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Tio Patinhas nº 580 – Moby Dick

TP580Fazia tempo que eu não parava para ler algum quadrinho Disney, que tanto marcaram a minha infância com os clássicos de Carl Barks e Don Rosa. Mas aí, passando na banca de revistas de uma livraria, vi a capa deste número da revista do Tio Patinhas, folheei algumas páginas e não resisti.

A edição é toda dedicada a uma versão do clássico Moby Dick, de Herman Melville, estrelada pelos patos clássicos do universo Disney: Donald como o marujo Ismael, o próprio Tio Patinhas como o capitão Quakhab, e mesmo Huguinho, Zezinho e Luisinho como uma versão tripartite do arpoeiro Queequeg. No roteiro, Dona– digo, Ismael embarca em um navio baleeiro pelo seu desejo de voltar ao mar, e logo descobre que se meteu em uma bela fria: o capitão do navio é obcecado por encontrar uma baleia cachalote chamada Moby Dick, ou “a baleia banco,” que no passado teria lhe tirado o seu bem mais precioso – não, apesar do toco de madeira que usa para substituí-la, não é a sua perna, mas algo que qualquer um que tenha crescido assistindo DuckTales é capaz de adivinhar.

Há, é claro, uma boa dose de adaptações e mudanças do texto original. Além da própria motivação de Quakhab, que aqui é mais do que uma mera vingança pessoal, há diversas inclusões do universo dos patos nos personagens, inclusive a participação de uma certa antagonista clássica do Tio Patinhas. No entanto, há também uma tentativa bem clara de se manter fiel e fazer referência à obra, seguindo as suas tramas principais, e mesmo com citações diretas de passagens clássicas. No final da revista, há ainda uma sessão especial sobre as origens da história e outras baleias famosas da literatura e cultura popular.

A arte é um destaque à parte, com um traço e cores muito bem feitos. Em especial, a caracterização de Patinhas como Quakhab ficou muito boa, cheio de trejeitos e gestos exagerados. Fosse um ator, mereceria uma indicação ao Oscar.

Claro, há de se destacar que é um quadrinho Disney, um dos símbolos da cultura norte-americana, então há toda uma bagagem política e social que não pode ficar sem comentário. Não vou ser anal-retentivo a ponto de dizer que ela é uma clara tentativa de impor a ideologia capitalista nas mentes puras das nossas crianças inocentes, mas é difícil não notar que há uma certa ponta de preconceito na caracterização de personagens não-patos-brancos-anglo-saxões. Há o jeito de falar dos sobrinhos-Queequeg, repleto dos clichês linguísticos de povos primitivos, e também um certo ataque de piratas corvos, a ave tradicional de personagens afro-descendentes no universo Disney. Não prejudica a leitura de quem quer apenas uma versão alternativa de uma obra clássica, mas está lá para quem quiser ser paranóico.

Na soma total, gostei da história, achei divertida e uma forma bacana de introduzir jovens a um clássico da literatura universal. E, claro, com preço de gibi, o que sempre é um alívio para o bolso.

John Carter: Entre Dois Mundos

Antes de falar propriamente de John Carter: Entre Dois Mundos, acho que é importante destacar alguns pontos relevantes sobre ele e a obra que lhe deu origem. Para quem não sabe, o filme é baseado em um clássico da ficção científica do norte-americano Edgar Rice Burroughs, que foi recentemente reeditado no Brasil com o nome de A Princesa de Marte. Suas histórias foram publicadas originalmente em revistas pulp no começo do século passado, mais precisamente a partir de 1912; o fato do filme estar sendo lançado neste ano, portanto, não é exatamente uma coincidência, mas sim uma homenagem aos cem anos do personagem.

Em todo caso, o importante é ter em mente que a noção de ficção científica que se tinha um século atrás não era exatamente a mesma de hoje em dia, especialmente quando levamos em consideração aquela que era publicada neste tipo de revista. As divisões entre ela, a fantasia e o horror não eram assim tão nítidas quanto muitos consideram hoje, e você podia encontrar em uma história do Conan um culto de seguidores de Nyarlathotep, ou em uma pertencete aos Mitos de Cthulhu um viajante espacial. Some-se ainda os próprios avanços no conhecimento científico desde então – se hoje se sabe que as perspectivas de encontrar uma civilização humanoide perdida em marte não são exatamente muito animadoras, naquela época não era bem assim.

Isso faz muita diferença aqui, pois, ao invés de seguir o caminho fácil de tentar atualizar o personagem e torná-lo mais aceitável dentro dos paradigmas e conceitos do mundo atual, desde o início se vê que o objetivo é sim o de fazer uma homenagem à série original, até mesmo com uma pequena ponta do próprio Rice Burroughs no roteiro. Afinal, em um mundo onde as Tartarugas Ninja podem virar alienígenas, quanto custaria para fazer de John Carter um executivo falido de Wall Street, do seu método de viagem espacial algum experimento secreto da NASA, ou ter a Marte/Barssom dos romances originais substituída por Gliese 581c ou qualquer outro exoplaneta semelhante à Terra descoberto recentemente? Assim, antes de imaginá-lo como uma nova Tenente Ripley, pense nele como uma variação genérica do Conan (ou do He-Man – você também vai pensar nisso ao chegar em uma determinada cena, não se preocupe; e muito embora cronologicamente ele esteja mais para o seu avô), apenas substituindo os feiticeiros e demônios místicos por tecnologias alienígenas.

Essa tentativa de se manter fiel ao clima original de “espada de planeta” (ou sword and planet) é tanto o ponto fraco como o forte do filme. Ela realmente afasta um tanto a história do zeitgeist contemporâneo, digamos assim, por forçar um pouco demais a verossimilhança e a sua suspensão de descrença para funcionar direito; não surpreendentemente, o filme tem dado já um certo prejuízo. Por outro lado, no entanto, ele consegue ao mesmo tempo resgatar algo de nostalgia das aventuras despretensiosas de fantasia e ficção científica oitentistas, na linha de um Krull, O Último Guerreiro das Estrelas ou os filmes originais de Guerra nas Estrelas (quando a licença da série ainda permitia que o seu nome fosse traduzido para a língua de cada país), por exemplo.

Isso se reforça ainda pelo fato de que ele é sim um filme muito bem feito tecnicamente, com figurino e fotografia cuidadosos, atores bem escalados e que, se não impressionam especialmente, também não nos dão muita vergonha alheia de assistir, a parte por uma ou duas cenas isoladas, além de um trilha sonora mais clássica, que não se perde nas batidas eletrônicas genéricas como em tantos outros filmes de ação recentes. As cenas de ação, aliás, são bem dirigidas e escritas, e, Issus seja louvada, não há nada das orgias de câmeras lentas Zack-Snyderianas. Some-se ainda um humor bem executado, com um ótimo timing cômico, e você tem um filme de Sessão da Tarde divertido e envolvente como há um bom tempo não era feito.

Claro, ele é sim um filme de clichês, daqueles de jornada do herói mesmo, onde você tem uma princesa em perigo fugindo de um casamento forçado, um herói forasteiro com questionamentos internos a resolver, um grande discurso para inflamar o povo selvagem à guerra contra o império do mal, até algum resquício de mensagem moralista sobre a guerra e o meio ambiente (mas que, felizmente, consegue fugir de se tornar maçante e pedagógica em excesso). Mas ele é também um bom filme de clichês em cima disso, e digo isso com total sinceridade – nada de um Fúria de Titãs aqui, onde só por associá-lo com a minha experiência pessoal de jogador de RPG eu consegui tirar alguma coisa de minimamente positivo. Ele me lembrou muito mais o primeiro Piratas do Caribe, pela sua fantasia leve, despretensiosa e com ênfase na aventura sobre todo o resto. Só faltou mesmo o carisma de um Capitão Jack Sparrow para deixá-lo realmente em um patamar superior, muito embora seja feito um esforço até um pouco comovente para promover o capitão do filme de forma semelhante.

Acho interessante também falar sobre o avanço no uso do 3D, que finalmente começa a fazer alguma diferença. Pelo menos nas cenas aéreas, envolvendo as batalhas entre naves-libélula, você realmente consegue discernir alguma diferença de profundidade, e ajuda a criar assim todo um sense of wonder diferenciado. Não é nada que alguém que pague pela entrada normal vá sentir falta, é claro, e nem de longe é comparável ao que é feito em um A Invenção de Hugo Cabret, onde ele realmente se mescla a narrativa e adiciona toda uma nova camada ao enredo (sem trocadilhos); mas pelo menos você não se sente enganado por pagar o preço do ingresso mais caro, diferente de outros tantos filmes aí que saíram com o formato.

Na soma final, John Carter: Entre Dois Mundos é sim um filme bem bacana, a parte por ser uma aventura de jornada do herói bem clichê e sem grandes surpresas. Não é lá o filme que vai mudar a sua vida ou a história do cinema, mas, em meio a tantos Fúrias de Titãs, Imortais e Solomon Kanes que tem sido feitos recentemente, ele consegue ser até bem acima da média, na verdade.


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@bschlatter

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