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Glasshouse

glasshouseÉ curioso como um livro pode não causar um impacto muito grande em você logo após ser lido, mas acabar retornando em algum momento posterior e causar uma pequena explosão de ideias. Você o termina e pensa que não é grande coisa, mas então semanas, meses ou anos depois ele subitamente retorna ao seu pensamento, e de repente você se dá conta de que ele tinha um significado muito maior do que você percebeu inicialmente.

Glasshouse foi o primeiro livro do autor inglês Charles Stross que li, anos atrás, antes mesmo de Accelerando (seu livro mais conhecido) ou The Atrocity Archives. Na época, talvez por ter menos referências a seu respeito, achei uma ficção científica curiosa e instigante, mas acho que não consegui realmente entendê-lo na sua totalidade. Foi preciso algum tempo de maturação das minhas próprias ideias para que a sua história retornasse à minha memória, e eu pudesse entender o quão provocante ela é realmente.

O enredo se passa no século XXVII, muito depois da humanidade atingir a singularidade – alguns leitores defendem que ele divide o mesmo universo com Accelerando, mas trata-se na verdade de uma obra independente, que retoma muito dos temas daquela sem referi-la diretamente. A base da sociedade é uma extrapolação da tecnologia da informação, que transforma os próprios corpos humanos em pouco mais além de bits e bytes; você pode até mesmo fazer uma gravação de todas as informações contidas no seu corpo e então recriá-lo no caso de uma morte acidental, como se fosse um save point de um jogo eletrônico.

Outra consequência desta tecnologia é que é possível fazer alterações no próprio corpo alterando as suas linhas de código, recebendo habilidades únicas, membros extras ou o que mais você quiser. Talvez este seja o elemento que torne o livro mais provocante, e extremamente atual em vista de debates recentes da nossa sociedade: o seu próprio gênero, aqui, é apenas uma linha de código, que pode ser alterada livremente de acordo com a vontade do usuário. O protagonista, que abre o livro no gênero masculino, em um determinado momento muda-se para uma mulher para participar de um experimento social em uma estação espacial, e passa a maior parte do livro desta forma; e o mesmo acontece com outros personagens importantes.

Isso é posto em um forte contraste com a sociedade puritana norte-americana da década de 1950, cuja recriação é o objetivo do referido experimento social. É um período tratado como uma “idade das trevas” pelos personagens, não só pelas suas características intrínsecas, que o transformam rapidamente em um panóptico de pesadelo e dão ao enredo a sua característica de thriller literário, mas também porque poucos registros confiáveis a seu respeito sobreviveram – o que ecoa, aliás, certas entrevistas recentes de especialistas sobre a perenidade nem sempre lembrada de arquivos digitais. Claro, trata-se de um livro já com dez anos, então talvez algumas das respostas a que chegam neste debate pareçam datadas e não muito satisfatórias; mas em última instância, acredito que ainda valha mais pelas perguntas que faz e as ideias que provoca.

E talvez essa seja mesmo a principal função da (boa) ficção científica – não necessariamente encontrar as melhores respostas, mas pelo menos fazer as melhores perguntas. Trata-se, em todo caso, de um livro bastante instigante e provocador, como me acostumei a encontrar nos outros trabalhos do autor que li depois.

We Are Anonymous

Não tanto tempo atrás assim, o nome Anonymous varreu a internet como um furacão. Não acho que ninguém que se julgue minimamente bem informado vai deixar de reconhecê-lo: a entidade coletiva, ideal político ou, segundo alguns, simplesmente organização criminosa que causou algum furor ao atacar alvos que vão desde a Igreja da Cientologia até empresas como o PayPal, Visa e outras, muitas vezes em uma defesa apaixonada dos ideais políticos do WikiLeaks e o seu fundador, Julian Assange. Era só uma questão de tempo, assim, até que livros e publicações em profusão começassem a explorar o tema. We Are Anonymous: Inside the Hacker World of LulzSec, Anonymous, and the Global Cyber Insurgency, da editora londrina da revista Forbes Parmy Olson, foi só o primeiro que eu porventura acabei encontrando em uma livraria e comprando.

A obra faz um relato aprofundado sobre a história do grupo, desde a fundação do 4chan e o seu infame fórum /b/ até a prisão dos seus membros mais conhecidos. Um dos seus primeiros méritos, inclusive, é justamente o de fugir do lugar comum ou de se fundamentar apenas em suposições e panfletarismo midiático, buscando como fonte principal do seu relato os próprios perpetradores do grupo – conforme descrito longamente ao fim do livro, as histórias contadas tomam como base, além dos relatos públicos dos atos do grupo, diversos logs de chats vazados para a imprensa, e, principalmente, entrevistas diretas da autora com diversos dos hackers e apoiadores do Anonymous e do LulzSec.

Claro, isso leva também a outros problemas particulares: se os próprios usuários da internet, em especial os que se envolveram com o grupo, são conhecidos por mentir compulsivamente e sem qualquer razão aparente, como saber o que levar a sério ou não nestas entrevistas? Olson admite o problema e faz as suas escolhas durante o livro, mas é difícil não imaginar algumas das suas fontes mais recorrentes gargalhando atrás dos seus computadores, pensando ter feito a sua maior trollagem. Mesmo levando isso em conta, no entanto, ainda acho que o livro faz um excelente trabalho em desmistificar o grupo, buscando o seu lado mais humano além da coletividade, tentando entender as razões que levam pessoas anônimas escondidas atrás de nicks virtuais, muitas vezes adolescentes mesmo, a militar em prol de causas que pouco entendem, geralmente sem conhecer totalmente os riscos envolvidos nos seus atos.

Obviamente, não espere que a autora realmente assuma o lado do Anonymous, e defenda os seus atos como revolucionários ou em prol do bem maior ou qualquer coisa assim. Trabalhando para uma revista como a Forbes, é claro que ela os enxerga como perigosos, muitas vezes quase como bullies virtuais, e enfatiza com veemência o seu caráter de ilegalidade. No entanto, ao tentar sinceramente entendê-los e humanizá-los, ela também consegue fugir daquela primeira camada de conservadorismo, enxergando bem além do vandalismo digital que turva a visão de muitos. Em especial, ela consegue expor com bastante eficiência toda a desinformação de veículos de mídia e dos órgãos de policiamento como o FBI, que tentavam enxergar organização e ideologia onde muitas vezes havia só lulz e algum direcionamento fraco, feito por “líderes” que geralmente não tinham mais autoridade do que um aluno popular de colégio. Nisso, o livro também ajuda bastante a compreender, mais do que apenas o fenômeno que discute, a própria internet como entidade virtual.

Outro aspecto que acho interessante de destacar no livro é o seu valor literário. A autora tenta dar algum floreio ao seu estilo narrativo, descrevendo algumas cenas em detalhes como se fosse realmente uma testemunha visual; isso incomoda um pouco do nível da credibilidade da informação, mas também torna a leitura um tanto mais envolvente. Você passa a conhecer e se importar com os personagens do livro como se eles fossem realmente personagens de um romance, com direito a um enredo repleto de intrigas, traições e um final épico, o que acaba causando um certo choque quando você para para pensar que de fato acompanhou muito daquilo tudo através de noticiários. O livro não faria feio mesmo como um romance cyberpunk, e não duvido que seja melhor e mais interessante do que muita coisa que o Neal Stephenson já escreveu.

No fim, alguns problemas à parte, ainda acho que We Are Anonymous é uma leitura bastante interessante e informativa. Não vá achando que você sabe tudo o que há para saber a respeito apenas ao lê-lo, é claro, como não deveria ao ler qualquer livro que seja; no entanto, ele ainda traz alguns insights e reflexões relevantes, lançando de forma didática e objetiva alguma luz sobre fenômenos e acontecimentos que podem ser difíceis de entender para alguns. Tenho certeza que muitos dos que o lerem não irão mais olhar para as suas senhas virtuais da mesma forma que antes.

Accelerando

Existem algumas coisas sobre a ficção científica que a tornam facilmente um dos mais efêmeros dos gêneros literários. A forma como ela necessariamente lida com o conhecimento humano, através de especulações em cima de ciências naturais e humanas, bem como toda a concepção de gadgets fabulosos pela qual é geralmente mais conhecida (admita, você sempre quis ter uma pistola de raios ou um sabre de luz), faz com que qualquer obra esteja sujeita a se tornar obsoleta com alguma rapidez, na medida em que estas ciências se desenvolvem e as idéias que a inspiraram em primeiro lugar vão sendo suplantadas por outras mais atuais. Some-se a isso ainda o fato de que o próprio interesse das pessoas pelos diversos campos da ciência tende a variar bastante com o passar das décadas, quando mudanças de contextos políticos, sociais e econômicos podem tornar um ou outro deles mais atrativo às massas do que os demais.

Assim, por mais que autores como Isaac Asimov, Ray Bradbury ou Arthur C. Clarke sejam clássicos incontestáveis dentro do gênero, muitas das suas obras já não têm tanto a dizer a uma geração onde a sua ciência está ultrapassada e os seus questionamentos muitas vezes já não são tão relevantes. (Ok, na verdade eu abro uma exceção aí para o Bradbury, cuja obra de maneira geral tinha um aspecto de especulação social e política que ainda pode ser interessante e relevante mesmo nos dias de hoje). Viagens espaciais já não têm o mesmo apelo de quando a Guerra Fria e a corrida espacial estavam no auge e notícias a respeito saíam nas primeiras páginas dos jornais; da mesma forma, questionamentos filosóficos sobre a humanidade de robôs e inteligências artificiais também parecem um pouco fora de contexto em um mundo onde os próprios seres humanos ainda estão por demais divididos. Nesse sentido, o cyberpunk da década de 1980 ao menos parece um subgênero mais atual, lidando com a tecnologia da informação e outras ciências mais próximas da geração corrente; mesmo ele, no entanto, também já tem os seus vícios e idéias ultrapassadas, que já soam irremediavelmente retrô (que o diga a famigerada Matriz e as suas paisagens formadas por linhas verde-luminosas).

Isso talvez explique um pouco por que hoje em dia a fantasia está muito mais em voga na literatura do que a ficção científica. Tem muito a ver com sucessos do gênero em outras mídias, é claro, em especial o cinema, mas a própria FC nunca deixou de estar presente nelas – Star Trek / Jornada nas Estrelas mesmo teve uma adaptação recente de relativo sucesso. (E eu prefiro não contar Star Wars nesse grupo, uma vez que ela é muito mais uma fantasia travestida de FC do que uma FC propriamente dita). Mas, como me questionou recentemente um amigo, onde temos um Harry Potter da ficção científica? Ou mesmo um Senhor dos Anéis? A fantasia ao menos tem a vantagem de lidar com a imaginação de uma forma mais pura, e por isso mesmo demorar mais em se tornar obsoleta – um arco mágico pode ser um arco mágico por cinqüenta anos, mas uma pistola de raios mudará bastante nesse tempo, tanto em funcionamento como em aparência. É esse tipo de noção que muitas vezes me parece faltar aos autores mais contemporâneos do gênero, em especial no Brasil, onde parece que todos estão ainda muito presos aos vícios e paradigmas de uma FC tradicional demais e que responde muito pouco aos questionamentos das gerações mais atuais.

E assim chegamos a Charles Stross. Fazia um bocado de tempo que eu não tinha contato com uma ficção científica tão atual e contemporânea, que especula sobre a ciência e o futuro de um ponto de vista que realmente parece sair da nossa própria época. Acho que a melhor forma de descrever Accelerando, talvez seu livro mais conhecido, é como uma space opera cyberpunk – e mesmo ela talvez seja mais uma tentativa minha de rotulá-lo, é claro. Temos lá as viagens espaciais, encontros com alienígenas e seres artificiais autômatos que são tão caros à FC de todas as épocas; todos eles, no entanto, são apresentados com uma roupagem atualizada, desenvolvidos a partir de conceitos e idéias contemporâneas, e com gadgets e afins que não soam completamente inconcebíveis nos dias de hoje. Misture a isso ainda uma visão provocante do futuro fundamentada na tecnologia da informação (o próprio Stross, aliás, é graduado e trabalhou por anos na área, então pode-se dizer que ele sabe bem do que está falando), pensada até as suas últimas conseqüências políticas, econômicas e mesmo jurídicas, e você tem como resultado um cenário complexo e único, que soa atual como poucas FCs, mesmo algumas das mais recentes, conseguem, e capaz de fazer a sua cabeça quase que literalmente explodir com a quantidade de informação passada em cada frase.

Claro, antes que corram atrás dela achando que é a última obra-prima da ficção científica, é bom deixar claro que ela também tem alguns problemas sérios do ponto de vista mais formal. Não se trata propriamente de um romance no sentido tradicional, em que a história segue linearmente de um capítulo ao outro até o desfecho; ao invés disso, a história é formada por nove contos fechados, ainda que não exatamente independentes, aonde acompanhamos três gerações da família Macx ao longo de todo século XXI e além, e a forma como ela acaba influenciando o destino final da humanidade no sistema solar. Essa estrutura fragmentada é bastante confusa algumas vezes, quando a narrativa se perde em meio a flashbacks de eventos importantes ocorridos entre os contos, sem contar em diversos momentos em que o narrador assume o tom de um locutor de documentário descrevendo as mudanças tecnológicas e sociais que ocorreram em cada década. Isso pode passar algumas vezes a impressão de que a história toda é mais complicada do que realmente é, ainda mais se considerarmos a quantidade de tecnologias novas e estranhas a que somos apresentados a cada parágrafo.

Por outro lado, o grande espaço de tempo percorrido pelo enredo também permite uma visão panorâmica não de um único futuro, mas vários deles, e a forma como um vai abrindo espaço e sendo sobreposto pelo outro, desde as mais próximas e menos impressionantes primeiras décadas deste século, até o caos de tecnologias e simulações virtuais que é a virada para o próximo século. Isso faz com que se adicionem à leitura comentários e reflexões interessantes sobre o choque de futuro e a velocidade crescente das inovações e revoluções técnicas, muitas vezes até com um tom meio cômico e satírico bastante divertido.

Em todo caso, Accelerando acaba valendo muito mais por toda a revolução de idéias e concepções provocantes que promove do que propriamente a história que conta, ainda que ela não seja de todo desinteressante ou mal-executada. Mesmo assim, não pode deixar de ser lido por qualquer um que tenha algum interesse sério em ficção científica, pela forma como atualiza diversos conceitos já ultrapassados mas que ainda são onipresentes no gênero. E quem se interessar, enfim, pode mesmo baixá-lo gratuitamente no site do autor, que tomou a iniciativa de disponibilizá-lo através da licença Creative Commons.

Google Nosso

Google nosso que estás na rede,
Santificada seja vossa url.
Vem a nós a vossa página,
Faça-se a vossa busca,
Assim no Linux como no Windows.

Os bytes nossos de cada dia nos dai hoje,
E perdoai a nossa falta de informação
Assim como nós perdoamos
Aos nossos visitantes.
Não nos deixai entregues à ignorância,
Mas livrai-nos da dúvida.

Amém.

O PC

(clique aqui para ouvir)

Era um PC muito engraçado:
Não tinha placas, não tinha cabos.

Ninguém podia fazer trabalhos;
Não tinha mouse, e nem teclado.

Ninguém podia acessar a rede,
Porque Windows não tinha nele.

Ninguém podia algo imprimir –
Nem monitor tinha ali.

Mas era feito com muito esmero
Da IBM, Pentium Zero.

O Ritual

O carneiro amarrado berrava sobre o altar de pedra, ciente do destino que o aguardava. Um homem em um manto negro se aproximava pelo lado, sem tirar os olhos dele, em passos cuidadosos e ritmados, enquanto murmurava uma melodia em tons graves. Parou quando chegou ao lado do animal; retirou de dentro do manto um punhal com a ponta levemente encurvada e começou a afiá-lo na pedra do altar.

Cada passada do instrumento na pedra era acompanhada por uma palavra em uma língua desconhecida, o som próximo a um urro gutural, e um aumento no desespero da vítima. Quando estava pronto, o homem olhou nos olhos do animal, segurou-o e apertou-o pelo pescoço até ser capaz de ver a jugular pulsando sob suas mãos, e, em um movimento rápido, degolou-o, deixando o sangue escorrer sobre o altar e para o chão.

O homem parou por alguns minutos, os olhos vazios de emoção, segurando a cabeça silenciosa do carneiro enquanto o sangue escorria. Então soltou o animal e correu para o computador na sala ao lado. A empolgação logo tornou-se decepção: ainda não havia slots disponíveis para realizar o download.

Era hora de trocar de deus.

Nelinha e O Computador

Nelinha tinha medo de computadores. Não, era mais do que medo: tinha horror deles. Aquelas caixas de metal cheias sons, luzes, botões… Havia algo de demoníaco ali, algo que despertava o seu mais profundo pavor. O marido dizia que era bobagem, que computadores eram máquinas, e serviam apenas para o que você quisesse usá-los, mas para Nelinha pouco importava: era mais forte que ela, um sentimento irracional muito além de qualquer autocontrole.

Sentia um pouco de vergonha, é claro. Todos os dias via o marido, os filhos e os amigos alegres em seus PCs, visitando sites, lendo e-mails, jogando jogos, mas nunca conseguia reunir coragem o bastante para se juntar a eles. Quase conseguiu uma vez, ao ver o filho mais novo gargalhando e se divertindo frente ao monitor; tentou se aproximar com cautela, mas, antes mesmo que ele a percebesse, se virou tremendo e voltou para a cozinha. Em outra situação a filha tentou seduzi-la chamando-a para ver uma revelação bombástica sobre a novela das oito, mas, ao perceber que precisaria ler a notícia no computador, Nelinha preferiu esperar para assistir quando os capítulos fossem ao ar. E em outra ainda o marido tentou obrigá-la a criar uma conta em um programa de mensagens instantâneas, para poderem se comunicar durante o dia, mas ela resistiu e se recusou até ele desistir.

A gota d’água veio quando o marido ligou para casa numa tarde de quarta-feira, preocupado por ter esquecido de pagar a conta de luz. Pediu para Nelinha pegar o boleto e pagar pela internet, pois os bancos já haviam fechado; ele explicaria exatamente como fazer. Mas ela não lhe deu ouvidos: bastou o computador ser mencionado que deixou o telefone cair no chão, e correu chorando para o quarto. A luz foi cortada antes do fim do dia, e os dois brigaram violentamente naquela noite, deixando os filhos aos prantos. Foi quando Nelinha tomou a decisão: não poderia mais continuar assim.

Logo que a luz voltou, aproveitou uma tarde em que estava sozinha para resolver, afinal, aquela situação. Reuniu toda a coragem que possuía e se sentou na frente da máquina; suspirou profundamente, e apertou o botão de ligar. Quase pulou para trás: no exato instante em que o monitor acendia, um trovão caiu na rua, e começou a chover. Nelinha balançou a cabeça, e voltou para a cadeira; não ia ser o tempo lá fora que mudaria sua resolução.

O computador ligou devagar, e entrou no sistema operacional. Nelinha brincou com o mouse por um tempo, vendo a seta se mover entre os ícones da área de trabalho, e afinal clicou em um deles. Foi quando tudo parou de repente, e uma mensagem apareceu no monitor: este programa executou uma operação ilegal e será fechado.

Nelinha ficou pálida. Teria feito alguma coisa errada? Se o marido descobrisse, estava morta! Olhou para o teclado, e apertou o botão Enter; sempre ouvia o marido dizendo para os filhos apertarem ele. A mensagem sumiu, e ela suspirou aliviada.

Empalideceu novamente: outra vez ela aparecia, a mesma mensagem. Apertou Enter de novo, e de novo, e de novo, e ela sempre voltava. Tentou outras teclas: Esc, Tab, Shift, Ctrl, Alt, F1, F2, A, T, S, 4, >, ?… Nada funcionava.

Já tremia de pânico quando um novo barulho chamou sua atenção. Olhou para baixo, assustada: a entrada para CDs que estava aberta. Teria feito o comando sem perceber?

Nelinha não teve tempo de pensar – um grupo de fios saltou de dentro da máquina e agarrou o seu pescoço, puxando-a com força para frente. Ela tentava resistir, mas eram fortes demais; agarrou os fios com as mãos e tentou puxá-los para longe, mas o mouse pulou e golpeou a sua barriga, fazendo-a soltá-los, e então lhe amarrou os braços junto ao corpo.

Os fios continuavam puxando-a para frente, batendo-a contra o monitor uma, duas, três vezes, até a tela se quebrar e um fio de sangue começar a escorrer do canto da testa de Nelinha. Apertavam com força o seu pescoço; logo já não conseguia mais respirar, e tudo escureceu vagarosamente…

O marido e os filhos a encontraram morta, enrolada nos fios do computador, quando voltaram para casa no fim do dia. Nunca descobriram o que aconteceu.


Sob um céu de blues...

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