Posts Tagged 'dia dos namorados'

Dia dos Namorados

– É um presente para nós dois. – ele disse ao entregar o pacote. Ela o abriu e respondeu com um sorriso com o canto do lábio. Tirou dele a lingerie, uma peça preta com bordados e um corpete transparente, e a examinou inteira.

– Adorei!

No dia seguinte, ela liga desesperada para o namorado.

– Amor! Eu queria te fazer uma surpresa, mas não acho a lingerie que você me deu de presente em lugar nenhum!

– Mas querida – ele responde. -, eu disse que o presente era para nós dois…

Namoro Virtual

Modernidades (3)

Ocupavam uma mesa pequena em um restaurante luxuoso, com luzes fracas simulando a iluminação de velas. Os olhos dele se esquivavam dos dela enquanto comiam, o rosto avermelhado e as mãos tremulantes ao segurar os talheres traindo a timidez que tentava esconder. Finalmente, antes da sobremesa, ele tomou coragem em um fôlego profundo, segurou firmemente as mãos dela, e olhou diretamente nos seus olhos.

– Paula. – disse.

– Sim.

– Você… Você quer… – tropeçava nas palavras, que pareciam não querer sair da sua garganta. – Quer colocar os nossos computadores em rede?

Os olhos dela se encheram de lágrimas e emoção.

– Sim! Sim! Mil vezes sim!

Então a puxou para perto, os olhos dela também afogados em lágrimas, e ambos trocaram o mais ardente beijo de suas vidas até então.

Como Se Fosse a Primeira Vez

como-se-fosse-a-primeira-vez-poster012Ainda no clima do dia dos namorados, então. Acho que já disse isso antes, mas eu não sou exatamente um fã de comédias românticas – o que não impede, é claro, que algumas vezes uma história do gênero se mostre realmente interessante e consiga me tocar de alguma forma. Como se Fosse a Primeira Vez é uma das que conseguiu essa façanha.

O feito se explica por uma boa série de méritos que o filme despretensiosamente atinge, a começar pela ótima premissa, fugindo do chavão e do lugar comum ao colocar Henry Roth, o bobalhão típico interpretado pelo Adam Sandler (e tão típico que não há como negar que ele desenvolveu uma certa competência em fazê-lo) tendo que diariamente conqusitar a carinha de anjo de Lucy (Drew Barrymore), que, por causa de um acidente que prejudicou a sua capacidade de reter memórias, sempre se esquece dele no dia seguinte. Passa ainda pela forma como o roteiro constrói e logo desconstrói todas as expectativas típicas do gênero, fugindo de forma magistral do “final feliz que magicamente resolve tudo” (mas sem, é claro, deixar de ter um belo final feliz); e também pelas ótimas tiradas cômicas do Adam Sandler, muito bem apoiadas pelo elenco coadjuvante, sobretudo o Rob Schneider no papel do havaiano Ula. Tudo se completa ainda com a excelente escolha do cenário do filme no Havaí, que ajuda a criar um clima exótico e fabulesco para o desenvolvimento da história. E eu já falei na carinha de anjo da Drew Barrymore?

O que eu poderia destacar de negativo, talvez, seja a duração curta, que obriga o roteiro a ter alguma pressa em tratar de certos assuntos. A forma como o personagem principal conhece a mocinha e se apaixona por ela, por exemplo, acontece em pouquíssimas cenas, parecendo um pouco rápido e “mágico” demais. Por outro lado, isso acaba se tornando outro dos méritos do filme, ao permitir que o roteiro se foque mais nos esforços dele para conquistar seu par, fugindo do lugar comum do gênero de se focar no ponto de vista feminino; no fim, portanto, o saldo pende muito mais para o lado positivo do que o negativo.

Enfim, Como se Fosse a Primeira Vez é uma comédia bem bacana e original, que consegue ser tocante sem ser enfadonha, e foge bem dos clichês do gênero. Acredito que mesmo se você for um daqueles estereótipos de marmanjão brucutu ainda pode se divertir despretensiosamente com ela em uma tarde chuvosa de sábado depois da desclassificação do time no Brasileirão, e, de quebra, ainda fingir pr’aquela estagiária gata do serviço que você pode ser o cara sensível e romântico que ela sempre diz estar procurando.

Vingança

Pedro abria o presente com um sorriso no rosto, desfazendo o pacote lentamente. Estava curioso, mas era gostoso aproveitar cada instante do suspense. Marcela, à sua frente, também era só sorrisos, ansiosa para saber se acertara na escolha. Quando ele afinal terminou e viu o que era, calou-se.

– E então? Gostou?

Era Uma Vez no Oeste. Do Leone. – Pedro olhava apático para a caixa do DVD. – Você sabe o que isso significa?

– O quê? – o sorriso de Marcela deu lugar a um olhar preocupado.

– Você poderia me dar qualquer coisa. Podia ser um livro, ou um CD. Até outros DVDs, de comédias, de ação, de concorrentes ao Oscar. Mas não; me deu um faroeste, do Sérgio Leone. E Leone é para sempre. Não é um filme que eu vou ver e esquecer, mas que eu vou ver, rever, e rever outra vez, com som original, dublado, com legendas, sem legendas. E, cada vez que eu ver esse filme, eu vou me lembrar de você. – Pedro agora olhava seriamente nos olhos de Marcela. – Entende agora o que significa esse presente? Eu não posso ver um filme do Leone e lembrar de uma ex-namorada. Seria doloroso demais. E isso logo se repetiria com todos os outros filmes dele também. Minha vida acabaria. No momento em que você escolheu este filme para me dar de presente, você selou o nosso destino juntos. Para sempre.

– Que bom. – Marcela improvisou um sorriso de uma orelha à outra, e beijaram-se calorosamente.

E amaram-se para sempre, durante seis meses. Então, em meio à decepções e mentiras, acabou, e Marcela, arrasada, foi chorar com uma amiga.

– Nossa! Imagino que você tenha pego de volta tudo o que deu de presente pra ele, né? – a amiga perguntava. – Todos aqueles filmes…

– Ah, não! Eu fiz pior que isso. – o choro então se converteu em um sorriso maldoso. – Eu não peguei eles de volta.


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