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A Morte das Utopias, parte 2

Antes de mais nada, o título não faz referência a qualquer outro texto aqui do blog ou que eu tenha publicado em outro lugar. É só uma mania de alguns ideólogos mais exaltados de, sempre que a oportunidade surge, anunciar a “morte de uma utopia.” Isso aconteceu bastante desde 1991, por exemplo, quando muitos anunciavam a morte da utopia comunista, o fim das esquerdas, o Fim da História, e derivados.

Pois bem. Quem acompanha o noticiário internacional pode vir a imaginar que está tudo acontecendo novamente – é só ver a quantidade de editoriais e comentários sobre a última crise financeira, anunciando o fim do capitalismo especulativo, do neoliberalismo e da sociedade ocidental como nós a conhecemos. Estaríamos vivendo a morte de outra utopia? Sim, pois utopias certamente não são exclusividades da esquerda – a direita tem todo o direito (com o perdão do trocadilho) às suas também, desde o liberalismo clássico do fim do século XVIII até o começo do XX, até o neoliberalismo autoritário de tempos mais modernos (e recomendo muito um texto do Perry Anderson, Balanço do Neoliberalismo, para quem quiser saber as diferenças entre eles, e porque é possível sim ser neoliberal e autoritário sem cair em qualquer contradição de termos).

Acho que nada ilustra melhor essa situação do que o cai-não-cai que vive a zona do Euro atualmente. Já li prognósticos de que a moeda seria abandonada pela maioria dos países um mês atrás, e outros que anunciam a sua derrocada para a semana que vem. Pacotes prometem a sua recuperação instantânea, apenas para serem substituídos por novas soluções milagrosas na semana seguinte. Não sou analista econômico, enfim, e não sei dizer quais são as possibilidades reais dele sobreviver ou não; poderia apostar em um ou outro com a mesma probabilidade de acerto, do meu ponto de vista semi-leigo. Sou, no entanto, um historiador, e acho que posso tentar buscar o significado dessa situação de um ponto de vista histórico mais amplo.

Pra quem não sabe, a hoje grandiosa União Europeia, com seus quase trinta Estados membros, começou de maneira bem mais tímida e sutil. Sua origem está Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, criada pelo Tratado de Paris em 1951, e tendo como fundadores a (então) Alemanha Ocidental, França, Itália, Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo. Mais tarde, em 1957, o CECA daria origem à Comunidade Econômica Européia, que reuniria mais e mais membros ao longo dos anos, até se converter na atual UE.

Parem um pouco e pensem a respeito. Em especial, sobre dois dos seus membros fundadores – a Alemanha e a França. Ambos estiveram no centro dos dois maiores conflitos da história recente, possivelmente mesmo de toda a história da humanidade; a Primeira e Segunda Guerra Mundiais. Mais: o acordo visava justamente a regulação do seu principal ponto de divergência, as indústrias do carvão e do aço, especialmente proeminentes nas províncias francesas de Alsácia e Lorena, e que são fundamentais para o desenvolvimento industrial de qualquer país. Com apenas uma assinatura, um dos maiores focos de tensão da Europa ocidental desde fins do século XIX, quando a unificação alemã se completou com a anexação das duas regiões supracitadas, simplesmente desapareceu.

Cortamos então para o presente, e, novamente, o Euro. Ele é, de certa forma, o pináculo desse movimento de integração, que os leva a dividir, além das suas políticas e economias, a própria moeda; para além disso, só quando (e se, obviamente) as fronteiras forem definitivamente banidas, e os países do continente passarem a se considerar como um só Estado. Do ponto de vista político, e da turbulenta história do continente ao longo dos séculos, trata-se de uma integração especialmente bem-sucedida, talvez a maior e mais significativa desde a pax romana – basta lembrar que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a Europa ocidental simplesmente não teve qualquer conflito armado relevante dentro dos seus limites. (A Europa oriental, é claro, é um caso à parte, e mereceria todo um texto próprio apenas a seu respeito. Em uma outra oportunidade, talvez).

Claro, é também uma integração controversa, que envolve uma série de questões particulares que não podem ser simplesmente ignoradas. É certamente complicado querer integrar sociedades extremamente diversas política e culturalmente. O mais difícil, no entanto, é quando as próprias economias que se quer unificar possuem características e níveis de desenvolvimento tão diferentes.

É isso que fica mais evidente quando se analisa a crise atual, e o impacto que ela possui sobre o Euro. Não vou entrar em detalhes técnicos complicados, que você pode procurar em qualquer análise séria por aí (apenas não se guie pelas da revista (cer)Veja, por favor); mas é fácil perceber que as economias de países como a Grécia ou Portugal simplesmente não estão no mesmo patamar das da Alemanha ou mesmo, vá lá, da França. Isso gera um desnível sério no poder econômico de cada um deles, o que leva a uma necessidade de ajuda financeira para pagar as dívidas e cumprir os contratos firmados dos Estados mais fracos, o que por sua leva a todos esses pacotes de medidas de austeridade financeira que incluem, entre outras coisas, uma série de cortes pesados nos benefícios sociais dos cidadãos (o sonho molhado de todo analista neoliberal), além de uma entrega maior de soberiana a órgãos internacionais, como o Banco Central Europeu e o FMI. Há quem diga mesmo que a Alemanha, depois de anos tentando conquistar a Europa pela via militar, finalmente conseguiu, através da economia e sem disparar um tiro sequer…

Por mais que sejam análises válidas e coerentes, no entanto, existe uma coisa que me incomoda profundamente nessa visão e aqueles que a defendem. Falo da forma como muitos parecem encarar um iminente fim do Euro como uma vitória gloriosa, e agouram com todas as forças para que ele ocorra o mais rápido possível. Parecem encarar a moeda e a própria União Européia como meros artifícios da farsa neoliberal, que nos convenceu pelos meios de difusão da sua ideologia como indispensáveis para a prosperidade das sociedades humanas, louvada seja Nossa Senhora Ayn Rand dos Últimos Dias. Esquecem, enfim, do próprio significado histórico da UE, e o seu papel em um continente marcado durante pelo menos dois mil anos por infindáveis guerras, massacres e genocídios.

Pra resumir, simplesmente não sei dizer se o Euro está mesmo fadado a desaparecer ou não. Tanta gente diz que sim, tanta gente diz que não, e eu aqui no meio, com meus livrinhos do Edward Thompson e do Eric Hobsbawn tentando decidir por uma posição… Se vier a acontecer, no entanto, acho que, mais do que tudo, mais do que um cair de máscaras ou uma vitória gloriosa da Quarta (ou Quinta ou Sexta) Internacional Comunista, será mesmo o fim de uma utopia. Você pode concordar com ela ou não, pode achá-la inviável, impraticável, indesejável, injustificável… Mas não dá pra não sentir um certo pesar sempre que morre uma utopia.

Mercado

Em algum andar de um grande edifício com a fachada coberta por janelas de vidro escurecido, um grupo de homens engravatados e bem-vestidos, com ternos de linho azuis, pretos e cinzas, entrou em uma sala escura, fechando a porta atrás de si. À sua frente se erguia uma grande pilha de notas em papel-moeda: reais, dólares, euros, ienes, yuans, todos organizados em uma grande pirâmide monetária. Os homens ajoelharam-se ante ela, enquanto outro, que já estava no local, vestindo um manto acizentado com um capuz cobrindo o rosto e segurando uma tocha na mão direita, ateou fogo em um dos vértices.

O dinheiro queimou. A fumaça se espalhou pela sala, preenchendo cada canto e cada centímetro quadrado disponível, inundando e contaminando os pulmões. Logo todos sentiram a sua chegada – uma presença etérea, sem corpo, que todos apenas sabiam estar lá; um ser onisciente que se desprendeu da fumaça e foi sentido no fundo da consciência de cada um ali presente.

– Ó Grande Deus Mercado! – pronunciou um dos homens engravatados. – Diga-nos qual é o seu desejo para este trimestre!

Seguiram-se segundos do mais absoluto silêncio. Quando uma voz foi ouvida era clara e ressonante, como se viesse de todos os lugares e nenhum ao mesmo tempo. Era um Deus que lhes falava, não havia como permanecer cético.

Eu quero… – novos segundos de silêncio. – …calças longas com bordados laranjas. – e a presença divina se esvaiu aos poucos, deixando vagarosamente a consciência de cada um.

Uma luz se acendeu e a porta foi aberta. Os homens engravatados levantaram.

– Chamem o departamento de marketing. – disse o mesmo homem engravatado de antes. Acendeu um charuto e deu uma leve tragada antes de continuar. – E preparem a fogueira inquisitorial. Eles erraram de novo, e vão pagar caro por isso.

A Liga dos Economistas Extraordinários

O mercado está em perigo! Escassez, o gênio do mal, ameaça gravemente a população, atacando-a com seus capangas e criaturas terríveis, como o Dragão da Inflação e o Monstro do Desemprego. Apenas um grupo de heróis economistas poderá detê-lo, usando seus incríveis poderes de reflexão e interpretação da sociedade – a incrível Liga dos Economistas Extraordinários!

Liga dos Economistas(1)
adamsmithAdam Smith, o surpreendente Mão Invisível (NP 7)
For 14 (+2) Des 14 (+2) Con 14 (+2) Int 18 (+4) Sab 16 (+3) Car 14 (+2)
Res +2 For +5 Ref +8 Von +8
Feitos: Armação, Ataque Atordoante, Ataque Furtivo 3, Avaliação, Distrair (Blefar), Esconder-se à Plena Vista, Evasão
Perícias: Blefar 6 (+8), Conhecimento (atualidades) 6 (+10), Conhecimento (ciências comportamentais) 10 (+14), Conhecimento (história) 6 (+10), Conhecimento (educação cívica) 8 (+12), Diplomacia 8 (+10), Furtividade 6 (+9), Notar 6 (+9), Profissão (burocrata) 8 (+11)
Poderes: Invisibilidade (total contra todos os sentidos visuais)
Combate: Ataque +8, Dano +2 / +6 (furtivo), Defesa 16, Iniciativa +2
Atributos 30 + Salvamentos 14 + Feitos 9 + Perícias 16 (64 graduações) + Poderes 8 + Combate 28 = 105pp
Para Adam Smith, tudo ocorre como se uma mão invisível guiasse os rumos do mercado. O que poucos sabem, no entanto, é que essa mão é a do próprio Smith, usando seus incríveis super-poderes! Escocês de nascimento, burocrata do glorioso Império Britânico, defende os valores da igualdade, da liberdade, e, acima de tudo, da propriedade privada.

marxKarl Marx, o misterioso Multi-Proletário (NP 9)
For 14 (+2) Des 14 (+2) Con 16 (+3) Int 18 (+4) Sab 16 (+3) Car 16 (+3)
Res +3 For +6 Ref +5 Von +8
Feitos: Assustar, Inspirar 2, Oponente Favorito (burguesia) 2, Parceiro 12, Presença Aterradora 4, Sorte
Perícias: Conhecimento (atualidades) 14 (+18), Conhecimento (ciências comportamentais) 8 (+12), Conhecimento (história) 6 (+10), Diplomacia 2 (+5), Intimidar 6 (+9/+11*), Intuir Intenção 4 (+7/+9*), Notar 4 (+7/+9*), Profissão (jornalista) 4 (+7)
Poderes: Duplicação 8 (Horda +1 – 3pp/grad; Progressão 3 [até 10 cópias], Sacrifício)
Combate: Ataque +6 / +8*, Dano +2 / +4*, Defesa 18, Iniciativa +2
*contra a burguesia
Atributos 34 + Salvamentos 11 + Feitos 22 + Perícias 12 (48 graduações) + Poderes 28 + Combate 28 = 135pp

Friedrich_EngelsFriedrich Engels, o espetacular Intelectual Prodígio (Nível de Parceiro 12)
For 12 (+1) Des 14 (+2) Con 14 (+2) Int 16 (+3) Sab 14 (+2) Car 14 (+2)
Res +2 For +5 Ref +4 Von +6
Feitos: Benefício 2 (riqueza), Oponente Favorito 2 (burguesia)
Perícias: Conhecimento (atualidades) 6 (+8), Conhecimento (ciências comportamentais) 6 (+9), Conhecimento (história) 8 (+11), Diplomacia 6 (+8), Intuir Intenção 2 (+4/+6*), Notar 4 (+6/+8*)
Combate: Ataque +4 / +6*, Dano +1 / +3*, Defesa 14, Iniciativa +2
*contra a burguesia
Atributos 24 + Salvamentos 8 + Feitos 4 + Perícias 8 (32 graduações) + Combate 16 = 60pp

Karl Marx é legião. Incitador político, crítico da opressão e da dominação burguesas, ideólogo do comunismo e das revoltas proletárias, seu poder é o da multiplicação, rapidamente se convertendo em uma turba enfurecida para esmagar seus adversários. Junto com seu parceiro Friedrich Engels, no entanto, é uma figura controversa, cujos métodos e idéias não são plenamente aceitas pelos demais membros da Liga, e cuja presença costuma ser vista como uma ameaça pelos próprios mercados que a equipe tenta salvar.

ArticleWeberMax Weber, o fabuloso Acumulador (NP 8 )
For 14 (+2) Des 14 (+2) Con 14 (+2) Int 18 (+4) Sab 16 (+3) Car 14 (+2)
Res +6* For +9 Ref +6 Von +8
Feitos: Ataque Poderoso, Atropelar Aprimorado, Derrubar Aprimorado, Durão 4, Tolerância
Perícias: Conhecimento (atualidades) 10 (+14), Conhecimento (ciências comportamentais) 12 (+16), Conhecimento (história) 10 (+14), Intimidar 4 (+6), Notar 6 (+9)
Poderes: Absorção 8 (Fortalecer [Densidade]; Armazenagem de Energia +1, Ímã de Poder +1, Limitado (apenas capitais) -2 – 4pp/grad; Dissipação Lenta [1 minuto/10 rodadas])
Combate: Ataque +6, Dano +2*, Defesa 16, Iniciativa +1
**a Resistência e o Dano podem aumentar conforme Weber acumula capital, recebendo graduações do poder Densidade, até os limites normais do NP
Atributos 30 + Salvamentos 16 + Feitos 8 + Perícias 9 (36 graduações) + Poderes 33 + Combate 24 = 120pp
Max Weber era apenas um economista político e pioneiro da sociologia alemã comum, até receber uma revelação divina: o próprio Espírito do Capitalismo desceu à Terra, tomando-o como hospedeiro! Invocando seus poderes como uma espécie de xamã, Weber se tornou capaz de abosrver e acumular grandes quantidades de capital, aumentando sua densidade e força a níveis sobre-humanos, para então acabar com seus inimigos com seu uso legítimo do monopólio da violência.

dn16786-2_300John Maynard Keynes, o magnífico Barão Keynes (NP 10)
For 10 (0) Des 12 (+1) Con 12 (+1) Int 34 (+12) Sab 28 (+9) Car 18 (+4)
Res +1 For +5 Ref +6 Von +14
Feitos: Avaliação, Bem-Relacionado, Benefício (status), Esforço Supremo (salvamentos de Vontade), Esquiva Fabulosa, Memória Eidética, Plano Genial
Perícias: Blefar 6 (+10), Concentração 12 (+21), Conhecimento (atualidades) 10 (+22), Conhecimento (ciências comportamentais) 10 (+22), Conhecimento (história) 8 (+20), Conhecimento (negócios) 10 (+22), Diplomacia 8 (+12), Intuir Intenção 8 (+17), Notar 8 (+17)
Poderes: Telepatia 10 (Poderes Alternativos: Controle Mental 10, Rajada Mental 5), Super-Sentidos 14 (cancela Permante +1, Duração -2/concentração – 1pp/2grad; visão estentida 5, percepção econômica, poscognição, precognição)
Combate: Ataque +5, Dano +5 (Rajada Mental), Defesa 18, Iniciativa +1
Atributos 54 + Salvamentos 14 + Feitos 7 + Perícias 20 (80 graduações) + Poderes 29 + Combate 26 = 150pp
John Maynard Keynes, o Primeiro Barão de Keynes, é o teórico do controle estatal da economia e do estado de bem-estar social. Para ele, deve haver um intervencionismo pesado do Estado, através de políticas monetárias e fiscais, que dome o mercado e diminua os efeitos dos seus ciclos de recessão e depressão – o que fica muito mais fácil, é claro, com a ajuda dos seus incríveis poderes mentais, incluindo a capacidade de ler e controlar pensamentos, bem como a sua fabulosa Visão Macroeconômica, capaz de identificar problemas econômicos distantes, passados ou futuros!

04016Milton Friedman, o incrível Homem-Mínimo (NP 7)
For 12 (+1) Des 16 (+3) Con 14 (+2) Int 18 (+4) Sab 16 (+3) Car 14 (+2)
Res +2 For +5 Ref +9 Von +6
Feitos: Bem-Relacionado, Iniciativa Aprimorada
Perícias: Blefar 4 (+6), Conhecimento (atualidades) 10 (+14), Conhecimento (ciências comportamentais) 8 (+12), Conhecimento (história) 8 (+12), Conhecimento (negócios) 12 (+16), Diplomacia 6 (+8), Furtividade 6 (+9/+29*), Notar 6 (+9)
Poderes: Encolhimento 20 (Tamanho Atômico, Golpe em Crescimento)
Combate: Ataque +8 / até +20*, Dano +1 / até -4 (tamanho mínimo) / até +6 (Golpe em Crescimento), Defesa 18 / até 30*, Iniciativa +7
*encolhendo até o tamanho mínimo; a diferença não modifica o NP
Atributos 22 + Salvamentos 12 + Feitos 2 + Perícias 15 (60 graduações) + Poderes 22 + Combate 32 = 105pp
Milton Friedman é um defensor da liberdade individual e da democracia. Em constante conflito de idéias com o Barão Keynes, o Estado para ele deve ter o mínimo tamanho necessário, sem intervir diretamente na economia – e esse minimalismo é também a origem dos seus poderes: o de encolher até a escala atômica, tornando-se quase imperceptível aos adversários!


Sob um céu de blues...

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