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Astro City

astro_city_herois_locaisEm um tempo onde cada temporada de cinema é dominada por adaptações de super heróis, pode ser difícil por certas coisas em perspectiva, e lembrar que, num passado não tão distante, ser um leitor destas histórias depois dos doze anos não era exatamente algo bem visto socialmente. Lembro bem dos meus quinze anos, rezando para o Vigia para que minhas coleções de gibis e bonecos dos X-Men não fossem descobertos, e meu já difícil relacionamento com colegas de escola só piorasse.

De alguma forma, no entanto, as coisas mudaram, e hoje os tais nerds tem o poder da cultura pop ao seu lado. Gostar de super-heróis aos quinze ou vinte ou trinta anos nem sempre é motivo de vergonha; na verdade, é bem possível que seja um aspecto bem importante do seu convívio social. Até pela minha profissão de historiador, não consigo não ter uma certa visão processual sobre esse fato, e não achar que os tempos atuais são, de certa forma, bastante estranhos (mas nunca vou achar que são piores por isso, é bom deixar claro).

Num contexto assim uma série como Astro City consegue atingir um zeitgeist bem particular, e é muito propício que esteja sendo relançada por aqui em encadernados regulares, obedecendo à ordem de publicação original. Já falei dela antes, quando outras editoras tentaram fazê-la emplacar; mas acho que poucas vezes estivemos em um momento tão potencialmente receptivo a ela.

A série foi criada por Kurt Busiek, Alex Ross e Brent Anderson, e revisita muitos dos temas que os dois primeiros já haviam explorado com personagens clássicos em suas obras-primas mais conhecidas, Marvels e Reino do Amanhã. Em certo sentido, é uma inversão de valores do cinema de super-heróis recente: ao invés de tentar imaginar como seriam super-heróis no mundo real, seguindo essa fórmula tão manjada que tem nos dado resultados tão duvidosos, Astro City busca imaginar como seria o mundo real se super-heróis existissem nele. Ou, talvez dito de forma melhor, como seriam as pessoas do mundo real em um universo assim. Mais do que o aspecto político ou social, é o aspecto cultural e humano que os autores buscam, o que já fez com que fosse chamada de “o romance de costumes do mundo dos super-heróis.”

Astro City deve ter sido a primeira série a seguir aquela fórmula de reimaginar os super-heróis mais icônicos em versões genéricas – você sabe, criar o Super-Homem, a Mulher Maravilha, o Capitão América locais, com outros nomes e uniformes -, e usá-las para contar as histórias que não poderiam com os originais, por tudo o que representam não apenas culturalmente, mas mercadologicamente mesmo. Isso não significa que todos os heróis presentes tenham um equivalente nas grandes editoras – há muitos conceitos originais, desde os mais esdrúxulos, como o Caixa-de-Surpresas e El Hombre, até os mais curiosos e fascinantes, como Léo Lelé -, mas, quando você lê uma história do Samaritano sobre como a atribulada vida de guardião maior da justiça o deixa com pouco tempo para aproveitar o simples prazer de voar, bem, você sabe de quem os autores estão falando.

Talvez seja justamente essa exploração do lado humano de um mundo onde ser apenas “humano” está longe de ser a regra que separe Astro City da maioria das outras reinvenções tomadas de nostalgia e saudosismo. Para um gênero (e uma mídia) muitas vezes relegadas a uma classificação de entretenimento menor, há muito ali de Literatura com L maiúsculo, de exploração de sentimentos e dramas e mesmo questionamentos sociais, éticos e morais. Então uma história da Primeira Família (uma versão local do Quarteto Fantástico) pode questionar o papel da infância, e as consequências de uma educação enclausurada e superprotegida. Outra, o longo arco que compõe o quarto volume encadernado, referencia a literatura noir com uma trama melancólica sobre redenção e desencanto (embora com um ato final que pareça jogar tudo pro alto em um blockbuster de ação, mas ei, não dá pra fugir sempre da sua referência base).

No fim das contas, Astro City é simplesmente uma série fantástica, que merece todo o hype que recebe da crítica especializada, e certamente muito mais popularidade e burburinho do que tem de fato. Talvez não seja para todo mundo – pode ser preciso mesmo uma história prévia com super-heróis para entender o que ela propõe, e entrar no jogo de referências -, mas, com a evidência do seu gênero atualmente, certamente há de encontrar o seu espaço. Para quem não conhece, recomendo muito que se aproveite o relançamento dos encadernados pela Panini.

Superman: Identidade Secreta

Existe uma certa tendência em histórias de super-heróis nos últimos 30 ou mais anos, que é de tentar mostar como seriam esses super-heróis se eles realmente existissem no nosso mundo. Apesar de essa permissa já ter nos dado algumas histórias ótimas, como a belíssima Marvels, também assinada por Kurt Busiek, a verdade é que na maioria das vezes isso se resume a aumentar o grau de violência dos roteiros e incluir alguns temas “adultos”, como uso de drogas ou aborto, geralmente sem resultados muito interessantes. É raro encontrarmos uma história realmente adulta, que surpreenda e emocione pela sua sensibilidade, como é o caso de Superman: Identidade Secreta, de longe a melhor história do Super-Homem que já li.

A mini-série de quatro edições começa nos mostrando a vida do jovem Clark Kent, um adolescente comum do Kansas com muito pouco em comum com o seu xará mais famoso, e que na verdade sofre bastante com as piadas de familiares e colegas de escola devido ao nome. Tudo muda, no entanto, quando descobre que possui mais em comum com ele do que o nome, o que faz a sua vida tomar alguns rumos inesperados, enquanto segue tentando ter uma vida normal.

O roteiro de Busiek é muito bem desenvolvido e de uma sensibilidade impressionante. A forma episódica como a série é dividida é perfeita: cada edição trata de um tema específico (a juventude, a família, etc), em uma história com início, meio e fim, que se completa no quadro maior quando lemos todas juntas. Assim, por trás das super-façanhas e conspirações governamentais, podemos ver no sub-texto toda a vida de um indivíduo especial tentando viver em meio às pessoas comuns – e tenho certeza que todo mundo já se sentiu (ou ainda se sente) de forma semelhante em algum momento da vida. E o final é realmente emocionante, como poucas histórias em quadrinhos, ainda mais de super-heróis, conseguem ser.

A arte de Stuart Immonen também não decepeciona. Em geral prefiro estilos mais caricatos à estilos fotográficos como o usado, mas deve-se considerar que, para o tema proposto, não havia como ser diferente. A narrativa gráfica é ótima, mantendo bem o ritmo da história; só o constante uso de quadrinhos de página inteira pode parecer exagerado algumas vezes, embora não chegue a incomodar.

Enfim, Superman: Identidade Secreta é uma ótima história, que consegue ser sensível e adulta sem precisar apelar pra violência ou erotismo. É o tipo de história que nos lembra de toda mágica que sentíamos quando tínhamos 8 anos e pensávamos que, ao amarrar um lençol nas costas como uma capa, poderíamos sair voando pela janela.

Astro City – Samaritano e Outras Histórias

Falar de super-heróis pra mim sempre vai ter um certo sabor de nostalgia. Cresci lendo muita coisa da Marvel e uma ou outra da DC, que inclusive são responsáveis por boa parte da minha formação literária enquanto jovem, já que me recusava a ler todos aqueles clássicos obrigatórios da escola (alguns dos quais acabei por ler mais tarde e até gostei, mas manter a minha rebeldia adolescente era certamente mais importante na época). Hoje, no entanto, acho a maioria das histórias do gênero um tanto enfadonhas demais – ou se vai no caminho de uma diversão acéfala, daquela que você lê enquanto come um xis-salada num bar e depois esquece a revista no balcão, ou vão no caminho oposto, buscando se justificar por meio de referências eruditas, desconstruções temáticas, virtuosismos narrativos e sagas intermináveis que, no fim, acabam sendo mais chatas do que interessantes. Tanto é assim que nem me interesso em realmente acompanhar e comprar qualquer série de super-herói seriada – só compro coisas pontuais, que eu possa acompanhar sem muito compromisso ou, pelo menos, sem um compromisso de prazo muito longo.

Enfim, é realmente difícil achar um bom meio termo, algo que não seja nem tanto Era de Prata, nem tanto Alan Moore; que saiba reconhecer que super-heróis simplesmente não devem ser levados a sério demais – como o ridículo de imaginar um homem adulto com cueca por cima da calça e capa vermelha pode comprovar -, e também que diversão genuína e descompromissada não significa necessariamente diversão acéfala e inofensiva. Difícil, mas não impossível; basta saber quais autores procurar. Grant Morrison é um deles, como quem leu a ótima Grandes Astros Superman certamente pôde comprovar. Pessoalmente, no entanto, acredito que o melhor roteirista para histórias de super-heróis seja Kurt Busiek, alguém que consegue entender bem a natureza do material com que lida, e não tenta impor sua própria concepção sobre ele. E histórias como as de Astro City demonstram bem isso.

A série foi criada pelo autor em conjunto com o desenhista Brent Anderson, e apresenta uma cidade onde super-heróis existem pelo menos desde o século XIX, e de fato tem uma presença tão marcante na cidade que suas batalhas e feitos chegam a fazer parte das atrações anunciadas em guias turísticos. A primeira parte da revista ilustra bem isso – com uma história curta sobre justamente uma turista que acaba envolvida em uma dessas “atrações”, seguido do que seriam algumas páginas do Guia dos Visitantes de Astro City, com textos sobre a história da região, mapa da cidade e algumas fichas de heróis locais (muitos deles levemente ‘inspirados’ por personagens famosos de outros universos); poderia ser usado como base para um cenário de RPG em uma campanha de supers sem grandes problemas. Parece-me que o guia está incompleto, no entanto: a parte sobre a história local termina com um “continua na p. 46”, mas não há qualquer continuação posterior.

A segunda parte da revista contém uma história do Samaritano, que seria o equivalente ao Super-Homem do universo de Astro City, e serve bem para ilustrar aquilo tudo que eu levei dois parágrafos para falar. Vemos o confronto dele contra o Infiel, seu principal rival, sob o ponto de vista do segundo; nada de mega-batalhas cósmicas, no entanto, mas apenas um duelo de ideais em meio a uma conversa durante um jantar. Este é talvez o grande marco das histórias de Busiek: vemos os super-heróis também no seu dia-a-dia, vivendo como pessoas comuns e lidando com questões cotidianas. Há na história referências a confrontos passados entre os personagens, claro, que são rememorados pelo Infiel à medida que conversa com seu rival; o roteiro é perfeitamente conduzido, a narrativa sem excessos ou virtuosismos desnecessários. Mesmo as referências mais profundas são explanadas pelos próprios persoangens, e usadas sempre em função da história contada, e não como justificativa para ela. Enfim, uma história de super-herói que sabe ser adulta sem ser intelectualóide, além de cativante sem ser infantil.

O volume é completo ainda com uma história da Primeira Família, um genérico do Quarto Fantástico neste universo, que originalmente foi lançada em uma edição separada antes de ser reunida às outras duas neste encadernado. A história conta um pouco sobre Astra, a caçula da família, e a vida que ela leva em meio a invasões alienígenas e outras ameaças cósmicas – antes de ser divertida, no entanto, é uma vida melancólica, que a mantém longe de crianças da sua idade, ao ponto de um simples jogo de amarelinha intrigá-la profundamente. Os mesmos méritos da história anterior também aparecem aqui: uma história cativante, que apresenta bem os problemas de uma infância isolada e super-protegida, mas sem por isso deixar de ser divertida, com direito mesmo a algo de sátira nas referências aos universos de super-heróis clássicos.

Enfim, recomendado pra quem é fã do gênero.

Arrowsmith – A Guerra da Magia

1132978_4Kurt Busiek é facilmente um dos meus autores de histórias em quadrinhos favoritos. Talvez ele não tenha – ou pelo menos não se preocupe em exibir – todas aquelas referências eruditas e construções narrativas de um Alan Moore ou Neil Gaiman, por exemplo, mas é um dos poucos que conseguem trabalhar personagens num nível humano sem perder um caráter mítico e heróico. e que consegue fazer histórias de aventura comoventes, cativantes e divertidas sem necessariamente cair em uma acefalia superficial. Bem, é só ler Marvels. Ou Astro City. Ou Superman: Identidade Secreta.

Arrowsmith – A Guerra da Magia é outro bom exemplo destas características, embora repita um pouco dos temas de Shockrockets, por exemplo, e tenha um estilo narrativo bastante semelhante. É uma história juvenil, daquelas onde jovens ingênuos são obrigados a amadurecer e virar adultos em meio a algum tipo qualquer de acontecimento catastrófico, nesse caso específico a Primeira Guerra Mundial. Tudo bem, é uma história clichê e chavão, mas é uma boa história clichê e chavão; é bem contada, e fala de um tema que, queira ou não, tem alcance e algo a dizer para alguém, e é uma pena que provavelmente nunca vai chegar à maioria desse público, já que é mais uma daquelas edições-de-quadrinhos-de-luxo-lançadas-apenas-em-livrarias. Mas, enfim, pelo menos também não é aquele exagero todo das antigas edições de Sandman da Conrad…

De qualquer forma, Arrowsmith é, como já disse, uma boa história juvenil, bastante satisfatória nos personagens e no enredo contado. Talvez alguns achem estranho a forma meio abrupta com que acaba, antes do fim da guerra propriamente dita (desculpas pelos spoilers), mas ela consegue encerrar bem até lá o elemento principal da história, que é justamente a transformação do personagem principal e, com ele, do tom da narrativa – engana muito bem nos primeiros capítulos, quando parece ser mais uma daquelas histórias de guerra românticas onde heróis valorosos lutam contra inimigos claramente malignos em busca de glória e honra, e se transforma em uma representação bem mais sombria e crítica do combate no front, colocando no protagonista questionamentos morais e deixando-o com dúvidas sobre os verdadeiros mocinhos e bandidos do conflito.

O elemento que certamente mais chama a atenção na obra, no entanto, é o cenário onde a história é contada. Estamos no período da Primeira Guerra Mundial, como já comentei, mas em um mundo levemente diferente, onde caças voadores são trocados por feitiços de vôo e submarinos militares por serpentes marinhas gigantes – é um cenário de fantasia soberbamente construído, do tipo que não faria feio em qualquer campanha de D&D. É uma pena que os autores ainda não tenham tido a oportunidade de exibi-lo melhor em uma continuação, apesar de algumas notas no final da edição indicarem que foi desenvolvido bem além do que o que aparece na história. Mesmo assim, é um atrativo à parte na obra, talvez mesmo o que mais proporciona diversão, pelo menos para alguém que goste de brincar de imaginar mundos fantásticos.

Outro destaque, ainda, é a arte soberba do espanhol Carlos Pacheco. A mistura de cenários históricos com elementos fantásticos que ele faz é muito bacana – destaque para cenas panorâmicas, como a Nova York de 1915 dominada por criaturas como trolls e anões. O design dos figurinos, sobretudo os militares, é outro ponto alto.

No fim, Arrowsmith – A Guerra da Magia talvez não seja lá o melhor trabalho de Busiek, mas ainda tem os seus méritos. É uma boa HQ, que eu, pelo menos, gostei de ter lido e conhecido o seu universo militar fantástico.

Schockrockets – Esquentando os Motores

13074Entre os meus muitos sonhos de criança, estava o de ser piloto de caça da força aérea. Acho que fiquei com essa idéia na cabeça depois que vi o primeiro filme Águia de Aço, e não exatamente sem motivo – sejamos sinceros, pilotar aviões de última geração abatendo inimigos em velocidade supersônica é muito legal! (Bom, desde que, é claro, você não esteja entre os caças abatidos…)

Mas enfim, como diria o Oasis, while we’re living, the dreams we had as children fade away. Apagam sim, mas não sem deixar marcas – e a marca de achar combates entre caças muito legais não foi apagada com o tempo. Não é à toa que gastei horas da minha infância tardia jogando After Burner no saudoso Master System, que achava a forma de caça dos valkiryes de Macross muito mais legais que a forma de robô, que ainda hoje saio logo a comprar (junto com meu irmão e meu vizinho mala) todo novo jogo da série Ace Combat que é lançado, e que já há algum tempo estou tentando convencer alguns amigos a jogar uma campanha de RPG com esse tema. E certamente foi essa marca também que despertou o meu interesse inicial quando vi nas bancas Shockrockets – Esquentando os Motores.

Claro que também pesou pra mim achar que valeria a pena o fato de ser escrito por Kurt Busiek, que é um dos grandes escritores de quadrinhos que eu conheço, apesar de ser também um dos mais discretos, responsáveis por obras-primas como Marvels e Superman: Identidade Secreta, essa última em conjunto com o mesmo Stuart Immonen que a assina a arte em Shockrockets. A história pode até ser cheia de clichês da ficção científica (a terra devastada após uma guerra com alienígenas), de histórias militares (o general ex-herói de guerra megalomaníaco como vilão) e de histórias juvenis (o garoto talentoso que recebe por sorte a chance da sua vida), mas o toque de Busiek ajuda a dar um tom diferente à história, centrando-se no desenvolvimento da personalidade dos pilotos a partir da troca de pontos de vista a cada capítulo, tudo sempre apoiado pela arte na medida de Immonen. O único ponto realmente negativo fica para o final, que deixa a história meio em aberto para uma continuação que aparentemente nunca foi feita, pelo que se entende do prefácio assinado pelo tradutor Rodrigo Salem.

De qualquer forma, Shockrockets – Esquentando os Motores é uma ótima história, fugindo um pouco dos temas chavão nas histórias em quadrinhos mais conhecidas, apesar de também não ser nenhuma obra-prima inesquecível como outros trabalhos de Busiek. Mas não deixa de ser uma recomendação – caças supersônicos sempre são legais, pôxa!


Sob um céu de blues...

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