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Vício Inerente

vicio-inerenteFiz trinta anos de idade em 2014. Muita gente costuma tratar isso como um marco – o fim da juventude, fim da pós-adolescência tardia, tanto faz; no fundo, é pouco mais do que aquele fetiche das pessoas por números redondos, como se a vida pudesse ser colocada numa régua e medida segundo o sistema numérico decimal. Não partilho (ou tento não partilhar) dele, mas é difícil não passar por estes momentos sem fazer um certo balanço da sua juventude, daquilo que você fez ou deixou de fazer, e os eventuais arrependimentos que te mantêm acordado durante a noite. Por coincidência, acabei lendo esse ano dois livros que tratavam, de alguma maneira, justamente sobre essa passagem: Caçando Carneiros, do meu guru atual Haruki Murakami, um dos poucos livros dele que li e não resenhei, mas apenas fiz uma citação avulsa; e este Vício Inerente, de Thomas Pynchon, cuja adaptação cinematográfica está para estrear por aqui nos próximos meses.

O livro narra as desventuras de Doc Sportello, detetive particular na distante Califórnia do ano de 1970, e a sua jornada pra desvendar o desaparecimento de uma ex-namorada e o seu atual amante, um figurão da indústria imobiliária. Claro, estamos falando de um romance pynchoniano, então você pode esperar que ele nunca será apenas sobre isso – os personagens únicos, as alucinações à base de erva e ácido, as incontáveis referências enciclopédicas à cultura geral, a sensação de paranoia e de estar envolto em uma trama muito maior do que você é capaz enxergar, tudo está lá como em Arco-Íris da Gravidade ou qualquer outro dos seus livros mais conhecidos. Este, no entanto, consegue ser um pouco mais tradicional em termos de estrutura; ao invés de mais de quatrocentos personagens cujos pontos de vista se revezam, a narrativa segue mais de perto apenas as investigações de Sportello, como em um romance de detetive clássico, e é sob a sua ótica que você entra em contato com personagens e situações a cada capítulo mais estranhas e psicodélicas.

No fundo, no entanto, o que me pegou mesmo no livro foi essa referência à passagem para a maturidade. Sportello possui na história exatamente trinta anos, e frequentemente se vê de frente com os dilemas que a idade lhe impõe – há uma tensão constante entre ele e o policial Pé-Grande Bjornsen, que optou pelo estilo de vida mais regrado e dentro da linha, e diversas vezes o tenta a trocar de lado e se tornar um informante da polícia, acabando por desenvolver por ele, por trás de todo aparente desprezo pelo seu estilo de vida, um tipo muito singular de empatia. Ao mesmo tempo, muitos momentos são passados em flashbacks, em que Sportello repassa momentos passados com os personagens que o levaram até ali, e você não consegue deixar de ver nisso algum quê de nostalgia, um entendimento de que certas coisas que eram tão boas ficaram para trás e hoje já não podem mais ser resgatadas ou feitas de forma diferente.

O romance trata o tema de forma muito intensa, usando os dilemas pessoais do detetive para tratar do que é uma crise de maturidade não apenas dele, mas de toda a sua geração e aquilo que ela representou. O ano escolhida para ação é muito simbólico, sem nada de aleatório: trata-se do adeus definitivo aos anos 1960, a década dos hippies, das drogas, do sexo e da música jovem, forçado a amadurecer de forma por vezes dolorosa e desencantadora, como a constante lembrança à seita de Charles Manson durante a narrativa nos faz lembrar. Você vê isso no próprio Sportello, e também nos personagens com que ele é obrigado a interagir, sejam seus parceiros de viagens com drogas, músicos convertidos em agentes governamentais, ou executivos do capitalismo imobiliário passando por crises de consciência (e então não mais).

Não posso dizer que tenha sido esse o objetivo de Pynchon ao escrever o livro, ou talvez tenha sido mesmo, não sei. Mas um livro também não pertence só ao seu autor, e, ainda mais quando se trata de uma obra que toca uma variedade tão grande de temas, cada um pode fazer uma leitura bastante pessoal dele – e, possivelmente pelo próprio momento pelo qual estou passando, foi essa a que fiz, e não dá pra dizer que ela não me atingiu de forma bastante forte. Após uma jornada de encontros psicodélicos e aventuras um tanto quanto picarescas, a forma como ele se encerra, com um retorno mundano de carro para casa, tem um ar anticlimático, mas também de melancolia, distensão e desencantamento. Não posso dizer que não entendi.

Gravity’s Rainbow

Na edição pocket de The Atrocity Archives, Charles Stross incluiu também um pequeno ensaio sobre a literatura de espionagem, falando de como ela, na visão dele, consistia em uma forma muito particular de literatura de terror. Segundo argumenta, todos os seus elementos típicos que para nós hoje parecem caricatos e exagerados – o medo de uma guerra nuclear, a paranóia anti-comunista – eram então levados muito a sério, pois as pessoas realmente acreditavam que eles eram passíveis de acontecer em um futuro nem tão distante assim. O que me lembra também algumas conversas com a minha avó, e a dificuldade dela em aceitar que não havia de fato uma ameaça comunista real quando do golpe militar de 1964, a despeito do que os jornais e os militares golpistas tentavam propagar.

Em todo caso, acho que Gravity’s Rainbow (ou O Arco-Íris da Gravidade, na edição nacional da Cia. das Letras), a magnum opus do escritor norte-americano Thomas Pynchon, ilustra muito bem essa idéia. Escrita no espírito transgressor da contracultura norte-americana, é uma obra que exala paranóia por praticamente todos os seus caracteres. Ela está lá no culto quase religioso e repleto de motivos fálicos e sexuais a um míssil experimental do exército nazista, e também na forma como os personagens constantemente se vêem em meio a conspirações e tramas muito maiores do que eles mesmos. Pynchon descreve um mundo onde não há coincidências, onde nada é o que é por acaso, e Eles o espreitam a cada movimento que faz, não importa o quão cuidadosamente você tente fugir da Sua vista.

O personagem principal da história – se é que podemos nomear apenas um entre mais de quatrocentos protagonistas, antagonistas e coadjuvantes – é Tyrone Slothrop, oficial norte-americano servindo em Londres durante os últimos meses da Segunda Guerra Mundial. Um fato curioso a seu respeito faz com que uma série de agências governamentais subitamente se interesse por ele – por algum motivo, os últimos mísseis nazistas disparados contra a capital britânica caem sempre em locais onde, alguns dias antes, Slothrop teve alguma suposta aventura sexual. A perseguição que ele sofre a partir de então irá levá-lo investigar detalhes suprimidos de seu passado em uma aventura picaresca pela Alemanha destruída após a guerra, que só consigo descrever adequadamente como alguma coisa entre O Resgate do Soldado Ryan, Rocketeer, as histórias de James Bond, a fábula infantil de João e Maria, e os filmes de Cheech & Chong.

Não se engane, no entanto, pela sinopse que beira o absurdo. Pynchon é sim um escritor do nonsense, que pontua suas histórias com situações surreais e recheadas de humor negro, mas o faz entre momentos de profunda tensão e horror. Uma perseguição por soldados russos cantando limeriques pornográficos pode ser seguida por uma descrição extremamente gráfica de sexo sadomasoquista. Entre uma ereção nasal e a história de uma lâmpada com pretensões totalitárias, você se perderá entre longos discursos sobre psicologia pavloviana, teorias estatísticas, cinema alemão, física de mísseis nucleares, história política e econômica da Europa, Tarot, ocultismo, e tantos outros tópicos que você logo começa a entender a paranóia megalomaníaca dos personagens, perdidos em meio a tantas tramas e tantas coisas acontecendo simultaneamente.

O livro também é conhecido pela sua linguagem, que transgride praticamente todas as normas e convenções sobre a prosa literária. Um amigo me descreveu Pynchon uma vez como uma criança hiperativa querendo contar a história de todos os seus brinquedos ao mesmo tempo, e acho que esta é uma descrição bem acurada. A narrativa é constantemente digressiva, saindo do seu presente para narrar flashbacks dentro de flashbacks, estendendo-se por longos parágrafos em uma única metáfora, ou apenas para contar uma anedota sobre um novo personagem recém introduzido. Constantemente a própria prosa é interrompida por pequenos poemas ou músicas escritas pelo autor, algumas vezes até mesmo acompanhada por um número musical – sim, é praticamente como se você estivesse lendo um musical hollywoodiano. Isso o torna uma leitura bastante difícil e que tomará um bocado de tempo para ser concluída, uma vez que é fácil se perder e começar a divagar sobre os outros assuntos, forçando você a voltar diversas páginas para recapitular o que deveria estar acontecendo na história.

Mas é também uma leitura bastante recompensadora uma vez que você passe por essa dificuldade inicial. O roteiro é envolvente e profundamente bem construído e amarrado, repleto de referências históricas e à cultura popular; os personagens são cativantes e únicos, cada um mais bizarro e interessante do que o anterior; e a obra como um todo é intensa e fascinante como poucas que li recentemente. É uma verdadeira experiência literária, obrigatória para quem quiser entender a literatura norte-americana contemporânea.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

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