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Wonderbook, de Jeff VanderMeer

WonderbookPg31_473Ao longo dos anos, eu aprendi a sempre ter caneta e papel comigo – mesmo na mesa de cabeceira – para que se eu acordar no meio da noite, ter o mínimo de tempo possível entre a ideia e o registro da ideia. Eu às vezes escrevo no celular, mas baterias de celular podem acabar, e celulares podem resetar, apagando as notas, então eu sempre prefiro caneta e papel. Eu também não faço cerimônia ou cortesia se eu estou com pessoas e uma ideia surge – eu apenas paro a conversa e escrevo o que precisa ser escrito. Se você observar todas as delicadezas sociais, você pode perder algo importante. Imagens, personagens, fragmentos de diálogo são todos incrivelmente vulneráveis à erosão pelo ambiente.

(Jeff VanderMeer, Wonderbook – The Illustrated Guide to Creating Imaginative Fiction)

– Vai, amor, vai… Assim, isso… Tá gostoso… Não para, não par– Amor?

– Desculpa, querida, mas eu tenho que anotar uma ideia aqui!

Fim de Namoro

broken_heart1– Eu te amo.

– E eu te amo.

– Mas eu te amo mais.

– Não, eu que te amo mais.

– Mas isso é impossível. Eu que te amo mais.

– Eu que te amo mais.

– Eu que amo!

– Eu!

– Não, eu!

– Eu!

– EU!

– EU!!!

– Quer saber? Não te amo mais. Nunca mais quero te ver. Tchau!

– Pois já vai tarde! Até nunca mais!

Perfumaria

Uma senhora vestida de forma elegante, com o pescoço, pulsos e orelhas adornados por joias, entrou na loja e observou por alguns instantes os frascos expostos nas vitrines, antes de ser atendida por um dos vendedores.

– Posso ajudá-la?

– Eu gostaria de um frasco de pós-modernismo.

– Ah, sim. Venha comigo, por favor.

O vendedor a levou até o interior da loja, apontando para uma das prateleiras cujos produtos ela começou a examinar.

– Ouvi dizer que esse Foucault é muito bom. – disse, após algum tempo.

– Ah, sim. – respondeu o vendedor. – É um dos melhores. Mas, se me permite a opinião, o pós-modernismo está um pouco fora de moda.

– E o que você sugere?

– Atualmente estamos vendendo muito neomarxismo. – pausou por um instante, avaliando o interesse da cliente. – O marxismo, aliás, nunca sai de moda por aqui, especialmente entre os jovens.

– Ah, mas eu queria alguma coisa diferente, sabe? Algo que me desse um certo ar de superioridade moral, como uma verdade absoluta.

– Bem, posso lhe mostrar algumas das nossas linhas reacionárias e conservadoras. Temos liberais e autoritárias, de acordo com a preferência do cliente. Sempre vendem bem, apesar de poucos admitirem que usam.

– Ah, sim. Acho que vou dar uma olhada.

O vendedor levou a senhora até uma estante do outro lado da loja, onde ela examinou os frascos expostos em uma das prateleiras. Experimentou algumas das fragrâncias, e afinal se decidiu. Agradeceu ao vendedor e se dirigiu ao caixa para pagar a compra com o cartão de crédito, então pegou a sacola e foi embora.

Passeio com o Cachorro

– Quer cruzar? – perguntou a moça em roupa de ginástica segurando a guia de um poodle.

– Não dá, é castrado.

– Eu não tava falando dos cachorros.

– Eu também não…

Operação

– Agora metade do meu coração é seu.

– E metade do meu é seu.

Os olhos de ambos brilhavam enquanto falavam, suas mãos segurando-se uma na outra no espaço entre as camas onde deitavam para se recuperar da cirurgia.

Telefonema (2)

O telefone tocou, e um jovem rapaz de cabelos escuros levantou do sofá para atender.

– Alô?

– Quem fala?

– Aqui é o Pedro.

– O Pedro? Nossa… Funciona mesmo! Putz, se eu soubesse disso antes de entrar na cabine…

– O que funciona?

– Esse telefone… Cara, eu… Eu sou você! Esse telefone permite a gente ligar para o passado!

– O quê? Isso é algum tipo de trote?

– Não, não! Não desliga, cara, eu posso provar que eu sou você. Sabe aquela cicatriz que você tem no joelho esquerdo, e conta pra todo mundo que foi um acidente de bicicleta? Bem, na verdade…

– Tá certo, tá certo, eu acredito em você. Mas e aí, como é o futuro?

– Ah, não é muito diferente do passado.

– Alguma dica interessante? Tipo, números da loteria ou coisa assim?

– Não sei, cara. Se eu tivesse certeza que esse negócio funcionava, eu teria comprado um jornal antes de entrar. E eu to sem moedas pra fazer outra ligação depois.

– Nossa, que pena.

– Pois é.

– E a Carla? Como é que é o nosso futuro juntos?

– Carla? Ah, é mesmo, a Carlinha… Olha, não é um futuro muito bom. Na verdade, eu acho que melhor era você larg…

*click*

*tuu… tuu… tuu…*

– Quem era? – perguntou a moça que esperava no sofá onde jovem estava sentado antes do telefone tocar.

– Ah, nada de importante. Só algum moleque passando trote.

A Loja

Entrou na loja e calmamente começou a olhar as vitrines e estantes. Vários corações, de tamanhos, cores e formas variadas, eram expostos em prateleiras, caixas e balcões; ele os observava um por um, pegando-os para examinar, lendo com cuidado as especificações. Logo um vendedor chegou para atendê-lo.

– Posso ajudá-lo?

– Eu queria um de dois giga. – colocou de volta na prateleira o coração que estava examinando. – Tem?

O vendedor pensou por alguns instantes, olhando para o chão.

– Acho que tem, mas tá quebrado.

– Pode ser.

E saiu da loja cabisbaixo, os passos curtos e arrastados, as mãos escondidas nos bolsos da calça, levando o coração partido.


Sob um céu de blues...

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