Posts Tagged 'epifanias'

Ponto Nodal

E assim, tudo se encaixa: cada peça em seu lugar, todo espaço de alguma forma preenchido. Não há lacunas ou excessos, nem vácuos ou apertos; apenas o todo simétrico e uniforme, montando átomo a átomo a grande imagem cósmica do vazio universal que a tudo dá, enfim, sentido.

Epifania (4)

Sentava e lia uma revista econômica estrangeira, qualquer coisa sobre a crise do Euro e as fraudes na última eleição russa. Entre um gole e outro de água mineral sem gás, suspirava um tédio contagioso. Então, não mais que de repente, como que por mágica, se deu conta: era tudo tão óbvio! Fazia sentido agora, quando via por este ângulo. As coisas, o mundo, a vida… Tudo tinha o seu lugar, e ele agora o percebia. Como fora tão tolo até então? Estava tudo na sua cara, o tempo todo, bem embaixo do seu nariz!

Pensava já em tudo o que faria com esse conhecimento, as pessoas para quem o revelaria, os próximos níveis de iluminação que atingiria, quando as máscaras de oxigênio caíram do compartimento sobre a sua cabeça, e o avião em que viajava seguiu em queda livre até o oceano.

Seis da Manhã

Não existe horário mais ilustrativo da condição humana do que as seis da manhã. É tarde demais para continuar a noite, mas também cedo demais para começar o dia; fica precisamente nesse vácuo cotidiano, aquele período entre os dias, nem mais ontem, nem ainda hoje. É aquele momento onírico, quase mágico, em que toda a humanidade compartilha a mesma condição de existência, a mesma sonolência e inércia que os move tediosamente até a hora seguinte.

Pois ninguém que está acordado e ativo às seis da manhã deseja estar. É o ponto de encontro dos boêmios e dos trabalhadores, seja em casa ou na rua; o fim das noitadas épicas, o início das jornadas diárias para ganhar o pão. Todos reunidos na mesma vontade: a ânsia de estar em outro lugar, viajando em mundos de imaginação e fantasia criados pelo sono, longe da dura realidade cotidiana. E é isso que os une, que os transforma nessa comunidade livre de preconceito e discriminação. Todos são irmãos às seis da manhã, e trocam seus olhares silenciosos de reconhecimento à desgraça que compartilham.

Mas, àqueles que perdem suas seis da manhã nas horas de sono e sonhos que os demais gostariam de ter, sinto pena de vocês! Podem se imaginar satisfeitos e abençoados, mas no fim, felizes que acreditem estar, perdem a experiência desse algo maior, dessa epifania. Não me surpreenderia em descobrir que os maiores avanços da humanidade tivessem saído de pensamentos perdidos nesse horário, enquanto se espera o ônibus para a escola passar; e realmente duvido que qualquer tipo de mal verdadeiro e intencional possa ser praticado antes das sete.

Seis da manhã é, enfim, um horário mágico, único na grade de horas que constróem o dia. Outros horários podem ser mais felizes, mais trágicos, mais produtivos; mas nenhum deles chega sequer perto de compartilhar do mesmo simbolismo e poesia que as seis da manhã possui.

Epifania (3)

E de repente, entendeu: cada átomo do mundo estava em seu lugar, e tudo era majestosamente simples como o vôo de um mosquito na parede. Cada milímetro que se movia era como se ordenasse o mundo um pouco mais, tornando-o uma massa entendível e suportável; não havia enigma que não pudesse ser solucionado, nem mistério que não pudesse ser compreendido – o sentido de tudo era claro, e podia se deliciar com o seu conhecimento. Mas logo o perdeu, no instante em que pousou na sua mão a razão daquela inestimável iluminação, e a outra não tardou em se mover por reflexo para esmagá-la assim que sentiu a leve picada da sua alimentação.

Epifania (2)

A luz que vinha de fora iluminava os vitrais coloridos, tornando ainda mais belas as figuras retratadas. Ao fundo, alguns raios de sol iluminavam o mar de velas ante à réplica da cruz. O silêncio se espalhava como o vento por todos os cantos do aposento; um ar místico quase pagão pairava sobre a igreja naquele momento.

E ele estava lá, sentado, olhando para os vitrais, exatamente como fazia todos os dias naquele horário. Naquele dia em especial, no entanto, um padre sentou ao seu lado.

– São bonitos, não? – perguntou, tentando adivinhar para qual o homem olhava.

– Sem dúvida.

– Reconhece as passagens que eles retratam?

– Não. Não sou religoso. Na verdade, me considero um ateu.

O padre virou o rosto para ele, os olhos abertos em espanto.

– E o que um faz ateu visitar todo dia a casa do Senhor? – o tom da pergunta era de curiosidade mais do que inquisição.

– Posso não acreditar no que o teu Senhor diz, mas sei reconhecer um lugar sagrado quando vejo um. – e olhou o relógio, se despediu do padre, e saiu.

Lá fora, o barulho ensurdecedor dos carros se confundia com a poeira por eles levantada. Pessoas andavam em todas as direções, com passos apressados e o desespero refletido nos olhos. Ele, no entanto, caminhava devagar, com a expressão serena de quem teve uma revelação divina.

Epifania

Voava uma abelha
Que pousou na minha mão.
Olhei, maravilhado,
Aquela bela criação:
As asas, pequeninas,
Que a levantam do chão;
O corpo, diminuto,
Protegendo o pulmão.
Admirava e exaltava
Toda aquela perfeição;
Meus olhos se enchiam
De brilho e emoção!
Até sofrer, desencantado,
A terrível traição:
Me espetara, a desgraçada,
O maldito do ferrão!


Sob um céu de blues...

Categorias

Arquivos

@bschlatter

Estatísticas

  • 229.013 visitas