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Aniquilação

aniquilaçãoJeff VanderMeer tem um problema com fungos. Não se tratam de micoses ou pés-de-atleta, claro (ou pelo menos até onde eu posso falar); mas é uma fixação tão constante na sua obra que chega a ser curioso, no mínimo. O ciclo de histórias de Ambergris, por exemplo, que são as suas obras mais conhecidas, possui como elemento central uma civilização de cogumelos que existiria sob a cidade, influenciando de alguma toda a sua história repleta de mistérios – algo assim como um gritty reboot de Super Mario Bros., digamos. E também na sua trilogia do Comando Sul, cujo primeiro volume, Aniquilação, foi lançado recentemente em português, o tema volta a ser recorrente.

Mas vamos por partes. Segundo a sinopse do livro, décadas atrás algum tipo de catástrofe ambiental se abateu sobre uma região do planeta, cuja localização exata nunca sabemos realmente, isolando-a do resto do mundo. Aos poucos a natureza foi tomando os últimos vestígios da presença humana, dando origem a uma fauna e flora exótica e surpreendente. Para entender exatamente o que aconteceu, uma série de expedições foram organizadas e enviadas para lá. Nem todas retornaram; algumas tiveram mesmo resultados catastróficos, com o desaparecimento, morte ou mudança de todos os membros enviados.

No livro conhecemos o destino da décima segunda destas expedições, formada por quatro mulheres: uma antropóloga, uma topógrafa, uma psicóloga, que é também a líder da missão, e uma bióloga, a narradora da história. Não sabemos, a princípio, quase nada sobre seus passados, apenas que foram escolhidas por critérios obscuros e enviadas para lá de uma maneira misteriosa. Aos poucos, no entanto, o que ocultam sobre suas vidas é justamente o que vai semear a catástrofe na missão, sobretudo na medida em que elas se depararem com situações imprevisíveis e encontros que desafiam a sua sanidade e o seu entendimento sobre o mundo.

VanderMeer domina como poucos a narrativa de suspense. Há algo de tenso e sombrio na sua escrita praticamente desde a primeira frase – você consegue perceber logo de início que algo muito errado acontecerá, e a tensão sobre o que o desencadeará o acompanha a cada virada de página. Essa sensação se intensifica a cada novo encontro com os horrores impossíveis que se escondem na Área X. Para quem joga videogames, a história lembra um jogo do auge dos survival horrors, como Silent Hill ou os primeiros Resident Evil: há um ambiente misterioso e perigoso, em que você nunca sabe ao certo o que está acontecendo; e a ansiedade a cada parágrafo de não saber se ele será seguido um novo confronto aberrante ou uma revelação perturbadora sobre aquilo que o cerca. Cada solução encontrada se abre em dez novos mistérios, porém sem a garantia de que tudo acabará bem no final.

Uma coisa muito pontual, apenas, acaba quebrando o clima que o autor constrói com tanta habilidade no resto do tempo. Há um papel muito grande dado aos efeitos da hipnose sobre as personagens, usado como deus ex machina para garantir certos desenvolvimentos em alguns momentos importantes. Para os céticos (como eu), é preciso forçar um pouco a suspensão de descrença e passar por cima deste detalhe. (Por outro lado, estamos falando de um livro de horror cósmico de ascendência lovecraftiana, então há quem vá dizer que este é o elemento menos fantástico da história de qualquer forma…)

Em todo caso, Aniquilação ainda é uma história de suspense e horror cósmico muito bem escrita e executada, recomendadíssima. Aguardo com bastante ansiedade pelos próximos livros da trilogia, que lancem mais luzes (e consequentemente tragam mais mistérios) sobre o que se esconde afinal sob a assustadora Área X.

Wonderbook, de Jeff VanderMeer

WonderbookPg31_473Ao longo dos anos, eu aprendi a sempre ter caneta e papel comigo – mesmo na mesa de cabeceira – para que se eu acordar no meio da noite, ter o mínimo de tempo possível entre a ideia e o registro da ideia. Eu às vezes escrevo no celular, mas baterias de celular podem acabar, e celulares podem resetar, apagando as notas, então eu sempre prefiro caneta e papel. Eu também não faço cerimônia ou cortesia se eu estou com pessoas e uma ideia surge – eu apenas paro a conversa e escrevo o que precisa ser escrito. Se você observar todas as delicadezas sociais, você pode perder algo importante. Imagens, personagens, fragmentos de diálogo são todos incrivelmente vulneráveis à erosão pelo ambiente.

(Jeff VanderMeer, Wonderbook – The Illustrated Guide to Creating Imaginative Fiction)

– Vai, amor, vai… Assim, isso… Tá gostoso… Não para, não par– Amor?

– Desculpa, querida, mas eu tenho que anotar uma ideia aqui!

A Situação

A Situação é o primeiro livro do norte-americano Jeff VanderMeer publicado no Brasil, pela Tarja Editorial, que, lançando-o em conjunto com Rei Rato, tem tentado trazer para cá alguns nomes importantes do movimento conhecido como new weird, que fez algum barulho no mercado editorial lá fora nos últimos dez anos. Diferente do livro de estréia de China Miéville, no entanto, este aqui é uma obra bem mais modesta, tanto em tamanho quanto em pretensões. Ao invés de um grande romance, trata-se de uma pequena novela, não muito mais do que um conto alongado, desses que você consegue ler tranqüilamente em uma sentada ou duas.

O tema central do livro é o mundo corporativo e as suas normas e burocracias, mas extrapolados ao nível do caos absoluto, enquanto um determinado funcionário é gradualmente isolado na empresa pelos seus colegas de trabalho sem motivo aparente. Pense nos personagens e histórias em quadrinhos do Dilbert, mas jogados em meio a um cenário surreal repleto de horrores biomecânicos e criaturas monstruosas. O resultado final lembra algo dos Laundry Files do Charles Stross, com os seus horrores cósmicos perambulando em meio aos corredores de um órgão público; e muito dos pesadelos clássicos de Franz Kafka, tendo me remetido durante a leitura tanto às transformações psicológicas de A Metamorfose como aos labirintos normativos de O Processo.

Não sei exatamente como classificar o livro. É sim um trabalho de fantasia, certamente, mas me parece um pouco vazio querer classificá-lo com o mesmo rótulo de um Tolkien ou George Martin, por exemplo. Ele parte muito mais da nossa própria realidade, adicionando elementos fantásticos em situações pontuais; mesmo assim, não acho também que realismo fantástico seja uma boa classificação – não é a mesma cosia que fazem um Gabriel García Marquez ou Haruki Murakami, afinal. As imagens que me vinham a cabeça durante a leitura eram muito mais as das pinturas de artistas como Salvador Dali e Max Ernst: a fantasia usada não como justificativa de todo o enredo, e nem como ferramenta dele; mas sim como subversão da realidade, formando uma espécie de lente de aumento em que os absurdos da rotina em um escritório se tornam mais claros e evidentes. Por isso, acho que talvez a melhor classificação para ele seja mesmo o de surrealista.

Uma coisa que torna a leitura um tanto maçante, em todo caso, é justamente a forma como essa lente parece se aplicar a praticamente tudo. O TVTropes tem uma denominação própria para isso: Our Dragons Are Different (ou Nossos Dragões São Diferentes); é a tentativa de fazer com que uma coisa familiar e clichê fique subitamente original simplesmente trocando algum elemento dela por outro completamente diferente. Então se dragões normalmente cospem fogo, você irá fazer os seus cuspirem relâmpagos; e se arquivos geralmente são grandes armários repletos de papéis e pastas, você os fará como, hum, um tipo de mamífero exótico em estado de decomposição. VanderMeer faz isso o tempo todo neste livro, e depois de encontrar com besouros-espiões, lesma-elevadores e baratas-revólveres, é difícil se impressionar muito.

É interessante também destacar o trabalho gráfico feito pela editora. Até para dar um pouco mais de volume para uma obra que não é assim tão grande em primeiro lugar, foram adicionadas algumas imagens na abertura de cada segmento, sempre acompanhada de versão em negativo no verso da página. Misturando desenhos das criaturas descritas no livro com colagens de fontes, elas conseguem reforçar bem o clima de estranhamento e surrealismo da história, criando um efeito bem interessante como resultado final. Só a fonte escolhida talvez pudesse ter sido menos exagerada (podem ver ela na capa aí em cima), acho, mas aqui é só o meu designer amador interno dando palpites mesmo.

Em todo caso, A Situação é sim uma leitura bem interessante, que usa a fantasia como forma de nos fazer pensar e refletir sobre o nosso próprio mundo um pouco, além dar alguns sorrisos com algumas piadas de humor negro aqui e ali. Mas bacana mesmo seria ver uma obra como Veniss Undergroud, essa sim mostrando tudo que o autor é capaz de fazer, lançada por aqui.

Veniss Underground

Jeff VanderMeer é, junto com China Miéville, um dos principais nomes do movimento new weird, que teve algum destaque na literatura de gênero internacional no início do século mas só agora começa a aportar por aqui através de alguns lançamentos recentemente anunciados pela Tarja Editorial. É dele alguns dos principais títulos do movimento, em especial o premiado City of Saints and Madmen, um livro tão complexo que, apesar de já ter lido, eu simplesmente não tive coragem de resenhar. E além de autor ele também é reconhecido pelo seu trabalho na organização de coletâneas, como The New Weird, reunindo alguns dos principais nomes associados ao rótulo, e o Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditas, no qual eu tive a honra de ser selecionado para participar na edição portuguesa.

Veniss Underground foi o seu primeiro romance publicado, uma vez que mesmo seus lançamentos anteriores, como o próprio City of Saints…, eram na verdade antologias de contos e novelas. Nele acompanhamos a história de Nicholas e Nicola, gêmeos ligados intimamente desde o nascimento, e de Shadrach, ex-amante e ainda apaixonado pela segunda, na cidade sombria de Veniss, que algumas dicas dispersas pela narrativa levam a crer ser localizada na própria Terra alguns séculos no futuro, quando algum tipo de desastre a transformou em um vasto deserto inabitável exceto por pequenos enclaves e cidades-estado. Apesar disso, no entanto, não podemos dizer que se trate de uma ficção científica pura – há espaço, é claro, para especulação e extrapolação científicas, em especial com respeito à cibernética e a engenharia genética, mas de maneira geral o cenário se encontra muito mais naquele território nebuloso onde a FC se confunde com a fantasia e o terror, e que é tão característico do new weird.

Em todo caso, os problemas e relacionamentos entre os três eventualmente os levarão atrás de Quin, uma figura poderosa e enigmática comparada nas sinopses ao próprio demônio, e a uma jornada pelos subterrâneos da cidade com fortes ecos d’A Divina Comédia e do mito de Orfeu e Eurídice. VanderMeer narra toda a história com muita habilidade, fazendo um jogo em que cada um dos personagens é protagonista em uma parte da história, que são mesmo escritas em pessoas diferentes e vão aumentando em tamanho até chegar ao desfecho. Nesse meio tempo, conhecemos o universo surrealista do autor, repleto de paisagens caóticas e criaturas maravilhosas capazes de encantar e assustar com praticamente a mesma força, como em uma pintura do artista medieval Hieronymus Bosch.

Além da narrativa principal, o livro também conta com um apêndice chamado Veniss Stories, que inclui três contos (The Sea, Mendeho, and the Moonlight, Detectives and Cadavers e A Heart for Lucretia) e uma novela (Balzac’s War), todos situados no mesmo universo. Com histórias mais simples, mas não menos envolventes, o autor retoma elementos marcantes do cenário, muitas vezes com fins trágicos. Apesar de serem tecnicamente independentes, um olhar atento pode mesmo reparar em uma certa continuidade, com o cumprimento ao fim da última história de acontecimentos previstos ainda da primeira parte do livro.

Veniss Underground, enfim, é um livro excelente, repleto de momentos cativantes e envolventes, o new weird no que ele tem de melhor. Recomendo muito, para quem não tiver problemas com a língua inglesa.

Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas

Entrei em contato pela primeira vez com o intrigante trabalho do Dr. Thackery T. Lambshead através de alguns escritos do Dr. China Miéville, onde constava o seu relato bastante curioso a respeito da Praga de Buscard, retirado do famoso Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas. Tendo meu interesse despertado, busquei saber mais a respeito, mas à época o volume era disponível apenas em poucas e esparsas cópias britânicas e norte-americanas, de forma que não obtive sucesso em adquiri-lo.

Recentemente, no entanto, através da intervenção de uma conhecida a quem sou por isso muito grato, soube que era iminente o lançamento de uma edição portuguesa da importante obra, de forma que fui atrás de informações. Descobrindo também que estavam atrás de relatos de terras lusófonas para adicionar ao material original, prontamente preparei um pequeno artigo a respeito do Cancro de Meme, esta odiosa doença que há anos tem ocupado minhas pesquisas. Para minha surpresa, o relato foi considerado digno de ser incluído junto aos demais, e assim me uni a nomes como o dos Drs. Alan Moore, Neil Gaiman, Michael Moorcock e outros nesta belíssima edição da editora lusitana Saída de Emergência.

Deixo, portanto, minhas sinceras recomendações a respeito deste lançamento, para aqueles que por ventura forem capazes de adquirir livros de além-mar.

The New Weird

the-new-weird-ann-and-jeff-vandermeerA new weird é como é chamado um subgênero recente da literatura fantástica que tem tido um certo destaque nos mercados de língua inglesa na última década, comparado por alguns críticos ao cyberpunk dos anos 80, como se estivesse acontecendo hoje na fantasia a revolução que houve então na ficção científica. Claro que todo novo rótulo acaba sendo um pouco polêmico e questionável, ainda mais na new weird, que em primeiro lugar já nem é mais tão new assim, e ainda parte da premissa justamente de não reconhecer as barreiras entre gêneros e subgêneros; tem muito a ver com a mania dos editores de língua inglesa, norte-americanos principalmente, de encontrar um nicho para tudo, e com a necessidade dos autores de encontrar espaço em um mercado assim. Por outro lado, como destaca o organizador Jeff VanderMeer, ele próprio um autor identificado com o movimento, no prefácio desta coletânea sobre o tema, essa classificação passa a ter uma certa relevância quando se nota que muitos dos principais prêmios de literatura fantástica dos últimos anos foram entregues a autores de alguma forma identificados com ela.

E o que é a new weird, então? Fundamentalmente, é os autores de fantasia, horror e ficção científica tomando as rédeas das suas próprias criações, se recusando a seguir fórmulas prontas ou linhas editoriais ao escrever suas obras; eles não querem copiar Tolkien ou Asimov, não querem escrever sobre cavaleiros nobres enfrentando dragões nem robôs em crise existencial, muito menos sobre guerras intergaláticas ou buscas épicas por artefatos ancestrais capazes de salvar o mundo – querem, muito mais, voltar aos tempos seminais da revista Weird Tales, onde foram publicados nomes como H. P. Lovectaft e Robert E. Howard, quando tais distinções ainda não estavam tão enraizadas. A partir daí, no entanto, toda definição acaba ficando um pouco arbitrária, embora haja alguns elementos comuns que sejam marcantes, como: o cuidado técnico com a linguagem, maior do que é comum na literatura de massas; uma ênfase nos ambientes urbanos, diferente do ambiente rural típico das histórias de fantasia; o uso de uma estética grotesca e bizarra como forma de chocar e surpreender o leitor; o uso de analogias e metáforas para falar, a partir da fantasia, do nosso próprio mundo; e uma certa predileção por transpor barreiras de gênero, misturando fantasia, ficção científica, horror e outros rótulos como se tudo fosse a mesma coisa. Estas, ao menos, são as características que mais me chamaram a atenção ao ler os contos desta coletânea, ainda que nenhuma delas possa ser considerada como canônica e imutável – afinal, um gênero que parte da premissa de não seguir fórmulas prontas fica meio sem sentido no momento em que ele próprio se torna uma fórmula.

O livro é dividido em quatro partes. A primeira, chamada Stimuli, traz contos de autores anteriores à new weird que de alguma forma influenciaram os principais nomes do movimento, e é onde estão alguns dos melhores momentos da coletânea. Destaque para In the Hills, In the Cities, de Clive Barker, com uma bizarra competição entre duas cidades, facilmente a história que mais me impressionou em todo o livro (se algum conto neste livro merece a alcunha de weird, certamente é este); e Crossing Into Cambodia, do Michael Moorcock, uma releitura de O Coração das Trevas passada na terceira guerra mundial, claramente inspirada por Apocalipse Now. The Braining of Mother Lamprey, de Simon D. Ings, é outro bom momento, uma viagem de fantasia urbana caótica, com algumas das passagens mais bizarras e divertidas que eu já li em histórias fantásticas; bem como The Neglected Garden, de Kathe Koja, uma história de suspense bizarro à lá Stephen King.

A segunda parte, Evidence, é onde encontramos os autores identificados com a new weird propriamente ditos. Em geral, no entanto, não achei esta parte tão interessante quanto a anterior – há alguns bons momentos, principalmente nas histórias com monstros espantosos e bizarros, mas ela sofre um pouco daquele mal de coletâneas: as histórias são curtas demais para você se envolver o bastante com elas, e algumas são ainda longas demais para passar apenas por leitura de banheiro. Outro problema é que alguns dos contos são na verdade excertos de obras maiores, de forma que você fica bastante perdido sobre o que está acontecendo. Há alguns bons destaques, no entanto: Jack, de China Miéville, revisita o seu cenário tradicional de Bas-Lag para contar a história do maior herói da mertrópole New Crobuzon – é uma história interessante, que questiona o próprio papel de heróis em uma sociedade, mas não achei ela tão instigante e envolvente quanto os romances do autor; Watson’s Boy, de Brian Evenson, lembra aqueles contos e mundos labirínticos do Jorge Luís Borges; At Reparata, de Jeffrey Ford, apesar do ambiente medieval mais tradicional, tem personagens criativos, um monstro legal e uma história envolvente e cativante; The Ride From the Gabbleratchet, de Steph Swainston, mesmo sendo um excerto sem começo nem fim, vale pelos monstros e paisagens fantásticas; e The Gutter See the Light That Never Shines, de Alistair Rennie, apresenta uma cidade fantástica repleta de psicopatas bizarros.

A terceira parte, Symposium, é a mais decepcionante. A premissa era a de ter alguns autores e críticos comentando sobre a new weird, o que ela é e os seus elementos mais marcantes; na prática, no entanto, a maioria dos artigos acaba se estendendo demais em questionar e responder até que ponto vale a pena criar um rótulo novo e por que aderir a ele, repetindo os mesmos argumentos que já aparecem no texto que abre este pedaço do livro, este sim bastante interessante e relevante, uma transcrição editada das discussões entre autores no forum Third Alternative que levaram à criação do termo (e que podem ser lidas na íntegra, em inglês, aqui). A exceção fica para o ótimo texto de Darja Malcom-Clarke, Tracking Phantoms, que fala sobre alguns dos elementos que se tornaram identificados com o gênero, especialmente a estética do grotesco e a mistura de gêneros.

Por fim, fecha o livro o Laboratory, com a história Festival Lives, um experimento coletivo em que um grupo de autores de fantasia tradicional foram chamados a escrever em turnos uma história a partir do que eles entendiam como new weird. O resultado é interessante, embora sofra um pouco de falta de foco – cada escritor seguiu por um caminho diferente as idéias apresentadas pelos anteriores, adicionando elementos e personagens novos e avançando o enredo de forma indireta ao invés de linear. É um pouco estranho de acompanhar, mas no fim até que é uma leitura interessante, especialmente para quem gosta de cidades fantásticas e criaturas bizarras.

Em geral, The New Weird é um livro interessante para quem gosta de literatura fantástica e quer descobrir que é possível ser original e autoral dentro do gênero, fugindo daquela mesmice dos clones tolkenianos. Como toda coletânea de vários autores, é mais um ponto de partida do que de chegada, mas é um ótimo ponto de partida – eu, pelo menos, ganhei uma boa quantidade de autores para procurar assim que o dólar voltar a um patamar razoável. A grande decepção mesmo é perceber que um movimento literário tão prolífico lá fora não demonstra qualquer eco em terras tupiniquins, onde nenhuma obra associada foi lançada e poucos se propõem a escrever a partir das idéias que eles apresentam. Fica aí a bronca para as editoras nacionais.


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