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Ele Está de Volta

er_ist_wieder_daEstava lendo recentemente uma resenha da biografia de Daniel Binchy, um diplomata irlandês que viveu no começo do século passado, quando um trecho destacado me chamou bastante atenção. Segundo relatado em seu diário, ele estava em Munique em 1921 quando, em um bar junto com um amigo, assistiu ao discurso exaltado de um então jovem e desconhecido aspirante a líder político e seu pequeno séquito de admiradores. Você sabe de quem estou falando.

– Um lunático inofensivo com o dom da oratória. – teria dito a seu respeito para o amigo que o acompanhava.

– Nenhum lunático com o dom da oratória é inofensivo. – foi a resposta que obteve.

Quando você olha representações mais recentes do nazismo e os seus líderes, pode ser desculpado por não lembrar disso. Já destaquei outras vezes como eles viraram vilões tão fáceis para a ficção contemporânea. De Indiana Jones a Bastardos Inglórios, do Capitão América ao Hellboy, você os encontrará tendo delírios de grandeza, fazendo experimentos ocultos, e sendo, de maneira geral, a sua caricatura de vilão megalomaníaco. A famosa lei de Godwin talvez seja a expressão máxima desse descrédito: o simples fato de mencioná-los em uma argumentação a joga no ridículo, tanto quanto se mencionasse Mickey Mouse ou o Pato Donald. E os próprios discursos de Hitler são lembrados mais pela encenação exagerada, considerada hoje até um pouco cômica, com gestos expansivos e oratória inflamada, do que pela forma magnética, ao ponto de ser assustadora, com que capturava a atenção dos ouvintes, tão bem documentada por mais de um correspondente internacional incrédulo.

O filme alemão Ele Está de Volta, adaptado a partir do romance homônimo de Timur Vermes, não comete esse erro. Ele faz, de fato, um jogo muito bom de se disfarçar de comédia. A sua própria premissa parte do absurdo: Adolf Hitler simplesmente acorda em Berlim setenta anos após o fim da guerra. Encontrado por um diretor de televisão desesperado por um programa, é confundido com um comediante especialmente imersivo no seu método de atuação, e prontamente levado à rede nacional.

Logo, toda uma nação acostumada a vê-lo quase como um personagem de desenho animado basicamente entra em tilt. Um pouco incrédula, sem saber como reagir, aplaude calorosamente aquilo que acredita ser nada mais do que uma grande performance artística. Os programas onde aparece repercutem em redes sociais, e ele próprio é atirado meio caoticamente na cultura dos memes de internet. E encontra aí a brecha que pode levá-lo de volta ao topo: encarando-o como mais uma piada, as pessoas voltam a lhe dar ouvidos, e a tratar as ideias que expõe com naturalidade e mesmo alguma seriedade.

O ator Oliver Masucci parece entender muito bem todo esse contexto, compondo um Hitler como personagem que foge da caricatura usual que se acostumou a fazer, sem delírios imperiais ou afetações ridicularizantes. Chega mesmo a ser um pouco assustador na sua impassividade, ainda que sem cair na seriedade dramática de um Bruno Ganz. Num dos toques de gênio da produção, ele saiu às ruas caracterizado, conversando com as pessoas como se fosse o próprio ditador. As gravações foram então incluídas no roteiro, emulando um documentário de forma semelhante a Borat.

É nesse ponto que o filme passa a se tornar muito mais sombrio, ao refletir sobre a ressurgência contemporânea de ideias e situações semelhantes às que levaram à formação do nazismo originalmente. A sua tese fundamental é a de que Hitler não seria capaz de fazer o que fez sem alguma conivência do próprio povo alemão, ou de uma parcela significativa dele – algo que é muito  bem explícito nestes comentários colhidos na rua. Diferente do livro, que tem muito mais um tom de brincadeira com uma figura polêmica deslocada do seu tempo, o filme, mesmo com algumas pequenas incoerências históricas (e que não diminuem em nada a sua mensagem), é realmente muito mais incisivo nesse comentário. Se é verdadeiramente engraçado, com momentos de rir em voz alta mesmo quando brinca com memes famosos do seu personagem principal, acaba deixando no monólogo final uma nota bastante sorumbática, quase como um aviso daquilo que podemos estar prestes a deixar acontecer de novo.

E seria muito reconfortante pensar que é um exagero, ou mesmo que é algo distante, próprio da sociedade alemã ou europeia. Mas qualquer um com alguma consciência política e social sabe que não é bem assim. Também sofremos aqui de uma certa negação do passado, e uma recusa a encará-lo e lidar com aquilo que ele representa sobre nós mesmos enquanto nação; e é nessa recusa que ele encontra as brechas por onde ressurgir, através de figuras públicas com discursos fáceis e inflamados, dizendo nas entrelinhas exatamente aquilo que certas parcelas da população querem ouvir. Usando de um lugar-comum bem clichê, se é verdade que o maior truque do diabo foi nos convencer da sua não existência, talvez o maior truque do nazismo – e do fascismo, autoritarismo e outras ideologias semelhantes de ignorância e intolerância – tenha sido nos convencer do seu ridículo, e de que não deve ser levado a sério.

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Mad Max: Estrada da Fúria

Mad-MaxNa onda de ressurreições de franquias que marcaram a história do cinema no passado (segundo alguns, sintoma útimo da crise criativa que assola a mídia), temos Mad Max: Estrada da Fúria. O filme já subverte logo de cara a ideia de ser um reboot, no entanto, ao ser escrito, produzido e dirigido pelo mesmo George Miller que nos deu a trilogia clássica, que obviamente optou por não apagar tudo o que havia sido construído anteriormente, mas por partir praticamente de onde o último filme havia parado trinta anos atrás.

Isso não quer dizer que ele soe a qualquer momento como um filme datado. Muito pelo contrário – às vezes é preciso mesmo a sensibilidade de um diretor de setenta anos para mostrar aos seus imitadores mais jovens como fazer, tão decalcados e decadentes estes parecem em comparação. É difícil ver as paisagens de cores fortes e quentes do deserto australiano e não comparar com tantas outras tentativas de pós-apocalipse (e outros gêneros) recentes, com suas cores escuras e tons de cinza predominantes. O cenário e personagens também foram atualizados, desde a escassez de água como questão chave para os conflitos de poder, até o próprio Max, agora interpretado por Tom Hardy, abraçando com mais veemência o niilismo a que o mundo devastado o empurra, declarando que a esperança é um erro e que seu único objetivo é sobreviver.

A energia de Miller ao dirigir é impressionante em todos os sentidos. A sua direção de cenas de ação faz franquias como Velozes e Furiosos e Mercenários parecerem brincadeiras inofensivas – a tensão constante, a correria das perseguições, a simples loucura dos personagens, lutando com lanças explosivas em suportes suspensos ou tocando guitarras com lança-chamas em cima de carros em movimento… O que mais impressiona é como há um sentido de ação maior que a vida, mas sem jamais cair no cartunesco ou no auto-humor; você apenas entende que isso faz parte daquele universo, onde as condições de vida levam naturalmente à loucura e a insanidade. Isso é intensificado ainda pelo uso de efeitos práticos e o roteiro das cenas que valorizam a verossimilhança do absurdo, sem deixar que tudo pareça algum desenho animado. Nada de carros caindo de aviões aqui, e de fato você nem sente falta.

E, talvez o mais importante, esta energia também converte-se em energia narrativa. Enquanto tantos outros filmes parecem assustar-se com a possibilidade de os espectadores não entenderem a sua mensagem, e perdem-se em monólogos expositivos para explicar os detalhes mais obscuros do seu enredo, o roteiro de Estrada da Fúria é verdadeiramente lindo no seu minimalismo. Não há tempo a perder explicando como o vilão Immortan Joe domina a população, o controle que tem sobre as reservas de água e agricultura, ou a religião fundamentalista dos seus Garotos da Guerra, quando pode-se apenas mostrar tudo isso através das cenas, do desespero das pessoas por uma gota de líquido (e o aviso do vilão para que “não se viciem em água”) ao fervor religioso dos seus seguidores na estrada. Os diálogos de fato são muito poucos entre as perseguições e cenas de ação, mas são todos muito bem aproveitados para estabelecer personagens e criar tensão e conflito.

E tudo isso, de ser um filme que se preocupa mais em mostrar do que contar, acaba tornando muito mais pungente as próprias mensagens que ele quer passar. Há um subtexto bem óbvio a respeito do fundamentalismo religioso – não há como não comparar o fervor suicida dos Garotos da Guerra com o de grupos como a al-Qaeda ou o Estado Islâmico, mas ao invés de cair no lugar comum, ele torna-se muito mais crítico quando decide dotar a sua religião fictícia de imagens relacionadas a culturas ocidentais (os portões de Valhala que se abrirão para aqueles que morrem na estrada, onde serão recebidos com o seu “McBanquete”).

Mas certamente o ponto que se tornou mais polêmico – a ponto de grupos de defesa dos, ahem, “direitos dos homens” (é, eu sei) chamarem por um boicote – é a mensagem a respeito do feminismo. Imperator Furiosa, a personagem de Charlize Theron, é uma heroína forte, cuja linhagem podemos buscar lá na Sargento Ripley de Alien, e que dirige (até literalmente) o enredo por força própria – Max é basicamente um ajudante, que oferece algum apoio, bem como o plano final para a liberação da cidadela do vilão, mas raramente é o fator determinante que garante o sucesso na sua luta. E a sua missão também não podia ser mais clara na metáfora: salvar um grupo de escravas sexuais e levá-las até a liberdade. Novamente, é a habilidade do diretor em mostrar, ao invés de contar, que torna esta mensagem tão forte; nós não precisamos que alguém chame as garotas de escravas, basta vermos a forma como Immortan Joe as trata, guardando-as em um cofre, chamando-as de tesouros, e ouvindo a sua resposta desesperada de que não são “coisas” para serem tesouros, mas seres humanos.

Enfim, vou confessar que realmente não esperava muito de Mad Max: Estrada da Fúria – esperava apenas mais um reboot hollywoodiano, desses que podiam ter sido dirigidos pelo Michael Bay. Mas ele realmente me surpreendeu, e posso dizer sem medo de errar que, independente dos resultados das bilheterias, é um filme que já nasce com status de cult. Vá assistir pela ação desenfreada e alucinante, que não diminui a tensão por um segundo. Vá pelo seu mundo devastado completamente insano. E fique pela mensagem contundente, pela coragem de botar o dedo em feridas ainda bem abertas do mundo contemporâneo e apertar até doer mais.

Mas vá assistir, de qualquer forma.

Pacific Rim – Tales From Year Zero

Pacific_Rim_Tales_from_Year_ZeroAcho que não preciso falar mais de como me apaixonei por Pacific Rim / Círculo de Fogo logo à primeira assistida. Talvez não seja o filme perfeito em todos os menores detalhes, com um ou outro buraco de roteiro ou desenvolvimento de personagem que poderia ter sido mais trabalho… Mas francamente, quem se importa com isso quando você tem um robô gigante batendo com um barco em um monstro do mesmo tamanho? E não também que o filme não seja nada além de pornografia para nerds, claro – há sim um bocado de coisas legais para ver nele além da simples (e, na minha nem tão modesta opinião, satisfatória em si mesma) pancadaria colossal.

Uma dessas coisas é todo o universo que o filme sugere existir além do que foi apresentado nesta história. É possível ver isso em todos os jaeger e kaiju que recebem nomes e são meramente mencionados, nas tatuagens do cientista interpretado por Charlie Day sugerindo uma espécie de kaijumania apesar de toda a destruição que causam, no mercado negro administrado por Ron Perlman, e em um punhado de outros pequenos detalhes e pormenores que passam rapidamente por uma cena ou outra; é um universo em que você tem vontade de mergulhar, jogar campanhas de RPG (e teria também de jogar videogame, se o jogo correspondente não fosse melhor deixar esquecido), e o que mais for possível. Na verdade, você tem mesmo a impressão de que o filme é um pouco como uma história de origem, que conta apenas o primeiro episódio do que poderia ser uma saga bem maior – o ato final mesmo, com aquela correria para explodir a fenda dimensional que traz os monstros gigantes para o nosso mundo, rola um pouco como overkill, com o papel único de oferecer uma resolução final que não necessite (mas também não necessariamente exclua) uma seqüência direta.

A graphic novel Pacific Rim: Tales From Year Zero tenta explorar um pouco mais deste universo, funcionando como uma introdução ao mundo do filme. Usando como deixa uma repórter que entrevista certos personagens chave a respeito do começo da invasão dos monstros e dos projetos de construção dos jaeger, ela resgata um tanto da história não contada na tela grande, bem como aprofunda um pouco mais certos personagens que vemos apenas de relance na trama maior. São três pequenos contos que resgatam o início da invasão dos monstros, o desenvolvimento dos primeiros jaeger, e o começo da carreira de certos personagens importantes para o filme.

Um dos pontos que achei mais interessante é notar como a pilotagem dividida, com dois pilotos que devem entrar em conexão neural para movimentar o jaeger, é bastante explorada. O diretor Guillermo del Toro sempre destacou em entrevistas antes do lançamento como foi este elemento que o fez acreditar de vez no projeto, por tornar possível que uma história sobre robôs combatendo monstros gigantes subitamente se tornasse também uma história sobre relacionamentos; mas a verdade é que, mesmo que bastante usada para mover o enredo e desenvolver personagens, ela acaba ficando bastante obscurecida atrás dos, bem, combates entre robôs e monstros gigantes. Aqui, no entanto, o conceito é explorado com mais profundidade, e você é capaz de ver como a conexão, mais do que fazer o robozão correspondente andar, une e separa os seus pilotos, e modifica os seus relacionamentos entre si e com as outras pessoas.

Não vou dizer que seja uma graphic novel imperdível, ou que as histórias sejam especialmente tocantes e envolventes. É um volume bastante curto, afinal – apenas 112 páginas -, e ainda divide este espaço entre três relatos distintos. Por isso, não funciona exatamente como um produto independente, mas, como acessório ao filme, cumpre muito bem o seu papel, e traz um pouco mais de camadas e elementos para quem já estava cativado pelo seu universo.

The Star Wars / A Fortaleza Escondida

the star warsRecentemente a nerdosfera entrou em polvorosa com o lançamento do trailer do sétimo episódio de Guerra nas Estrelas (ou, para quem prefere se manter fiel as determinações marquetícias, Star Wars). Claymores de luz à parte, no momento em que a saga se volta (finalmente, diga-se) para o futuro, talvez seja uma oportunidade bacana para voltar ao passado dela, e conhecer um pouco das guerras estelares que nunca tivemos.

Estou falando especificamente de The Star Wars, uma série de quadrinhos de 2013 que faz uma adaptação dos primeiros rascunhos de George Lucas para o seu famoso universo. Trata-se de uma história bastante diferente da que viemos a conhecer e amar: Luke Skywalker não era ainda um garoto de fazenda que sonhava em pilotar uma X-Wing contra o Império, mas um general veterano protegendo o legado dos jedi e muito mais; Han Solo, no lugar de um contrabandista e mercenário, era um soldado veterano bombado e, er, verde; e há mesmo a presença de um certo Annikin Starkiller, um aprendiz jedi (ou padawan, como preferir) sob a tutela de Luke.

As diferenças, é claro, vão muito além do que a situação de apenas alguns personagens. O que primeiro chama a atenção é quando você vê um certo robô com aparência de lata de lixo se comunicar com palavras, ao invés de assobios. Mas logo você perceberá também que sabres de luz não parecem ser exclusividade de jedi ou sith – você o vê na mão de praticamente todos os stormtroopers genéricos pelo caminho. A própria Força é também menos evidente: não parece haver muitos deus ex machinas associados, e ela surge mais como uma citação semi-religiosa recorrente à “Força dos Outros.”

Os artistas também aproveitaram para incluir algumas referências mais específicas, como no design de C3PO, que se antes já era claramente inspirado no clássico Metrópolis de Fritz Lang, agora passou a ser escancaradamente inspirado. E a nova (velha?) aparência de Luke Skywalker, com barba e topete grisalhos, também lembra de forma muito suspeita o próprio George Lucas, dando a ele um ar de Mary Sue muito curioso.

O roteiro em si parte de uma premissa semelhante daquele que ficou conhecido como Uma Nova Esperança, o primeiro filme da saga – ainda temos uma princesa em perigo que deve recorrer a um velho jedi e seu recém aceito aprendiz para combater um Império personificado em uma estação espacial do tamanho de uma lua. Isso acontece porque, em realidade, ele ainda se inspira na mesma fonte, do qual falarei com mais detalhes um pouco mais adiante. Muitos dos pormenores, no entanto, bem como os próprios personagens, diferem bastante: o resgate de Leia na “Estrela da Morte,” por exemplo, aqui é o desfecho, e não o começo; o sub-enredo romântico da princesa com o aprendiz jedi é muito mais evidente; e os droides possuem um papel de fato muito reduzido em evoluir o enredo. Aliás, em alguns momentos ele chega mesmo a lembrar mais Spaceballs / Tem Um Louco Solto no Espaço, a paródia de Mel Brooks da série, o que me fez pensar se ele não teve de alguma forma acesso a esse roteiro quando a estava escrevendo…

Não vou dizer que não seja uma história legal, que diverte e possui alguns bons méritos próprios. Mas, com o desenvolvimento dos quadrinhos, me pareceu sim que ela não teria a mesma força da história que conhecemos. Ainda que seja interessante da sua própria forma, o arrogante Annikin Starkiller não é um protagonista tão empático quanto o jovem Luke Skywalker, que com a sua história de garoto comum elevado a herói da galáxia cativou com grande força o público jovem da sua época e além. Momentos marcantes como a morte de Obi-wan Kenobi fazem falta, ainda que hajam algumas tentativas de substituí-la, e mesmo os antagonistas aqui também não possuem o mesmo carisma dos que conhecemos no cinema, a começar pelo próprio Darth Vader convertido em mero general imperial. Não é uma história ruim, enfim, mas acredito que as mudanças realizadas realmente a tornaram mais empolgante e interessante.

fortalezza escondidaO que mais chama atenção, no entanto, é quando comparamos este roteiro com o de outra história, esta mais antiga e referência confessa do próprio George Lucas: o filme A Fortaleza Escondida, de Akira Kurosawa, que recentemente foi relançado em uma Edição Definitiva pela Versátil. Se as semelhanças já eram bastante visíveis no próprio filme original – na história da princesa escoltada por um guerreiro veterano e companheiros por entre as linhas inimigas, ou na dupla de personagens de nível mais baixo (droides ou ladrões) de cujo ponto de vista a trama é contada -, elas acabam ficando bem mais evidentes nesta versão do roteiro. É mais fácil traçar um paralelo entre os generais Luke Skywalker e Makabe Rokurota do que era entre o segundo e Obi-wan Kenobi, por exemplo; além de que de fato há uma fortaleza escondida com função e destino muito semelhantes aos do filme de Kurosawa. Certas cenas e reviravoltas do roteiro – como a virada de casaca de um certo inimigo no ato final, permitindo que os heróis saiam vitoriosos – também lembram muito as da versão com samurais, e a impressão final que fica é que Lucas apenas partiu do roteiro de Kurosawa e começou a adicionar personagens, a começar por um protagonista masculino jovem com quem certa parte do público poderia se identificar.

Claro, há muito mais no filme de Kurosawa do que apenas uma versão inicial do que viria a ser uma das maiores sagas de ficção da nossa época. Trata-se de uma aventura muito bem dirigida e envolvente, que consegue combinar momentos divertidos e tensos de uma forma bastante satisfatória, como tantos blockbusters de hoje em dia tentam fazer e nem sempre conseguem. É um filme muito recomendado para quem gosta da temática samurai, ou apenas quer um filme interessante para passar o tempo numa tarde de sábado. Mas, consciente de que há uma parcela do público que se interessaria pelo filme apenas por isso, a nova edição contém comentários do próprio George Lucas, falando da relação do filme com o seu universo mais famoso.

The Star Wars, enfim, é uma curiosidade muito interessante para os fãs da saga, um retrato da história que poderia ter sido mas nunca teve a oportunidade de virar uma trilogia e angariar milhões de dólares em merchandising. E A Fortaleza Escondida, além de ter o mesmo valor para os fãs de Star Wars, ainda vale muito para fãs de cinema de maneira geral, e da história do Japão dos samurais em particular.

Relatos Selvagens

relatos cartazJá faz um bom tempo que o cinema argentino tem lançado filmes de sucesso, tanto de crítica como público. Em comparação, o cinema brasileiro em geral é bem vexatório, apesar de um ou outro filme do Jorge Furtado ou outro diretor eventual que fuja dos chavões Globo Filmes / filme de arte pra ganhar subsídio governamental. Se nem sempre um Wagner Moura é sinônimo de um bom filme, um Ricardo Darín no pôster consegue ser sim um bom indicativo de que você passará umas duas horas muito bem aproveitadas.

Relatos Selvagens se insere muito bem nessa tradição dos nossos hermanos. O filme é composto, na verdade, por seis histórias curtas, coladas por um mesmo tema: pessoas comuns que simplesmente perdem a paciência, e por um momento cruzam a linha tênue que separa a civilização da barbárie. Da história introdutória que lembra uma música do Chumbawamba à festa de casamento que acaba por dar certo de um jeito bem errado, as histórias tentam explorar um pouco desse absurdo que há no cotidiano, e o quanto ele é em realidade bastante frágil e fácil de se quebrar por motivos que podem ser tão banais quanto uma ofensa no trânsito ou tão sérios quanto uma propina policial.

Damián Szifron, o diretor, conduz cada uma das histórias com grande maestria, lançando mão de uma bela gama de recursos narrativos e visuais. Há uma influência tarantinesca bem evidente nos enquadramentos e na trilha sonora; mas, muito mais, há um quê kafkiano em algumas das tramas, e muito de tragédia grega na forma como elas sempre descambam rapidamente para o desespero generalizado dos personagens.

Subjaz, é claro, uma crítica não muito velada ao mundo moderno e às hipocrisias que permitem que ele funcione. Você pode sair da sessão refletindo sobre o absurdo das burocracias governamentais, os preconceitos do sucesso financeiro que te permitem comprar o carro do ano, ou o papel da fidelidade conjugal. Mas, mais do que tudo, há apenas o prazer de se contar e ouvir uma boa história: você com certeza sairá da sessão após dar muitas risadas de um humor negro que consegue ser crítico sem ser preconceituoso, e inteligente sem ser obscuro.

Assistam Relatos Selvagens, enfim. Posso dizer sem medo de errar que é o filme mais engraçado, e um dos mais imperdíveis, de 2014.

A Ilha

ilhadA primeira impressão foi a de um sonho: ele, uma ilha deserta, e tudo o que já havia incluído em listagens de “10 coisas que você levaria para uma ilha deserta”. Esfregou os olhos, sacodiu a cabeça, se beliscou até quase arrancar a pele – tudo apenas confirmava: era real; fora alvo de alguma mágica maravilhosa, da graça dos deuses, ou de qualquer outra coisa que o houvesse mandado para o paraíso.

Logo, no entanto, percebeu que não fora uma sorte assim tão grande. Primeiro foram os filmes; todos os DVDs que ele gostaria de assistir até o fim dos dias: Os Caçadores da Arca Perdida, De Volta Para o Futuro, M*A*S*H*, Curtindo A Vida Adoidado… Mas onde estava a TV para exibi-los? Ou, mesmo que estivesse lá: como gerar energia elétrica para mantê-la ligada? O mesmo acontecia com os discos – estavam lá os de Derek and Dominos, Neil Young, Belchior, Engenheiros do Hawaii, Fito Paez… Mas como faria para ouvi-los?

Os livros, ao menos, eram mais simples de se apreciar – bastava levá-los até um rochedo com uma boa sombra, se acomodar, e se deixar levar pela ironia de Calvino, os labirintos de Borges, as sátiras de Vonnegut. Quem dera fosse tão simples! A fome não o deixava se concentrar nas palavras – e lá ia para o meio do mar pescar com as mãos nuas, ou, após alguns insucessos, um par de pedras. Um dia inteiro e, com sorte, dois ou três peixes de bom tamanho. No que sobrava de sol, não possuía vigor para muito mais do que deitar na areia e descansar; e à noite, quando talvez estivesse disposto, não havia luz – a menos, é claro, que fizesse uma fogueira, mas com que combustível? Não havia árvores na ilha; talvez o musgo nas rochas próximas à água servisse, mas era um inferno raspá-lo, e ainda por cima secá-lo. Por quilômetros e quilômetros, o único combustível que havia para usar eram… As páginas dos livros. E, por mais que gostasse do humor de Veríssimo, não era tanto quanto gostava de uma noite bem aquecida e livre de mosquitos.

E ainda haviam as mulheres – ah, as mulheres! Que sonho, se encontrar sozinho em uma ilha com Jessica Biel, Scarlett Johansson, Eva Mendes, Adriana Lima… Quanta ingenuidade. Pareciam estar todas de TPM, ou talvez fosse apenas o fato de terem sido transportadas sem consulta para uma ilha deserta de localização desconhecida. E, claro, não havia por que acreditar que seria capaz de despertar nelas qualquer interesse ou desejo – bom, ao menos nos primeiros dias, antes da falta de opção se tornar evidente e todas subitamente se voltarem para ele. E então, paraíso? Não! Quanta pretensão, se achar capaz de satisfazer sozinho a dez mulheres! E não apenas nos assuntos íntimos – ou alguém acredita que as belas damas de hollywood dividiriam com ele as tarefas de subsistência? Se já era difícil pescar o bastante para uma pessoa, imagine onze. Sem contar, ainda, em sobreviver às brigas e disputas cada dia mais intensas pela sua atenção.

Foram dias tortuosos, até concluir que não havia como continuar – precisava sair dali, ou então suicidar-se. Decidiu pela primeira opção: durante vários dias, juntou os discos e DVDs com trapos das roupas, formando uma pequena embarcação que manteve escondida junto a um dos rochedos na costa da ilha. E uma noite, enfim, lançou-se ao mar durante a maré alta, aproveitando enquanto as mulheres estavam adormecidas. Mandaria alguém buscá-las quando atingisse algum porto seguro, é claro, mas não imediatamente; antes havia algo mais importante a fazer, algo que, percebia agora, deveria ter feito há muito tempo: uma lista das dez comodidades do mundo moderno que levaria para uma ilha deserta.

Guardiões da Galáxia

guardians_of_the_galaxy_ver2_xlgMesmo que a minha ciência de profissão seja uma mais mundana, eu sou realmente fascinado pelo espaço e a astronomia. Quando criança mesmo sonhava mesmo em ser astronauta, como já comentei em outro momento. Acho que em grande parte é porque cresci vendo as space operas oitentistas – você sabe, desde a trilogia original de Guerra nas Estrelas (antes de os produtores nos obrigarem a chamá-la Star Wars também em países não anglófonos), bem como outros que hoje são um tanto mais cult, como O Último Guerreiro das Estrelas ou o trashíssimo Krull (sem entrar, é claro, nos animes como Robotech/Macross e os filmes do Capitain Harlock). Por isso, poucas coisas me deixavam mais chateados do que passar tanto tempo sem ter uma história realmente boa do gênero, uma vez que nova trilogia Star Wars não é exatamente um grande primor de narrativa, e (um pouco envergonhado) vou confessar que ainda não vi nenhum dos dois filmes de Star Trek recentes. No máximo, acho que temos os jogos da série Mass Effect, muito embora se trate também de outra mídia.

E então temos Guardiões da Galáxia, novo filme do universo cinematográfico da Marvel. Em tese poderíamos considerá-lo mais um filme de super-herois, com personagens de poderes extraordinários, vilões cósmicos e todo o resto; no entanto, ele realmente se esforça para levar mais a sério a sua herança das space operas, o que acaba influenciando muitas das mudanças que faz com relação ao material original. Trata-se de uma aventura espacial como já não se fazia mais, com ênfase na diversão e na fantasia mas sem deixar de ser séria e ter seus momentos dramáticos desde o prólogo, com personagens carismáticos e com os quais você  aprende realmente a se importar – mesmo que entre eles estejam uma árvore andante e um guaxinim falante.

Vou confessar aqui que, apesar de ter sido um marvete na maior parte da minha vida nerd, não conheço muito das histórias do grupo – a sua primeira aparição foi muito antes de eu nascer, e a encarnação mais recente da qual o filme é adaptado foi lançada anos depois de eu encher o saco e desistir de acompanhar séries de quadrinhos regulares. Acho todo o universo espacial Marvel muito legal, mas conheço pouco mais do que o que foi mostrado nas mega sagas como a Trilogia do Infinito (justamente, aliás, a que começou a ser armada desde a famosa cena pós-créditos de Os Vingadores, e que segue desenvolvida pelo McGuffin escolhido para mover o enredo deste aqui); por isso, talvez tenha sido mais fácil para mim relativizar as mudanças do material original aqui do que foi em outros casos. A única coisa que doeu um pouco foi ver a Tropa Nova se tornar meros pilotos de caças – mas no fundo talvez tenha sido uma mudança necessária mesmo para ajudar a estabelecer o universo como de ficção científica antes do que de super heróis espaciais.

Em todo caso, a verdade é que você teria mesmo que ser um tanto chato demais para se incomodar com fidelidade à fonte quando se tem um filme tão carismático e divertido de assistir. Os atores estão impecáveis – bom, com uma exceção, talvez, achei a atuação de Dave Bautista tão literal e vazia quanto parece ser a mente do seu personagem; por outro lado, Vin Diesel parece ter encontrado o seu personagem perfeito na árvore andante Groot e a única frase que ela é capaz de falar. Há também uma boa desculpa narrativa pra que a trilha sonora seja feita apenas de clássicos dos anos 1970 e 1980, economizando orçam… Digo, ajudando a criar um clima leve e divertido e dando mote para boas piadas e tiradas do protagonista em muitos momentos.

Muitas das seqüências do filme já nasceram clássicas. A fuga da prisão armada pelo Rocket Raccoon é perfeita. E toda a cena inicial do Starlord nas ruínas é ótima, com referências algo mais do que sutis a’Os Caçadores da Arca Perdida, e usando o recurso do 3D como poucos filmes conseguiram para causar maravilhamento – infelizmente, no entanto, no resto do filme esse recurso parece ser esquecido, e não há nenhuma outra cena em que a sensação de profundidade faça qualquer diferença.

No fim, Guardiões da Galáxia é um filme muito legal, divertido e com o carisma que já se tornou a grande marca dos filmes da Marvel Comics. Com o sucesso que tem tido, é bem capaz que consiga sozinho a façanha de transformar um grupo de personagens de segundo escalão nas novas estrelas da editora. No fundo, no entanto, acho que pra mim o que mais valeu foi me remeter à minha formação na ficção científica cinematográfica, e resgatar um pouco daquele garoto de oito anos que imaginava os mundos que podiam existir entre as estrelas.


Sob um céu de blues...

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