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O assassinato do comendador, de Haruki Murakami

– Você acha que existe algo como uma propensão imutável dentro de você, que se tornou um empecilho para o seu casamento?

– Ou quem sabe falte uma propensão imutável dentro de mim, e tenha sido justamente isso que se tornou um empecilho para o meu casamento.

– Mas você tem o desejo de pintar. Com certeza, isso está intimamente ligado ao desejo de viver.

– Entretanto, talvez eu ainda não tenha superado por completo alguma coisa, algo que preciso superar antes disso. Tenho essa impressão

Underground, de Haruki Murakami

Como sou um romancista, sou o oposto de vocês – eu acredito que o mais importante é aquilo que não pode ser medido. Não estou negando o seu modo de pensar, mas a maior parte da vida das pessoas é imensurável, e tentar transformar tudo isso em coisas mensuráveis é realisticamente impossível.

(De Underground, conjunto de entrevistas realizadas pelo Murakami sobre os ataques terroristas com o gás sarin no metrô de Tóquio, em 1995).

Trilogia do Rato

Hear_the_wind_singPara quem gosta de escrever seus rascunhos vez por outra, é um exercício interessante ver como os escritores que admira começaram suas carreiras, como eram seus primeiros livros e como eles diferem das suas obras mais famosas. Penso sempre no caso do Italo Calvino, que ficou conhecido por seus livros cheios de fábula e fantasia, mas que começou com um livro essencialmente realista, A trilha dos ninhos de aranha. Para além do lado da curiosidade, dá um pouco mais de esperança também ver como estes escritores tiveram começos muitas vezes hesitantes e descuidados, e como eles evoluíram e desenvolveram seus estilos características.

No caso de Haruki Murakami, que já há algum tempo é o meu xodó literário, esta estreia corresponde a dois livros em específico: Hear the Wind Sing e Pinball 1973. Sem edição em português, mesmo a única edição em inglês deles é bastante rara, sendo na verdade parte de uma coleção para ensinar a língua para os nativos japoneses – o próprio autor parece considerar os dois livros de baixa qualidade, e não se anima em vê-los lançados em outros países (apesar de que há rumores de que eles devem receber uma edição norte-americana logo). Consegui acesso a eles graças apenas às maravilhas da tecnologia moderna e dos leitores de livros digitais.

Embora sejam dois livros com enredos e acontecimentos próprios, ambos possuem os mesmos protagonistas – o narrador sem nome e seu amigo, referido apenas pelo apelido de Rato -, e soam um pouco como obras-irmãs, por serem relativamente curtas (em torno de 120 páginas cada) além de compartilharem de um estilo e temática semelhantes. No primeiro, os dois personagens possuem 21 anos e são recém egressos do mundo universitário; a narrativa consiste basicamente de episódios em que eles retornam à sua cidade natal, visitam o bar de J., um imigrante chinês com quem desenvolvem uma forte amizade, e discorrem sobre temas como o ofício da escrita e o movimento estudantil enquanto bebem, conhecem mulheres e ouvem músicas ocidentais. Um episódio especial que acaba recebendo um pouco mais de atenção diz respeito a uma determinada moça que o narrador leva bêbada para casa uma noite, e os acontecimentos trágicos que a envolvem.

Pinball_englishJá no segundo livro temos um pequeno avanço temporal para o ano de 1973, quando o narrador e seu amigo possuem 25 anos. Os dois estão separados e não chegam a se encontrar durante a narrativa, mas ela alterna constantemente entre eles, um pouco como um duo de jazz improvisando um dueto. O narrador agora trabalha em uma agência de tradução e divide o apartamento com duas irmãs gêmeas, enquanto Rato se vê às voltas com um caso amoroso que não sabe bem como resolver. No meio disso, discursos sobre a solidão e a busca por uma máquina de pinball especial.

São livros simples e pequenos, bem diferentes de obras ambiciosas como The Wind-Up Bird Chronicle e 1Q84, por exemplo; se há algum livro mais recente do autor que eles lembrem, provavelmente seja Após o Anoitecer. Mas é interessante notar como certas características que se tornariam marcantes já se revelam, como as referências à cultura ocidental (seja na música ou na literatura, com a citação a um certo autor de ficção científica Derek Heartfield – provavelmente um pseudônimo para Kurt Vonnegut), bem como os personagens únicos como o par de gêmeas que o narrador não consegue distinguir ou o próprio Rato. Ainda que o cenário das histórias seja essencialmente realista, já vemos também um certo surrealismo latente, no absurdo de cenas como o enterro de um painel telefônico ou o diálogo afetivo e sentimental entre o narrador e a referida máquina de pinball que constitui o clímax do segundo livro.

O que chama muito a atenção, no entanto, é a aparente falta de rumo dos personagens e do enredo. Os livros se fazem basicamente com uma sequência de episódios, sem muita conexão direta entre si exceto o fato de acontecerem com os mesmos personagens; não há propriamente uma busca a ser realizada ou um objetivo último a se cumprir. É um pouco como um diário casual, uma literatura cotidiana, e pode-se ver bem forte o estilo hesitante de um autor estreante, ainda sem uma voz muito bem definida com que escrever. Por outro lado, esta mesma falta de rumo acaba se revelando uma força, da mesma forma como ela é em autores como Bukowski ou Tao Lin – para alguém que se encontra em uma encruzilhada existencial muito semelhante à dos personagens, é fácil criar uma ligação com eles, e se ver dentro das situações e dilemas que eles encontram. (Aliás, é interessante comparar essa falta de rumo com outro romance do autor, South of the Border, West of the Sun, cujo protagonista constamente faz referência à forma como desperdiçou toda a década dos seus vinte anos).

Capa_Cacando carneiros.inddIsso é muito punjente quando vamos analisar o terceiro livro da trilogia, Caçando Carneiros (este com edição em português), que o próprio Murakami considera o seu primeiro romance “de fato.” Os protagonistas agora estão há poucos meses de completarem trinta anos; ao analisá-los em conjunto, portanto, é possível ver uma certa jornada de amadurecimento, enquanto a falta de rumo que sentiam após saírem da universidade vai aos poucos desaparecendo, e eles se veem capazes de aceitar alguma objetividade em suas vidas. Essa objetividade é personificada na figura de um carneiro com uma marca de estrela, que os aproxima novamente depois de anos e dá a eles algo a que buscar ao longo da narrativa, e é difícil não imaginar que o destino último de Rato represente um pouco uma recusa de aceitar a entrada nesta nova fase, algo que o narrador sem nome parece fazer com menor dificuldade.

Aqui também já podemos ver um romance murakamiano mais típico, repleto de acontecimentos surreais e absurdos, bem como os fetiches peculiares que se tornariam constantes nos seus personagens (leia-se, orelhas incrivelmente bonitas). O estilo é muito mais maduro e bem acabado, com uma voz narrativa mais clara e consciente de si.

dance dance danceApesar destes três livros fecharem a “trilogia do Rato” propriamente dita, há ainda um quarto volume que retoma muito dos temas recorrentes a ela. Em Dance Dance Dance (também com edição em português) novamente encontramos um narrador sem nome, que podemos concluir que seja na verdade o mesmo dos livros anteriores, e mesmo Rato chega a ser brevemente citado, assim como o Hotel do Golfinho de Caçando Carneiros, que volta a ter um papel importante a cumprir. É interessante pensar nele como um epílogo da trilogia: podemos ver assim como o narrador de fato amadureceu e envelheceu ao longo dos anos, e torna muito significativo, por exemplo, o fato de ser o único livro em que ele termina a história acompanhado, sem ser abandonado pelas mulheres que conhece ao longo do caminho (o que não quer dizer que não seja um final angustiante à sua própria maneira, é claro).

Enfim, é bem claro para mim que muito da leitura que faço dos livros tem a ver com o momento que vivo atualmente, como já falei em outra resenha este ano. Não sei até que ponto posso dizer que estes pensamentos condizem realmente com a intenção do autor, ou se outro leitor em outra situação faria a mesma leitura que eu, ou veria nos livros as mesmas virtudes. Penso como tem sido difícil para mim manter um certo ritmo de leitura ultimamente; nada que eu pegava para ler me envolvia, e fazia uns bons meses que eu não terminava um livro. Mas então de repente me vejo em um personagem, e isso talvez me dê alguma força para ir um pouco mais adiante. O que me falta, talvez, seja encontrar o meu próprio carneiro com marca de estrela.

Caçando Carneiros, de Haruki Murakami

a-wild-sheep-chaseEu tinha vinte e nove anos. Dentro de seis meses, daria adeus à casa dos vinte. Uma década vazia. Nada do que eu conquistara tinha valor, nada do que eu realizara tinha sentido. Tédio era tudo o que eu obtivera.

(Caçando Carneiros, Haruki Murakami)

South of the Border, West of the Sun

southoftheborderAcho que todos passamos vez ou outra por aqueles momentos de inflexão e revisão da vida, em que revemos aquilo pelo que passamos e avaliamos o que poderíamos ter feito diferente, ter tentado ou não em determinados momentos, e que efeitos teriam no longo prazo da nossa vida. E se eu tivesse me declarado para a minha paixão platônica da oitava série? E se tivesse escolhido estudar Administração ao invés de História? E se tivesse me esforçado para manter contato com amigos, conhecidos, parentes?

Há quem dê a isso nomes próprios – crise dos vinte anos, dos trinta anos, da meia-idade -, e há quem simplesmente passe por elas sem aviso prévio. Em South of the Border, West of the Sun, o japonês Haruki Murakami encontra talvez a sua metáfora perfeita: a síndrome de Piblokto, ou histeria Ártica, que acomete os membros de povos inuit a partir de determinada idade, quando muitos abandonam tudo o que têm e começam a caminhar em direção ao pôr do sol, buscando alguma terra mágica que se encontraria no extremo oeste do mundo conhecido.

Da mesma forma, Hajime, o protagonista do livro, após uma década de incertezas e morosidade, finalmente se encontrou na vida como pai de família e administrador de dois bares de jazz bem sucedidos em Tóquio. No entanto, tudo é posto em perspectiva no momento em que ele reencontra Shimamoto, amiga de infância com quem perdera contato aos doze anos de idade, mas cuja sombra nunca o abandonou completamente. Andando em uma linha tênue entre o delírio e a realidade, ele passa a rever então os erros que cometeu na sua trajetória, a repensar os meios pelos quais chegou até aquele ponto, e a imaginar as tantas outras formas pelas quais a sua vida poderia ter se encaminhado.

Como os velhos inuit, Hajime busca nesse reencontro aquela terra mágica de felicidade que perdera ao se afastar da amiga, como se partisse na sua própria jornada de delírio rumo ao pôr do sol. No entanto, por mais que tente adiar a decisão, em algum momento sabe que terá que fazer a opção entre a vida que conquistou e aquela que sempre desejou para si.

É um romance curto, porém incrivelmente intenso. Não há nada das mil páginas e três volumes de um 1Q84; no entanto, suas frases e temas são também muito mais objetivos, sem gorduras sobrando, deixando entre os capítulos momentos de reflexão profunda sobre o relacionamento que temos com o passado e as opções que fizemos ao longo da vida. É um Murakami naquilo que ele tem de melhor, e extremamente recomendado.

1Q84

1q84Acho que não existe quem não seja familiarizado com a idéia de almas gêmeas. Você sabe: duas pessoas destinadas a ficarem juntas, que reconhecem um no outro tudo aquilo que querem num companheiro para a vida, e cuja união já está “escrita nas estrelas” praticamente desde o nascimento. Uma idéia romântica e boba, segundo muitos, típica da superficialidade da vida contemporânea, onde a falta de um sentido social mais amplo para a existência leva as pessoas a os procurarem em uma extrapolação e transcedentalização dos seus desejos individuais; há quem diga até que seria uma idéia um pouco assustadora se fosse mesmo verdade. Por outro lado, por mais cético que você seja, algumas vezes acontece de encontrar uma pessoa que põe isso tudo em perspectiva, e o faz pensar que talvez não seja algo tão absurdo assim.

Em todo caso, independente da sua opinião a respeito, é inegável que, antes de mais nada, almas gêmeas são um clichê. É um deus ex machina bastante fácil, em que um autor quer que dois personagens fiquem juntos mas não tem tempo para (ou muitas vezes não sabe como) fazer isso acontecer. É difícil encontrar uma história que utilize esta idéia sem sem soar tosca, óbvia e até um pouco preguiçosa. 1Q84, último livro do japonês Haruki Murakami, é uma das poucas que realmente consegue isso.

Muito se deve, é claro, ao fato de que Murakami possui tempo de sobra para desenvolver esta relação. São quase mil páginas, ou até mais dependendo da edição, para unir os protagonistas Aomame e Tengo – tantas que o livro foi publicado em três volumes separados no Japão, e será assim também aqui no Brasil. Há tempo para que a história de ambos seja contada em detalhes, para que conheçamos tudo aquilo que eles possuem em comum, bem como o evento arrebatador que os uniu ainda na infância. A narrativa pode até mesmo se dar ao luxo de expor o seu tema central já umas boas centenas de páginas adentro, não se preocupando em fazê-los se cruzar gratuitamente antes de isso ser realmente necessário.

Nesse meio-tempo, o enredo se desenvolve como um típico romance murakamiano. Já disse antes, mas é uma descrição tão perfeita que não há como não repetir: ler Murakami é como entrar em um estado de sonho onde impera a lógica do surreal e do onírico, em que o espírito de um corpo comatoso pode visitar apartamentos atrás de mensalidades atrasadas da rede de televisão NHK, seres pequeninos saem de dentro de cadáveres para criar casulos de ar, e uma segunda lua pode pairar suspensa ao lado da que conhecemos. Neste caso em especial a passagem para o outro mundo chega a ser mesmo literal, enquanto os dois protagonistas, cada um à sua maneira, acabam tragados para o ano de 1Q84, uma versão alternativa do nosso 1984 – o Q, no caso, representa uma questão, a dúvida que ambos possuem sobre a natureza do mundo em que entraram; e é também um trocadilho com o número nove em japonês, que é pronunciado kyu, da mesma forma que a letra Q em inglês.

O fato de ter uma narrativa de sonho, no entanto, não impede que o autor toque também em temas bastante concretos e reais. Dois em especial se destacam pela profundidade e frequência com que são tratados: o da violência contra as mulheres e a influência da religião na vida das pessoas. De um lado, Murakami não se furta de ser bastante cru e direto na descrição de cenas violentas, não tentando mascarar ou esconder a crueldade com que certos personagens são tratados. Do outro, traz à tona um tema bastante caro ao povo japonês – o das seitas religiosas fechadas, como a que causou o incidente com o gás sarin no metrô de Tóquio em 1995 -, sem deixar de dar a sua própria mensagem sobre o papel da espiritualidade e religiosidade para o ser humano.

Murakami possui um estilo bastante característico, com o qual eu já estou ficando bem acostumado. Suas descrições são detalhadas e cheias de pormenores, passando por cada cheiro, sensação e pequeno gesto feito pelos personagens. Nos piores momentos, isso torna a leitura morosa e até um pouco tediosa, com diálogos triviais e sem significado, algumas vezes até um tanto toscos (em especial na fixação de Aomame com o tamanho dos seus seios e os das suas amigas), além de constantes redundâncias e exposições que poderiam ser deixadas implícitas ao invés de serem escancaradas. Em especial os Little People, os seres sobrenaturais que desencadeiam boa parte do lado mais surreal do enredo, acabam perdendo bastante com isso, parecendo às vezes cômicos demais quando tentam ser assustadores.

Nos seus melhores momentos, no entanto, é uma prosa extremamente envolvente e impressionista, capaz de despertar sentimentos profundos através de palavras e frases simples, que parecem ter sido escritas de uma tacada só, como se saíssem naturalmente dos dedos do autor. Há espaço para reflexões filosóficas e referências eruditas profundas, desde a Sinfonietta do compositor tcheco Leoš Janáček, que perpassa muitos dos momentos fundamentais da trama, até O Ramo Dourado de Sir James Frazer, que serve de base para o seu lado mais místico e esotérico, além de uma longa presença nos capítulos finais de Em Busca do Tempo Perdido, do Proust. Como os próprios protagonistas, nestes momentos você também se sente tragado para o mundo estranho do ano 1Q84, e quase é capaz ver as duas luas pairando no céu quando olha pela janela.

Trata-se da obra mais ambiciosa de Murakami, enfim, mas não sei dizer se é um livro para todos os leitores. O seu tamanho assusta, e as particularidades do estilo podem facilmente entediar quem não estiver acostumado – o primeiro livro, em especial, é bastante devagar, para então seguir em um crescendo extremamente envolvente de tensão até mais ou menos a metade da história, e terminar com uma distensão longa e vagarosa até o desfecho. Se você nunca leu nada dele, talvez seja melhor começar com uma obra mais simples, como Minha Querida Sputnik ou Após o Anoitecer, antes de se arriscar; se já conhece ou é fã, no entanto, vai fundo, pois é uma leitura bastante única e cativante.


Sob um céu de blues...

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