Posts Tagged 'diálogos'

Elas adoram (um diálogo)

– Eu coço o saco em público, cuspo no chão, arroto quando tenho vontade, espirro alto na rua, evito pegar nas mãos de homem, muito prazer eu sou machão e elas adoram.
– Me diga uma mulher que adore então.
– Ora, a minha esposa, com quem eu sou casado há trinta anos! Querida, vem cá!
– O que foi, querido?
– Você não adora que eu seja assim?
– Assim como?
– Ora, um machão! Que coça o saco em pública, cuspa no chão, arrote quando quer, não pegue na mão de homem!
– Bem, já que você perguntou… Eu tenho um pouco de vergonha de quando você coça o saco em público.
– Eu não dis… o quê?
– E cuspir no chão! Você não percebe o quanto isso é nojento? Eu viro a cara sempre que você faz isso pra não ver.
– Mas…
– E esses arrotos! Eu juro que, às vezes, quando estamos na rua, eu dou um passo pro lado e finjo que não te conheço.
– Mas querida…
– E qual o problema em pegar nas mãos dos seus netos de vez em quando? Eles genuinamente acham que você não gosta deles.
– Mas esse é o meu jeito machão!
– …
– …
– Sim, querido, eu adoro que você seja assim.
– Eu não disse? Elas adoram!

Wonderbook, de Jeff VanderMeer

WonderbookPg31_473Ao longo dos anos, eu aprendi a sempre ter caneta e papel comigo – mesmo na mesa de cabeceira – para que se eu acordar no meio da noite, ter o mínimo de tempo possível entre a ideia e o registro da ideia. Eu às vezes escrevo no celular, mas baterias de celular podem acabar, e celulares podem resetar, apagando as notas, então eu sempre prefiro caneta e papel. Eu também não faço cerimônia ou cortesia se eu estou com pessoas e uma ideia surge – eu apenas paro a conversa e escrevo o que precisa ser escrito. Se você observar todas as delicadezas sociais, você pode perder algo importante. Imagens, personagens, fragmentos de diálogo são todos incrivelmente vulneráveis à erosão pelo ambiente.

(Jeff VanderMeer, Wonderbook – The Illustrated Guide to Creating Imaginative Fiction)

– Vai, amor, vai… Assim, isso… Tá gostoso… Não para, não par– Amor?

– Desculpa, querida, mas eu tenho que anotar uma ideia aqui!

Fim de Namoro

broken_heart1– Eu te amo.

– E eu te amo.

– Mas eu te amo mais.

– Não, eu que te amo mais.

– Mas isso é impossível. Eu que te amo mais.

– Eu que te amo mais.

– Eu que amo!

– Eu!

– Não, eu!

– Eu!

– EU!

– EU!!!

– Quer saber? Não te amo mais. Nunca mais quero te ver. Tchau!

– Pois já vai tarde! Até nunca mais!

Perfumaria

Uma senhora vestida de forma elegante, com o pescoço, pulsos e orelhas adornados por joias, entrou na loja e observou por alguns instantes os frascos expostos nas vitrines, antes de ser atendida por um dos vendedores.

– Posso ajudá-la?

– Eu gostaria de um frasco de pós-modernismo.

– Ah, sim. Venha comigo, por favor.

O vendedor a levou até o interior da loja, apontando para uma das prateleiras cujos produtos ela começou a examinar.

– Ouvi dizer que esse Foucault é muito bom. – disse, após algum tempo.

– Ah, sim. – respondeu o vendedor. – É um dos melhores. Mas, se me permite a opinião, o pós-modernismo está um pouco fora de moda.

– E o que você sugere?

– Atualmente estamos vendendo muito neomarxismo. – pausou por um instante, avaliando o interesse da cliente. – O marxismo, aliás, nunca sai de moda por aqui, especialmente entre os jovens.

– Ah, mas eu queria alguma coisa diferente, sabe? Algo que me desse um certo ar de superioridade moral, como uma verdade absoluta.

– Bem, posso lhe mostrar algumas das nossas linhas reacionárias e conservadoras. Temos liberais e autoritárias, de acordo com a preferência do cliente. Sempre vendem bem, apesar de poucos admitirem que usam.

– Ah, sim. Acho que vou dar uma olhada.

O vendedor levou a senhora até uma estante do outro lado da loja, onde ela examinou os frascos expostos em uma das prateleiras. Experimentou algumas das fragrâncias, e afinal se decidiu. Agradeceu ao vendedor e se dirigiu ao caixa para pagar a compra com o cartão de crédito, então pegou a sacola e foi embora.

Passeio com o Cachorro

– Quer cruzar? – perguntou a moça em roupa de ginástica segurando a guia de um poodle.

– Não dá, é castrado.

– Eu não tava falando dos cachorros.

– Eu também não…

Operação

– Agora metade do meu coração é seu.

– E metade do meu é seu.

Os olhos de ambos brilhavam enquanto falavam, suas mãos segurando-se uma na outra no espaço entre as camas onde deitavam para se recuperar da cirurgia.


Sob um céu de blues...

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