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A Tristeza da História

Paulo-Freire-protestoEssa semana parece que todo mundo quer falar de política. Tanto se falou, comentou, questionou, impugnou, que não acho realmente que eu tenha algo a acrescentar, e nem vou tentar. Meu comentário é sobre um tema bem mais pessoal, que toca só tangencialmente tudo o que tem acontecido ultimamente no país.

Para quem não sabe, sou formado em História, e atuo como professor em uma escola municipal. Há treze anos que me embrenho em aprender o ofício com Hobsbawn, Marc Bloch, Ciro Flamarion Cardoso, tantos outros por aí. Há treze anos que estudo a trajetória da humanidade ao longo do tempo, desde lá a pré-História até o que quer que tenha sido notícia ontem. Claro, não tenho como saber toda a História, e há assuntos entre tantos do qual sei mais ou menos a respeito. Mas tenho um diploma de especialização justamente sobre a História do Brasil contemporâneo, então alguma coisa sobre o nosso próprio país eu tenho que saber. Ou acho que tenho.

Mesmo assim, isso nunca é o suficiente quando se entra em uma discussão justamente sobre a História do país. De repente um achismo, ou vivência pessoal, ou qualquer que seja a opinião daquele colunista lá do jornal totalmente isento e sem agenda política nenhuma, ai de quem duvidar da sua imparcialidade jornalística, vale muito mais do que qualquer opinião que eu possa ter a partir daquilo que estudei, pois, obviamente, independente de qualquer dado ou embasamento histórico, se eu discordo dele eu só posso estar me deixando levar pela minha “ideologia pessoal.”

Longe de mim querer dar um carteiraço, é claro, dizer que o meu diploma me torna a autoridade suprema do assunto ou qualquer coisa assim. Mas, sabe, não seria ruim receber um pouco de crédito por aquilo que eu passei os últimos treze anos estudando.

É tão hipócrita esse clichê argumentativo de acusar a ideologia como fonte de todos os males intelectuais. Primeiro por assumir que se pode ser livre de ideologia. Segundo por achar que a própria ideologia é um ente estranho, alienígena, alheio a tudo e a todos, e que ela também não é construída socialmente e historicamente a partir de experiências, vivências e reflexões.

Eu sei de onde vem a minha ideologia. Fui criado em um berço de direita, longe de ser esplêndido, é bem verdade, mas que hoje sei reconhecer ter tido uma quantidade razoável de privilégios. Até entrar na faculdade, sei que certamente tinha um pensamento mais inclinado para o que se costuma classificar como direita política. A faculdade me levou mais ao centro, por me ensinar auto-crítica e a tentar olhar as coisas pelos olhos dos outros, a de fato respeitar, analisar e entender suas posições. (Sou grato às aulas de antropologia por isso. Sou da opinião de que ensinar antropologia nas escolas tornaria o mundo um lugar muito mais estimulante intelectualmente. Ninguém pode ser um ser humano completo sem ter tido pelo menos um semestre de introdução à antropologia).

O que me fez sair do armário e me levou realmente à esquerda do espectro ideológico foi a especialização. Mais especificamente, estudar o que aconteceu exatamente no país em 1964. É difícil manter a fé na imprensa, na sociedade civil, na própria classe média, quando se vê os pormenores daquele período, a discrepância entre o que existia de fato e o que era relatado nos jornais, o tipo de paranóia e histeria que eles incitavam na população. E é realmente um pouco assustador ver a quantidade de paralelos possíveis entre o que acontecia então e os dias de hoje. (Mas não, não vou acreditar que o desfecho vá ser necessariamente o mesmo – não acredito que a História sempre se repita, ou, pelo menos, não necessariamente; os momentos são outros, os atores também, as experiências se acumulam, e, até as coisas de fato acontecerem, sempre podemos ter o benefício da dúvida).

Talvez seja justamente por saber reconhecer a origem da minha ideologia que eu consiga ver a contradição que é achar ser possível não ter ideologia, que você pode simplesmente analisar quaisquer que sejam os fatos friamente, sem recorrer a experiências anteriores e idéias pré-concebidas, e então formar a sua opinião isenta sobre eles. Isso não existe. Ideologia não é juízo de valor, é simplesmente o seu modo de pensar. Não é ideologia só quando é esquerda. A direita também tem ideologias. O centro também. Até rejeitar as ideologias é uma ideologia, e vai influenciar o seu pensamento e a sua avaliação do mundo da mesma forma, nem que seja apenas por fazê-lo se esforçar em não seguir as outras ideologias e ficar sempre em cima do muro (uma armadilha teórica em que já caí diversas vezes em discussões, pra ser sincero).

Como você pode apontar um dedo acusador para o professor de História, acusando-o de ser ideológico, e então falar de repente na gloriosa Revolução de 1964? Apenas por chamá-la de revolução você já está sendo ideológico. Toda revolução política é um golpe em algum nível, e a escolha do termo é apenas um retrato da sua ideologia.

Ou ainda, tirando um exemplo direto da última manifestação: uma faixa que exigia o fim da “doutrinação marxista,” com o abandono de Paulo Freire nas escolas. Freire, para quem não sabe, é um pedagogo reconhecido internacionalmente, respeitado em todo o mundo. Possivelmente seja o intelectual brasileiro mais lido fora do Brasil. Nos Estados Unidos e na Europa há universidades que dedicam andares inteiros das suas bibliotecas apenas à sua obra. A própria ONU e a UNICEF, ao verem a foto da faixa, correram para defendê-lo, compartilhando citações em suas contas de twitter e facebook. Mas ele também é um pensador assumidamente de esquerda, e, o pior dos crimes, ligado diretamente ao PT, tendo sido secretário municipal de educação do governo da Luiza Erundina em São Paulo. Analisando friamente, é um pensador renomado que serve aos educadores dos Estados Unidos e da Europa. Mas aparentemente não serve para os do Brasil. Como não há ideologia aí?

Poderia dar mais exemplos. Poderia falar de um movimento que se diz apartidário, mas que critica e ataca um único partido, e tem muitos de seus membros vestindo camisas de apoio ao último candidato de oposição a ele. Um movimento anti-corrupção que isenta um partido como o PP – o que teve mais nomes citados para investigação no atual escândalo de corrupção dos jornais – de bandeiras e xingamentos. Onde estão as camisas mandando Luís Carlos Heinze – que não é um qualquer irrelevante, foi o deputado mais votado do Rio Grande do Sul nas últimas eleições – tomar no seu orifício anal?

Mas o ponto não é esse. O ponto é: ideológicos sempre são os outros. Eu sou isento. Eu sou imparcial. Por que só os historiadores, só os professores de História e outras ciências humanas, têm esse ônus?

Minha suposição é que os cientistas humanos são os únicos que são realmente humildes quanto a isso. A idéia de que a História deve “contar os fatos como eles realmente aconteceram,” como já vi gente falando por aí, é ridiculamente ultrapassada – qualquer estudante de Teoria da História I sabe associar essa citação a Leopold von Ranke, historiador alemão do século XIX, e ele próprio nem era tão isento assim, sendo ligado ao conservadorismo prussiano da época. Quando nos afastamos desse preceito nos dois séculos seguintes, não estávamos querendo manipular as massas ignorantes com a nossa malvada ideologia marxista-leninista-trotkista-satânica-ateia; apenas aprendemos a assumir que talvez não seja tão fácil assim sequer conhecer os fatos como eles realmente aconteceram, e o que podemos fazer, se tanto, é tirar algumas conclusões a partir dos indícios e vestígios que temos.

Esse tipo de honestidade, no entanto, não costuma ser bem visto por quem quer certezas absolutas. Um jornalista que comece a sua manchete bombástica com um “eu acho que…” dificilmente seria levado a sério. Um economista, então, seria execrado – há textos ótimos por aí sobre como certos economistas fazem para manter o prestígio mesmo quando todas as suas tentativas de previsões se mostram erradas muito mais freqüentemente do que certas, e eu mesmo já resenhei um livro ótimo que questiona muitos dos pressupostos sobre os quais a ciência econômica contemporânea foi estabelecida.

Então quando derrubam a obrigatoriedade do diploma para o jornalismo, o mundo vira de ponta cabeça; será o apocalipse da informação, as pessoas não saberão mais em quem acreditar. Mas quando um jornalista sem qualquer formação acadêmica, sem nenhum conhecimento teórico ou metodológico, escreve um livro de História, todos passam a tratá-lo como autoridade. Pelo menos ele é imparcial, já que é jornalista; não é como os historiadores que passaram vinte anos estudando e fazendo especializações e mestrados e doutorados, eles são todos cheios de ideologia.

Me pergunto como seria se historiadores formados recebessem o mesmo tipo de autoridade pública que outras classes de intelectuais recebem. Se estudar História de verdade foi o que me fez virar à esquerda ideologicamente, como seria com outras pessoas? É claro, conheço muitos historiadores respeitados com pensamentos de direita ou de outros espectros intermediários da ideologia, então isso não é nenhuma garantia. Mas quando tantos intelectuais da área têm idéias tão bem alinhadas, é difícil não se pegar imaginando se esses “fatos como eles realmente aconteceram” são realmente tão contraditórios com o pensamento que eles pregam.

No fim, acaba que a própria História se torna diminuída como disciplina. Outro dia estava vendo uma entrevista com um técnico de futebol em um canal esportivo, e um dos jornalistas perguntava, “excluindo-se o aspecto histórico, pode-se dizer hoje que o clube X é um time grande?” Como se uma classificação tão subjetiva pudesse prescindir de História. Como se fosse a História que poluísse de ideologia a análise fria e objetiva que se pode fazer sem ela do tamanho de um clube. E se em um tema tão periférico como o futebol isso já acontece, que dirá dos “grandes temas.”

De repente todos os viúvos da ditadura começam a fazer muito mais sentido.

We Are Anonymous

Não tanto tempo atrás assim, o nome Anonymous varreu a internet como um furacão. Não acho que ninguém que se julgue minimamente bem informado vai deixar de reconhecê-lo: a entidade coletiva, ideal político ou, segundo alguns, simplesmente organização criminosa que causou algum furor ao atacar alvos que vão desde a Igreja da Cientologia até empresas como o PayPal, Visa e outras, muitas vezes em uma defesa apaixonada dos ideais políticos do WikiLeaks e o seu fundador, Julian Assange. Era só uma questão de tempo, assim, até que livros e publicações em profusão começassem a explorar o tema. We Are Anonymous: Inside the Hacker World of LulzSec, Anonymous, and the Global Cyber Insurgency, da editora londrina da revista Forbes Parmy Olson, foi só o primeiro que eu porventura acabei encontrando em uma livraria e comprando.

A obra faz um relato aprofundado sobre a história do grupo, desde a fundação do 4chan e o seu infame fórum /b/ até a prisão dos seus membros mais conhecidos. Um dos seus primeiros méritos, inclusive, é justamente o de fugir do lugar comum ou de se fundamentar apenas em suposições e panfletarismo midiático, buscando como fonte principal do seu relato os próprios perpetradores do grupo – conforme descrito longamente ao fim do livro, as histórias contadas tomam como base, além dos relatos públicos dos atos do grupo, diversos logs de chats vazados para a imprensa, e, principalmente, entrevistas diretas da autora com diversos dos hackers e apoiadores do Anonymous e do LulzSec.

Claro, isso leva também a outros problemas particulares: se os próprios usuários da internet, em especial os que se envolveram com o grupo, são conhecidos por mentir compulsivamente e sem qualquer razão aparente, como saber o que levar a sério ou não nestas entrevistas? Olson admite o problema e faz as suas escolhas durante o livro, mas é difícil não imaginar algumas das suas fontes mais recorrentes gargalhando atrás dos seus computadores, pensando ter feito a sua maior trollagem. Mesmo levando isso em conta, no entanto, ainda acho que o livro faz um excelente trabalho em desmistificar o grupo, buscando o seu lado mais humano além da coletividade, tentando entender as razões que levam pessoas anônimas escondidas atrás de nicks virtuais, muitas vezes adolescentes mesmo, a militar em prol de causas que pouco entendem, geralmente sem conhecer totalmente os riscos envolvidos nos seus atos.

Obviamente, não espere que a autora realmente assuma o lado do Anonymous, e defenda os seus atos como revolucionários ou em prol do bem maior ou qualquer coisa assim. Trabalhando para uma revista como a Forbes, é claro que ela os enxerga como perigosos, muitas vezes quase como bullies virtuais, e enfatiza com veemência o seu caráter de ilegalidade. No entanto, ao tentar sinceramente entendê-los e humanizá-los, ela também consegue fugir daquela primeira camada de conservadorismo, enxergando bem além do vandalismo digital que turva a visão de muitos. Em especial, ela consegue expor com bastante eficiência toda a desinformação de veículos de mídia e dos órgãos de policiamento como o FBI, que tentavam enxergar organização e ideologia onde muitas vezes havia só lulz e algum direcionamento fraco, feito por “líderes” que geralmente não tinham mais autoridade do que um aluno popular de colégio. Nisso, o livro também ajuda bastante a compreender, mais do que apenas o fenômeno que discute, a própria internet como entidade virtual.

Outro aspecto que acho interessante de destacar no livro é o seu valor literário. A autora tenta dar algum floreio ao seu estilo narrativo, descrevendo algumas cenas em detalhes como se fosse realmente uma testemunha visual; isso incomoda um pouco do nível da credibilidade da informação, mas também torna a leitura um tanto mais envolvente. Você passa a conhecer e se importar com os personagens do livro como se eles fossem realmente personagens de um romance, com direito a um enredo repleto de intrigas, traições e um final épico, o que acaba causando um certo choque quando você para para pensar que de fato acompanhou muito daquilo tudo através de noticiários. O livro não faria feio mesmo como um romance cyberpunk, e não duvido que seja melhor e mais interessante do que muita coisa que o Neal Stephenson já escreveu.

No fim, alguns problemas à parte, ainda acho que We Are Anonymous é uma leitura bastante interessante e informativa. Não vá achando que você sabe tudo o que há para saber a respeito apenas ao lê-lo, é claro, como não deveria ao ler qualquer livro que seja; no entanto, ele ainda traz alguns insights e reflexões relevantes, lançando de forma didática e objetiva alguma luz sobre fenômenos e acontecimentos que podem ser difíceis de entender para alguns. Tenho certeza que muitos dos que o lerem não irão mais olhar para as suas senhas virtuais da mesma forma que antes.

Futebol, Torcida e Distanciamento Crítico

Não existe distanciamento crítico no futebol. Curto e grosso, é isso mesmo: o simples fato de se interessar pelo tema o bastante para querer falar algo a respeito já pressupõe no mínimo alguma simpatia por clubes, jogadores, cores ou o que for, e isso elimina qualquer possibilidade de um distanciamento teórico para fins de análise. É simples assim, não importa o que cronistas e comentaristas e o que for tentem vender; muito mais honesta e ética é a atitude de um Juca Kfouri, que se assume corintiano mas faz o possível para que isso não nuble a sinceridade das suas opiniões, que é, afinal, aquilo pela qual um jornalista de verdade deveria prezar mais, do que a de um Maurício Saraiva, que tenta vender que qualquer paixão clubística anterior desapareceu no momento em que ele se tornou um profissional.

Portanto, não venham me dizer que qualquer reação da torcida do Grêmio no último domingo tenha sido exagerada, que o que o pilantra-cujo-nome-não-deve-ser-mencionado fez foi meramente uma escolha profissional, ou qualquer blá blá blá copiado palavra por palavra de algum ex-jogador comentarista que seja. É claro que ele é um profissional, que tinha o direito de decidir pela melhor proposta, mas não é isso o que realmente importa no futebol, no fim das contas. Também não tem nada a ver com alguma racionalização grosseira sobre perdas e ganhos de dez anos atrás, somada à ingenuidade ao querer esquecer disso no início deste ano. Tem a ver, isso sim, com uma torcida inteira que se sentiu traída duas vezes, por um jogador que passou a juventude inteira no clube, e o que faz da segunda tão pior, muito além da forma como foi realizada, é justamente o fato de que havia a vontade sincera de perdoar a primeira.

No fundo, o que faz do futebol ser o que ele é não são os jogadores, os patrocinadores, os cartolas, os comentaristas, ou qualquer outro cujo o nome estampe as manchetes de jornal quotidianamente, mas a torcida. Isso não é idealismo ou populismo barato, mas uma observação empírica mesmo, que vai além do romantismo tosco das “festas das arquibancadas” e semelhantes. O que faz valer a pena contratos milionários de transmissão de jogos pela televisão se não o fato de que existem milhões de torcedores dispostos a assisti-los, e assim gerar audiência e publicidade para a emissora? E qual o sentido de colocar um jogador em uma propaganda de lâmina de barbear, telefonia móvel ou o que for, se não o fato de que existem torcedores que o admiram, que conhecem a sua carreira, e que ao menos se lembrarão do produto como “o produto do Neymar, ou do Kaká, ou do Ronaldo,” ou de quem for?

Tire a torcida do futebol, enfim, e o que sobra? Um joguinho chato e demorado, com poucos momentos de brilho intenso espalhados entre longos períodos de marasmo técnico. Já falei o que eu penso sobre a idéia do futebol como espetáculo em outro momento, e não vou me repetir. O ponto aqui é que, sem a torcida, o tal “espetáculo do futebol” simplesmente perde todo o sentido, e essa racionalização extrema, que transforma cada jogador em uma simples peça a ser negociada e trocada indiscriminadamente, ignora justamente o sentimento desta parcela tão importante dos envolvidos com o esporte. Eu não ignoro, enquanto torcedor, que os jogadores são profissionais, e têm o direito de pensar e se preocupar com suas carreiras; posso até admitir, mesmo que com alguma dificuldade, uma atitude como a do atacante Kléber, por exemplo, que, ao receber alguns meses atrás uma proposta do Flamengo, ao menos foi sincero e transparente com os dirigentes e a torcida do Palmeiras, dizendo que tinha recebido esse contato, o que acabou desandando no médio prazo e levou à situação atual em que ele se encontra. Já aconteceu com o Grêmio antes, e nem por isso os envolvidos foram sumariamente excluídos da história do clube. O que eu não admito é que eles, enquanto jogadores, ignorem que eu também tenho o direito de ser tratado com respeito e honestidade, justamente aquilo que mais faltou no outro caso.

As empresas em geral tem essa noção da importância das torcidas, na verdade. Sendo provavelmente o elo mais fraco em toda a equação do futebol, é interessante notar como elas de fato tomam todo o cuidado ao lidar com ele. É só observar a publicidade com personalidades do futebol aqui no Rio Grande do Sul: sempre possuem dois “protagonistas”, cada um ligado à história de um dos grandes clubes locais. Por anos, nenhuma empresa aceitou patrocinar o Grêmio se já não estivesse patrocinando o Inter também, e vice-versa. E muitas mesmo aceitaram mudar suas logomarcas para isso – como a famosa logomarca preta da Coca-Cola, já que a camisa tricolor jamais poderia ter qualquer traço de vermelho, e mesmo a versão colorada ainda corrente do logotipo do Banrisul.

Parafraseando Tywin Lannister em algum episódio da primeira temporada da série Game of Thrones, todos os jogadores morrerão um dia, assim como todos os treinadores, e cartolas, e comentaristas. Isso vale para o pilantra e o seu irmão ainda mais pilantra, bem como para o outro traíra tricolor Tinga, e mesmo para os ídolos verdadeiros como Renato Portaluppi, Danrlei e o Felipão. O que sobrevive é o clube, pelo menos enquanto, é claro, ele tiver a sua torcida. Os torcedores individuais podem morrer; mas a torcida em si é um ente muito maior do que a mera soma das suas partes, e sobreviverá. E aos que não entenderem isso, que lidem com o ostracismo como puderem.

É isso, enfim, que eu tinha para dizer aqui. Sou contra essa cientificização do esporte, essa tentativa de transformar tudo em um grande Cartola F. C. da vida real. Racionalizar demais o futebol é tirar dele justamente o que ele tem de mais interessante e apaixonante. No que me diz respeito, sou um torcedor antes de todo o resto, e mereço e exijo tanto respeito quanto qualquer das outras partes envolvidas.

A Revolução Não Será Televisionada

O ano é 2002. Uma dupla de cineastas irlandeses está na Venezuela para gravar um documentário. O tema? O presidente eleito Hugo Chávez – já então uma figura capaz de causar singulares polêmicas e controvérsias no debate político internacional. No meio do período da gravação, no entanto, explode uma tentativa de golpe de estado arquitetada pelos oposidores do presidente.

Segue-se então um dos maiores shows de desinformação e manipulação de notícias dos meios de comunicação venezuelanos e internacionais. Revoltas populares, repressão armada, negociações políticas em meio à um palácio presidencial tomado por militares – tudo devidamente gravado e registrado pelos dois cineastas, e posteriormente comparado com transmissões de notícias de redes locais e internacionais, especialmente norte-americanas.

Não vou entrar no mérito da imparcialidade jornalística do filme, o que, já disse antes, qualquer um com um mínimo de pensamento crítico sabe reconhecer como uma falácia das mais descaradas; os diretores claramente assumem a posição de defender os ideais chavistas, procurando exumar os partidários do presidente de qualquer culpa mesmo quando ela é simplesmente inevitável. No entanto, o que realmente choca no documentário é a discrepância entre as imagens registradas e o que é televisionado pelos meios de comunicação. Momentos como os ministros de Chávez, depois de terem recuperado o poder em uma intensa manifestação popular, assistindo pela televisão, no próprio palácio presidencial, a uma declaração por telefone, ao vivo, do presidente golpista dizendo que não havia revolta popular e que ele ainda se encontrava no poder em Caracas, quando em realidade já havia fugido do palácio no momento em que as bases do exécito se rebelaram e passaram a trabalhar para trazer de volta o presidente deposto, seriam realmente cômicas, se não fossem simplesmente trágicas.

Enfim, me abstenho de julgar os méritos e deméritos do governo Chávez, pra evitar uma discussão que seria interminável, repleta de ideais inflamados muito mais do que qualquer tipo pensamento racional, e da qual eu mesmo me considero longe do nível de informação adequado para participar. Mesmo isso, no entanto, não torna A Revolução Não Será Televisionada um relato menos chocante e revoltante. É difícil assistir a um relato como esse e ainda manter qualquer fé na mídia jornalística como é praticada hoje. É só ver por vocês mesmos.

Transmetropolitan – De Volta às Ruas

Não preciso dizer muito do que eu penso sobre o jornalismo contemporâneo que eu já não tenha dito antes. Pode ser difícil para um leitor médio da Veja ou Carta Capital (pra ninguém dizer que eu estou sendo tendencioso) entender, mas jornalismo isento e imparcial é uma ficção (a menos que estejamos falando d’O Sensacionalista, é claro, o único jornal isento de verdade). Nada mais natural, portanto, que o seu maior baluarte seja de fato um jornalista fictício, o protagonista Spider Jerusalem da série Transmetropolitan, a magnum opus do roteirista britânico Warren Ellis.

Spider é obcecado por descobrir A Verdade, em letras maiúsculas mesmo, e relatá-la em suas colunas para o jornal A Palavra. É também usuário de mais drogas estimulantes e alucinógenas do que devem ser descobertas durante o próximo século, um fumante compulsivo que obriga até o seu gato de duas cabeças a segui-lo no vício, um bastardo sem consideração pelos sentimentos alheios, e uma figura de maneira geral imprevisível e perigosa de se ter ao redor, especialmente se estiver acompanhado do seu disruptor intestinal. Enfim, pode-se dizer que é uma versão cyberpunk de Hunter S. Thompson, o pai do jornalismo gonzo, conhecido por clássicos do jornalismo literário como Hell’s Angels e Medo e Delírio em Las Vegas; ao mesmo tempo, no entanto, é também um alter-ego do próprio Ellis, tendo muito da personalidade que ele expõe aos leitores do seu blog e twitter.

De Volta às Ruas, o primeiro volume encadernado lançado aqui pela Panini, conta a história de como ele, após cinco anos de reclusão nas montanhas, é obrigado a voltar à metrópole para cumprir um contrato de publicação firmado antes do isolamento. A Cidade, como é conhecida, é uma personagem à parte, praticamente um segundo protagonista da série, tão imprevisível e perigoso como o primeiro: um universo cyberpunk levado ao extremo, onde a tecnologia permite praticamente tudo, de latas de isolamento sonoro a bombas de publicidade, e mesmo a presidência dos Estados Unidos é quase uma propriedade particular. Spider a odeia com todas as suas forças; ao mesmo tempo, no entanto, entende bem que precisa dela, precisa sentir as suas ruas sob os seus pés e respirar o seu ar radioativo, ou é incapaz de escrever uma linha sequer. É esta relação de ódio e necessidade que dá a tônica destas primeiras histórias, enquanto somos apresentados ao ambiente e personagens que serão importantes nos arcos mais longos dos volumes seguintes.

Trata-se de uma série carregada no sarcasmo e no humor negro, do tipo que anda sempre na corda bamba entre a provocação e a ofensa pura. E isso é o que ela tem de melhor – não são histórias inofensivas, que você lê, ri e guarda inocentemente na prateleira, mas que constantemente questionam visões de mundo e opiniões formadas no senso comum. É o Warren Ellis no seu ápice: você pode perceber em cada quadro ou diálogo a paixão com que foram escritos, como se ele estivesse finalmente contando a história que realmente quer, depois dos anos preso nos roteiros de super-heróis que o lançaram no mercado.

Enfim, Transmetropolitan – De Volta às Ruas, bem como o resto da série toda se a editora não tiver ainda desistido da sua publicação, é uma diversão inteligente e provocante, como só certos autores de quadrinhos britânicos são capazes de fazer. Recomendo muito.

Pra não dizer que não falei da Copa (e do Saramago)

E chegamos, então, ao perído de mais uma Copa do Mundo, e é claro que muitos esperam que eu venha falar algo a respeito, por ser um interessado algo mais que casual em futebol e até mesmo, nas suas devidas proporções, pesquisador acadêmico do assunto. Não posso decepcioná-los, é claro, e até me empolguei e acabei escrevendo um texto deveras, er… Longo, expondo algumas de minhas opiniões pessoais a respeito.

A verdade, que talvez seja uma surpresa para alguns, é que eu realmente não consigo me empolgar tanto com o futebol de seleções quanto me empolgo com o futebol de clubes. Não consigo deixar de ver nelas resquícios de uma das mais complicadas e, quero acreditar, anacrônicas instituições ocidentais, que é a nação moderna, e dos sentimentos de nacionalismo que já geraram tantas guerras e problemas. Quer dizer, não é à toa que a Copa do Mundo, por exemplo, passa a ser organizada a partir da década de 1930 – é justamente o período chamado por Eric Hobsbawn de “a era de ouro dos nacionalismos”, quando a construção das principais nações modernas estava consolidada, e os sentimentos de pertencimento inflamados buscavam formas de se expor e criar campos de conflito, fossem simbólicos (como o futebol e esportes em geral) ou reais (como as guerras mundiais).

É realmente curioso que, criada num contexto deste tipo, a Copa (e, em menor escala, as Olimpíadas) siga como um evento de tão grande porte, capaz de mobilizar e parar países inteiros para assisti-la, principalmente após algumas décadas em que tantos tentaram e outros lutaram para anunciar o fim iminente das fronteiras nacionais. É uma das provas, entre tantas outras, de que tais tentativas falharam em grande medida. Mesmo um jogador que passe quinze anos da sua vida viajando por diversos países europeus a cada quatro anos veste uma camisa com cores de uma bandeira latino-americana e se diz brasileiro, ou argentino, ou uruguaio. A globalização do esporte não mudou isso – certamente criou formas diferentes de como pode acontecer, como os jogadores filhos de imigrantes, nascidos em ex-colônias, ou mesmo os simplesmente naturalizados, mas essencialmente o que se tem ainda é um tipo de conflito de nações, ainda que simbólico e (teoricamente) pacífico.

Pessoalmente, acho que meu lado mais romântico gostaria de poder me anunciar como um cidadão do mundo, antes de brasileiro, ou gaúcho, ou porto alegrense (mas não antes de gremista). No fundo, claro, sei que isso não passa de um idealismo meu, inviável e impraticável na realidade, mas é por isso, provavelmente, que eu raramente me empolgue em de fato torcer pela seleção brasileira. Não interessa o fato de eu, por um acaso do destino, ter nascido em uma cidade que fica dentro de um estado que faz parte de um país chamado Brasil – isso me diz tanto sobre para quem eu devo torcer quanto quanto o fato de eu ser destro, ou branco, ou ter olhos verdes. Simplesmente não consigo me identificar com o Brasil da mesma forma que me identifico com o Grêmio, em parte justamente pelo fato de o segundo não necessitar que eu o vincule a qualquer outra entidade ou elemento que não as suas equipes de futebol. Mesmo o Grêmio enquanto representante do futebol gaúcho é uma vinculação relativa, já que o Internacional também a possui, e assim qualquer tipo de “nacionalismo gaudério” teoricamente me impediria de secá-lo contra times do centro ou de fora do país (coisa que avós e tias desentendidas do futebol vez por outra me cobram).

Isso não quer dizer, claro, que eu nunca torça para a seleção, ou que efetivamente torça contra ela. Em geral sou indiferente, mas em alguns momentos, devido a diversos fatores, eu posso tomar alguma posição. Em 2002, por exemplo, eu realmente torci pelo Brasil, em grande parte devido ao fator Felipão, pela sua identificação com o Grêmio – identificação esta que inclusive já me foi um tema de trabalho na faculdade. Já em 2006 eu não me empolguei, tanto que fui um dos poucos a adivinhar quem seria a campeã (sim, eu apostei na Itália).

E agora em 2010, eu casualmente me encontro torcendo novamente. Não tem nada a ver com o fato de o Dunga ser gaúcho – até porque seria um pouco contraditório de minha parte criticar os nacionalismos só pra cair em seguida nos regionalismos. Até acho essa história toda de bairrismo e tradicionalismo divertida enquanto brincadeira, mas não mais do que isso. Me considero um gremista antes de um gaúcho, e isso até me colocaria contra o Dunga, que, afinal, é identificado justamente com os meus rivais. Enfim, se não tenho dificuldade em torcer contra o Inter, certamente não teria também em torcer contra ele.

Por outro lado, no entanto, existe algo que me aborrece ainda mais do que todos estes ufanismos patrióticos no futebol, e da qual eu já falei anteriormente: é aquele meu velho ranço com o jornalismo e os jornalistas. O que me faz torcer pelo Dunga, antes de tudo, é a atitude que ele assume nas entrevistas com os órgãos de imprensa, não se furtando de provocar e expor aqueles que ainda o perseguem, mesmo após ele ter ganho praticamente tudo o que disputou nos último quatro anos. Não digo que seja uma atitude corajosa – muitas vezes ela se aproxima mais de ser uma paranoia mesmo -, mas é ótimo ver ele lembrando de comentários e afirmações de jornalistas de um ano ou dois atrás, que todos acreditavam (arrisco dizer até que esperavam) já estar esquecidas. E, convenhamos, boa parte desses jornalistas de fato merecem esse tratamento – acompanhando algumas entrevistas, como a que ele concedeu após a convocação final para a Copa, vi ele aceitando até bem algumas perguntas que deram vontade, a mim, de levantar e quebrar alguns narizes. Há um longo caminho da provocação até a falta de respeito pura e simples, e ele foi percorrido mais de uma vez nesses últimos seis meses.

Assim, se torço pela seleção este ano, isso não tem nada a ver com valores patrióticos, nacionalismos ufanistas ou o que for. Tem a ver, pura e simplesmente, com a minha vontade de ver o sorriso amarelo na cara de alguns comentaristas quando o Dunga descer do avião com a taça de campeão na mão.

Enfim. Alguns poderiam me perguntar, então, considerando que sou tão crítico assim dos nacionalismos esportivos, e que não consigo ver o mesmo sentido em torcer para uma seleção nacional que vejo quando torço para um clube de futebol, o que me faz assistir e me interessar pela Copa do Mundo. Quem me segue no twitter vê que eu acompanho a maioria dos jogos, e comento alguns deles quase em tempo real. Não estaria sendo contraditório?

Acho que, no fundo, eu não consigo escapar do fato de que, mais do que tudo, eu realmente gosto de futebol, e do esporte competitivo de maneira geral. Não que eu mesmo seja um grande esportista (muito pelo contrário), mas acho curioso observar todo este universo que existe em torno deles – como já destaquei em algum outro momento, ele tem muito de uma mitologia na sua composição, uma espécie de liturgia laica, criadora de heróis e epopéias, e é difícil para mim, enquanto pseudo-escritor de fantasia, não me interessar por isso. Assim, se não me interesso pelas seleções enquanto representações nacionais, não consigo deixar de me interessar por elas enquanto equipes de futebol, pura e simplesmente, com suas próprias histórias, dramas e enredos particulares.

Esta é uma das razões, aliás, pela qual eu geralmente acho difícil torcer pela seleção brasileira. O considerável sucesso do futebol nacional nos últimos anos – se não dos próprios clubes, dele enquanto paradigma, como também já destaquei em algum outro momento – parece ter dotado a seleção, bem como o país e os jornalistas esportivos, de uma certa soberba profundamente irritante, como se todas as partidas e competições, e principalmente a Copa do Mundo, já começassem ganhas, e, quando isso não se confirma, é muito mais porque não fomos capazes de atender às expectativas do que por algum mérito que os adversários, por qualquer motivo que seja, possam ter. Isso é facilmente observável quando analisamos as últimas decepções passadas pela seleção – o que causou a derrota na Copa de 1998, por exemplo? Foi o futebol elegante do Zidane, que depois seria três vezes o melhor jogador do mundo, ou o ataque epilético do Ronaldo antes do jogo decisivo? E na Copa de 2006, fomos eliminados por uma seleção que só perderia o título nos pênaltis e ainda teria o craque da Copa segundo os organizadores, ou pelo Roberto Carlos ajeitando as meias na cobrança da falta que resultou no gol? A história oficial certamente fez as suas opções. A soberba também explica, aliás, a razão pela qual torço pelo Dunga este ano – se não me importo de ter a soberba nacional satisfeita, é porque adoraria ver contradita a soberba dos jornalistas esportivos anteriormente referidos.

Isso nos leva, então, à questão de que outras seleções, além da brasileira, eu gostaria de ver campeã este ano. Acho que aquela que mais me agradaria é, provavelmente, a da Holanda. A equipe holandesa atual, com nomes como Robben, Sneijder e van Persie, é provavelmente a melhor do país desde a grande geração dos anos 1990, que tinha Frank de Boer, Seedorf e Bergkamp, e que foi vencida duas vezes pelo Brasil em jogos hoje considerados antológicos. Uma vitória da Holanda faria justiça não apenas àquela, mas também ao famoso Carrossel Holandês dos anos 1970.

Outra equipe me interessaria ver campeã é a Sérvia. Sim, a Sérvia – não seria nenhuma zebra, apesar de ser certamente pouco provável. Pelo que ando vendo, muitos tendem a subestimá-la, provavelmente por não lembrar de suas participações passadas, mas a verdade é que esta é a primeira vez em que ela participa, de fato, como Sérvia (descontando-se, talvez, 2006, quando representava a então recém-extinta nação de Sérvia e Montenegro). Na verdade, ela foi parte da hoje extinta Iugoslávia, que sempre foi uma seleção chata de se enfrentar, e tinha como base justamente os jogadores sérvios, junto a alguns croatas e não mais do que um ou dois de qualquer outra região. Assim, muitos ignoram a tradição do futebol sérvio, e nem se dão conta de que a equipe atual conta com jogadores como o meio-campista Stankovic, campeão europeu pela Inter de Milão, e os zagueiros Ivancovic e Vidic, que jogam no Chelsea e Manchester United, respectivamente.

Uma vitória da Sérvia, aliás, faria justiça não apenas à tradição futebolística da ex-Iugoslávia, como também da Europa oriental como um todo, que já teve grandes seleções e jogadores, da Hungria de Puskas à União Soviética de Yashin, que muitas vezes chegaram perto mas nunca conseguiram de fato se consagrar em uma Copa do Mundo. Talvez poucos percebam, mas, além de latino-americanos e africanos, é muito comum ver os grandes times da Europa ocidental buscando os jogadores dos países do leste, que ainda possuem economias frágeis após décadas sob regimes socialistas. Exemplos poderiam ser os próprios sérvios já citados, além de Shevchenko, Arshavin, Rosicky, Peter Cech… Historicamente, foi até comum que tentassem aliciar aqueles que cruzavam a Cortina de Ferro para fugir do mundo comunista – foi assim que Puskas, por exemplo, tornou-se ídolo do Real Madrid, e chegou mesmo a disputar a Copa de 1962 pela Espanha, numa época em que ainda era possível trocar de seleção. Outra equipe que, no caso de uma improvável vitória, estaria fazendo justiça a essa tradição é a Eslováquia, que pode reivindicar a memória da antiga Tchecoslováquia, duas vezes vice-campeã (desconfio, no entanto, que o lado forte no futebol nesse caso tenha ficado com a República Tcheca). E quanto à Eslovênia… Bem, é sempre bom lembrar que ela não é a Eslováquia.

Do resto da Europa, eu por algum motivo sempre simpatizo com os times da Alemanha. Talvez seja algum resquício dos meus antepassados, a minha ascendência germânica falando mais alto; ou talvez seja o próprio estilo tradicional do futebol alemão, de aplicação e disciplina, com jogadores apenas acima da média, raramente um ou dois fora de série, atingindo um nível maior pela entrega e participação. Em certo sentido, é a antítese daquela soberba brasileira que comentei anteriormente, que parece sempre acreditar que um passe de mágica inesperado, um deus ex machina em forma de drible, vai resolver tudo de uma hora para outra.

Como eu assisto bastante futebol inglês por influência do meu irmão, geralmente acabo conhecendo e gostando dos jogadores deste país também – especialmente, no time atual, o Rooney, que, acredito, mereceria a consagração de uma Copa do Mundo, se torcer pra Inglaterra de maneira geral não fosse tão… Nhé. Já a Espanha é um tradicional fogo de palha; é claro que eu também era um dos que me enganava e apostava no seu favoritismo antes da Copa, e certamente há muito tempo ainda para uma recuperação, mas, depois da estreia frustrante, não sei se me empolgaria tanto em vê-la campeã. Portugal teve a sua chance em 2006, com o Felipão. E a Itália geralmente também tem trajetórias interessantes, passando adiante contra todas as expctativas na base das gloriosas retrancas, até que, meio que sem ninguém perceber, já é uma tetracampeã. Mas eles são os atuais campeões, e acho que podem passar a vez.

Indo para outro continente, acho que seria muito bacana, também, termos um campeão africano como o primeiro não-europeu e não-americano, e justamente na Copa a ser disputada no continente. Certamente, no entanto, não acredito que os bafana bafana possam ser estes campeões – empolgação da torcida e apoio da imprensa à parte, a verdade é que a África do Sul simplesmente não é um time bom o bastante para isso, e é provável que sequer se classificaria se não fosse o país-sede. Até acho que, com alguma sorte e uma França abalada, possuem chances mínimas de ir até as oitavas-de-final, mas não devem ir muito além.

Acharia muito mais interessante, por outro lado, um título da Costa do Marfim. Seria a coroação do futebol africano que tem surpreendido o mundo desde as seleções clássicas da Nigéria e Camarões dos anos 1990, e também de uma ótima equipe, com jogadores titulares de grandes clubes europeus, e um grande personagem que é o Didier Drogba. Como segunda opção, talvez Gana pudesse suprir essa função, sendo a provável segunda melhor seleção do continente na competição. (E só não digo da África como um todo porque uma equipe pentacampeã continental como o Egito ficar de fora para dar lugar à Argélia é uma destas coisas que só o Nelson Rodrigues é capaz de explicar).

Vindo para os nossos hermanos, então, confesso que, regionalismos ufanistas à parte, eu realmente tenho uma certa simpatia pelas seleções gauchas, quais sejam, o Paraguai, o Uruguai e a Argentina. Sim, a Argentina – foda-se as pseudo-rivalidades, o fato é que, possivelmente por ser gremista, eu não acho difícil me empolgar com a tradicional garra e força de vontade castellanas. A seleção atual também tem uma das mais incríveis gerações de atacantes da história, apesar de nas outras posições poucos fazerem jus à ela. E digam o que quiserem, mas eu sou fã do Maradona – concordo plenamente que não foi melhor que o Pelé enquanto jogador, mas acho que, finda a carreira, demonstrou ter muito mais personalidade que o Edson. Ser polêmico é uma arte subestimada, e que ele domina como poucos; seria uma grande adição para o rol dos treinadores campeões.

Outra seleção que eu gostaria de ver com um bom resultado é o México, país que tem um povo muito apaixonado e empolgado com o futebol – como a própria seleção brasileira já teve a oportunidade de comprovar -, além de um campeonato nacional fortíssimo, com jogadores de todo o continente, mas que nunca conseguiu transformar isso em uma seleção de peso. A deste ano, no entanto, é muito boa, com jogadores como Rafa Marques e Giovani dos Santos, além do veterano Blanco. É claro que não acredito que possa ser realmente campeã, mas seria uma boa aposta para um terceiro ou quarto lugar, por exemplo.

E, por fim, temos as seleções da Oceania e da Ásia. A Oceania só está lá mesmo porque seria estranho fazer uma Copa dita do Mundo sem convidá-la. E da Ásia, a única seleção que me desperta algum interesse mínimo é a Coreia do Sul, que possui uma geração interessante de jogadores. Há também o Japão, claro, que tem desenvolvido um certo interesse pelo esporte já há quase duas décadas, além de ter um campeonato razoavelmente forte, com jogadores de toda a região. As suas principais contribuições para o futebol, no entanto, ainda são os jogos da série Winning Eleven e o anime Super Campeões.

Enfim, é claro que estes devaneios não se tratam de nenhum prognóstico, e não estou realmente querendo prever quem deve ser o campeão este ano. São apenas algumas reflexões sobre seleções que eu gostaria de ver vitoriosas, e por quê – digamos assim, são aquelas que renderiam bons capítulos em um futuro livro de História dos Campeões do Mundo. Em último caso, sempre seria divertido também termos uma zebra completa e inesperada, com alguma seleção como a Suíça de repente se vendo campeã, ganhando todos os jogos finais nos pênaltis após empatá-los em 0 a 0.

Saramago
E então chegamos ao outro assunto do fim de semana, a morte de José Saramago, primeiro (e acredito que até o momento único) escritor de língua portuguesa a ser premiado com o Nobel de literatura. Confesso que nunca li realmente qualquer obra dele, embora haja algumas em particular que me interesse em conhecer – em especial, História do Cerco de Lisboa. Mas já li entrevistas e alguns ensaios curtos perdidos pela internet, e não posso dizer que não admirava algumas das suas ideias.

Saramago tinha 87 anos, e, portanto, já não era exatamente um jovem. Sua carreira como escritor já estava consagrada, inclusive com adaptações cinematográficas de algum sucesso, então podemos dizer que ele certamente já havia dado a sua contribuição para a vida cultural e intelectual do mundo. Há sempre aquela expectativa de que ele pudesse dar mais, é claro, sobretudo se lembrarmos que não muito tempo atrás ele estava lançando Caim, seu último romance. Mas pessoas também morrem todo dia, principalmente pessoas velhas – e, mesmo assim, não faltaram as viúvas inconformadas, se perguntando nos twitters da vida por que se vão os escritores bons quando a Stephanine Meyer continua por aí (acredito, mas posso estar errado, é claro, que a juventude dela possivelmente lhe dê uma saúde um pouco mais estável).

Acho que, no fundo, todos temos alguma esperança inconsciente de que o mérito possa vencer a morte. A mortalidade do homem sempre foi um mistério estranho – é um grande problema filosófico (como viver sabendo que irei morrer?), além de uma situação esquisita (como acordar um dia e de repente não encontrar mais alguém que sempre esteve com você?), e acho que todas as religiões sempre tentaram oferecer uma resposta, transformando-a na passagem para um plano superior ou uma nova vida em outra encarnação ou qualquer outra coisa que permita alguma possibilidade de fuga. Alguém já disse por aí que o que nos difere de um animal comum é justamente  essa consciência da morte, muito embora eu realmente não saiba como os cachorros e os gatos foram questionados sobre o assunto. Arrisco até a dizer que algumas das dificuldades da ciência em enfrentar as crenças religiosas têm a ver com isso – a ciência pode te explicar como o seu corpo funciona, mas não tem ainda uma boa resposta para por que (ou pra que) ele funciona, e nem por que ele deve morrer um dia.

Talvez por isso a morte de alguém como o Saramago cause este tipo de comoção, mesmo quando já estava em uma idade em que ela deixa de ser uma surpresa. Não nos apoiando mais na religião para entendê-la, afinal, o que nos resta? É mais fácil imaginar que as pessoas que nos interessam e que admiramos estarão sempre por aí, e não pensar sobre o que vai ser quando se forem. E, numa sociedade que tenta ser individualista e meritocrática, pode ser reconfortante acreditar que alguma entidade transcedental de justiça cósmica concederia a vida eterna a alguém que fizesse por merecer. Claro, há quem diga que as grandes obras sobrevivem ao seu autor, conferindo a ele algum grau de imortalidade, mas então eu rebato com aquela genial citação a Woody Allen: Eu não quero alcançar a imortalidade pela minha obra. Eu quero tornar-me imortal não morrendo.

Por acaso, estou lendo atualmente um livro chamado Singularity Sky, do escritor inglês Charles Stross. É uma ficção científica bastante interessante, que tenta especular sobre a sociedade e a tecnologia do futuro a partir de teses e idéias científicas mais contemporâneas, com direito a espaçonaves quânticas e uma extrapolação genial das ciências da informação. E uma das tecnologias maravilhosas do futuro criado pelo autor trata justamente de técnicas de rejuvenescimento, capazes de tornar um ser humano efetivamente imortal. No entanto, por todas os problemas sociais e ambientais que uma civilização de imortais traria, uma das poucas regras com que todas as nações da Terra concordam sem restrições é justamente a de limitar o acesso a tais tecnologias; assim, apenas se qualificam candidatos que tenham feito grandes contribuições para a humanidade, ou que por acaso tenham funções importantes a cumprir nos governos e organizações que têm acesso a elas. Não deixa de ser uma especulação interessante, a ideia do mérito capaz de vencer a morte.

Em todo caso, é também uma reflexão curiosa que se pode fazer.


Sob um céu de blues...

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