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Greta

slavicpaganTinha quatorze anos quando Greta foi contratada. Meu pai havia acabado de retornar de uma viagem de negócios ao norte da Europa, e poucos dias depois nos apresentava a ela, nossa nova empregada doméstica. Ela moraria em nosso apartamento e ocuparia o quarto apropriado na área de serviço. Devia ser tratada com respeito e cordialidade, e apenas uma regra a mais deveria ser seguida além das que valeriam para qualquer outra:

– Nunca, jamais, agradeçam-na por qualquer coisa.

Nos dias seguintes nos acostumamos aos poucos com sua presença. Greta era muito eficiente, mais do que qualquer empregada que tivemos antes ou depois. Nunca mais tivemos um apartamento tão limpo. Ela encontrava focos de poeira que não imaginávamos existir, e fazia brilhar como novas áreas que não percebíamos estar sujas até que passasse por lá. Trabalhava sempre de forma muito rápida, quase sobrenatural; você podia observá-la e ela pareceria estar no mesmo pique de uma empregada comum, mas bastava desviar os olhos por um instante e, quando a visse novamente, teria vencido o dobro de faxina do que esperava. Também era uma excelente cozinheira, com um leque interminável de receitas envolvendo massas, carnes e linguiças, e nunca houve um rasgo em uma de minhas roupas que não estivesse magicamente consertado na manhã do dia seguinte.

Eu estudava então em uma escola particular durante as manhãs, e tinha a maioria das tardes livres, que passava geralmente em casa, vendo televisão, jogando videogames ou dormindo. Era um garoto tímido e retraído, com poucos amigos com quem sair, praticamente apenas dois colegas de turma desajustados como eu: Bruno, um garoto grande que se enfurecia fácil com piadas sobre o seu peso, e Pedro, que era o único aluno negro da escola além de sua irmã mais nova. Duas ou três vezes por mês um deles ia até minha casa ou eu ia até a deles para estudarmos, jogarmos videogame, conversarmos sobre os últimos gibis do Homem-Aranha ou apenas falarmos mal de professores e colegas. Não tinha irmãos, meu pai trabalhava o dia inteiro no escritório, e minha mãe como gerente em uma loja de roupas no shopping local; assim, minha companhia no resto do tempo se resumia a Greta.

No início talvez nem pudesse chamá-la realmente de companhia. Estava acostumado a ignorar a presença das empregadas anteriores, e esta foi também minha primeira atitude então. Éramos dois estranhos, exceto por estarmos sob o mesmo teto; eu a deixava fazer seus serviços em paz, enquanto assistia aos filmes da Sessão da Tarde ou o que mais estivesse me ocupando no momento. Até que uma conversa com Bruno, em uma de suas visitas após a aula, mudou tudo.

– Você tem uma empregada muito bonita. – ele disse, entre uma rodada de videogames e outra.

– Você acha?

– É sim. A da minha casa é uma velha feia, queria ter uma empregada como a sua.

Não tocamos mais no assunto durante toda a tarde, mas à noite, enquanto me revirava pela cama tentando dormir, ele me veio novamente ao pensamento. Greta era, realmente, muito bonita, muito mais do que as nossas empregadas anteriores, ou a de qualquer outra família que eu conhecesse. Estas eram todas feias, ou gordas, ou velhas; Greta, ao contrário, era pequena e magra, e parecia ter a minha idade ou apenas um pouco mais, muito embora meu pai garantisse que fosse bem mais velha. Tinha cabelos loiros, lisos e longos, quase batendo nos joelhos, uma pele branca tão delicada que seria capaz de rasgar com um toque, e um par de olhos verdes claros quase ao ponto de se tornarem azuis.

Já no dia seguinte eu a olhava de uma forma diferente. Antes podíamos passar o dia inteiro a poucos metros de distância, e eu nunca a perceberia; agora, no entanto, era eu que a procurava, e inventava coisas a fazer onde estivesse trabalhando. Observava-a escondido, atrás de portas entreabertas, ou enquanto fingia me ocupar de outra coisa; ela me tomava toda a atenção quando estava em casa, e eu não conseguia me concentrar em qualquer outro assunto.

Quanto mais a observava e conhecia seus costumes, mais alguns aspectos do seu comportamento começavam a me intrigar. Logo notei, por exemplo, que Greta jamais reclamava de nada, fosse da sujeira que fazíamos, fosse dos pedidos que lhe passávamos. Sua postura era sempre de total submissão, olhando para o chão quando lhe falávamos, acatando as ordens que recebia com um simples balanço de cabeça. Acho que nunca a ouvi pronunciar qualquer palavra em português – sabia que não era muda, pois cantarolava canções em um idioma desconhecido enquanto trabalhava, e era certo que nos entendia muito bem quando nos dirigíamos a ela, mas jamais nos respondeu com qualquer comentário ou objeção articulada.

Além disso, e apesar de todas as receitas que conhecia, Greta era, aparentemente, vegetariana. Sua única refeição diária era composta por alguns legumes e verduras que preparava em um prato ao fim da tarde e comia sozinha, na área de serviço. Este também era, até onde eu podia saber, o único pagamento que recebia, uma vez que jamais presenciei meu pai repassando-lhe algum salário em dinheiro.

Nada me intrigava mais, no entanto, do que a recomendação de nunca lhe dar um agradecimento. Muitas vezes me vi imaginando o que aconteceria se o fizesse, e em mais de uma tive o “obrigado” na ponta da língua após algum pedido inventado apenas para isso – mas bastava lembrar-me de meu pai e do castigo que viria quando descobrisse para recuar, e deixá-la voltar às suas tarefas rotineiras.

Se havia tantas questões sobre Greta, é verdade também que ela tinha muitos mais encantos. Era sempre cuidadosa e atenciosa com o que fazia, e nunca nos recusou qualquer pedido. E não apenas a aparência, mas todos os seus gestos e movimentos pareciam ser dotados de uma beleza quase mágica: quando mexia os braços era como se pintasse o ar com pinceladas suaves e graciosas, e o seu caminhar era cuidadoso e ritmado como uma dança.

Assim, aos poucos, as tardes que passava com Greta foram se tornando a razão de minha existência. Já não era apenas em casa que ela tomava meus pensamentos, mas também na rua, na escola, na casa dos meus amigos. Todo o resto não passava de incomodação, provas heróicas as quais eu tinha que sobreviver para desfrutar daquilo que realmente importava. Até que chegou a vez de Pedro vir me visitar após a aula.

Como Bruno, ele também se impressionou com a beleza de Greta. Desta vez, no entanto, eu estava preparado para continuar no assunto, e até mesmo um pouco ansioso com a possibilidade de falar sobre ela com alguém, ao invés de guardar para mim tudo o que sentia. Foi preciso apenas alguns minutos conversa para que ele fizesse o comentário que me assombraria durante todo o mês seguinte.

– Você acha que o seu pai está transando com ela? – ele disse.

– O quê? – respondi, já sentindo um calafrio subindo as minhas costas.

– Eu vi num filme que, quando se tem uma empregada bonita assim, é quase certo que o dono da casa está fazendo sexo com ela.

– Ela não faria isso.

– Mas ele faria?

Terminei aquela tarde com muitos arranhões pelo corpo, uma mancha roxa e uma marca de mordida nos braços, e um amigo a menos durante uma semana. Mais do que isso, no entanto, toda a inocência dos meus sentimentos quanto a Greta foi perdida. Eu podia ser ainda um garoto, e até um tanto ingênuo, mas era já um adolescente, e, fosse pelos estudos ou por comentários e piadas de colegas, sabia bem o que o sexo representava. Eu mesmo fantasiava com ela em meus momentos íntimos, e não muitas semanas antes com colegas de classe e até algumas professoras; mas agora havia uma nova imagem que não conseguia expulsar dos meus pensamentos: a de Greta com meu pai, ou qualquer outra pessoa que não fosse eu.

Durante vários dias não consegui olhar para ela. Fugia da sua presença, e buscava outras coisas com que me ocupar – gibis, videogames, estudos. Mesmo nelas, no entanto, Greta não saía dos meus pensamentos e me impedia de me concentrar. Logo já estava rendido outra vez, e voltava a observá-la e persegui-la como se nada houvesse mudado.

Exceto que tudo havia mudado. Já não a via mais com um olhar deslumbrado, mas sim sedento, sorvendo cada instante da sua presença como um lobo esfomeado. Não me escondia mais quando queria vê-la; apenas parava no cômodo onde ela estava, sentando-me em algum lugar ou recostando-me na parede, e a observava fixamente, sem me preocupar com sua reação. Ela, por outro lado, nada fazia – apenas continuava seus afazeres como se eu não estivesse ali, ou não passasse de mais uma peça da mobília.

Toda essa passividade me fazia imaginar o que ela faria se eu lhe pedisse – ou melhor, mandasse – vir se deitar comigo. Tinha quase certeza que de não me recusaria, assim como não recusaria a qualquer outro que fizesse o pedido. No entanto, não era capaz de reunir a coragem necessária para fazê-lo, e apenas me via imaginando acontecer enquanto a olhava, sentindo meu corpo se aquecer e avermelhar enquanto certas partes de mim enrijeciam.

Meus pais também não demoraram a perceber a minha atitude desembaraçada em relação à Greta. Minha mãe me repreendeu mais de uma vez, quando me pegou olhando a empregada nas poucas vezes em que estava em casa. Meu pai também, mas com ele eu já não me importava; sua mera presença me lembrava da conversa com Pedro, e por isso preferia ignorar que estivesse lá.

E então veio a noite em que, após acordar durante um sonho estranho, fui até o banheiro lavar o rosto, e depois à cozinha pegar um copo d’água. Não sei se foi a minha intuição que me fez ir em seguida à área de serviço, ou se já então ouvia algum ruído abafado, ou mesmo se não era apenas a minha vontade de me sentir próximo à Greta por alguns instantes; o fato é que fui até lá, e encontrei o seu quarto com a luz acessa e a porta entreaberta. Aproximei-me devagar, levando o rosto com cuidado para perto da fresta, tentando descobrir o que ocorria lá dentro sem relevar minha presença. E então percebi que Greta não estava sozinha.

O choque me manteve imóvel por alguns minutos, mas logo me recuperei e voltei para o quarto. No entanto, não consegui mais dormir aquela noite, sem conseguir me livrar da imagem do que vi.

No dia seguinte, durante a aula, fui diversas vezes repreendido pela falta de atenção. Voltei para casa, mal toquei na comida durante o almoço e tentei evitar Greta o quanto pude. Não consegui: bastou que ela passasse pela minha frente durante a limpeza da sala, enquanto eu assistia à televisão, para que eu lembrasse de tudo o que ocorrera, e a segurasse e puxasse pelo braço.

– Eu vi o que você estava fazendo ontem à noite. – ela se virou em minha direção, olhando-me como se não entendesse o que eu dizia. Meus olhos começaram a marejar, e eu já sentia as primeiras lágrimas escorrendo pelo lado do rosto. – Por que você fez isso, Greta?

Puxei-a para cima do sofá e me posicionei sobre ela. Continuava a perguntar por quê? entre choros e soluços, enquanto levantava o seu avental e sua saia, e abaixava em seguida sua calcinha. Eu endurecia, mas ela nada fazia para resistir; apenas aceitava a tudo me olhando, passiva, como se já esperasse pelo que estava acontecendo.

Talvez tenha sido a sua falta de atitude, o pouco interesse que demonstrava em impedir meus movimentos, ou então fui eu que percebi subitamente o que estava fazendo, mas o fato é que eu não consegui continuar. Parei de repente de me mover sobre ela, e olhei fixamente nos seus olhos vazios de sentimento. Levantei desajeitado do sofá e corri para o quarto, batendo a porta atrás de mim.

Já estava encolhido e aos prantos sobre a cama quando ela se abriu devagar, revelando Greta, que entrou e veio em minha direção. Eu levantei o rosto para vê-la; ela se aproximou, sentou-se ao meu lado, e começou a secar minhas lágrimas suavemente com as mãos. Logo seus dedos se moveram para trás, em direção à minha nuca, e a seguraram e puxaram para perto dela, apertando-me contra seus lábios em um beijo longo.

Greta se afastou de minha boca e começou a descer em direção ao pescoço, ao ombro esquerdo, ao peito, parando em cada um deles com um beijo curto. Eu endurecia um pouco mais a cada vez que seus lábios me tocavam, e em seguida também com o calor molhado da sua língua. Com mãos ágeis, ela me despiu aos poucos, livrando-me de minha camisa, e depois de minhas calças e roupas íntimas. Por fim, subiu em mim, e eu me senti entrando nela enquanto a apertava contra o meu corpo e começava a movê-lo devagar.

Quando terminamos, ela levantou da cama e ajeitou a roupa, antes de começar a caminhar em direção à porta. Eu a chamei antes que saísse do quarto, fazendo-a parar e se virar em minha direção. Tinha no rosto um olhar sério e passivo, como se o que acabara de fazer não fosse diferente de tirar uma mancha da parede.

Emudeci ao vê-la com aquela expressão, esquecendo de repente todo o milhar de coisas que passava pela minha cabeça. Queria dizer que a amava, que a queria para sempre comigo, que fugiria com ela; quando abri a boca para falar, no entanto, consegui formular apenas uma palavra:

– Obrigado.

Ela não respondeu, e apenas se virou novamente e saiu do quarto. Ao fim do dia já não estava mais em lugar nenhum do apartamento, sumindo de minha vida quase tão rápido quanto aparecera.

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A Morte é Legal

amorteA Morte é Legal é o segundo livro de Jim Anotsu, que, apesar do nome, é um escritor bem brasileiro. Depois da deliciosa, mas broxantemente curta, aventura de Annabel & Sarah, ele nos traz desta vez um romance sobrenatural com ares de épico juvenil, sempre nos encantando com a sua imaginação fértil e referências pop.

A história desta vez é protagonizada por Andrew Webley, um garoto apaixonado e, por isso mesmo, muito ridículo, vivendo na cidadezinha inglesa de Dresbel. As coisas começam a mudar para ele, no entanto, quando conhece uma garota estranha de mechas verdes que lhe faz uma proposta irrecusável, e ele logo descobre ser ninguém menos que Ive, a Princesa do Fim Inevitável, filha mais nova da própria Morte. Paralelamente, seguimos também a história da irmã de Andrew, Amber, e a sua busca pessoal para ganhar credibilidade nas ruas e se tornar a próxima rainha do hip hop.

Mais do que um mero romance sobrenatural, o que esta história apresenta é um conto sobre a maturidade e os sacrifícios que temos que fazer para atingi-la. Ao longo do texto, todos os protagonistas devem eventualmente passar por situações de crise, escolhas difíceis e decisões irreversíveis, do tipo que depois os moldará enquanto adultos. A intensidade com que tais situações são descritas – seja nas discussões de Andrew com o pai, as decepções de Amber com as próprias limitações, mesmo o desespero de Ive para evitar o destino que sua mãe decidiu para ela – é arrebatadora, e pode-se ver a sinceridade do autor escrevendo sobre si próprio por meio de seus personagens.

Há alguns pontos negativos, é claro, mas eu acredito que seja principalmente pela falta de um trabalho de edição mais incisivo. Não digo nem das dúzias de referências literárias e musicais que percorrem o livro – há sim um pouco de quebra de clima quando um dos personagens compara os seus sentimentos com uma música de uma banda obscura da qual você nunca ouviu falar, mas é também parte do jogo que o autor propõe, e do que torna a história tão sincera e cativante. Incomoda mais o fato de que a escrita por vezes parece crua e descuidada, com advérbios sobrando e frases que poderiam ser divididas ou reformuladas; uma revisão cuidadosa e reescrita de algumas passagens não faria mal. Mas o que mais me marcou negativamente mesmo foi a quantidade de simples erros de copidesque mesmo – coisas como artigos repetidos, frases que não terminam, o tipo de coisa que seria o papel de um editor mesmo consertar. Não é a primeira vez que destaco isso em um (bom) livro desta editora, e acho que vale o puxão de orelha para que os próximos lançamentos sejam mais cuidadosos.

Nada disso, no entanto, chega sequer perto de arranhar os méritos que o livro possui. Mesmo com as falhas apontadas, ainda temos um universo surreal delicioso que poderia estar em uma HQ do Neil Gaiman ou livro do Michael Ende, um enredo extremamente envolvente, com personagens e mesmo vilões que cativam e criam empatia com o leitor, e um final de partir o coração. É o tipo de história que dá até pena de ver ser publicada por um autor brasileiro – nada contra autores nacionais em si, mas pelo fato de que seria um verdadeiro pote de ouro nas mãos de um empresário que o vendesse a um estúdio de cinema, que facilmente o transformaria no filme do verão estrelando o Michael Cera ou coisa que o valha. Por aqui, vai precisar de um bocado de sorte para que um Jorge Furtado da vida o encontre e dê a ele o tratamento que a história merece.

Enfim, A Morte é Legal é, sim, um livro muito legal. Leiam, não vão se arrepender.

Annabel & Sarah

Quando resenhei A Viagem de Chihiro, tempos atrás, gastei a maior parte do texto em uma longa digressão sobre os filmes mágicos que assistimos na infância e acabam virando memórias muito vívidas da vida adulta, praticamente bombas de nostalgia prontas para explodir à menor menção. Clássicos Disney, filmes de fantasia, desenhos animados orientais – tanto faz, na verdade, e cada época há de possuir os seus, ou será uma época muito triste no fim das contas. Annabel & Sarah, romance de estréia do escritor mineiro Jim Anotsu, conseguiu a façanha de me remeter praticamente desde a primeira linha a esses momentos, e me lembrar com os seus animais falantes e cenários surreais as horas e dias passados em frente à televisão e ao videocassete.

As protagonista deste conto de fadas pós-moderno são as irmãs adolescentes Annabel e Sarah (de onde o leitor astuto perceberá que veio o título do livro), que, apesar de serem gêmeas, não possuem praticamente nada em comum. A primeira é cheia de atitude e sarcasmo, veste jeans surrados e tênis All-Star, enquanto a segunda, ao contrário, é alegre e apaixonada por moda, e sonha mesmo em se tornar uma top model. Como seria de esperar, ambas também se odeiam mutuamente. As coisas mudam, no entanto, quando Sarah é seqüestrada por uma mão monstruosa que sai de dentro de uma TV, e resta à irmã ir atrás da flor Amor-Perfeito que poderá libertá-la.

A partir daí o livro se divide em dois, contando em capítulos alternados as aventuras pelas quais cada uma delas passa, os perigos que enfrentam, e como aprendem eventualmente o quanto precisam realmente uma da outra. Sarah vai parar em um mundo onde a felicidade é a lei, literalmente, e quem não a obedece corre o risco de sumir da sociedade; e Annabel, na sua busca para salvar a irmã, se alia com um lobo detetive particular em um mundo de animais falantes inspirado na literatura noir. E a história segue assim, um misto de Lewis Carrol e George Orwell de um lado e Jack Kerouac e Dashiell Hammett do outro; perdidas no meio do caminho, dúzias de referências literárias e ao universo pop, de nomes de músicas e bandas a personagens e autores, que adicionam toda uma camada extra muito bacana à leitura.

Jim possui um estilo muito gostoso de se ler, dando muita vida e expressividade às personagens. Não há como não ser cativado pela personalidade das duas irmãs, bem como todos os coadjuvantes surreais que encontram pelo caminho, sejam mímicas com problemas de dicção ou raposas, lobos e gatas falantes. Há apenas alguns problemas menores em alguns momentos,  coisas que talvez pudessem ser ajeitadas em uma última revisão, mas na maior parte do tempo o texto é fluido e impecável. De defeito mesmo, acho que só o fato de ser um livro curto – não necessariamente pequeno, mas o roteiro é bastante linear e direto ao ponto, e é uma leitura simplesmente tão deliciosa que é difícil não chegar no final querendo mais.

Em todo caso, Annabel & Sarah é um excelente livro, e um dos começos de carreira mais promissores da literatura nacional recente. Recomendo muito.

Rei Rato

Rei Rato traz de volta um velho conhecido do blog, mas de quem eu não falava fazia algum tempo – o escritor britânico China Miéville. Trata-se, no caso, do seu romance de estréia, e também o primeiro a ser traduzido para o português e lançado no Brasil pela Tarja Editorial, que, dizem os boatos, está trabalhando em uma edição nacional do clássico Perdido Street Station.

O livro conta a história de Saul Garamond, um jovem londrino que um dia é acordado pela polícia para descobrir que o seu pai está morto depois de cair da janela do apartamento. É claro que não foi um simples acidente, e esse é o estopim que o colocará em contato com todo o mundo estranho e fantástico que existe sob as ruas de Londres, bem como lhe revelar detalhes obscuros sobre o seu nascimento e ascendência.

Em alguns aspectos, o cenário e a história lembram bastante Lugar-Nenhum, do Neil Gaiman – ambos lidam, afinal, com universos escondidos sob as ruas londrinas, e a queda de alguém “de cima” até eles. Se Gaiman cria um mundo colorido e cheio de magia, no entanto, Miéville é muito mais duro na sua caracterização, enchendo a sua anti-Londres de sujeira e podridão, e até mesmo fazendo os seus protagonistas se alimentarem dela. Por outro lado, achei o cenário do primeiro muito mais vivo e pulsante, repleto de personagens únicos e ambientes envolventes, o que me levou mesmo mesmo a refletir algumas coisas sobre o nosso próprio mundo; o universo mágico de Miéville, ao contrário, parece mais simples e objetivo, quase um cenário teatral mesmo, apenas um pano de fundo para o seu roteiro se desenvolver. Muito mais viva são as suas descrições da Londres original, e da cultura urbana do drum and bass que permeia a narrativa.

Já no roteiro propriamente dito, Miéville é de fato muito mais eficiente do que o Gaiman. Trata-se de uma história de jornada do herói, auto-descoberta e amadurecimento bastante simples, a bem da verdade, mas muito bem executada. Ela reconta e atualiza um conto de fadas clássico – O Flautista de Hamelin -, trazendo-o para a Londres moderna, recheando-o com drum and bass e transformando-o, em alguns momentos, quase em uma história de super-heróis, ou mesmo em um mangá shonen, desses em que personagens super-poderosos se debatem por sobre os prédios da cidade. Longe de ser uma história juvenil, no entanto, ela é também pesada e forte, sem se furtar de descrever mortes e amputações de forma bastante gráfica, e com um quê de romance policial em alguns momentos.

Considerando o meu conhecimento de obras posteriores do autor, é interessante notar também a sua evolução enquanto escritor. Pode-se ver bem que se trata do seu primeiro romance, pela forma como ele organiza as descrições e o roteiro, e também como tateia um tanto receoso em algumas delas. A sua ideologia política assumida também se faz presente, embora raramente de forma panfletária – apenas a cena final quase me fez rir em voz alta, pelo seu exagero intrínseco.

A tradução de Alexandre Mandarino também merece todos os méritos. Pela apresentação já dá pra perceber que se trata de uma obra difícil – muitas passagens e diálogos são escritos no dialeto cockney, que é falado pela classe trabalhadora em alguns locais de Londres, o que torna uma tradução e adaptação bastante complicadas. O uso de gírias comuns acabou funcionando bem, acho eu, e o resultado é uma leitura fluida e fácil. O uso extensivo de notas de tradução, algo com a qual eu geralmente tenho algumas reservas, também serviu bem pra elucidar as poucas dúvidas que surgiram, e o seu posicionamento no fim dos capítulos não atrapalha o fluxo da narrativa – você pode facilmente ignorá-las por completo se assim quiser.

Enfim, Rei Rato é um livro muito interessante, o livro de estréia de um dos principais e mais premiados autores de fantasia atuais, finalmente publicado em português. Para os que liam o blog e ficavam curiosos a respeito mas não entendem o suficiente de inglês para ir atrás dos originais, essa é a chance de vocês.

The Wind-Up Bird Chronicle

Qualquer um com um interesse um pouco mais do que básico em literatura certamente já ouviu falar na jornada do herói. Descrita no clássico O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell, trata-se de uma estrutura básica que, segundo ele, estaria em todas as histórias criadas pela humanidade, de qualquer época ou civilização – desde os mitos religiosos até os filmes de Hollywood, passando por contos de fadas, clássicos da literatura, e o que mais houver aí no meio. A forma como ela foi adotada por alguns escritores e roteiristas, inclusive, tem algo de polêmica, pelo seu potencial para virar uma “receita de bolo” fácil, em que você só põe os ingredientes na ordem certa e pronto, tem um épico literário instantâneo.

Não cabe a mim fazer aqui uma crítica ou defesa da jornada em si, é claro, exceto para ressaltar que, quando feita por um cozinheiro habilidoso, que sabe como temperar e tirar o melhor de cada ingrediente, mesmo uma receita manjada ainda pode ser saborosa e única no seu resultado final. Esse é o caso de Haruki Murakami, que, em The Wind-Up Bird Chronicle, nos oferece a sua abordagem da jornada do herói temperada com bastante shoyu e teriyaki, em uma das suas formas mais puras, qual seja, a do conto de fadas.

Claro que estamos falando de um Murakami, e não de um filme Disney, então deve-se entender uma concepção bem particular de conto de fadas. O cenário é o Japão contemporâneo e globalizado, e os seus personagens e problemas iniciais também – Toru Okada, o protagonista, não é nenhum príncipe perdido, mas um mero adulto desempregado que passa seus dias bebendo cerveja e ouvindo discos de jazz na casa que divide com a esposa; e a sua jornada começa com a busca por um gato perdido, e não qualquer tipo de encontro sobrenatural. E cada ajudante místico que ele encontra pelo caminho possui uma história mais singular e única do que o anterior, muitas vezes envolvendo acontecimentos violentos e, em particular, a ocupação japonesa da região da Manchúria durante a Segunda Guerra Mundial.

Mais do que uma paródia, o que o livro faz realmente é uma releitura e ressignificação dos símbolos e arquétipos tradicionais da jornada do herói e dos contos de fadas. Você possui lá o fiel escudeiro (e tanto faz se ele é uma colegial problemática ao invés de um garoto empolgado), a princesa enfeitiçada (presa em um quarto de hotel ao invés de uma torre inalcançável) e o feiticeiro maligno (que usa terno e gravata ao invés de mantos escuros); e nada disso está fora do lugar, em um ambiente sem contexto, ou meramente para constar.

Claro, não seria um conto de fadas deixando de lado a fantasia, e isso o livro também tem de sobra. É Murakami, afinal, e, como eu já disse em outro momento, há algo na forma como ele escreve que transforma a leitura em uma espécie de sonho, onde impera a lógica do surreal e do impossível, sempre andando em cima do muro entre o realismo e a magia. A linha entre os dois lados é muito sutil, e nunca há como saber com certeza até que ponto um diálogo é só um diálogo, ou uma metáfora é só uma metáfora.

Em todo caso, The Wind-Up Bird Chronicle é um livro excelente, um épico fantástico dentro dos seus próprios termos, e que utiliza a jornada do herói de uma forma bastante singular e cativante. Talvez seja o melhor livro do autor que eu li até o momento, o que não é exatamente pouco.

Stardust

Neil Gaiman é um autor um pouco complicado de resenhar, por causa de uma certa tendência que possui de formar aquele tipo de tiete chato que vai elogiar qualquer coisa que ele escreva antes mesmo de ler. Assim, se a resenha for positiva, pipocam comentários sobre como ele é o máximo e que sequer citam a obra que se está resenhando; e se for negativa, vai dar margem para começar uma daquelas discussões intermináveis de internet na qual nenhum dos lados está disposto a abrir mão do seu ponto de vista. Felizmente, no entanto, essa tietagem toda é justificada em boa parte dos casos, já que Gaiman é em geral um autor com mais acertos do que erros. No entanto, alguns de seus trabalhos, mesmo quando bons, acabam sendo valorizados um pouco além da conta. Stardust (que na edição nacional recebeu o subtítulo de O Mistério da Estrela) vai um pouco por este lado.

O livro narra as aventuras de Tristran Thorne, habitante de Wall, uma pequena vila inglesa de meados do século XIX, que parte em uma busca por uma estrela cadente para dar de presente à garota por quem ele nutre uma daquelas paixões platônicas típicas da adolescência, e acaba por isso indo parar em um mundo mágico repleto de seres maravilhosos. É uma história que se assume desde o princípio como juvenil, daquelas até um pouco bobinhas, do tipo em que um garoto aparentemente comum parte em uma jornada fantástica em direção, entre outras coisas, à maturidade – mas isso não chega a ser necessariamente um demérito, claro; apenas acho que seria uma história juvenil melhor não fosse o seu protagonista um personagem um tanto bobinho demais na maior parte do tempo, apesar de que isso também é um mal de heróis juvenis em geral.

Em todo caso, se a história em si deixa a desejar, o grande mérito do livro está no mundo fantástico que ele constrói como cenário. O ambiente de Stardust transborda magia e fantasia; é um mundo de contos de fadas completo, por vezes de forma bem exagerada e até cômica, onde todo animal é algum ser enfeitiçado e pequenas rimas infantis ganham status de informações privilegiadas. A própria leitura do livro lembra bastante certos filmes clássicos de fantasia dos anos 80, como Labirinto ou História Sem Fim, e não é por acaso que a versão cinematográfica da obra tenha sido bastante comparada a eles. É certo que algumas vezes esta magia toda parece passar do ponto, soando mais como desculpa para resolver situações em que o autor coloca os personagens e da qual não parece haver outra saída – o velho truque literário do deus ex machina; mas é justamente nas descrições deste ambiente fantástico, com suas bruxas ambiciosas e nobres traiçoeiros, que brilha a prosa de Gaiman, e justifica um pouco aquela tietagem toda que existe em cima dele.

Stardust é, enfim, um belo exemplar daquilo que os norte-americanos chamam de pageturner, ou vira-páginas, do tipo que você vai lendo página após página com tanta naturalidade que, quase sem perceber, já se vê chegando no final. Juvenil e bobinho que seja, até que é uma boa história juvenil e bobinha, que, acredito eu, tietes do Neil Gaiman e qualquer um com algum gosto pelo fantástico hão de achar no mínimo agradável.

Príncipe

Tudo parecia perfeito: do sofrimento anterior, rodeada de perigos no fundo mais sombrio do poço da alma, até o resgate heróico quando tudo parecia perdido, trazendo-a de volta à luz da vida. E tudo levava àquele momento: o abraço apertado, o queixo roçando no cabelo, a tensão aliviada em um único cruzar de olhares. Nada mais daria errado; o mundo era perfeito, e nele só havia esperança.

Os segundos pareciam não passar, e talvez ambos preferrissem que não passasse. Mas ele a segurou pela cabeça, e, olhando profundamente nos seus olhos, disse:

– Tudo bem agora? Então vamos logo que o táxi tá esperando.


Sob um céu de blues...

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