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Fusão

Após anos de olhares trocados, sorrisos esguios e encontros sonhados, Pedro e Paula finalmente satisfizeram seus desejos: tornaram-se um, seus corpos unidos em um ato de paixão intensa e provocante. A energia liberada na fusão dos seus átomos pulverizou tudo em um raio de vários quilômetros, e a radiação contaminaria a região por décadas a fio.

Universos Paralelos (2)

de_leonTodos os anos, após a última rodada do campeonato, o físico quântico soltava uma bateria de fogos de artifício.

– Mas o seu time perdeu! – diziam os amigos. – Foi rebaixado! Nem chegou à final!

A todos, ele calmamente respondia:

– Ah, mas em algum universo paralelo…

Bola Cantada

60-ferreyra– Vai ser 1 a 1. – ele cantou a bola logo que um time fez um gol. – To sentindo isso.

O que ele não esperava, é claro, é que o simples fato de ele pronunciar aquelas palavras levasse a uma reação em cadeia quântica. A vibração das ondas de som da sua voz mudou a direção de neutrinos e modificou a disposição dos quarks de elétrons que compunham os átomos do ar diretamente à sua frente. Esta mudança foi transmitida em cadeia em uma velocidade próxima à da luz para outros neutrinos, quarks e elétrons, até chegar ao campo do jogo.

Lá, em uma única folha do gramado, logo à frente da área do outro time, ela levou a uma mínima mudança no atrito da sua superfície. Foi o suficiente: o atacante que havia acabado de receber a bola e driblara o goleiro, e estava agora de frente para o gol vazio, escorregou exatamente naquela folha, perdendo a oportunidade de marcar o gol que levaria ao resultado previsto.

Universos Paralelos

s-BackgroundVestia uma fantasia do Super-Homem, com uma grande capa vermelha que esvoaçava ao vento, quando pulou do último andar do arranha-céu. Seu corpo foi encontrado no chão da rua dezenas de metros abaixo, os ossos todos quebrados, irrecuperável para a vida, mas com um sorriso infantil no rosto. Sabia que em algum lugar, em algum tempo, em algum universo mais amigável aos sonhos… Ele havia voado.

Betinho

Mário Roberto “Betinho” de Souza era um gênio. Na verdade, talvez tenha sido o maior gênio em toda a história da humanidade. Aos quatro anos, brincando com cubos de madeira, deduziu os princípios básicos do teorema de Pitágoras. Aos cinco, da fórmula de Bhaskara. E aos oito era capaz de citar e desenvolver com propriedade as falhas de argumentação nas meditações de Descartes.

Aos dezenove anos desenvolveu uma teoria do universo e das forças fundamentais belíssima na sua simplicidade. De maneira objetiva e didática, resolvia alguns dos grandes problemas da física moderna, reunindo em uma só as forças nuclear, eletromagnética e gravitacional, bem como dando ordem e previsibilidade ao mundo quântico. Não apenas isso, como ainda era dotada de uma espiritualidade quase religiosa – não no sentido de depender da fé para funcionar, mas sim de que, mesmo na sua racionalidade absoluta, não deixava de revelar um significado oculto na existência, que enchia a vida das pessoas de sentido e iluminação.

Com trinta e três anos seus interesses estavam voltados para as ciências humanas, e foi quando ele desenvolveu as bases do social-capitalismo, o sistema político e econômico que melhor atende às necessidades da sociedade como um todo, sem deixar de promover com grande eficiência o progresso científico e material. Sua dissertação sobre o tema trazia mesmo um planejamento simples, que, através de políticas públicas objetivas e de baixíssimo custo social e financeiro, era capaz de converter qualquer sociedade ao novo sistema no prazo de quarenta anos, independente dos seus antecedentes culturais e históricos.

Betinho também teve grande atuação no campo das artes. Músico auto-didata, compôs sua primeira sinfonia ao sete anos, em um piano velho na casa do avô. Sua obra conta ainda com outras dezessete peças musicais, mais da metade delas escritas longe de quaisquer instrumentos, apenas imaginando as melodias e escrevendo as notas em uma folha de caderno.

Escreveu seu primeiro romance – Da Vida dos Morcegos na Albânia – aos quatorze anos, e, embora tivesse todos os vícios típicos de um escritor iniciante, já trazia nele muitas qualidades que escritores renomados só desenvolveriam em idades muito mais avançadas. Sua obra prima, no entanto, é Morangos Silvestres e a Árvore do Mundo, que reunia elementos de romance psicológico, realismo mágico e mesmo da poesia épica em uma grande narrativa de quase mil páginas. Deixou para trás também mais de oitenta contos e poesias, de diferentes estilos e formatos.

Tudo isso ocupava mais de mil e quinhentos cadernos em que Betinho escrevia todo o dia, quando chegava em casa após a jornada de trabalho como frentista em um posto de gasolina. Sem saber o que fazer com eles, seus sobrinhos doaram todos para uma fábrica de reciclagem de papel, após o velho ter sido encontrado morto no pequeno apartamento onde morava, pendurado pelo pescoço por uma gravata velha no lustre da sala.

O Caminhar

Caminhar é bom. Caminhar é fácil. Um pé depois do outro, e de novo, e de novo, e, com alguma sorte, se chega a algum lugar. Nem que seja só metaforicamente.

Dizem que o primeiro passo é o mais difícil. Não discordo: é o Passo da Coragem, assim, com maiúsculas mesmo. O segundo e o terceiro, e às vezes mais alguns depois, também são difíceis; são os Passos da Confiança. Depois a coisa vai naturalmente, um pé depois do outro, e de novo, e de novo, até chegar perto do fim. Mas o último passo, esse também é complicado: é o Passo do Arrependimento, com hesitação acumulada de todos os anteriores. Eventualmente, no entanto, se passa por ele também, e o caminhar termina.

E que tristeza, então! Saudades do movimento, do senso de objetivo; o caminhar, mesmo que em círculos, nos dava um sentido, e uma direção. Mas então acaba, e tudo volta à inércia do corpo parado. Que bom seria se caminhar pudesse ser o próprio objetivo! Estar sempre em movimento, em ponto morto, sempre em direção a algum lugar que é lugar nenhum…

Mas não: sempre há um ponto final, culminante, onde se encerram os passos acumulados com tanta vontade e determinação, e onde a força motriz do caminhar finalmente acaba e cede ao atrito e à resistência do ar.

A física é um saco.

A Pergunta

Após a longa escalada, o peregrino chegou, enfim, ao topo de montanha, onde um ermitão meditava em frente a uma cabana de madeira.

– Parabéns. – disse o ancião ao perceber o visitante. – Você venceu a montanha. Como prêmio, pode me fazer qualquer pergunta, e eu responderei.

O peregrino recuperou o fôlego, refletiu por alguns instantes, e perguntou:

– Considerando um elétron e um pósitron de massa m = 9,11 x 10-31 kg, cada qual com energia cinética de 1,20 MeV e mesma quantidade de movimento, colidindo entre si em sentidos opostos e se aniquilando para produzir dois fótons 1γ e 2γ, e considerando os dados: constante de Planck h = 6,63 x 10-34 J.s; velocidade da luz c = 3,00 x 108 m/s; 1 eV = 1,6 x 10-19 J; 1 femtometro = 1 fm = 1 x 10-15 m; quais são os respectivos valores de energia E e do comprimento de onda dos fótons?

O ermitão se virou para o peregrino, arregalando os olhos e abrindo a boca.

– Como?

– É uma questão de física que me atormenta desde o vestibular. Quer que eu repita?

– É isso mesmo que você quer saber?

– É.

– Tem certeza?

– Tenho.

– Não quer saber o sentido da vida? A razão da existência? Se Deus existe mesmo, ou como lidar com a morte do seu gato siamês?

O peregrino pensou por alguns alguns segundos.

– Não, eu quero saber a resposta desta questão mesmo.

– Ah, bem… – o ermitão fechou os olhos e suspirou profundamente. Abriu-os alguns instantes depois, e disse: – Não sei.

– Como assim, não sabe?

– Bem, todo mundo que vem aqui sempre me faz alguma pergunta filosófica sobre a vida e o universo, ou então pede conselhos pessoais. – virou-se para baixo, envergonhado. – Há décadas que desisti de estudar física.

– Quer dizer que eu tive todo o trabalho de subir essa montanha maldita, passei seis semanas dormindo em barracas desconfortáveis com cobertores frios e comendo carne de bode crua, perdi dois dedos do pé congelados, e quase morri pelo menos três vezes, pra nada?

– Sinto muito.

O peregrino xingou o velho com todos os impropérios que conhecia, então se virou e começou a descer a montanha.


Sob um céu de blues...

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