais uma Copa do Mundo, e é claro que muitos esperam que eu venha falar algo a respeito, por ser um interessado algo mais que casual em futebol e até mesmo, nas suas devidas proporções, pesquisador acadêmico do assunto. Não posso decepcioná-los, é claro, e até me empolguei e acabei escrevendo um texto deveras, er… Longo, expondo algumas de minhas opiniões pessoais a respeito.

A verdade, que talvez seja uma surpresa para alguns, é que eu realmente não consigo me empolgar tanto com o futebol de seleções quanto me empolgo com o futebol de clubes. Não consigo deixar de ver nelas resquícios de uma das mais complicadas e, quero acreditar, anacrônicas instituições ocidentais, que é a nação moderna, e dos sentimentos de nacionalismo que já geraram tantas guerras e problemas. Quer dizer, não é à toa que a Copa do Mundo, por exemplo, passa a ser organizada a partir da década de 1930 – é justamente o período chamado por Eric Hobsbawn de “a era de ouro dos nacionalismos”, quando a construção das principais nações modernas estava consolidada, e os sentimentos de pertencimento inflamados buscavam formas de se expor e criar campos de conflito, fossem simbólicos (como o futebol e esportes em geral) ou reais (como as guerras mundiais).

É realmente curioso que, criada num contexto deste tipo, a Copa (e, em menor escala, as Olimpíadas) siga como um evento de tão grande porte, capaz de mobilizar e parar países inteiros para assisti-la, principalmente após algumas décadas em que tantos tentaram e outros lutaram para anunciar o fim iminente das fronteiras nacionais. É uma das provas, entre tantas outras, de que tais tentativas falharam em grande medida. Mesmo um jogador que passe quinze anos da sua vida viajando por diversos países europeus a cada quatro anos veste uma camisa com cores de uma bandeira latino-americana e se diz brasileiro, ou argentino, ou uruguaio. A globalização do esporte não mudou isso – certamente criou formas diferentes de como pode acontecer, como os jogadores filhos de imigrantes, nascidos em ex-colônias, ou mesmo os simplesmente naturalizados, mas essencialmente o que se tem ainda é um tipo de conflito de nações, ainda que simbólico e (teoricamente) pacífico.

Pessoalmente, acho que meu lado mais romântico gostaria de poder me anunciar como um cidadão do mundo, antes de brasileiro, ou gaúcho, ou porto alegrense (mas não antes de gremista). No fundo, claro, sei que isso não passa de um idealismo meu, inviável e impraticável na realidade, mas é por isso, provavelmente, que eu raramente me empolgue em de fato torcer pela seleção brasileira. Não interessa o fato de eu, por um acaso do destino, ter nascido em uma cidade que fica dentro de um estado que faz parte de um país chamado Brasil – isso me diz tanto sobre para quem eu devo torcer quanto quanto o fato de eu ser destro, ou branco, ou ter olhos verdes. Simplesmente não consigo me identificar com o Brasil da mesma forma que me identifico com o Grêmio, em parte justamente pelo fato de o segundo não necessitar que eu o vincule a qualquer outra entidade ou elemento que não as suas equipes de futebol. Mesmo o Grêmio enquanto representante do futebol gaúcho é uma vinculação relativa, já que o Internacional também a possui, e assim qualquer tipo de “nacionalismo gaudério” teoricamente me impediria de secá-lo contra times do centro ou de fora do país (coisa que avós e tias desentendidas do futebol vez por outra me cobram).

Isso não quer dizer, claro, que eu nunca torça para a seleção, ou que efetivamente torça contra ela. Em geral sou indiferente, mas em alguns momentos, devido a diversos fatores, eu posso tomar alguma posição. Em 2002, por exemplo, eu realmente torci pelo Brasil, em grande parte devido ao fator Felipão, pela sua identificação com o Grêmio – identificação esta que inclusive já me foi um tema de trabalho na faculdade. Já em 2006 eu não me empolguei, tanto que fui um dos poucos a adivinhar quem seria a campeã (sim, eu apostei na Itália).

E agora em 2010, eu casualmente me encontro torcendo novamente. Não tem nada a ver com o fato de o Dunga ser gaúcho – até porque seria um pouco contraditório de minha parte criticar os nacionalismos só pra cair em seguida nos regionalismos. Até acho essa história toda de bairrismo e tradicionalismo divertida enquanto brincadeira, mas não mais do que isso. Me considero um gremista antes de um gaúcho, e isso até me colocaria contra o Dunga, que, afinal, é identificado justamente com os meus rivais. Enfim, se não tenho dificuldade em torcer contra o Inter, certamente não teria também em torcer contra ele.

Por outro lado, no entanto, existe algo que me aborrece ainda mais do que todos estes ufanismos patrióticos no futebol, e da qual eu já falei anteriormente: é aquele meu velho ranço com o jornalismo e os jornalistas. O que me faz torcer pelo Dunga, antes de tudo, é a atitude que ele assume nas entrevistas com os órgãos de imprensa, não se furtando de provocar e expor aqueles que ainda o perseguem, mesmo após ele ter ganho praticamente tudo o que disputou nos último quatro anos. Não digo que seja uma atitude corajosa – muitas vezes ela se aproxima mais de ser uma paranoia mesmo -, mas é ótimo ver ele lembrando de comentários e afirmações de jornalistas de um ano ou dois atrás, que todos acreditavam (arrisco dizer até que esperavam) já estar esquecidas. E, convenhamos, boa parte desses jornalistas de fato merecem esse tratamento – acompanhando algumas entrevistas, como a que ele concedeu após a convocação final para a Copa, vi ele aceitando até bem algumas perguntas que deram vontade, a mim, de levantar e quebrar alguns narizes. Há um longo caminho da provocação até a falta de respeito pura e simples, e ele foi percorrido mais de uma vez nesses últimos seis meses.

Assim, se torço pela seleção este ano, isso não tem nada a ver com valores patrióticos, nacionalismos ufanistas ou o que for. Tem a ver, pura e simplesmente, com a minha vontade de ver o sorriso amarelo na cara de alguns comentaristas quando o Dunga descer do avião com a taça de campeão na mão.

Enfim. Alguns poderiam me perguntar, então, considerando que sou tão crítico assim dos nacionalismos esportivos, e que não consigo ver o mesmo sentido em torcer para uma seleção nacional que vejo quando torço para um clube de futebol, o que me faz assistir e me interessar pela Copa do Mundo. Quem me segue no twitter vê que eu acompanho a maioria dos jogos, e comento alguns deles quase em tempo real. Não estaria sendo contraditório?

Acho que, no fundo, eu não consigo escapar do fato de que, mais do que tudo, eu realmente gosto de futebol, e do esporte competitivo de maneira geral. Não que eu mesmo seja um grande esportista (muito pelo contrário), mas acho curioso observar todo este universo que existe em torno deles – como já destaquei em algum outro momento, ele tem muito de uma mitologia na sua composição, uma espécie de liturgia laica, criadora de heróis e epopéias, e é difícil para mim, enquanto pseudo-escritor de fantasia, não me interessar por isso. Assim, se não me interesso pelas seleções enquanto representações nacionais, não consigo deixar de me interessar por elas enquanto equipes de futebol, pura e simplesmente, com suas próprias histórias, dramas e enredos particulares.

Esta é uma das razões, aliás, pela qual eu geralmente acho difícil torcer pela seleção brasileira. O considerável sucesso do futebol nacional nos últimos anos – se não dos próprios clubes, dele enquanto paradigma, como também já destaquei em algum outro momento – parece ter dotado a seleção, bem como o país e os jornalistas esportivos, de uma certa soberba profundamente irritante, como se todas as partidas e competições, e principalmente a Copa do Mundo, já começassem ganhas, e, quando isso não se confirma, é muito mais porque não fomos capazes de atender às expectativas do que por algum mérito que os adversários, por qualquer motivo que seja, possam ter. Isso é facilmente observável quando analisamos as últimas decepções passadas pela seleção – o que causou a derrota na Copa de 1998, por exemplo? Foi o futebol elegante do Zidane, que depois seria três vezes o melhor jogador do mundo, ou o ataque epilético do Ronaldo antes do jogo decisivo? E na Copa de 2006, fomos eliminados por uma seleção que só perderia o título nos pênaltis e ainda teria o craque da Copa segundo os organizadores, ou pelo Roberto Carlos ajeitando as meias na cobrança da falta que resultou no gol? A história oficial certamente fez as suas opções. A soberba também explica, aliás, a razão pela qual torço pelo Dunga este ano – se não me importo de ter a soberba nacional satisfeita, é porque adoraria ver contradita a soberba dos jornalistas esportivos anteriormente referidos.

Isso nos leva, então, à questão de que outras seleções, além da brasileira, eu gostaria de ver campeã este ano. Acho que aquela que mais me agradaria é, provavelmente, a da Holanda. A equipe holandesa atual, com nomes como Robben, Sneijder e van Persie, é provavelmente a melhor do país desde a grande geração dos anos 1990, que tinha Frank de Boer, Seedorf e Bergkamp, e que foi vencida duas vezes pelo Brasil em jogos hoje considerados antológicos. Uma vitória da Holanda faria justiça não apenas àquela, mas também ao famoso Carrossel Holandês dos anos 1970.

Outra equipe me interessaria ver campeã é a Sérvia. Sim, a Sérvia – não seria nenhuma zebra, apesar de ser certamente pouco provável. Pelo que ando vendo, muitos tendem a subestimá-la, provavelmente por não lembrar de suas participações passadas, mas a verdade é que esta é a primeira vez em que ela participa, de fato, como Sérvia (descontando-se, talvez, 2006, quando representava a então recém-extinta nação de Sérvia e Montenegro). Na verdade, ela foi parte da hoje extinta Iugoslávia, que sempre foi uma seleção chata de se enfrentar, e tinha como base justamente os jogadores sérvios, junto a alguns croatas e não mais do que um ou dois de qualquer outra região. Assim, muitos ignoram a tradição do futebol sérvio, e nem se dão conta de que a equipe atual conta com jogadores como o meio-campista Stankovic, campeão europeu pela Inter de Milão, e os zagueiros Ivancovic e Vidic, que jogam no Chelsea e Manchester United, respectivamente.

Uma vitória da Sérvia, aliás, faria justiça não apenas à tradição futebolística da ex-Iugoslávia, como também da Europa oriental como um todo, que já teve grandes seleções e jogadores, da Hungria de Puskas à União Soviética de Yashin, que muitas vezes chegaram perto mas nunca conseguiram de fato se consagrar em uma Copa do Mundo. Talvez poucos percebam, mas, além de latino-americanos e africanos, é muito comum ver os grandes times da Europa ocidental buscando os jogadores dos países do leste, que ainda possuem economias frágeis após décadas sob regimes socialistas. Exemplos poderiam ser os próprios sérvios já citados, além de Shevchenko, Arshavin, Rosicky, Peter Cech… Historicamente, foi até comum que tentassem aliciar aqueles que cruzavam a Cortina de Ferro para fugir do mundo comunista – foi assim que Puskas, por exemplo, tornou-se ídolo do Real Madrid, e chegou mesmo a disputar a Copa de 1962 pela Espanha, numa época em que ainda era possível trocar de seleção. Outra equipe que, no caso de uma improvável vitória, estaria fazendo justiça a essa tradição é a Eslováquia, que pode reivindicar a memória da antiga Tchecoslováquia, duas vezes vice-campeã (desconfio, no entanto, que o lado forte no futebol nesse caso tenha ficado com a República Tcheca). E quanto à Eslovênia… Bem, é sempre bom lembrar que ela não é a Eslováquia.

Do resto da Europa, eu por algum motivo sempre simpatizo com os times da Alemanha. Talvez seja algum resquício dos meus antepassados, a minha ascendência germânica falando mais alto; ou talvez seja o próprio estilo tradicional do futebol alemão, de aplicação e disciplina, com jogadores apenas acima da média, raramente um ou dois fora de série, atingindo um nível maior pela entrega e participação. Em certo sentido, é a antítese daquela soberba brasileira que comentei anteriormente, que parece sempre acreditar que um passe de mágica inesperado, um deus ex machina em forma de drible, vai resolver tudo de uma hora para outra.

Como eu assisto bastante futebol inglês por influência do meu irmão, geralmente acabo conhecendo e gostando dos jogadores deste país também – especialmente, no time atual, o Rooney, que, acredito, mereceria a consagração de uma Copa do Mundo, se torcer pra Inglaterra de maneira geral não fosse tão… Nhé. Já a Espanha é um tradicional fogo de palha; é claro que eu também era um dos que me enganava e apostava no seu favoritismo antes da Copa, e certamente há muito tempo ainda para uma recuperação, mas, depois da estreia frustrante, não sei se me empolgaria tanto em vê-la campeã. Portugal teve a sua chance em 2006, com o Felipão. E a Itália geralmente também tem trajetórias interessantes, passando adiante contra todas as expctativas na base das gloriosas retrancas, até que, meio que sem ninguém perceber, já é uma tetracampeã. Mas eles são os atuais campeões, e acho que podem passar a vez.

Indo para outro continente, acho que seria muito bacana, também, termos um campeão africano como o primeiro não-europeu e não-americano, e justamente na Copa a ser disputada no continente. Certamente, no entanto, não acredito que os bafana bafana possam ser estes campeões – empolgação da torcida e apoio da imprensa à parte, a verdade é que a África do Sul simplesmente não é um time bom o bastante para isso, e é provável que sequer se classificaria se não fosse o país-sede. Até acho que, com alguma sorte e uma França abalada, possuem chances mínimas de ir até as oitavas-de-final, mas não devem ir muito além.

Acharia muito mais interessante, por outro lado, um título da Costa do Marfim. Seria a coroação do futebol africano que tem surpreendido o mundo desde as seleções clássicas da Nigéria e Camarões dos anos 1990, e também de uma ótima equipe, com jogadores titulares de grandes clubes europeus, e um grande personagem que é o Didier Drogba. Como segunda opção, talvez Gana pudesse suprir essa função, sendo a provável segunda melhor seleção do continente na competição. (E só não digo da África como um todo porque uma equipe pentacampeã continental como o Egito ficar de fora para dar lugar à Argélia é uma destas coisas que só o Nelson Rodrigues é capaz de explicar).

Vindo para os nossos hermanos, então, confesso que, regionalismos ufanistas à parte, eu realmente tenho uma certa simpatia pelas seleções gauchas, quais sejam, o Paraguai, o Uruguai e a Argentina. Sim, a Argentina – foda-se as pseudo-rivalidades, o fato é que, possivelmente por ser gremista, eu não acho difícil me empolgar com a tradicional garra e força de vontade castellanas. A seleção atual também tem uma das mais incríveis gerações de atacantes da história, apesar de nas outras posições poucos fazerem jus à ela. E digam o que quiserem, mas eu sou fã do Maradona – concordo plenamente que não foi melhor que o Pelé enquanto jogador, mas acho que, finda a carreira, demonstrou ter muito mais personalidade que o Edson. Ser polêmico é uma arte subestimada, e que ele domina como poucos; seria uma grande adição para o rol dos treinadores campeões.

Outra seleção que eu gostaria de ver com um bom resultado é o México, país que tem um povo muito apaixonado e empolgado com o futebol – como a própria seleção brasileira já teve a oportunidade de comprovar -, além de um campeonato nacional fortíssimo, com jogadores de todo o continente, mas que nunca conseguiu transformar isso em uma seleção de peso. A deste ano, no entanto, é muito boa, com jogadores como Rafa Marques e Giovani dos Santos, além do veterano Blanco. É claro que não acredito que possa ser realmente campeã, mas seria uma boa aposta para um terceiro ou quarto lugar, por exemplo.

E, por fim, temos as seleções da Oceania e da Ásia. A Oceania só está lá mesmo porque seria estranho fazer uma Copa dita do Mundo sem convidá-la. E da Ásia, a única seleção que me desperta algum interesse mínimo é a Coreia do Sul, que possui uma geração interessante de jogadores. Há também o Japão, claro, que tem desenvolvido um certo interesse pelo esporte já há quase duas décadas, além de ter um campeonato razoavelmente forte, com jogadores de toda a região. As suas principais contribuições para o futebol, no entanto, ainda são os jogos da série Winning Eleven e o anime Super Campeões.

Enfim, é claro que estes devaneios não se tratam de nenhum prognóstico, e não estou realmente querendo prever quem deve ser o campeão este ano. São apenas algumas reflexões sobre seleções que eu gostaria de ver vitoriosas, e por quê – digamos assim, são aquelas que renderiam bons capítulos em um futuro livro de História dos Campeões do Mundo. Em último caso, sempre seria divertido também termos uma zebra completa e inesperada, com alguma seleção como a Suíça de repente se vendo campeã, ganhando todos os jogos finais nos pênaltis após empatá-los em 0 a 0.

Saramago
E então chegamos ao outro assunto do fim de semana, a morte de José Saramago, primeiro (e acredito que até o momento único) escritor de língua portuguesa a ser premiado com o Nobel de literatura. Confesso que nunca li realmente qualquer obra dele, embora haja algumas em particular que me interesse em conhecer – em especial, História do Cerco de Lisboa. Mas já li entrevistas e alguns ensaios curtos perdidos pela internet, e não posso dizer que não admirava algumas das suas ideias.

Saramago tinha 87 anos, e, portanto, já não era exatamente um jovem. Sua carreira como escritor já estava consagrada, inclusive com adaptações cinematográficas de algum sucesso, então podemos dizer que ele certamente já havia dado a sua contribuição para a vida cultural e intelectual do mundo. Há sempre aquela expectativa de que ele pudesse dar mais, é claro, sobretudo se lembrarmos que não muito tempo atrás ele estava lançando Caim, seu último romance. Mas pessoas também morrem todo dia, principalmente pessoas velhas – e, mesmo assim, não faltaram as viúvas inconformadas, se perguntando nos twitters da vida por que se vão os escritores bons quando a Stephanine Meyer continua por aí (acredito, mas posso estar errado, é claro, que a juventude dela possivelmente lhe dê uma saúde um pouco mais estável).

Acho que, no fundo, todos temos alguma esperança inconsciente de que o mérito possa vencer a morte. A mortalidade do homem sempre foi um mistério estranho – é um grande problema filosófico (como viver sabendo que irei morrer?), além de uma situação esquisita (como acordar um dia e de repente não encontrar mais alguém que sempre esteve com você?), e acho que todas as religiões sempre tentaram oferecer uma resposta, transformando-a na passagem para um plano superior ou uma nova vida em outra encarnação ou qualquer outra coisa que permita alguma possibilidade de fuga. Alguém já disse por aí que o que nos difere de um animal comum é justamente  essa consciência da morte, muito embora eu realmente não saiba como os cachorros e os gatos foram questionados sobre o assunto. Arrisco até a dizer que algumas das dificuldades da ciência em enfrentar as crenças religiosas têm a ver com isso – a ciência pode te explicar como o seu corpo funciona, mas não tem ainda uma boa resposta para por que (ou pra que) ele funciona, e nem por que ele deve morrer um dia.

Talvez por isso a morte de alguém como o Saramago cause este tipo de comoção, mesmo quando já estava em uma idade em que ela deixa de ser uma surpresa. Não nos apoiando mais na religião para entendê-la, afinal, o que nos resta? É mais fácil imaginar que as pessoas que nos interessam e que admiramos estarão sempre por aí, e não pensar sobre o que vai ser quando se forem. E, numa sociedade que tenta ser individualista e meritocrática, pode ser reconfortante acreditar que alguma entidade transcedental de justiça cósmica concederia a vida eterna a alguém que fizesse por merecer. Claro, há quem diga que as grandes obras sobrevivem ao seu autor, conferindo a ele algum grau de imortalidade, mas então eu rebato com aquela genial citação a Woody Allen: Eu não quero alcançar a imortalidade pela minha obra. Eu quero tornar-me imortal não morrendo.

Por acaso, estou lendo atualmente um livro chamado Singularity Sky, do escritor inglês Charles Stross. É uma ficção científica bastante interessante, que tenta especular sobre a sociedade e a tecnologia do futuro a partir de teses e idéias científicas mais contemporâneas, com direito a espaçonaves quânticas e uma extrapolação genial das ciências da informação. E uma das tecnologias maravilhosas do futuro criado pelo autor trata justamente de técnicas de rejuvenescimento, capazes de tornar um ser humano efetivamente imortal. No entanto, por todas os problemas sociais e ambientais que uma civilização de imortais traria, uma das poucas regras com que todas as nações da Terra concordam sem restrições é justamente a de limitar o acesso a tais tecnologias; assim, apenas se qualificam candidatos que tenham feito grandes contribuições para a humanidade, ou que por acaso tenham funções importantes a cumprir nos governos e organizações que têm acesso a elas. Não deixa de ser uma especulação interessante, a ideia do mérito capaz de vencer a morte.

Em todo caso, é também uma reflexão curiosa que se pode fazer.


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