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O Violão

Sentou na beira da estrada deserta, em meio a um lugar que era nenhum lugar. O terno escuro coberto de rasgos e remendos o tornava quase invisível na escuridão da noite. Tirou o chapéu, o colocou com cuidado no chão, e puxou o instrumento para fora da capa: um violão gasto e sujo, coberto de rachaduras na madeira; as cordas úmidas e escorregadias partiam de nós descuidados na base até as longas pontas soltas no fim do braço. Posicionou-o sobre a perna direita, fechou os olhos, suspirou longa e profundamente. Então os abriu, virou-os em direção às mãos, e começou a dedilhar.

Os dedos se moviam pelas cordas como patas de aranha sobre uma teia, se apoiando nos nódulos que conectavam pontos e notas, fazendo gestos e posições como símbolos místicos a conjurar sons de sonhos distantes para aquele devaneio particular. Cada acorde era um chamado, cada batida um sinal, que ecoava pela imensidão vazia se perdendo na escuridão. Destoavam do silêncio, em desarmonia com o mundo.

E assim também era ele: dissonante e desconexo, um acorde diminuto perdido entre maiores, um bemol em meio a sustenidos. Aquela era a sua música, a única que sabia tocar; se cada nota era uma lágrima, e cada pausa uma súplica, era apenas assim que conseguia ser, e negá-lo seria tornar-se vazio como o universo que o cercava.

Parou por um instante e olhou em volta. Não havia encruzilhada, e ninguém viera ao seu encontro.

Encruzilhada

– Sim!

– Não! – e naquele instante o mundo se dividiu em dois, duas realidades distintas que seguiram seu caminho, cada uma dando razão a um dos lados em conflito.

Em uma, seguiu-se a paz perfeita: um mundo de luminosidade e maravilha, de torres envidraçadas e campo verdes e floridos. Por todo lado as crianças brincavam com seus jogos e brinquedos, correndo despreocupadas pelas ruas e praças, enquanto os adultos conversavam e refletiam em bares e mesas ao ar livre, compondo canções sobre a melancolia da vida, o medo da solidão, a nostalgia do sol e das nuvens do ano anterior que eram sempre mais belas que as do ano corrente.

Na outra, sobreveio o desastre: um mundo de treva e sofrimento, de ruínas e céus escurecidos. Por todo lado se via a destruição, gangues de garotos em choque pelo pedaço de pão envelhecido que sustentaria noite, mãos trêmulas apertando os filhos contra o corpo da mãe, recebendo marcas e queimaduras das gotas de chuva que caíam. E em algum lugar, num canto espaçoso sob escombros, à luz de uma pequena fogueira, adultos falavam alto e riam, cantando canções sobre a alegria da vida, a sorte de estar vivo, e a despreocupação com a morte que os cercava por todos os lados e era, afinal, inevitável.


Sob um céu de blues...

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