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O Gigante Morto

O corpo se estendia à sua frente, morto afinal. Caminhava sobre ele, exausto e ofegante, escalando músculos e ossos expostos como quem vence montanhas e terrenos acidentados. Olhou para frente: o sol se pondo no horizonte era eclipsado por protuberâncias distantes. Ainda havia um longo caminho a percorrer.

O Caçador de Colossos

Quem me conhece sabe que eu sou fã da ideia de escalas de poderes em 3D&T, acho que elas adicionam uma dimensão interessante ao jogo e uma facilidade ao lidar com seres muito poderosos que realmente o torna diferenciado em relação a outros sistemas. Eu tenho um artigo inteiro sobre isso no site dos Defensores de Tóquio, por exemplo, e no meu texto recente sobre dragões eu também as destaquei como um elemento importante para lidar com dragões de verdade em uma aventura. Agora falemos um pouco do outro lado, então, o daqueles que enfrentam estas criaturas colossais: o caçador de colossos!

Caçador de Colossos
Exigências: Inimigo (veja abaixo), perícia Esportes
Função: dominante ou atacante

Existem, em Arton e outros mundos fantásticos, os gigantes, seres de tamanhos desproporcionais que aterrorizam certas vilas e regiões, e são por isso enfrentados por um tipo especial de guerreiro, o matador de gigantes (descrito no Manual do Aventureiro Alpha). E existem, então, os colossos: seres gigantes do ponto de vista dos próprios gigantes, cujo tamanho e força física estão em uma escala acima dos de outras criaturas; algumas vezes são tão grandes que só é possível vencê-los escalando-os como uma montanha para atingir seus pontos fracos!

Tais seres não podem ser enfrentadas por guerreiros comuns, e por vezes mesmo as técnicas para enfrentar os gigantes menores são ineficazes. Apenas o caçador de colossos, com seu treinamento físico e astúcia particulares, é capaz de impor algum tipo de desafio a eles – e mesmo ele muitas vezes dependerá da sorte para ser bem sucedido!

Em um primeiro momento, um caçador de colossos é muito semelhante a um matador de gigantes: uma figura rústica, parecida com um ranger, com armaduras leves e sem o porte de outros guerreiros de maior status. Suas técnicas também têm bastante em comum, recorrendo frequentemente a truques e emboscadas que exponham os pontos fracos do inimigo. A astúcia e esperteza são suas armas fiéis, muitas vezes mais do que uma espada ou lança afiadas.

Para ser um caçador de colossos, no entanto, é preciso ainda mais. É preciso todo um treinamento físico especial, que desenvolva reflexos afiados para evitar os golpes inimigos, uma vez que mesmo o mais fraco deles pode ser o suficiente para encerrar a batalha; e é preciso ainda ser certeiro e preciso em seus ataques, já que são poucos os que passarão pela defesa do alvo e surtirão o mínimo efeito.

Inimigo dos Colossos (1 ponto). Você é especialista em enfrentar criaturas colossais, tão grandes que pertencem a outras escalas de poder. Por isso, recebe um bônus de H+2 sempre que luta contra criaturas desse tipo ou realiza testes de perícia envolvendo conhecimentos sobre elas.

Armadilheiro. Um caçador sabe que é bobagem enfrentar uma criatura colossal de frente, e prefere usar truques e fintas para deixá-la vulnerável. Gastando um movimento e 2 PMs, ele pode atrair o alvo para uma posição ruim, que o imobilize ou deixe seus pontos fracos expostos, ficando Indefeso durante o próximo turno se falhar em um teste de Habilidade.

Esquiva Acrobática. Um caçador sabe que, dado o tamanho dos seus oponentes, um único erro ao evitar seus ataques pode ser fatal. Por isso, treina para não errar: ao enfrentar um inimigo de escala superior à sua, ele pode se esquivar com testes da perícia Esportes, ao invés do teste de H-H padrão. Ele ainda possui um número máximo de esquivas por turno igual à sua Habilidade.

Experiência em Quedas. Enfrentar criaturas colossais tem outros perigos além dos ataques inimigos – uma queda do alto de um gigante de cinquenta metros de altura pode ser tão mortal quanto quanto um golpe da sua clava! Felizmente, o caçador é acostumado com esse tipo de acidente, e recebe sempre o dano mínimo de quedas de qualquer tipo (por exemplo, 3 em 3d).

Golpe Certeiro. A principal habilidade de um caçador de colossos é a de encontrar e atingir os pontos fracos de um oponente gigantesco, ignorando a sua diferença de poder. Sempre que conseguir um acerto crítico na jogada de FA ou o inimigo estiver Indefeso, o caçador pode gastar 2 PMs para ignorar a diferença de escalas no dano causado, podendo causar dano normal em criaturas de escala superior.

Terra de Gigantes

Passos,
Passos,
Passos.

Caminho, mas não são meus passos.

Os olhos se cruzam mas não se vêem;
Um universo todo em movimento,
E eu aqui, tão pequeno.

Shadow of the Colossus

1131391666-00Eu não sei quanto a vocês, mas eu, pelo menos, adoro aquelas animações japonesas antigonas, inspiradas em lendas tradicionais, como O Pequeno Príncipe e o Dragão de 8 Cabeças, por exemplo. Acho bacana a arte estilizada, a aventura grandiosa e ao mesmo tempo despretensiosa, e, principalmente, o tom de fábula, como se fosse uma história mítica de heróis ancestrais contada oralmente por gerações antes de chegar até nós. O já clássico Shadow of the Colossus é um jogo que consegue como poucos criar um clima semelhante de aventura campbelliana.

Ele começa de maneira bastante simples: um guerreiro chega em um templo e coloca sobre o altar o corpo de uma mulher. Seu objetivo é fazer com que os deuses do templo, que dizem possuir o poder de recuperar almas perdidas, ressucitem-na, pois ela foi morta injustamente. Para que realizem o desejo, no entanto, os deuses impõem ao guerreiro uma missão: destruir as estátuas de monstros mitológicos que ornamentam o templo. Estas estátuas não podem ser destruídas por mortais, mas cada uma está interligada a um gigante que vive nas terras ao redor; mate o gigante, e a estátua correspondente irá se desfazer.

E lá vai o nosso herói cavalgar por vastas planícies, montanhas e florestas atrás dos gigantes místicos que protegem as estátuas do templo. O jogo basicamente se resume a isso: levante sua espada ao sol para ver a direção em que a luz refletida aponta, monte seu cavalo e vá até lá, passe algumas vezes por um pequeno desafio de habilidade no velho estilo de jogos de plataformas, e, por fim, enfrente o gigante. Parece chato e repetitivo? Bem, definitivamente não é.

Não é um jogo de ação, é claro – não há nada de enfrente os milhares de monstros menores no seu caminho até chegar ao grande chefe da fase ou coisa parecida. É um jogo de aventura; lembra um pouco o Prince of Persia original, mas com gráficos 3D e trocando os guerreiros árabes por gigantes e os castelos e masmorras persas por planícies, montanhas, florestas e ruínas perdidas. O minimalismo é extremo: não há um som desnecessário, nem um único exagero no visual ou na jogabilidade. Tudo, da ausência de trilha sonora na exploração até os longos caminhos a serem percorridos, é feito para reforçar o clima de solidão, e destacar os verdadeiros astros da aventura – os gigantes a serem derrotados.

Cada gigante funciona como um quebra-cabeças em movimento, requerendo uma estratégia diferente para se chegar ao seu ponto fraco, muitas vezes exigindo que você utilize não apenas suas armas mas todo o ambiente ao seu redor, resultando em batalhas variadas e recompensadoras. Os gráficos são bons, apesar da câmera atrapalhar algumas vezes, e a trilha sonora orquestrada, fazendo então sua entrada triunfal, é simplesmente sublime, assumindo um tom épico e emocionante, e fazendo você se sentir um Beowulf ou Teseu enfrentando bestas mitológicas. Chega-se a ficar com pena quando um deles morre.

Shadow of the Colossus, enfim, é um jogo fantástico, uma experiência única em videogames, mas não sei dizer se pode ser apreciado por qualquer um. Não tem ação pirotécnica, jogabilidade inovadora, ou um enredo complexo e cheio de reviravoltas inesperadas. Há até quem reclame da sua falta de replay value, dizendo que, após matar os gigantes a primeira vez, você já sabe como fazer, e não há mais porque jogar de novo. Bobagem, na minha opinião – a combinação de aventura fabulesca, combates emocionantes e trilha sonora perfeita o tornam um jogo empolgante e cativante, além de bastante inspirador, que, mesmo nas segundas, terceiras, quartas ou quintas vezes ainda consegue divertir e causar o mesmo maravilhamento da primeira. Para quem ainda não jogou (e o que está esperando?), acho que merece ao menos ser experimentado.

Vanda e Os Gigantes (2)

Vanda abriu os olhos hesitante, se recuperando do choque. Aos poucos lembrava o que havia acontecido: a batalha com a hidra no pântano sombrio, as cabeças se multiplicando cada vez que eram cortadas, a investida temerária em direção ao corpo submerso. Logo vieram as memórias do prazer da vitória, os gritos de desespero e dor do monstro entrando como notas de uma doce sinfonia nos ouvidos da moça, em seguida se juntando aos seus próprios gritos de dor e desespero ao perceber que era tragada junto ao corpo da criatura para o fundo. O ar diminuindo, os pulmões se enchendo do líquido tóxico…

Acordou assustada, e viu que não estava mais no pântano da hidra. Se encontrava em um aposento luxuoso, como um quarto de palácio, deitada em uma grande cama redonda e vestida com uma camisola de seda semitransparente, que pouco escondia seu corpo pequeno e pouco volumoso coberto de cicatrizes.

– Será que foi um sonho? Parecia tão real… – confusa, falava consigo mesmo em voz alta.

– Talvez porque tenha sido real. Você morreu. – a voz imponente vinha da entrada do quarto. Vanda se virou num susto, e viu a figura de um grande homem, o corpo negro coberto de músculos e cicatrizes, com o pescoço terminando em uma cabeça bovina envolta em chamas. – Bem-vinda a Kundali, o reino de Tauron, deus da força. O meu reino.

A garota se levantou, aturdida com a revelação. Olhou pela janela e viu o gigantesco labirinto de ruas e casas que se estendia até onde a vista alcançava; se sentia perdida apenas de olhar para elas, tentando acompanhar por mais do que alguns segundos qualquer dos caminhos que percorriam os homens com cabeça de touro e seus servos rastejantes. Tauron entrou no quarto, se dirigindo para a mesma janela por onde Vanda observava, e olhou para fora.

– Você deve saber que, quando um artoniano morre, sua alma vai para o reino de um dos deuses do Panteão. Normalmente não nos damos o trabalho de escolher quais almas irão para qual reino, mas, com algum esforço e barganha, é possível fazer com que uma delas vá para onde quisermos que vá. Mas só fazemos isso para almas de pessoas muito especiais. – virou-se para Vanda. – Almas como a sua, Vanda. Eu escolhi você para viver aqui.

– E por que eu? – Vanda se virou para o deus, e parecia falar mais por formalidade do que interesse.

– Porque você é forte, Vanda, e eu gosto de pessoas fortes. Seu corpo parece frágil e pequeno, mas esconde um espírito imbatível. Você nunca recuou ante um inimigo dezenas, centenas, ou mesmo milhares de vezes maiores do que você; sempre os enfrentou com coragem e perseverança, sem demonstrar uma gota de hesitação, apenas pelo prazer de fazê-lo. E, ao contrário do que muitos pensam, é esta a verdadeira força: não a do corpo, mas a do espírito. Eu admiro essa força em você, Vanda, e é ela que faz com que mereça a honra de viver a eternidade ao meu lado.

A garota ainda não esboçava reação. Tauron continuou.

– Não foi fácil trazê-la para cá. Outro deus gostaria de tê-la em seu reino. Diferente de mim, no entanto, ele não quer recompensá-la, mas puni-la; seu nome é Meggalokk, e ele é o deus dos monstros.

Vanda levantou a cabeça em direção ao minotauro, subitamente interessada. Ele sorriu discretamente antes de prosseguir.

– O reino dele não é um lugar agradável para pequenos humanos como você. Uma cadeia sem fim de montanhas e planaltos desérticos e acidentados, habitada por monstros cruéis e sádicos, um maior que o outro; uma terra de ninguém, onde impera unicamente a lei da força e da imposição física.

Os olhos de Vanda brilhavam a cada novo detalhe adicionado pelo minotauro: lobos grandes o bastante para se alimentarem de bois; águias grandes o bastante para se alimentarem desses lobos; tigres grandes o bastante para se alimentarem dessas águias.

– Quero ir para lá. – disse a guerreira, afinal. Tauron adquiriu subitamente um semblante sério.

– Então você recusa a honra de ser minha dama de companhia, de habitar o meu harém particular? Recusa a honra maior com que qualquer fêmea mortal poderia sonhar? – os olhos ardiam como piras funerárias; as chamas em torno da cabeça aumentavam e estalavam a cada palavra proferida como uma martelada pelo deus. Ao redor do reino, escravos de todas as raças se encolheram aterrorizados, e mesmo aqueles sacerdotes e guerreiros a quem o próprio deus proibira qualquer tipo de medo olharam para céus, trêmulos.

– Sinto muito… Mas é onde eu gostaria de estar. – Vanda permanecia serena; demonstrava apenas um pouco de surpresa pela reação que provocara.

Tauron se acalmou, e sorriu. Era, no fundo, o que esperava, se ela fosse como imaginava; se fosse realmente digna da bênção que oferecia. Aquele era apenas um último teste.

– Pois então, é para onde irá. – disse, antes de se retirar do aposento.

Vanda piscou, e, quando abriu os olhos, já não estava mais no quarto do palácio, mas em um vale alto entre montanhas. Reparou que vestia a mesma armadura que tinha enquanto viva, e carregava na cintura a mesma espada que fora de seu pai, as runas místicas brilhando com mais intensidade do que o normal. Não teve tempo de pensar muito mais: foi logo agarrada pelos ombros por um pássaro gigante, que a levantou em direção aos céus.

A guerreira se debateu e forçou-o a soltar um dos ombros; aproveitou para agarrar com aquele braço a outra pata, e forçou-a a soltar também o outro. Com dificuldade, escalou até o corpo do animal – agora era ele que se debatia, e Vanda se agarrava nas penas para não cair. Conseguiu chegar até o pescoço, e cravou a espada nele até o cabo. A ave soltou um urro esganiçado pela dor.

Vanda retirou a arma, espirrando o sangue negro para todos os lados. O animal já caía morto em direção ao chão; a guerreira não sentia mais o corpo da ave sob seus pés: estava também em queda livre, acima da criatura que acabara de abater. Via o chão se aproximando cada vez mais rápido, e, amaldiçoando a própria pressa descuidada, já imaginava se era possível morrer pela segunda vez. Não descobriu, pois a queda parou repentinamente.

Vanda olhou para baixo e viu o chão, ainda quilômetros distante; então olhou para trás e viu o par de asas flamejantes que saía de suas costas, batendo intensamente para mantê-la no ar. Observou surpresa por alguns segundos, e logo começou a voar para frente e para trás, para cima e para baixo, em círculos e elipses, sorrindo infantilmente, como uma criança que acaba de ganhar um novo brinquedo.

Deu-se por satisfeita, enfim, e desceu em uma superfície plana para observar a paisagem. Ao longe, via um enorme dragão em um vôo rasante, capturando e levantando um tiranossauro com as garras traseiras, mas que logo parava no ar, pego na teia de uma aranha ainda maior, que por sua vez mal podia aproveitar a presa antes de ser pega pela língua de um sapo mais gigantesco ainda, esmagado em seguida pela clava de um gigante humanóide ainda mais colossal. Vanda tinha um sorriso bobo de um lado ao outro do rosto, sem saber por onde começar.

Definitivamente, estava no paraíso.

Vanda e Os Gigantes

Os cabelos negros voavam junto à brisa que vinha do oceano, enquanto o corpo pequenino se erguia na proa do navio, observando a montanha que crescia no horizonte. Ao redor, marinheiros trabalhavam e a olhavam,num misto de curiosidade e ceticismo – era difícil crer que aquela moça de aparência frágil fosse mesmo a famosa Vanda, a caçadora de gigantes.

Desconfortável com a atenção que recebia, Vanda se virou e desceu em direção aos aposentos inferiores, para se preparar para o desembarque. Caminhando, se deixava levar pelas névoas do passado que tomavam seus pensamentos.

***

– O que você quer, pequenina? – a voz da cabeça à direita ecoava como um trovão pelo vale entre as montanhas.

– Você matou meu pai! – Vanda tentava gritar de forma ameaçadora, mas, em comparação com a criatura à sua frente, soava pequena e suplicante. – E agora eu vou matar você!

As duas cabeças gargalharam em conjunto. Vanda se colocou de prontidão, agarrando com a mão direita a espada coberta de runas que pertencera ao pai. Vendo a sua fúria diminuta, o gigante de duas cabeças agarrou a clava de pedra no chão e se postou em posição de defesa.

– Pois então… – disse a cabeça direita, o tom de bravata ressoando novamente pelo vale.

– …venha! – completou a esquerda.

A garota correu em direção ao inimigo.

***

Vanda balançou a cabeça para afastar os devaneios. Precisava manter o foco; um único passo em falso seria suficiente para desencadear uma queda de dezenas de metros. Cuidadosa, continuou a escalada, buscando os caminhos mais seguros para chegar ao topo da montanha.

Quando o sol já saía do centro do céu, a guerreira chegou afinal à cratera esfumaçante. Recuperou o fôlego e olhou para dentro, procurando o ponto de origem da fumaça. Encontrou sem dificuldade – mas seria ainda uma longa descida até lá.

***

A clava atingiu o chão, fazendo a terra tremer. Vanda escapou por sorte, caindo para o lado pouco antes do golpe. As pernas já doíam de tantas esquivas, e ela ainda não causara um arranhão sequer no gigante. Ofegante, começava a questionar se fora uma boa idéia desafiá-lo. Não era uma guerreira, afinal, apenas a filha de um, morto ao enfrentar o mesmo monstro em defesa da vila onde morava; a espada empunhada por Vanda era tudo o que dele restava.

E era tudo o que restava para ela também. Desde quando podia lembrar, o pai era tudo o que tinha; a mãe morrera quando era ainda uma criança, jovem demais para guardar lembranças ou ressentimentos, e os dois passaram tempo demais viajando antes de se estabelecerem na pequena vila atacada pelo monstro. O gigante o havia tirado dela – e Vanda se sentiu um lixo por ter questionado a vingança por um instante sequer.

Levantou, determinada, e olhou para o inimigo, que preparava um novo golpe. Não havia tempo para pensar; pulou para trás enquanto a enorme clava caía em sua direção, atingindo mais uma vez o chão. Aproveitou a chance e se agarrou nela quando o gigante a levantou, levando-a junto com a arma em direção aos céus.

Vanda se segurou um pouco relutante, sem ter certeza do que fazia – quando deu por si, já estava no alto, sem opção a não ser se manter agarrada enquanto o gigante gritava e balançava o braço para derrubá-la. Conseguiu; a garota logo se soltou e despencou em direção em direção ao chão, que se aproximava com velocidade…

Parou. Vanda olhou para baixo e viu o chão, ainda metros distante. Olhou para frente, e viu a espada de seu pai cravada na carne do gigante, as runas mágicas brilhando intensamente, as mãos agarradas por um impulso involuntário ao cabo da arma. A criatura gritou de dor e curvou-se para frente, permitindo a Vanda ficar de pé sobre as suas costas.

Vendo a planície que se abria à sua frente, correu até a cabeça mais próxima, cravando a espada com violência no pescoço do gigante. Retirou a arma em uma chuva de sangue, seguida por um berro de dor esboçado e logo abafado.

Vanda então se virou para a cabeça que restava, que agora a fitava com um olhar assustado, e sorriu como um lobo antes de saltar com a espada erguida em sua direção.

***

Um pequeno pulo para atingir o chão, e chegava ao ponto mais baixo da cratera. À frente se abria uma grande cavidade na montanha, de onde vinha a fumaça que vira do lado de fora.

Vanda se aproximou com cautela, cuidando para não acordar a criatura que habitava o local, inconscientemente desejando o próprio descuido. Apenas mais alguns passos e já podia vê-la: as escamas rubras como sangue, as asas encolhidas sobre as costas, as patas dianteiras apoiando a cabeça adornada de chifres, as montanhas de ouro e jóias no entorno; um dragão, dormindo em meio ao seu tesouro.

A guerreira sorriu, lamentando apenas que não estivesse acordado. Sacou a espada da bainha na cintura e continuou caminhando com cuidado, seguindo próxima às paredes à procura de um ponto por onde pudesse subir no seu pescoço. Tão concentrada estava que não notou os olhos do monstro se abrindo em uma fração de segundo enquanto passava na sua frente.

***

Dias passaram desde a morte do gigante de duas cabeças. Vanda voltara para a vila, onde assumira a mesma função de guarda que era de seu pai. Todos a respeitavam depois do feito que realizara, então raramente tinha qualquer problema. Foram, enfim, dias muito chatos.

Vanda odiava aquele tédio. Lembrava com nostalgia não dos anos que vivera com o pai, mas sim dos poucos minutos da batalha contra o gigante – a respiração ofegante, o sangue fervendo, o instinto guiando seus passos e movimentos; sentia que apenas então esteve viva de verdade.

Decidiu-se, afinal, e anunciou a decisão ao conselho da vila. Os anciãos imploraram para que mudasse de idéia; ofereceram dinheiro, conforto, tudo o que quisesse. Mas o que Vanda queria eles não poderiam dar – encontrariam outro aventureiro em busca de aposentadoria, respondeu, ou mesmo um jovem corajoso entre os próprios filhos; seu destino estava em outro lugar.

Pegou então a velha espada da família, alguns pertences de valor pessoal e o pouco dinheiro que possuía, e partiu em direção ao horizonte distante, sonhando encontrar os gigantes fantásticos de que ouvia falar nas histórias do pai.

***

A montanha explodiu em uma chuva de rochas, poeira e fogo. Partindo como um foguete, o dragão se lançou aos céus. Vanda agarrava a asa esquerda, reunindo as forças que tinha para não cair. Tinha no rosto um sorriso masoquista, um gozo intenso de alegria, enquanto sentia o vento cortando a pele e forçando o cabelo para trás.

O monstro bateu as asas com violência para fazê-la perder o equilíbrio, mas ela apenas se agarrou mais forte. Soltou quando a asa estava na posição superior e caiu sobre as costas da criatura, de onde conseguia ver a espada cravada até a metade no pescoço escamoso, as runas próximas ao cabo brilhando com intensidade assassina. Correu até a arma e a agarrou, segurando-a firme enquanto o dragão tentava forçar sua queda girando em torno do próprio eixo. Puxou-a para fora quando pôde ficar de pé outra vez, espirrando sangue escuro em todas as direções e fazendo o monstro gritar de dor.

Vanda então correu até a cabeça. A criatura se debateu com violência, forçando-a a se apoiar em um dos chifres para não cair. Quando parou, a guerreira se ajoelhou, levantou a espada em direção ao céu, e a cravou violentamente na cabeça do monstro, perfurando a pele e adentrando a carne.

O dragão gritou de dor mais uma vez, e Vanda precisou se agarrar com força à espada para não perder o equilíbrio. Retirou a arma em uma nova chuva de sangue, e cravou-a novamente na cabeça do monstro; ele gritou outra vez, um urro esganiçado, logo abafado. Vanda retirou e cravou a espada com velocidade mais um vez, mas percebeu que perdiam altitude muito rápido, descontroladamente. Tentou puxar a arma para fora, mas logo sentiu o impacto da queda; então se agarrou com força ao cabo enquanto mergulhava junto com o monstro para o fundo do oceano.

De longe, os marinheiros atracados na costa da montanha assistiam assustados à queda da criatura e a gigantesca onda que ela levantava. O capitão logo retirou uma luneta do casaco e começou a varrer a área com os olhos, porcurando sinais de Vanda: à esquerda, à direita, pelo centro, ainda mais à esquerda.

Notou afinal pequenas bolhas de ar se formando e estourando na superfície água, e fixou o olhar naquele ponto. As bolhas aumentaram em intensidade e quantidade, até se converterem em um pequeno espirro de água de onde saiu Vanda, a mão direita erguida em triunfo empunhando a espada coberta de runas.

– Viva! – gritou o capitão, vibrante, num gesto logo repetido pela tripulação.

Dezenas de metros distante, Vanda ofegava. O tesouro ainda estava na montanha, mas que importava para ela? Os marinheiros que o pegassem, agora que o dragão não estava mais lá para ameaçá-los. Queria apenas uma boa cama para descansar antes da próxima caçada.

Começou a nadar em direção ao navio, sorrindo de um lado ao outro do rosto.


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