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Yukikaze

yukikazeYukikaze, de Chohei Kambayashi, é outro da lista de maiores romances da ficção científica japonesa escolhida pelos leitores da revista SF Magazine, a mesma que elegeu Ten Billion Days and One Hundred Billion Nights, de Ryu Mitsuse, como o maior romance de FC japonesa de todos os tempos. Trinta anos após uma fenda dimensional na Antártida trazer para a Terra os alienígenas conhecidos como JAM, a contra-ofensiva unida das nações terrestres explora o planeta estranho que há do outro lado. É nele que o tenente Rei Fukai passa os seus dias em missões de reconhecimento, tendo como única companheira constante a aeronave Yukikaze, equipada com uma das mais avançadas inteligências artificiais já desenvolvidas.

Tão grande, e tão surpreendentemente contemporânea (para um livro publicado originalmente em 1984), é a miríade de significados do livro, que às vezes os mais óbvios podem ser os mais fáceis de deixar passar. Terminada a leitura, por exemplo, é preciso um exercício consciente de reflexão para se dar conta dos nomes: Faery, o planeta alienígena, e as Sílfides, o modelo de jato supersônico de última geração usado pela Força Aérea local, indicam um certo quê de conto de fadas no conflito, ou pelo menos na forma como ele é percebido para os terráqueos do lado de cá da fenda dimensional. O tema aparece desde o prólogo, com o excerto de uma obra de não-ficção fictícia (trocadalho intencional), até dois episódios em que jornalistas terrestres tentam entender algumas verdades por trás da guerra; e levam a uma discussão superficial, mas bastante instigante, sobre a guerra e o papel dos guerreiros. Ao se dar conta disso, é difícil não se pegar pensando nas guerras televisionadas que temos hoje, e a consequente idealização de conflitos e “guerras justas” que ocorrem tão distantes do público.

O tema que realmente domina o livro, no entanto, ainda que explorado dentro desse contexto militar, é o das inteligências artificiais, e o papel que sobra para a humanidade na medida em que o seu desenvolvimento avança. O ponto curioso é notar que ele vai na contramão das histórias que normalmente exploram o assunto: ao invés de humanizar as máquinas, e se questionar sobre a humanidade e a “alma” existente em um construto consciente, ela faz justamente o contrário, e se pergunta a respeito da desumanização das pessoas em um ambiente cada vez mais dominado pela tecnologia, em que a tomada de decisões é cada vez mais automatizada. Personagens constantemente se perguntam se, em meio à guerra contra um inimigo do qual sabem tão pouco, não estão de fato se tornando máquinas; ao mesmo tempo, na ponta inversa da balança, acabam desenvolvendo relacionamentos fortemente humanos com as máquinas que pilotam, incluindo sentimentos como ciúmes e desconfiança.

Além de parecer mais verossímil (convenhamos, um robô com consciência e sentimentos verdadeiros ainda parece muito fantástico para ser encarado sem estranhamento), há de se admitir que essa abordagem foi um golpe de sorte e tanto do autor: trinta anos depois, com o desenvolvimento atualmente promissor de drones e outras tecnologias militares desumanizadas, parece algo sobre o qual ainda vale a pena refletir e discutir. Ele próprio admite no posfácio, no entanto, que o livro representa idéias suas bastante datadas, e que, ao invés de mudá-las completamente em uma revisão, ele preferiu atualizar em uma continuação (Good Luck, Yukikaze, publicada em 1999).

A história é contada em um modelo episódico, em que cada capítulo contém os acontecimentos de uma determinada missão com início, meio e fim, como se fossem na verdade contos. Aos poucos, no entanto, pistas são jogadas para o leitor, formando uma trama maior, e também um tema maior, na medida em que as verdades ocultas sobre os JAM e quem eles realmente estão enfrentando começam a ser pincelados. O formato parece bastante com uma série de animação japonesa, na verdade – e não por acaso, a história foi de fato adaptada em uma série de filmes para vídeo (os populares OVAs – Original Video Animations) entre 2002 e 2005. Como texto, no entanto, é difícil não se confundir um pouco com a quantidade de siglas e termos militares específicos; mas não é algo também que dificulte demais a leitura.

De maneira geral, Yukikaze é uma obra muito instigante e provocante. Em meio a tantas obras de fantasia que parecem ser a preferência do público atualmente, mostra ainda o que pode haver de envolvente em uma ficção científica mais hard. E é um excelente cartão de visitas para a ficção científica japonesa como um todo também, fazendo parte da já mencionada (e extensamente resenhada) coleção de livros de gênero traduzidas para o inglês pelo selo Haikasoru.

All You Need is Kill / Edge of Tomorrow

neediskillA história do dia que se repete indefinidamente, sem que ninguém perceba exceto por uma única pessoa especial, não é exatamente original. A sua versão mais famosa provavelmente seja Feitiço do Tempo, clássica comédia com o Bill Murray; mas existem uma meia-dúzia de outros filmes, além de episódios de séries de TV, desenhos animados e sabe-se lá o que mais. No posfácio de All You Need Is Kill, no entanto, o autor Hiroshi Sakurazaka revela que a sua inspiração foi mesmo um tanto mais original: os jogos de videogame, em que você pode repetir uma determinada fase à exaustão, decorando cada pixel do mapa e movimento dos inimigos, até ser capaz de superá-la sem qualquer dificuldade. Para nós, os jogadores, não é nada demais apertar um botão e recomeçar; mas e para os próprios personagens representados no aparelho, como deve ser o sentimento de repetir as mesmas ações de novo e de novo e de novo até atingir a perfeição?

Essa é a situação em que se encontra Keiji Kiriya, recruta novato da Força de Defesa Unida da Terra, criada para combater os invasores alienígenas conhecidos como Mímicos. Logo na sua primeira missão ele é morto em combate, mas, após o golpe derradeiro, ao invés de simplesmente manter-se morto, acorda no dia anterior com todas as memórias do ocorrido. Após perceber o que está acontecendo – o que, obviamente, requer que ele morra mais algumas vezes -, decide aproveitar a chance que tem para treinar e se aprimorar, até ser capaz de sobreviver à batalha.

Nesse meio tempo, entra em cena a soldado das forças americanas Rita Vrataski, heroína multi-condecorada da guerra contra os invasores. Há uma razão oculta para o seu sucesso no combate aos alienígenas, que Keiji deve descobrir se quiser acabar com o ciclo de repetições; sua importância é tal que o único capítulo não narrado pelo protagonista é o dedicado a contar a sua história, e que é aproveitado também para revelar os segredos dos antagonistas (nada muito surpreendente para quem está acostumado com histórias de invasão em que os alienígenas não são o foco principal, é claro).

No geral, é uma leitura divertida, que não é especialmente profunda mas também não fere a sua inteligência. Alguns personagens secundários exageram na caricatura, e há uma reviravolta gratuita no ato final apenas para garantir um duelo derradeiro e um final agridoce; mas, na tradição das light novels orientais, o foco em geral é muito mais a ação do que propriamente o desenvolvimento psicológico de qualquer forma – não por acaso, o romance foi logo descoberto por mídias mais visuais, tendo dado origem no Japão a uma série de mangá e no ocidente a uma graphic novel e, mais recentemente, a um filme estrelado por Tom Cruise, em que foi rebatizado como Edge of Tomorrow (No Limite do Amanhã, no Brasil; uma nova edição do romance também foi lançada lá fora com o novo título). E mesmo assim a prosa tem lá os seus momentos de brilho pontual, em que alguém que entenda o sentimento de solidão causado por uma experiência tão singular é capaz de se enxergar e identificar.

Não é uma leitura ruim, enfim, e é capaz mesmo de provocar algumas idéias únicas e singulares.

The Melancholy of Mechagirl

mechagirlQuando se pensa em um(a) ocidental escrevendo sobre o Japão, em especial sob a ótica da fantasia e da ficção científica, é difícil não pensar no otaku gordo cheirando a salgadinhos de isopor destilando conhecimentos enciclopédicos sobre samurais, ninjas e videogames (alguém tipo assim como eu, digamos?). Mas a verdade é que a ode à cultura pop é apenas uma das muitas formas pelas quais um país pode entrar na vida de alguém, ou alguém na cultura de um país. Para Catherynne M. Valente, o Japão realmente representa muito mais do que olhos grandes e cabelos coloridos; é um pedaço inteiro da sua vida que está lá, desde quando, casada ainda jovem com um oficial da marinha norte-americana, foi obrigada a se mudar para uma base militar local. Se ele aparece com tanta frequência nas suas histórias, é porque há algo lá que a marcou profundamente, e que instiga os seus demônios internos sempre que é lembrado.

The Melancholy of Mechagirl é um pequeno apanhado de histórias e alguns poemas da autora que remetem de alguma forma à terra do sol nascente. O título é emprestado do poema que abre o livro, um devaneio sobre garotas que são obrigadas a receberem conexões intrusivas em seus corpos para pilotarem robôs gigantes, mas a verdade é que serve bem demais para descrever a própria impressão que se tem sobre a relação da autora com o país. Os dois primeiros contos propriamente ditos – Ink, Water, Milk e Fifteen Panels Depicting the Sadness of The Baku and The Jotai – são praticamente irmãos gêmeos nesta temática, retratando com ares autobiográficos o cotidiano de uma jovem estrangeira em uma terra estranha, lidando com a ausência do marido e a dificuldade de adaptação. Ao mesmo tempo, objetos e símbolos que ganham vida – um tema muito comum na mitologia e fantasia de origem oriental, e por isso mesmo recorrente nas histórias do livro – criam uma metanarrativa própria, observando ou às vezes interagindo e até criando, por meio da ficção dentro da ficção, a primeira.

É importante destacar que a maioria das histórias do livro não é original, tendo aparecido antes em outras coletâneas ou em outros formatos. One Breath, One Stroke, por exemplo, eu já havia lido em The Future Is Japanese, também publicado pela editora Haikasoru; mas é uma história tão única e tocante, que conta de forma tão bem executada e poética o amor impossível entre um pincel de caligrafia e uma mulher-caracol, que valeu a pena ser relida e fruída como se fosse a primeira vez. Outras histórias, no entanto, como a do videogame fictício Killswitch, perdem algo fora do seu contexto original, e parecem mesmo fugir do tema central da coletânea (de reunir histórias da autora que remetam ao Japão), tendo pouco que a relacionem com a cultura oriental além de um ou outro nome de personagem secundário.

Mas até aí, é algo esperado, talvez – é difícil construir uma obra consistente com histórias retiradas de fontes tão diversas, e pelo menos quando está nos seus pontos altos o livro realmente vale a pena. Outras histórias que me marcaram foram Thirteen Ways of Looking at Space/Time, em que a narração de mitos de criação de culturas diversas se confundem com o nascimento de uma escritora de ficção científica; e a pequena porém notável Ghosts of Gunkanjima, sobre uma ilha na costa japonesa marcada por uma história de crueldade durante a Segunda Guerra Mundial. E, claro, há a novela que fecha o livro, Silently and Very Fast, nomeada a diversos prêmios importantes lá fora, um pequeno épico que conta a história de várias gerações de uma família ligada algo mais do que intimamente com o surgimento das primeiras inteligências artificiais.

No geral, The Melancholy of Mechagirl é uma coletânea bastante singular. Valente tem um estilo único de escrever, e, mesmo quando o livro se encontra nas suas curvas mais baixas, você terá sempre uma prosa envolvente e poética, com frases sonoras e que parecem feitas para serem recitadas, mais do que apenas lidas. Desvendar a relação da autora com o Japão e a solidão que ele representa para ela é ainda um subtexto à parte, e que te leva a parar e refletir sobre os seus próprios demônios internos.

MM9

MM9 libroQuem conhece o histórico de desastres naturais e não-naturais do Japão certamente não pode estranhar a fixação que o país tem com a invasão de monstros gigantes, os famigerados kaiju. Depois de duas bombas atômicas e um sem número de terremotos de grande magnitude, para um criador de histórias fantásticas é um passo bem natural imaginar que o causador de tais estragos tenha um tamanho proporcional a eles. Até um nome respeitado como Haruki Murakami já flertou com a idéia em um conto pouco conhecido chamado Super-Frog Saves Tokyo, em uma coletânea  que escreveu sobre o terremoto de Kobe em 1995.

Terremoto esse, aliás, que deixou uma marca bem grande no imaginário do país, pelo menos até a tragédia mais recente de Fukushima, e também é referenciado, e da mesma forma atribuído a um monstro gigante, em MM9, ficção científica de Hiroshi Yamamoto publicada em inglês pela editora Haikasoru, da qual eu já falei um pouco anteriormente. A sigla do título faz referência ao termo Monster Magnitude, uma escala de medição do tamanho e estrago potencial causado por um monstro gigante – algo como uma escala Richter para kaiju. Por ela podemos ter já alguma idéia do que o livro trata: o dia-a-dia do MMD, ou Monsterological Measures Department (algo como o “Departamento de Medidas Monstrológicas”), uma agência governamental que, como agências metereológicas, tem a missão de prever, analisar e eventualmente ajudar a remediar ataques de kaiju no Japão.

A idéia é bem criativa, e remete a algumas das séries originais que tornaram os bichos tão populares. É difícil não lembrar das equipes de apoio do Ultraman e seus descendentes, por exemplo. Apenas não aqui há um alienígena bondoso de tamanho colossal para enfrentar os bichos (bom, pelo menos não até o confronto épico final); o papel do MMD é principalmente o de avaliar as informações disponíveis sobre o bicho e então sugerir um plano de ação às forças de defesa japonesas, sempre tendo em vista o objetivo de manter o número de casualidades o menor possível.

O próprio livro é estruturado um pouco como uma série de TV. Os cinco capítulos parecem episódios, com direito ao “monstro da semana” e tudo mais – um deles até mesmo brinca com o formato, tendo como enredo a gravação de um programa-reportagem sobre a agência. Ainda que haja uma trama maior englobando todos eles, funcionariam perfeitamente como contos independentes. O estilo narrativo também é focado na ação e nos diálogos, com o cenário muitas vezes resumido a uma legenda no começo de uma cena indicando a sua localidade e tempo de acontecimento. Há um bom equilíbrio entre o trabalho no combate aos monstros e o desenvolvimento da personalidade dos personagens principais, mas também não é nada mais profundo do que você teria em um seriado semanal. Não me foi surpresa descobrir que o livro realmente foi transformado em um programa televisivo em 2010, que eu ainda estou tentando descobrir se foi legendado por fãs.

Mas isso está bem longe de ser um demérito, claro. Na verdade, achei que ajudou a tornar a leitura bem dinâmica e ágil, e no final achei as histórias todas muito divertidas. Há lá a sua dose de clichês (é claro, por exemplo, que os agentes com mais destaque são jovens recrutas cheios de determinação, o masculino chamdo Ryo e a feminina chamada Sakura), mas eles também não estragam a proposta de entretenimento do livro. Há mesmo espaço para algumas idéias instigantes no meio do caminho, como a pseudo-ciência que explica a existência dos kaiju, uma extrapolação do princípio antrópico aplicado à mitologia.

Na soma final, foi uma leitura bem divertida, que eu recomendo para quem cresceu assistindo monstros gigantes na televisão.

The Future is Japanese

TheFutureIsJapanese_coverVez por outra a gente passa por fases em que lemos praticamente só coisas dentro de um mesmo campo temático. Já tive a minha fase new weird, a minha fase autores russos / soviéticos… Atualmente, estou na fase Japão. E nem falo só de Haruki Murakami, claro – tenho lido alguns autores japoneses mais alternativos, classificados no próprio país dentro daquele paradigma da literatura “de gênero.”

Tenho que agradecer por isso à editora Haikasoru, que tem se dedicado a traduzir algumas obras de gênero de lá para o inglês, permitindo o contato com essa vertente da literatura de um país que tanto desperta curiosidade pelos lados de cá do meridiano de Greenwich. Graças a ela pude entrar em contato com a romanização do videogame Ico, por exemplo; bem como uma obra tão única no seu escopo como Ten Billion Days and One Hundred Billion Nights. E é ela também que editou este The Future is Japanese, que em treze contos busca fazer um pequeno panorama da literatura de gênero, em especial a ficção científica, do e sobre o Japão.

Como esta premissa parece indicar, nem todos os autores presentes nela são realmente japoneses. Há muitos autores ocidentais no meio, que possuam alguma ligação particular com o país ou que se disporam a escrever histórias que de alguma forma remetessem à sua cultura, inclusive nomes conhecidos como Bruce Sterling (um dos pais do cyberpunk ao lado de William Gibson), Ekaterina Sedia (premiadíssima autora de Alquimia de Pedra, recentemente publicado em português pela Tarja Editorial) e Catherynne M. Valente (autora também premiada de Palimpset e do fenômeno de financiamento coletivo The Girl Who Circumnavigated Fairyland in a Ship of Her Own Making); e também alguns outros naquele campo mais nebuloso dos autores de dupla nacionalidade, como o sino-americano Ken Liu.

De maneira geral, foram estes autores que se fixaram mais fortemente nos paradigmas e clichês tão associados à terra do sol nascente. Há as distopias cyberpunk, realidades virtuais, seres folclóricos… Algo esperado até, já que eles tinham que justificar a sua seleção para uma coletânea com este tema. Mas isso também não os impediu de entregar histórias bastante interessantes. Chitai Heiki Koronbin, de David Moles, por exemplo, é a única história que envolve os famigerados mecha, ou robôs gigantes; mas é um conto envolvente sobre pilotos jovens enfrentando seres alienígenas, e poderia ser mesmo o começo de um bom mangá ou anime. A história de Sterling, Goddess of Mercy, que envolve um futuro distópico onde Tóquio foi destruída por um ataque nuclear norte-coreano, é bastante instigaste politicamente; e Rachel Swirsky foi uma das poucas autoras que fugiram da ficção científica, se aventurando pelas histórias de fantasmas em The Sea of Trees. Por fim, Cathrynne M. Valente talvez tenha entregue a história mais tocante do livro, One Brush, One Stroke, um pequeno conto com ares folclóricos que versa, entre outras coisas, sobre a paixão platônica de um pincel por uma mulher-caracol.

É claro, no entanto, que, para o leitor ocidental, o grande astro do livro são os autores nipônicos. Talvez tenha havido aqui um certo corporativismo safado da editora: muitos dos autores tem sido publicados em inglês pela Haikasoru, como uma rápida no catálogo presente nas páginas finais permite constatar. Nada fora do esperado também, acredito. Acho que o único autor que já conhecia anteriormente seja Hideyuki Kikuchi, cujos livros já foram adaptados como animes relativamente conhecidos como Vampire Hunter D e A Wind Named Amnesia. Seu conto aqui se chama Mountain People, Ocean People, e é uma pequena fantasia / ficção científica com ares pulp sobre uma civilização de homens voadores nos picos da montanhas, incluindo aí batalhas com monstros e conflitos juvenis. Outro autor que achei bastante interessante foi Issui Ogawa, que em uma pequena space opera chamada Golden Bread fez uma inversão de papeis bem curiosa, com um descendente do império japonês no futuro distante sendo confrontado com uma colônia caucasiana em um asteroide onde os costumes orientais atuais estão mais vivos do que nele.

Dois dos contos mais marcantes do livro foram os de Project Itoh (pseudônimo do autor Satoshi Ito) e TOBI Hirotaka. O do primeiro se chama The Indifference Engine, e, apesar do nome fazer referência à obra fundadora do steampunk, possui ecos mais fortes de A Laranja Mecânica, mas trocando os delinquentes juvenis irlandeses por crianças-soldado africanas. E o do segundo é chamado Autogenic Dreaming: Interview with the Columns of Clouds, um pequeno épico virtual que brinca com a forma da entrevista, e é repleto de ideias provocantes e uma extrapolação muito instigante sobre o Google e o seu projeto de digitalizar as grandes obras da humanidade.

Na soma final, como todo livro de contos, e ainda mais os que reúnem uma dúzia de autores diferentes, The Future is Japanese também possui seus altos e baixos, com algumas histórias que andam e andam sem avançar, e outras que você deseja que continuassem em livros maiores. Mas achei o saldo bastante positivo, e foi interessante poder entrar em contato com alguns autores novos que posso procurar conhecer melhor no futuro.

Ten Billion Days and One Hundred Billion Nights

TenBillionDaysTen Billion Days and One Hundred Billion Nights, de Ryu Mitsuse, é anunciado na capa como o maior romance de ficção científica japonesa de todos os tempos. Apesar de não ser citada, aparentemente há uma fonte concreta para esta afirmação – uma pesquisa de 2006 feita pela revista literária SF Magazine, principal publicação dedicada ao gênero no Japão. Se ela corresponde mesmo à verdade eu não sei, mas posso dizer com certeza que este é um dos romances mais ambiciosos no seu escopo e conteúdo que já li. Ele começa com o surgimento da vida na Terra e em cerca de trezentas páginas faz um grande salto até o quase desaparecimento do universo pela entropia no século XL, onde ocorre o embate decisivo entre a semideusa Asura, Sidarta Gautama e Platão, de um lado, e Jesus de Nazaré e a divindade budista Maitreya, do outro.

Só pela escolha dos personagens já dá pra perceber que esse não é o seu romance de ficção científico típico. Ele se enquadra, na verdade, em uma vertente semelhante à de um 2001: Uma Odisseia no Espaço, do Arthur C. Clarke (citado pelo autor como referência no posfácio, inclusive), no sentido em que explica o desenvolvimento humano a partir influências externas – no caso, seres exteriores ao nosso próprio universo, que travariam um embate entre si a respeito da destruição da humanidade ou a sua sobrevivência -, e se desenvolve como uma jornada em que os protagonistas buscam desvendar o seu mistério. Que essa jornada perpasse por uma busca pela cidade perdida de Atlântida na Grécia antiga, a transformação do príncipe indiano Sidarta em Buda e a crucificação de Cristo é apenas parte do que a torna mais única e especial.

Aqui é bom abrir um parênteses para falar sobre essa própria noção de influências externas na história humana, que muitos levam a sério demais. Só de citar coisas como “Atlântida” e “deuses astronautas” já deve ativar o sinal de alerta sobre possíveis esoterismos; mas, como na obra de Clarke, ou mesmo um Stargate, ela está lá muito mais como um meio, uma forma pela qual o verdadeiro escopo do enredo pode se revelar, transformando toda a magnitude do universo em puro sense of wonder. Há um foco maior no embate filosófico entre os personagens, muito embora algo que poderia ser muito interessante nessa premissa – filósofos e profetas de diversas correntes e religiões debatendo as idéias pelas quais ficaram conhecidos – não seja plenamente aproveitado. Em especial após o salto temporal que leva os protagonistas ao conflito decisivo, há uma certa descaracterização das suas personas históricas, apresentadas de forma muito vaga e podendo até mesmo causar alguma polêmica entre leitores mais fundamentalistas (leia-se: Jesus é um dos vilões da história).

O que há de realmente interessante é justamente a viagem feita até lá, e as especulações sobre os futuros da humanidade e a sua tendência à auto-destruição. Uma passagem especialmente marcante envolve Sidarta explorando um planeta em que há um embate entre duas classes de cidadãos. No entanto, ele encontra apenas membros da classe mais baixa pelas ruas; quando solicita que o levem até os cidadãos da classe alta para questioná-los, é levado a uma grande sala coberta de gavetas do chão ao teto, sobrevistas por um grande robô com o formato de um caranguejo. O robô, que se identifica como um deus, explica que cada uma dessas gavetas contém um microchip com todos os dados de uma pessoa, e que ela está neste momento vivendo em uma simulação virtual criada por ele da sua vida. Conseguem pegar a imagem? É quase um misto de Matrix com Charles Stross, mas com trinta anos de antecedência (o livro foi publicado no Japão em 1967, e revisado em 1973).

E, claro, há também o fato de que estamos falando de um livro em que há uma longa cena de combate entre o Sidarta Gautama ciborgue contra o Jesus de Nazaré com um canhão de microondas nas ruínas de Tóquio do século XL… E isso tem contexto e faz todo o sentido dentro da história (além de ser uma das aplicações mais lindas da Rule of Cool que eu já encontrei).

Há que se destacar também que a prosa é bastante densa, e por vezes até confusa. Há muitas explicações e detalhes técnicos, embora a ciência propriamente esteja algumas vezes datada e ultrapassada. Estes são os momentos onde o livro se encontra no seu ponto mais baixo, mas acredito que o escopo da história e o ritmo rápido do desenvolvimento, que não o deixa ficar entediado, ajude a superá-los de forma razoavelmente satisfatória. Muita coisa também é deixada para interpretação do leitor, não se revelando de forma clara e objetiva, em especial no final cataclismático e melancólico.

Enfim, não sei dizer se Ten Billion Days and One Hundred Billion Nights é um livro que qualquer um possa pegar, ler e se maravilhar. Pra ser sincero, eu mesmo acho que só vou conseguir firmar uma opinião concreta depois de ler ele mais uma vez ou duas ou dez. O que ele é com certeza é uma grande viagem de imaginação, capaz de causar um sense of wonder bastante particular no seu escopo e ambição, deixando-o perplexo e reflexivo após a leitura. É daqueles livros que causam uma impressão forte, e certamente não vai ser apagado da minha memória com muita facilidade.


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