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Gênese

Rompe-se a casca, e ele nasce: é o mundo, espremendo-se para fora do ovo primordial e despejando-se sobre a existência. Seus oceanos, seus continentes, suas ilhas, todos abrem-se e se espalham em um círculo perfeito, como uma clara que se expande em torno da grande Montanha do Centro do Universo que é a gema. Queimam e fervilham: vapores sobem das águas, as montanhas se liquefazem em erupções vulcânicas. E, então, solidificam: vertem-se todos na mesma superfície uniforme, uma grande planície branca e amarela. O Devorador de Mundos, enfim, senta e aproveita o seu omelete.

3D&T Mamma Mia!

Bueno, mais um da série “você nunca achou que rendia um RPG”. Depois do 3D&T Rock Band, saiba agora como se tornar um grande mestre pizzaiolo, usando apenas o seu Manual 3D&T Alpha!

Mamma Mia!
Não, você não leu errado – ser um pizzaiolo pode trazer muitos desafios para uma mesa de jogo. Saber quais temperos utilizar, os tipos de molho, como atiçar o paladar de cada cliente… Não é tarefa pra qualquer explorador de masmorras. Em regras, no entanto, você continua usando a mesma ficha normal de 3D&T; pode até mesmo utilizar os personagens normais em campanha, fazendo-os se aventurar pelo mundo da culinária entre uma aventura e outra.

Existe uma ampla variedade de sabores de pizzas – fortes e suaves, salgadas e doces, com carne e com frutas. Para representar toda essa variedade, cada pizza deve ser construída como um personagem, tendo a sua própria ficha com atributos, vantagens e desvantagens. A pontuação total dependerá da dificuldade que é prepará-la:

Pizzas Fáceis: 4 pontos.
Pizzas Médias: 8 pontos.
Pizzas Difíceis: 12 pontos.

Para preparar uma pizza, o pizzaiolo deve passar em um teste da especialização Culinária (que faz parte das perícias Artes e Sobrevivência) com a dificuldade equivalente; em caso de falha, algum erro foi cometido durante a preparação, e por isso ela terá apenas metade da pontuação normal disponível. Caso o pizzaiolo conte com uma boa equipe de apoio, eles também podem ajudá-lo a melhorar sua pizza: cada sucesso em um teste Normal de Culinária de um dos ajudantes aumenta a pontuação final dela em 1 ponto.

O pontos possuídos por uma pizza podem ser distribuídos pelo pizzaiolo em quatro atributos, que são como as características normais de 3D&T:

Força: representa o sabor da pizza, o quão apetitosa ela é e o quanto é capaz de atiçar os sentidos de prazer culinário de quem come. Pizzas mais saborosas, que combinem igredientes populares como bacon ou calabresa, em geral terão uma Força maior do que aquelas mais simples, feita apenas com queijo e massa ou igredientes pouco apreciados.
Habilidade: representa a qualidade da preparação da pizza, se os temperos foram usados corretamente, se ela ficou o tempo certo no forno, etc.
Resistência: representa, grosso modo, o nível de complexidade da pizza – a quantidade de temperos variados que ela possui, bem como o seu tamanho e a capacidade de surpreender quem a come com um gosto ou sabor incomum em um novo pedaço.
Armadura: representa o conteúdo geral da pizza, o quanto ela é capaz de satisfazer alguém mesmo que não seja exatamente uma obra-prima. Pizzas populares, como calabresa ou quatro queijos, geralmente possuem Armadura alta; pizzas mais exóticas, como califórnia ou cleópatra, em geral possuirão Armadura baixa.

Uma pizza também pode, é claro, possuir vantagens, que representam os temperos e técnicas incomuns usados na sua preparação. Ataque Especial, por exemplo, poderia representar um tempero forte, que por isso só é colocado em quantidades pequenas; Ataque Múltiplo seria um tempero de efeito longo, cujo gosto é sentido várias vezes em seqüência; Forma Alternativa seria uma pizza com vários sabores; etc. Grosso modo, os PMs de uma pizza representam justamente a quantidade que é possível colocar nela destes temperos, afetando quantas vezes durante uma refeição eles podem ser sentidos.

Pizzas fantásticas: em mundos de fantasia com presença marcante de elementos mágicos, como, digamos, Arton, nada impede que sejam usados feitiços ou itens mágicos para incrementar uma pizza ou qualquer outro prato de comida. De maneira geral, como foram mantidos os mesmos atributos e regras básicas de jogo, você pode usar as mesmas regras normais do 3D&T: um feitiço mágico que melhore o sabor de uma pizza, por exemplo, poderia ser equivalente a Aumento de Dano; um tempero mágico com o mesmo efeito seria o equivalente a uma arma mágica que conceda bônus de Força; etc. No entanto, é o pizzaiolo quem deve possuir estas habilidades e igredientes, comprando-os com seus próprios pontos e gastando os seus próprios PMs para usá-los, de forma que eles não são cobrados da pontuação da pizza, mas somados a ela.

Hora do Almoço!
Estando com a pizza pronta, é hora de comê-la. Você pode montar a ficha dos clientes de uma pizzaria, ou qualquer um que vá comer as pizzas feitas pelo grupo, da mesma forma que as de um personagem normal, com quatro atributos básicos:

Força: representa o rigor crítico do cliente a respeito do que come – ou seja, o quanto ele irá exigir da pizza para que ela o satisfaça, e o quanto irá desgostá-la se não conseguir.
Habilidade: representa o conhecimento técnico do cliente, o quanto ele é capaz de diferenciar uma pizza boa de uma ruim apenas ao saboreá-la.
Resistência: representa o grau de fome e insatisfação geral do cliente, o quanto é necessário para satisfazê-lo – quanto mais Pontos de Vida possuir, maior será a dificuldade da pizza em vencê-lo.
Armadura: representa a resistência geral do cliente a gostar do que come – ou seja, o quão chato e “fresco” ele é.

Comer uma pizza, assim, funciona de forma muito parecida a um combate: a pizza “ataca” o cliente com o seu sabor, diminuindo a sua fome e insatisfação, e ele por sua vez responde com o seu gosto pessoal, julgando e criticando a pizza que comeu. Se o cliente chegar a 0 PVs, estará plenamente satisfeito: sua fome foi saciada, e ele apreciou a refeição. Se, por outro lado, for a pizza que chegar a 0 PVs, isso significa que ela falhou em satisfazê-lo – acabou antes da fome do cliente, ou então não possuía temperos e sabores suficientes para que ele a apreciasse.

Nem sempre, no entanto, qualquer um dos dois chegará a esse ponto. O tamanho de uma pizza é bastante limitado – pode ser uma pizza individual, com apenas dois pedaços, até uma tamanho família ou maior, como pizzas vendidas por metro. Esse tamanho também deve ser levado em conta: a quantidade de ataques disponíveis para uma pizza satisfazer os clientes é limitada pela quantidade de pedaços; uma pizza de 12 pedaços, então, teria direito a apenas 12 ataques, seja contra um único cliente ou vários. Mesmo que ela não seja capaz de satisfazer completamente um cliente, no entanto, satisfazê-lo parcialmente ainda pode ser considerado um sucesso; recomendo que sejam utilizadas as mesmas regras de Fama apresentadas no netbook 3D&T Rock Band para determinar a popularidade de um pizzaiolo e sua pizzaria.

Duelos Culinários
Nem só de satisfazer os seus clientes vive um pizzaiolo – existem também competições de culinária, onde ele pode disputar o título de maior entre os fazedores de pizzas! De maneira geral, estas competições podem ser divididas em dois tipos: duelos de crítica e duelos diretos.
Duelos de crítica são bastante simples: todos os participantes devem preparar uma pizza pequena (em geral com 2 a 4 pedaços), que serão julgadas por uma banca formada por apreciadores e críticos culinários. Cada um dos juízes deve ter uma ficha própria, e, após as devidas rodadas serem jogadas, o mestre deve comparar o seu nível de satisfação em relação a cada pizza concorrente para definir o vencedor.
Duelos diretos são apenas um pouco mais complicados. Ele acontece quando dois pizzaiolos (é complicado fazer com mais do que dois, mas em teoria é possível) duelam diretamente para ver quem é o melhor. Além de preparar a sua própria pizza, assim, cada um deve também provar e resistir aos sabores das pizzas do adversário. Pode ser um duelo com duração fixa, com cada pizzaiolo tendo direito a um número pré-determinado de pizzas para derrotar o oponente; ou então aberto, com cada um preparando quantas forem necessárias para reduzir o adversário a 0 PVs. Caso a quantidade de pizzas consumidas atinja um valor muito absurdo, o mestre pode exigir testes de Resistência para evitar ataques cardíacos e outras ameaças à saúde dos envolvidos.

O Grande Globalizador

3396965440_67acdc2a84O mundo, como qualquer um que não esteja vivendo os últimos meses em uma cápsula de proteção contra um holocausto de zumbis sabe, está em um período de crise. Os pessimistas dizem que é o apocalipse definitivo do capitalismo internacional, enquanto os otimistas dizem que é só a pior crise econômica desde 1929. É o momento de olhar para trás e lavar a roupa suja, apontando os erros de política econômica internacional nos últimos vinte, trinta ou mesmo oitenta anos, e criticando e demonizando abertamente o neo-pós-novo-ultra-power-liberalismo, o crédito virtual, a especulação financeira, a globalização da economia, o comércio livre, a Alca, o FMI, a direção do Grêmio, o técnico da Seleção, etc, etc, etc.

E é, também, o momento de parar por um instante, e refletir e questionar outros elementos do mundo em que vivemos. Pois a mesma globalização que transforma uma crise local em mundial em poucos dias afetou também a nossa cultura em dúzias de outras formas. Hoje, você pode conversar com um amigo virtual indonésio sobre um videogame japonês que os dois conhecem e jogaram, criticar uma nova banda alemã por plagiar os grandes nomes do rock inglês, ou mesmo ler as regras da última sensação do RPG norte-americano enquanto come um Big Mac no centro de uma cidade brasileira. Você pode estar em Tóquio ou em Berlim, e estranhamente se sentir no mesmo local; talvez visite uma loja de histórias em quadrinhos na primeira e os restos de um muro pichado em outra, mas ainda assim verá os mesmos prédios de concreto e vidro, o mesmo asfalto escuro, os mesmos carros em cores neutras, as mesmas multidões sóbrias andando apressadas de um lado para o outro. O mundo globalizado é, em certo sentido, o mundo uniformizado.

Há um elemento, no entanto, que supera todos os outros pelo seu poder uniformizador. O grande globalizador, afinal, não é o McDonald’s ou a Coca-Cola, nem o Tom Hanks ou o Naruto; o maior de todos os globalizadores é um só: o catchup.

Sim, o catchup, este molho de peixes de origem oriental que, no início do século XIX, passou a ser feito com tomates nos Estados Unidos, e hoje é onipresente na cozinha ocidental. Esqueça o símbolo e o seu alcance internacional, no entanto; o seu poder globalizador vai mesmo além deles, e atinge a sua própria função prática enquanto condimento. A comida, afinal, é como a cultura – possui dezenas de sabores e gostos diferentes, é mais rica na diversidade, e é mesmo capaz de se misturar para dar origem a novas e impensáveis possibilidades gastronômicas. Você não vai à África atrás de retiros espirituais, nem à Índia para ver girafas e leões; da mesma forma, não come chocolate quando quer um salgado, e nem um cachorro quente na sobremesa.

No entanto, coloca catchup para tirar o gosto forte de calabresa no salgado que comprou na padaria, e enche dele até as bordas o cachorro quente que comprou na barraquinha da esquina. Você pode ir a qualquer restaurante no mundo e colocar catchup na comida, e assim uniformiza os sabores e destrói a sua individualidade, tirando-lhes o direito de serem únicos e jogando-os todos no mesmo paladar global. E então já não importa se é uma pizza portuguesa ou mussarela, ou se pediu um xis-bacon ou xis-galinha: você está saboreando, efetivamente, o catchup.

Pense bem, portanto, na próxima vez que for colocar catchup na sua porção de batatas fritas. Não é apenas um ato culinário, como pode parecer em um primeiro momento; é um ato político, e não deve ser feito levianamente.


Sob um céu de blues...

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