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Superman: Britânico Legítimo

Não sou exatamente o maior fã do Super-Homem, devo admitir, embora certamente reconheça o seu valor enquanto ícone, bem como certos autores que sabem trabalhar com ele de formas bem interessantes (dando razão ao Alan Moore quando ele dizia que não existem personagens ruins, só roteiristas ruins). Por outro lado, há uma certa característica no seu background básico que me agrada bastante enquanto fã de pastiches e misturas de gêneros – além de ser bastante conhecido, ele é muito simples, facilitando muito a criação reinterpretações e versões alternativas. Afinal, o Super-Homem como nós o conhecemos depende enormemente da nave dele ter chegado à Terra em um determinado tempo e em um determinado lugar; basta mudar esse tempo e/ou esse lugar, e temos um personagem totalmente novo em potencial.

Isso já foi feito inúmeras vezes, de inúmeras formas e em inúmeras edições especiais, algumas mais interessantes que outras – já tivemos um Super-Homem soviético, criado por ferreiros medievais, salvando o presidente Lincoln de ser morto após a Guerra de Secessão, até combatendo o crime para vingar a morte de seus pais de criação em Gotham City. O que será que aconteceria se ele caísse, sei lá, em Arton, por exemplo? (Algo parecido com isso, talvez?) Ou em São Paulo? Ou na Amazônia? As possibilidades são quase inesgotáveis.

Superman: Britânico Legítimo é só uma das muitas que já foram exploradas, lançada alguns anos atrás em edição nacional. Como o nome sugere, dessa vez nosso pobre órfão interplanetário caiu em meio a um pequeno condado do Império Britânico, onde foi encontrado e adotado pelo pacato casal formado pelo Sr. e Sra. Clark, que o instruíram a nunca, jamais, fazer uso de seus poderes – afinal, o que os vizinhos iriam pensar se de repente descobrissem seu filho é capaz de esquentar xícaras de chá com os olhos ou arrancar tocos de árvores inteiros do chão? Após se tornar adulto e passar a trabalhar em um tablóide sensacionalista, no entanto, nosso nem tão esperto herói achou que poderia usar seus poderes para um bem maior, qual seja, a venda de jornais; e, como conseqüência, enfrenta aquele que é, talvez, o mais terrível e cruel inimigo que o Super-Homem jamais enfrentou: a difamação pública.

O tom de comédia, como se pode perceber, lembra bastante a sátira caótica e crítica da trupe britânica Monty Python, e não exatamente sem razão: os roteiristas da história são Kim “Howard” Johnson, biógrafo do grupo, e John Cleese, um dos remanescentes do mesmo – o próprio diretor do jornal onde o alter-ego do Super trabalha, aliás, é claramente inspirado na figura de Cleese. Muitas passagens e tiradas lembram bem o tipo de humor que o grupo fazia, como as três missões impossíveis pedidas pela rainha da Inglaterra, ou a hilária e genial participação do “Bat-Man” (o hífen não foi um erro de digitação). Elas valem a história, sem dúvida, até porque no fim, talvez por imposição da editora (já que é uma constante nessas re-interpretações do personagem), ela acaba caindo naquela americanofilia que, para muitos, é o que o personagem realmente representa.

Até chegar a esse momento, no entanto, trata-se de uma história em quadrinhos bastante divertida, que vale uma leitura para fãs do humor absurdo e non-sense pela qual Cleese e o Monty Python se tornaram mundialmente conhecidos.

Os Gatões – Uma Nova Balada

Os Gatões – Uma Nova Balada é um filme baseado em uma série de TV dos anos 80, em que dois primos de uma cidade do interior sulista dos EUA dirigem seu possante carro General Lee e se envolvem em todo tipo de confusão politicamente incorretas pela região e tudo mais. Para estrelar o remake, foram chamados John Knoxville, responsável (ou seria melhor dizer culpado?) pela série Jackass, e Sean William-Scott, que participou de comédias adolescentes como American Pie e Cara, Cadê Meu Carro?. Somando tudo, poder-se-ia esperar do filme que fosse uma comédia repleta de situações forçadas e apelativas, com piadas por vezes preconceituosas e um roteiro desprovido de cérebro, correto? E, de fato, é algo bem próximo disso que se tem no resultado final, com adição ainda de alguns erros de montagem, buracos no roteiro e alguns exageros de boa-vontade no que diz respeito à verossimilhança. E com isso, claro, também seria de se imaginar que trata-se de um filme pífio, uma legítima bomba, totalmente descartável e que só vai fazê-lo perder o seu tempo, certo?

Bem… Não. Por trás de todos os defeitos, superficialidade e acefalia, o fato é que Os Gatões é, sim, um filme bem legal. Afinal, não se pode esperar que todo e qualquer filme seja um Labirinto do Fauno, e cobrar que este seja qualquer coisa perto disso é, no mínimo, injusto. Se ele está longe de ser um exemplo perfeito e glorioso à cinegrafia contemporânea, ao menos assume desde o início o objetivo de não ser mais que um filminho de Sessão da Tarde, e com isso consegue ter um carisma e honestidade que normalmente são perdidos em meio à pretensão de muitos de irem tão além. Ele não quer ser edificante, não quer ser um convite à reflexão, não quer ser sutilmente irônico, não quer ser uma sátira inteligente, não quer ser qualquer tipo de masturbação intelectual; quer ser só um filme bobinho sobre dois garotos em um carro possante fugindo da polícia ao som de música country e rock sulista.

Enfim, se você quiser um filme encantador, mágico, profundo, edificante e o diabo à quatro, vá ver, sei lá, A Viagem de Chihiro. Ou Herói. Ou alguma comédia dramática do Woody Allen. Se só quer se divertir por um par de horas com perseguições de carros absurdas (e com erros de gravação ainda mais absurdos mostrados durante os créditos finais), com Lynyrd Skynyrd na trilha sonora e a Jessica Simpson mostrando todo o seu real talento em shortinhos curtos e jeans apertados, Os Gatões – Uma Nova Balada satisfaz todos esses requisitos. E muito bem, aliás.

Passaporte Para a Confusão

Normalmente, quando se pensa em um filme que pode ser resumido em bando de adolescentes fazem piadas sobre sexo e drogas enquanto viajam pela Europa, a primeira palavra que vem à mente é bomba, e não exatamente sem razão. E esse sem dúvida é o principal motivo pela qual Passaporte Para a Confusão (também conhecido pelo nome original, Eurotrip) é tão surpreendente: ele consegue tirar um filme genuinamente engraçado e hilário de uma premissa tão desgastada e potencialmente ofensiva como essa.

Muito se deve, claro, ao fato de que o filme em momento nenhum se leva a sério. Ele é assumidamente esdrúxulo e caricato, dentro de um gênero naturalmente esdrúxulo e caricato – e isso é muito bom. Não há qualquer tentativa de passar lições de moral, comover o público ou redimir e isentar os personagens; desde o super-hit musical Scotty Doesn’t Know até a cena da escolha do novo papa, passando por praias nudistas francesas, lojas exóticas holandesas e câmbio monetário no leste europeu, só o que há é um bando de atores e roteiristas se divertindo e tirando sarro da Europa e de si mesmos, sempre da forma mais nonsense possível, com direito a participações especiais de Matt Damon, Kristin Kreuk, Vinnie Jones e outros. E quando se pensa que o filme acabou e pode-se finalmente descansar o abdômem, as cenas extras enquanto rolam os créditos são ainda mais engraçadas que o próprio filme – a cena da velhinha dando dicas ao casal transando no confessionário é hilária, sem falar nas dicas do albergue holandês e no comercial de suco com lésbicas.

Enfim, apesar de não parecer à primeira vista, esse é um filme surpreendentemente engraçado, certamente recomendado pra quem gosta de rir em voz alta.

A Cor da Magia

pratchettA Cor da Magia é um filme em duas partes baseado na famosa série de livros Terry Pratchett ambienatada no mundo fantástico de DiscWorld. Se você é fã da série e não ficou sabendo, no entanto, não é necessário se remoer e punir com chicotadas ajoelhado no milho – é de fato uma produção obscura, feita para a TV inglesa, e não lançada comercialmente na maior parte do mundo; eu mesmo só tive a oportunidade de assistir por ela ter sido selecionada para o V FantasPOA, o Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre.

Diferente de outros filmes do festival, no entanto, este não é uma daquelas bizarrices trash que só um nerd de bom humor é capaz de apreciar. Ao contrário, a produção toda é muito cuidadosa, com ares mesmo de um blockbuster; o figurino e os cenários são muito bem feitos, e o elenco conta com nomes de peso como Sean Astin (o Sam de O Senhor dos Anéis), Jeremy Irons, Tim Curry, e até Christopher Lee fazendo a voz da Morte. Apenas nos efeitos especiais parece ter sido feita alguma economia, embora muito mais na quantidade do que na qualidade – não são exatamente de última geração, mas são eficientes o bastante quando aparecem.

O enredo cobre os dois primeiros livros da série, A Cor da Magia e A Luz Fantástica. Se parece muito para um filme só, não se esqueça que se trata, na verdade, de dois, cada um com cerca de uma hora e meia de duração; a organização do festival que optou por exibi-los em conjunto, em uma maratona de mais de três horas incluindo até intervalo para lanche. A história se concentra nas aventuras de Duasflor, o primeiro turista de DiscWorld, e Rincewind, o mago de um feitiço só; no caminho, no entanto, há espaço para outros personagens icônicos da série aparecerem e brilharem, com destaque para o ótimo Cohen, o Bárbaro, o maior guerreiro de DiscWorld, e, é claro, a favorita de todos, a Grande A’Tuin, a tartaruga espacial que sustenta o mundo.

Aqui devo confessar o fato de ter lido apenas um dos livros adaptados, o primeiro, então talvez não possa falar com propriedade de todas as mudanças feitas. Pude perceber apenas algumas delas, e deduzir outras pela necessidade do filme de fechar um enredo entendível para o público; fãs que quiserem ser chatos, portanto, certamente encontrarão bastante do que reclamar. Mesmo assim, acredito que o resultado final tenha ficado satisfatório, ao menos para quem não se incomodar com isso – há alguns probleminhas aqui e ali, é claro, mas em geral é um filme muito divertido, com aquele típico humor britânico à lá Monty Python e Douglas Adams, e que rende ótimas risadas a qualquer jogador de RPG ou fã de fantasia em geral.

Fica a sugestão, então, para quem por acaso estiver passando por Porto Alegre e puder pegar a última exibição dele, no próximo domingo (dia 19/07), ou para quem quiser correr atrás dele pela net. Para estes, recomendo também procurar por Hogfather, outra adaptação da obra de Pratchett pelo mesmo diretor, que foi o grande campeão do FantasPOA no ano passado.

Como Se Fosse a Primeira Vez

como-se-fosse-a-primeira-vez-poster012Ainda no clima do dia dos namorados, então. Acho que já disse isso antes, mas eu não sou exatamente um fã de comédias românticas – o que não impede, é claro, que algumas vezes uma história do gênero se mostre realmente interessante e consiga me tocar de alguma forma. Como se Fosse a Primeira Vez é uma das que conseguiu essa façanha.

O feito se explica por uma boa série de méritos que o filme despretensiosamente atinge, a começar pela ótima premissa, fugindo do chavão e do lugar comum ao colocar Henry Roth, o bobalhão típico interpretado pelo Adam Sandler (e tão típico que não há como negar que ele desenvolveu uma certa competência em fazê-lo) tendo que diariamente conqusitar a carinha de anjo de Lucy (Drew Barrymore), que, por causa de um acidente que prejudicou a sua capacidade de reter memórias, sempre se esquece dele no dia seguinte. Passa ainda pela forma como o roteiro constrói e logo desconstrói todas as expectativas típicas do gênero, fugindo de forma magistral do “final feliz que magicamente resolve tudo” (mas sem, é claro, deixar de ter um belo final feliz); e também pelas ótimas tiradas cômicas do Adam Sandler, muito bem apoiadas pelo elenco coadjuvante, sobretudo o Rob Schneider no papel do havaiano Ula. Tudo se completa ainda com a excelente escolha do cenário do filme no Havaí, que ajuda a criar um clima exótico e fabulesco para o desenvolvimento da história. E eu já falei na carinha de anjo da Drew Barrymore?

O que eu poderia destacar de negativo, talvez, seja a duração curta, que obriga o roteiro a ter alguma pressa em tratar de certos assuntos. A forma como o personagem principal conhece a mocinha e se apaixona por ela, por exemplo, acontece em pouquíssimas cenas, parecendo um pouco rápido e “mágico” demais. Por outro lado, isso acaba se tornando outro dos méritos do filme, ao permitir que o roteiro se foque mais nos esforços dele para conquistar seu par, fugindo do lugar comum do gênero de se focar no ponto de vista feminino; no fim, portanto, o saldo pende muito mais para o lado positivo do que o negativo.

Enfim, Como se Fosse a Primeira Vez é uma comédia bem bacana e original, que consegue ser tocante sem ser enfadonha, e foge bem dos clichês do gênero. Acredito que mesmo se você for um daqueles estereótipos de marmanjão brucutu ainda pode se divertir despretensiosamente com ela em uma tarde chuvosa de sábado depois da desclassificação do time no Brasileirão, e, de quebra, ainda fingir pr’aquela estagiária gata do serviço que você pode ser o cara sensível e romântico que ela sempre diz estar procurando.


Sob um céu de blues...

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