Posts Tagged 'fábulas'

A Revolta das Coxinhas

coxinhaA padaria entrou em alvoroço quando as coxinhas se revoltaram. De uma hora para outra todas se recusaram a cumprir com seus deveres e começaram a organizar piquetes nas estufas. Sequer podiam ser cozinhadas: a receita poderia ser seguida à risca, acompanhada por chefs renomados, e ainda assim saíam errado. Haviam, ainda, as vândalas, coxinhas mau intencionadas que, se se permitiam ser cozinhadas, queimavam a língua e a boca dos clientes na primeira oportunidade.

Diziam que era uma revolta contra tudo aquilo que estava ali. Protestavam contra os serviços de tele-entrega, que não eram confortáveis, as caixas não eram adequadamente ventiladas, e além de tudo ainda cobravam absurdos seis reais como taxa de entrega. A situação das estufas, então, era deplorável: sucateadas, velhas, caindo aos pedaços. A cozinha não era melhor – suja, sem as mínimas condições higiênicas, e, o pior, ainda foi anunciado que a padaria pretendia contratar chefs estrangeiros para preparar os pratos.

Os outros lanches, na verdade, haviam se antecipado a essa revolta. O protesto contra a tele-entrega havia começado entre os pães de queijo. As empadas também já possuam muitas reivindicações em pauta, como a melhora das condições das estufas e das cozinhas. E os croissants, trazendo seus conhecimentos teóricos da gastronomia francesa, também se juntaram à luta. Mas todos se entreolharam abismados quando as coxinhas se juntaram a eles.

A revolta começou a perder momento. Com a força com que as coxinhas tomavam o movimento, os demais passaram a questionar suas posições, e refletir sobre pelo que estavam realmente lutando. Teorias conspirarias começaram a surgir. No fim, ninguém queria era se misturar com lanches tão simplórios como as coxinhas, sem todo o refinamento e técnica adquirido em workshops e cursos superiores, e nem gastar o tempo necessário para aprimorá-las e melhorá-las.

E assim sobraram apenas as coxinhas nos protestos, que foram prontamente eliminadas do cardápio. O que ninguém lembrava é que, simplórias que fossem, elas eram também os lanches mais populares e que mais vendiam entre os clientes. Sem a sua principal receita, a padaria foi rapidamente à falência e fechou.

Fábula

Era uma vez, há muito, muito tempo atrás, em um reino muito, muito distante, com campos verdes que se estendiam até onde a vista alcançava, o céu azul ornamentado por nuvens brancas e pássaros cantantes, e um povo alegre e festivo de camponeses dedicados, um rei, que morava em um castelo de mármore branca como a lua, e passava seus dias sentado em um trono dourado com o assento estofado de penas de ganso e revestido de veludo vermelho, vestindo um manto de seda rubra e uma coroa encrustada de jóias, ao lado de uma rainha bela e esbelta de cabelos loiros como o sol e olhos verdes como esmeraldas, enquanto segurava com a mão direita o cetro real forjado de ouro maciço com um rubi brilhante preso na ponta, apoiando sobre a esquerda o queixo coberto por uma barba grisalha e olhando para o longo tapete vermelho com bordados dourados no chão, e exclamando a cada passar de horas vagarosas com uma voz de trovão que ecoava pelo salão e fazia tremular as cortinas e bandeiras que se espalhavam pelas paredes: que tédio!

Continho Insone

Era uma vez, há muito tempo atrás, em uma terra muito distante, uma tela de computador vazia chamada Tela Vazia. Ela era uma tela muito triste, que se sentia solitária e vazia por dentro, pois não conseguia ver razão para ter uma existência tão… Vazia.

Esse vácuo sentimental a acompanhava aonde quer que fosse. Muitos tentaram animá-la, enchê-la de conteúdo, mas ninguém que conhecesse possuía inspiração suficiente. Até que, um dia, Tela Vazia encontrou um autor entediado, que se chamava Autor Entediado.

O Autor Entediado era um autor que estava entediado, pois não possuía nada para fazer em uma noite de insônia. Estava agonizante, quase morrendo de tédio, quando encontrou Tela Vazia.

– Quem é você? – Tela Vazia perguntou.

– Eu sou o Autor Entediado. – respondeu o Autor Entediado.

– E o que você está fazendo?

– Nada. Por isso estou entediado.

Sem ter mais o que dizer, Tela Vazia apenas ficou em silêncio, parada, na frente do Autor Entediado. Sentia-se triste. O Autor Entediado percebeu a tristeza de Tela Vazia, e, intrigado, perguntou:

– Por que você está tão triste?

– Porque eu me sinto muito vazia.

– E por que você se sente tão vazia?

– Porque eu sou uma tela vazia… Eu não tenho conteúdo.

– Ah, mas isso não é um problema. – disse o Autor Entediado, e imediatamente começou a encher Tela Vazia de conteúdo. Colocou nela muitas letras. Juntou as letras, e formou palavras. Juntou as palavras, e formou frases. Juntou as frases, e formou parágrafos. Por fim, juntou os parágrafos e formou textos.

– Pronto, agora você está cheia. – disse, quando terminou. – A partir de agora você não é mais uma tela vazia, mas uma tela cheia. E você não se chamará mais Tela Vazia, de hoje em diante seu nome será Tela Cheia.

Tela Cheia mal podia se conter de felicidade! Agora, finalmente, tinha conteúdo, e não se sentia mais vazia. Feliz como nunca antes, agradeceu ao Autor Entediado e foi embora dali, para mostrar a todos que ela não era mais uma tela vazia, agora ela era uma tela cheia. E viveu feliz para sempre… Ou até um vírus causar uma pane no computador e apagar todo o seu conteúdo outra vez.

Encruzilhada

– Sim!

– Não! – e naquele instante o mundo se dividiu em dois, duas realidades distintas que seguiram seu caminho, cada uma dando razão a um dos lados em conflito.

Em uma, seguiu-se a paz perfeita: um mundo de luminosidade e maravilha, de torres envidraçadas e campo verdes e floridos. Por todo lado as crianças brincavam com seus jogos e brinquedos, correndo despreocupadas pelas ruas e praças, enquanto os adultos conversavam e refletiam em bares e mesas ao ar livre, compondo canções sobre a melancolia da vida, o medo da solidão, a nostalgia do sol e das nuvens do ano anterior que eram sempre mais belas que as do ano corrente.

Na outra, sobreveio o desastre: um mundo de treva e sofrimento, de ruínas e céus escurecidos. Por todo lado se via a destruição, gangues de garotos em choque pelo pedaço de pão envelhecido que sustentaria noite, mãos trêmulas apertando os filhos contra o corpo da mãe, recebendo marcas e queimaduras das gotas de chuva que caíam. E em algum lugar, num canto espaçoso sob escombros, à luz de uma pequena fogueira, adultos falavam alto e riam, cantando canções sobre a alegria da vida, a sorte de estar vivo, e a despreocupação com a morte que os cercava por todos os lados e era, afinal, inevitável.

O Jabuti e O Ornitorrinco

Vivia o jabuti nas matas brasileiras. Ele crescia, se alimentava e se reproduzia, se integrando harmonicamente ao seu ecossistema.

O ornitorrinco, por outro lado, vivia na Austrália. Também ele, no seu habitat, crescia, se alimentava e se reproduzia, se integrando harmonicamente ao ecossistema onde vivia.

Os dois nunca se conheceram, nem travaram qualquer tipo de diálogo moralmente edificante entre si.

Moral da história: o Brasil e a Austrália ficam longe demais um do outro para os seus animais nativos interagirem.

Epifania (2)

A luz que vinha de fora iluminava os vitrais coloridos, tornando ainda mais belas as figuras retratadas. Ao fundo, alguns raios de sol iluminavam o mar de velas ante à réplica da cruz. O silêncio se espalhava como o vento por todos os cantos do aposento; um ar místico quase pagão pairava sobre a igreja naquele momento.

E ele estava lá, sentado, olhando para os vitrais, exatamente como fazia todos os dias naquele horário. Naquele dia em especial, no entanto, um padre sentou ao seu lado.

– São bonitos, não? – perguntou, tentando adivinhar para qual o homem olhava.

– Sem dúvida.

– Reconhece as passagens que eles retratam?

– Não. Não sou religoso. Na verdade, me considero um ateu.

O padre virou o rosto para ele, os olhos abertos em espanto.

– E o que um faz ateu visitar todo dia a casa do Senhor? – o tom da pergunta era de curiosidade mais do que inquisição.

– Posso não acreditar no que o teu Senhor diz, mas sei reconhecer um lugar sagrado quando vejo um. – e olhou o relógio, se despediu do padre, e saiu.

Lá fora, o barulho ensurdecedor dos carros se confundia com a poeira por eles levantada. Pessoas andavam em todas as direções, com passos apressados e o desespero refletido nos olhos. Ele, no entanto, caminhava devagar, com a expressão serena de quem teve uma revelação divina.

A Torre

Ao se chegar ao pé da imensa torre e olhar para cima, a visão que se tinha não eram menos que magnífica. Dezenas – não, centenas – de andares apontando ameaçadoramente para o céu, suspensos por círculos de colunas simétricas, e ligados por uma única escadaria do chão até o topo. E tão magnífica quanto a visão, talvez ainda mais, era o prêmio que esperava no topo – ou assim, ao menos, imaginava o viajante que chegava da sua longa jornada e observava a esplêndida construção. Tudo o que precisava fazer era subir até lá, e o prêmio seria seu; mas não faria isso hoje, cansado que estava da viagem. Armou uma pequena barraca ao lado da torre, e adormeceu.

Acordou na manhã seguinte, disposto a começar a subida. Comeu um razoável desjejum, realizou alguns exercícios de alongamento, e começou a se preparar para a empreitada, organizando e empacotando seus pertences. No entanto, ao chegar no começo da escadaria, parou mais uma vez para observar a beleza e simetria daquela magnífica construção. Reparou como o sol do meio-dia parecia coroar a torre, enchendo-a de realeza e, alguns até ousariam dizer, divindade; observou como os raios solares pareciam sair do seu topo para dirigir-se ao resto do mundo, como se aquele fosse o centro geográfico do universo; e como cada andar parecia exprimir uma luz própria ao refletir o sol em todas as direções, como se cada um tivesse também a sua miríade de raios luminosos para lançar ao mundo. Paralisado pelo magnetismo da imagem, deixou-se levar pelo tempo. Decidiu, então, armar novamente a barraca e esperar pelo dia seguinte.

Que não tardou a chegar, e ele novamente preparou-se para iniciar a jornada até o topo da torre e o seu prêmio maravilhoso. Desta vez, no entanto, não foi a luz que o impediu, mas a sombra: o sol, batendo na lateral de cada andar, iluminava uma a uma as colunas que o sustentavam, cada uma lançando sua sombra sobre as demais, formando um belo mosaico de claro e escuro com uma expressividade quase artística. Mais uma vez enfeitiçado pela visão, imaginou o que poderia haver lá no topo que superasse essa beleza mágica. Descobriria no dia seguinte, decidiu, após mais uma noite de descanso.

A cada dia que passava, no entanto, continuava a descobrir novos detalhes daquela construção inconcebível. Em um, reparou nos cipós e musgos que se formavam nas paredes, e pareciam seguir um padrão rigorosamente simétrico e cuidadosamente planejado. Em outro, observou os detalhes da escultura das colunas, com padrões ondulados que pareciam se completar na coluna adjacente. Em outro ainda, ao observar a torre à noite, pensou que a lua cheia parecia uma reluzente coroa de cristal no topo da construção, de onde se desprendiam vagalumes que eram as estrelas. E entre os dias, antes de dormir, tentava imaginar a magnitude do tesouro que poderia estar guardado em tão esplendorosa arca. Decidia, então, começar a subida no dia seguinte – apenas para parar novamente ante a beleza opressora que a torre irradiava.

Passaram semanas até que ele finalmente cansou de esperar e se decidiu em definitivo. Desarmou a barraca, guardou seus pertences, e olhou uma última vez para aquela torre magnífica. E então, virando-se para o lado de onde viera, foi embora dali.


Sob um céu de blues...

Categorias

Arquivos

@bschlatter

Estatísticas

  • 194,505 visitas