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The Magicians, de Lev Grossman

– Eu tenho uma teoriazinha que eu gostaria de compartilhar, se eu puder. O que você acha que faz de você um magos? – Mais silêncio. Fogg já estava muito dentro no território das perguntas retóricas de qualquer forma. Ele falou mais levemente. – É porque vocês são inteligentes? É porque vocês são corajosos e bons? É porque vocês são especiais?

“Talvez. Quem sabe. Mas eu vou dizer uma coisa: eu acho que vocês são magos porque vocês são infelizes. Um mago é forte porque ele sente dor. Ele sente a diferença entre o que o mundo é e o que ele faria dele. Ou o que você pensa que aquela coisa no seu peito era? Um mago é forte porque ele sente mais dor do que os outros. Sua dor é sua força.

“A maioria das pessoas leva essa dor dentro delas por toda sua vida, até que matam a dor por outros meios, ou a dor mata elas. Mas vocês, meus amigos, vocês encontraram um meio, um meio de usar a dor. De queimá-la como combustível, para luz e calor. Vocês aprenderam a quebrar o mundo que tentou quebrar vocês.

Lev Grossman, The Magicians.

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Ensaio Sobre o Desânimo

Acho que lembro bem do último evento de anime que fui. Um amigo tinha recebido espaço da organização pra divulgar um fanzine de RPG, e eu era parte do “staff” dele; talvez já nem tivesse ido não fosse por isso, já que fazia um bom tempo tinha desanimado de pagar ingresso e pegar fila. O fato é que foi durante ele que eu tive um daqueles momentos de epifania, em que nossas vidas mudam de uma hora pra outra. Você sabe, tipo aquele meme da internet.

clarence

Você olha para os lados se perguntando, “o que eu tô fazendo aqui?” Não era o único cara de vinte e poucos anos lá, mas claramente era parte de uma minoria. Muitos adolescentes, gente quatro, cinco, seis anos mais jovem que eu; muitos cosplays e tudo mais. De repente, comecei a pensar como era quando eu mesmo comecei a me interessar por esse tipo de coisa. Eu comprava fitas de animes legendados em fansubbers. Devia ser o único cara que gostava de animes na minha turma de colégio. Mangás? Era uma coisa quase mítica, salvo um eventual Lobo Solitário ou Akira encontrado num sebo.

A verdade é que, olhando ao redor, eu não sentia raiva de ninguém lá, dessa “juventude perdida” ou qualquer coisa assim. Pelo contrário – sentia inveja. Assistir animes, jogar videogames, consumir nerdices quase sempre havia sido uma atividade solitária para mim, um momento de introspecção. Tive meus amigos com quem joguei Magic: the Gathering e RPG, mas boa parte deles já tinha abandonado essa vida – havia talvez dois ou três com quem eu ainda dividia essas atividades eventualmente, se tanto. E agora via aqueles adolescentes em bandos se divertindo, interagindo, namorando. O tipo de experiência que eu não tinha conseguido ter na idade deles (sim, eu era o seu típico nerd virjão aos quinze anos).

A impressão que eu tinha era de ter me adiantado ao zeitgeist. Tivesse sido só alguns anos mais jovem, poderia estar aproveitando o evento como eles.

Esse mesmo tipo de isolamento, de se sentir alheio a tudo, me perseguiu por quase toda a vida. Acho que desde que tomei consciência de mim mesmo tenho sido uma pessoa melancólica. Lembro de já ter falado disso aqui antes, não? De como tenho a impressão de viver na Era da Depressão. (Que nome pra um volume apócrifo do Hobsbawn, hein). Outro dia, uns meses atrás, tirei uma foto com colegas de faculdade, e, na legenda, ao darem um adjetivo para cada um, me descreveram como “melancolia;” é engraçado, pois me lembro claramente de estar tentando sorrir. E juro por Marc Bloch que, cada vez que me pedem para sorrir, em pelo menos dois terços das vezes eu já estou sorrindo.

Tenho pensado muito nesse tipo de coisa recentemente, ao me deparar com esses extremismos de Facebook. Cada vez que um parente anuncia apoio ao Bolsonaro ou ao MBL; cada vez que um ex-colega de escola defende que bandido tem mais é que apanhar; cada vez que descontam como “opinião” a análise de especialistas com quarenta anos de carreira acadêmica (afinal, é tudo ideologia mesmo)… Acabo voltando a esses pensamentos. Já passei muito do estágio da negação, da irritação, do enfrentamento. Cada vez que olho um deles, hoje em dia, a única coisa que consigo sentir é desânimo.

Tenho uma esperança sincera de que as coisas melhorem eventualmente; de que racismos, machismos, classismos se resolvam e deixem de existir, ou pelo menos diminuam gradualmente. Da minha forma, do alto dessa melancolia e desânimo que minam boa parte da minha proatividade, tenho tentado ajudar – sei que tento, eu mesmo, ser uma pessoa melhor, menos preconceituosa, mais consciente e crítica dos meus próprios privilégios. Talvez nem sempre consiga, mas pelo menos sempre tento.

Ao mesmo tempo, no entanto, me sinto desanimado de viver num mundo em que esse estágio ainda não tenha sido atingido. Às vezes sinto que, de novo, estou me adiantando demais ao zeitgeist.

Haicai (4)

Morro um pouco
A cada dia.
Qualquer dia eu termino.

Eeeee Eee Eeee

Eeeee Eee Eeee é um livro… Esquisito. Começando pelo nome: é uma transcrição do som que os golfinhos fazem, como uma onomatopéia mesmo, e que por razões que ficarão claras mais adiante surgem mais de uma vez ao longo do texto. Para além disso, ele conta a história de Andrew, um jovem nos seus vinte e poucos anos que trabalha como entregador em uma pizzaria Domino’s e basicamente não tem muitas perspectiva de futuro, exceto chorar a perda da ex-namorada, jogar pôquer e comer sushi com um antigo amigo de escola, e passar as madrugadas escrevendo histórias curtas. Até o fim do livro ele terá tido a vontade de sair em uma cólera assassina uma dúzia de vezes, encontrará animais falantes como ursos, golfinhos e alces, que por sua vez assassinarão celebridades como Elijah Wood, Salman Rushdie e Wong Kar-Wai, e ouvirá uma lição de moral do presidente dos Estados Unidos em um restaurante japonês, mas não mudará efetivamente nada em sua vida.

Resumindo, portanto, é um livro que sai do nada e vai para lugar nenhum – e essa é, na verdade, a sua grande qualidade. Entre a primeira e última frases o que se tem é uma crônica muito sincera de um estado de espírito, o dia-a-dia de vidas sem rumo e em depressão verdadeira, aquela que não é uma mera tristeza profunda, como quem nunca passou por isso parece achar que é, mas sim uma falta de vontade e de energia para viver. Se as aparições de animais falantes com poderes mágicos parecem absurdas e gratuitas, na verdade isso é um reflexo do próprio absurdo que é a vida aos olhos desses personagens – um mundo onde um golfinho pode matar uma celebridade a pauladas em uma ilha deserta e isso ser visto como algo banal, sem qualquer significado.

Nisso pode-se dizer que o livro lembra algo de um Charles Bukowski na última potência, com seus personagens vazios e marginalizados, a sujeira barrada no filtro do “sonho americano,” mas aqui longe das bebidas e das mulheres que disfarcem o seu fracasso. Mesmo o estilo do texto lembra um pouco as descrições cruas e frases curtas do velho safado germano-americano, que podem ser facilmente confundidas com descuido literário, mas que estão na verdade sempre certeiras no seu posicionamento, sem excessos nem arestas mal aparadas. Se a ação é truncada, com mais pontos finais do que vírgulas, é porque é assim também que os personagens se sentem quando fazem alguma coisa, repletos de incertezas e hesitações; e quando estas hesitações desaparecem temos algumas passagens de brilho verdadeiro, enquanto o autor discursa sobre a solidão, a natureza da consciência, e o que é, afinal, a felicidade.

No fim, certamente não vou dizer que Eeeee Eee Eeee seja um livro recomendado sem ressalvas para qualquer um. O estilo único demais e a falta de uma direção no enredo devem entediar e afastar a maioria dos leitores. Comigo, no entanto, ele ressoou de forma bastante forte, me remetendo à minha experiência pessoal e a forma como eu encarava a vida até não muito tempo atrás, que deixou feridas ainda abertas e lacunas profundas na forma como eu me relaciono com outras pessoas.  Se, como eu refleti em outro momento, vivemos mesmo na Era da Depressão, talvez o autor Tao Lin seja o cronista mais sincero desta geração.

O Rei Mago

O Rei Mago é, sem firulas, a continuação de Os Magos, livro que eu havia resenhado ainda na edição importada, The Magicians, antes de uma edição nacional ser sequer sonhada. Vale destacar, aliás, a velocidade da editora Amarilys em trazer o livro tão rápido para cá – ele foi lançado em língua inglesa em agosto passado, e no começo deste ano já era possível encontrar a tradução nas lojas! Preferi valorizar o nosso mercado local, assim, e comprar esta versão, ao invés de ter todo o trabalho de importá-lo de terras estrangeiras, por mais que a capa britânica tenha ficado absurdamente mais bonita.

Em todo caso, o livro continua a história de Quentin Coldwater, o nosso misto de Holden Caulfield e Harry Potter preferido, já anos depois de se formar na universidade mágica de Brakebills e ter a sua primeira viagem trágica para o reino encantado de Fillory. Agora, junto com alguns antigos colegas e amigos, ele se tornou um dos quatro reis do local, passando seus dias entre banquetes vistosos, caçadas mágicas e aparições públicas na varanda do seu castelo. Seria um belo de um final feliz para a sua história, não fosse o fato de que ele ainda sente falta de alguma coisa, algo que deixou para trás mas que não consegue exatamente nomear – e será esse sentimento, é claro, que porá tudo a perder, e o forçará a entrar em uma nova jornada de auto-descoberta até os confins do mundo conhecido.

Paralelamente a esta viagem conhecemos a história de Julia, amiga de infância de Quentin e agora também uma rainha de Fillory, que havia sido recusada em Brakebills e teve que descobrir a magia sozinha, pagando um preço altíssimo por ela. Na verdade, aqui ela é muito mais propriamente uma protagonista do que Quentin: aproximadamente metade do livro envolve a sua história pessoal atrás dos segredos arcanos que lhe foram negados no livro anterior, e é através dela que todo o seu cenário e o universo, antes praticamente restritos a Brakebills e Fillory, se desenvolve e expande, tomando ares de uma fantasia urbana que não deve nada a qualquer história do Neil Gaiman.

É também a história de Julia que compreende o lado mais intenso do livro, aquele que nos dá um nó na garganta ao se aproximar do desfecho e nos deixa pensativos por dias a fio. O autor Lev Grossman costuma se basear e fantasiar a sua própria história pessoal, muitas vezes levada na base de consultas psiquiátricas e anti-depressivos, para criar seus personagens, e isso dota eles de uma força e realidade bastante únicas, mesmo quando jogados em um mundo repleto de magia e seres mitológicos. Já falei um pouco sobre estas histórias antes, que ele costuma relatar algumas vezes no seu blog pessoal, e a forma como eu me identifiquei e relacionei com elas. Acho que a melhor descrição que vi sobre o resultado está em alguma resenha que li algum tempos atrás, embora não consiga me lembrar onde: ele é ao mesmo tempo uma homenagem sincera e envolvente às histórias de fantasia clássicas como as Crônicas de Nárnia e Harry Potter, e uma desconstrução extremamente crítica delas e daqueles que as lêem; ao mesmo tempo em que nos encanta com um mundo maravilhoso repleto de fantasia, ele também nos puxa bruscamente de volta à realidade, chutando o escapismo para longe e nos fazendo parar e refletir sobre nós mesmos, raramente de forma elogiosa.

Na soma geral, em todo caso, acho que me envolvi e cativei mais com o primeiro livro do que este. Ele tem o lado positivo de ser mais direto e objetivo na ação, sem se estender por metade do livro em desventuras estudantis; por outro lado, por ter lido o anterior justamente durante o meu período de ressaca pós-formatura, acho que elas ajudaram mesmo que eu me identificasse com os personagens e situações, e tornasse a experiência toda de ler ele um tanto mais intensa. Não sei também até que ponto o fato de eu ter lido uma tradução atrapalhou nisso, mas eu senti o estilo um pouco mais exagerado e cru do que o anterior, nem sempre com frases e parágrafos muito bem aparadas e retinhos. Aliás, se anteriormente eu elogiei a velocidade da editora em lançá-lo, aqui vale um puxão de orelha também: o texto final em português me pareceu um tanto mal revisado, errando, por exemplo, praticamente todos os particípios do verbo pagar, além de algumas frases que alguém com algum conhecimento de inglês consegue facilmente reverter para a língua original e pensar em uma tradução melhor. Não é nada que realmente prejudique a leitura, mas incomoda um pouco, especialmente se pensarmos que são coisas que poderiam ser evitadas com uma ou duas revisões a mais; alguns meses a mais para ter o livro em mãos não me incomodariam nem um pouco para ter um produto melhor acabado.

É interessante destacar também a forma como o livro deixa a a possibilidade aberta para ainda outra continuação, provavelmente fechando uma trilogia (ou até mesmo uma série maior, vai saber). Antes que critiquem, no entanto, é bom deixar claro que a história é perfeitamente autocontida, resolvendo de forma satisfatória todas as tramas e subtramas que ela mesma propõe, com todos os três atos narrativos perfeitamente bem estabelecidos; se você consegue perceber esta abertura, é muito mais por dicas e comentários laterais, deixados entendidos nas entrelinhas, e no final um tanto melancólico que na verdade nos deixa desejando que uma continuação venha, mais do que meramente esperando. Sem contar, é claro, em todos os personagens cativantes que conhecemos ao longo do livro, que passamos às vezes a ver mesmo como amigos pessoais, e que sinceramente gostaríamos de ter a oportunidade de encontrar novamente. Bom, eu gostaria, pelo menos.

Enfim, O Rei Mago é um ótimo livro, uma continuação perfeitamente a altura de um livro tão marcante como foi o primeiro Os Magos para mim. Recomendo ambos enormemente.

Lev Grossman e a Depressão

Um texto recente no blog do Lev Grossman, colunista da Time e autor do livro The Magicians, fala de algumas experiências dele quando tinha seus vinte e poucos anos, tinha saído da faculdade e começava a tentar ganhar a vida; um texto anterior também já tinha explorado algumas experiências semelhantes, falando de quando ele se isolou no estado do Maine pra tentar escrever um livro. Ler estes relatos foi de certa forma catártico pra mim, em parte porque eu me sinto atualmente em uma situação muito semelhante, e, à parte por diferenças óbvias de contexto, conseguia me ver muito bem em cada parágrafo e entendia perfeitamente cada atitude que ele dizia tomar. E é curioso como eu também conheço um punhado de gente que provavelmente se identificaria com os casos contados.

Isso me remete a uma das histórias autobiográficas do Robert Crumb no livro Minha Vida, em que ele relembra um pouco de como foram os “loucos anos 60” pra ele. Em um determinado momento, ele comenta que os pais dele e de outros jovens da época contavam histórias de suas participações na guerra, em especial a Segunda Guerra Mundial, enquanto eles agora contam histórias sobre uso de LSD e outras drogas de alteração da consciência como as principais experiências que marcaram a sua juventude. O que me lembra também algumas das histórias que eu já ouvi dos meus próprios pais, falando de como foram os vinte e poucos anos deles durante os “loucos anos 80”.

Às vezes eu me pego imaginando que tipo de histórias eu vou contar para os meus filhos. A conclusão que eu chego é que elas muito provavelmente serão parecidas com as do Grossman – ao invés de falarem sobre experiências de guerra ou drogas, falarão sobre solidão, sobre se sentir sem rumo na vida, e sobre estar desperdiçando os anos de juventude. Serão histórias de depressão.

Parece um pouco lógico, até, quando se para pra pensar a respeito: uma geração de soldados criados na rigidez da guerra e dos valores tradicionais foi seguida por uma geração de rebeldes e drogados, que, por sua vez, precedeu uma geração de solitários sem rumo. Sei que dificilmente isso também valha para os meus amigos em situação semelhante, mas eu me sinto um pouco intimidado ao pensar nessas histórias dos meus pais. É engraçado lembrar que eles, com a minha idade, já tinham dois filhos; faz eu pôr muita coisa em perspectiva.

Mas enfim, talvez também não dê para generalizar. Conheço um punhado de gente em situação parecida, mas é um pouco de pretensão minha querer chamar esta de a “geração da depressão”. Só sei que muitas das minhas histórias na velhice muito provavelmente começarão com um então, eu tava na maior fossa…


Sob um céu de blues...

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