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A Flecha de Fogo, de Leonel Caldela

– Por que isso funciona? – perguntei.
Ele me olhou sem entender.
– No norte, a ciência goblin simplesmente não dá certo – expliquei. – Os goblins criam engenhocas mirabolantes, mas elas sempre explodem ou se desmantelam. Ou apenas fazem o que não deveriam.
Ele suspirou.
– Você já tentou voar, Corben?
Há dois dias Kuduk me chamava pelo nome. Era um alívio. Eu não gostava de ser reduzido apenas à minha raça.
– Claro que não – respondi. – É impossível, a menos que você seja um mago ou membro de alguma raça com poderes especiais.
– Você sempre ouviu que não podia voar. Desde criança, sempre soube. Então nunca tentou.
Concordei em silêncio.
– O que provavelmente foi uma boa ideia, pois você iria se esborrachar no chão. Mas a questão é que não tentou porque lhe ensinaram que não podia. Agora imagine se todos a seu redor dissessem que nunca aprenderia a ler. Será que você tentaria?
– Talvez eu… – gaguejei.
– Mesmo se tentasse, o que aconteceria quando você encontrasse uma dificuldade? Não seria a prova de que não consegue?
Comecei a entender onde ele queria chegar.
– Os goblins do norte escutam há muitas gerações que nada do que eles constróem tem valor. Ouvem que para eles “é natural” viver no lixo e nos dejetos das outras raças. Então é claro que, quando criam algo, é algo defeituoso. Lembro de quando houve uma grande migração de goblins do norte para cá, em busca de liberdade. Eles eram terríveis. Quando construíam algo, contentavam-se com traquitanas desastrosas, davam de ombros e diziam que era assim mesmo. A maioria nunca conseguiu aprender ciência ou engenharia, morreu achando que ser incompetente era natural. Mas seus filhos aprenderam e seus netos aprenderam melhor ainda. É impressionante quantas limitações desaparecem quando o que se espera de você não é o fracasso.

Gosto desses livros de fantasia que dialogam com a realidade.

Tormenta: O Desafio dos Deuses

desafio2Tormenta: O Desafio dos Deuses, todos que se importam devem saber a essa altura, é a primeira incursão oficial do cenário de RPG Tormenta no mundo dos jogos eletrônicos. Desenvolvido pela equipe do curso de jogos digitais da Feevale, universidade do Vale dos Sinos no Rio Grande do Sul, e financiado pelos próprios fãs através do Catarse, ele teve o desafio de trazer o cenário amado pelos jogadores para uma nova mídia.

O jogo é um beat ‘em up, ou seja, um jogo de pancadaria no estilo de clássicos como Final Fight e Streets of Rage, apenas com temática medieval – talvez uma referência mais adequada sejam Tower of Doom e Shadow Over Mystara, adaptações clássicas de Dungeons & Dragons para o fliperama, bem como o mais recente Dragon’s Crown, que atualizou de forma muito eficiente e divertida (apesar de algumas polêmicas) o gênero para os consoles modernos. Como nestes últimos, o RPG é referenciado além apenas do cenário, e envolve também elementos de jogabilidade como avanço de nível, aprimoramento de habilidades e aquisição de novos poderes ao longo do jogo.

Há duas opções de personagem: o bárbaro humano Samson e a arqueira e maga elfa Sellena. Cada um possui um estilo bem distinto de jogo, o primeiro valorizando mais a força e imposição físicas, e a segunda com um leque maior de habilidades mágicas à disposição. Embora eles se complementem bem na opção para dois jogadores (o que não poderia faltar no gênero), a impressão que tive é que a elfa é uma personagem mais fácil de se usar no modo para um jogador. Atacar à distância permite que você fuja dos inimigos e evite danos na maior parte do tempo, e faz uma diferença enorme você ter uma magia de cura à disposição, e não ficar dependendo de poções que nem sempre aparecem quando você mais precisa; além de que ter um feitiço de ataque cujo dano é baseado em Inteligência também faz diferença no longo prazo, já que você pode concentrar pontos no atributo cuja função principal no jogo é aumentar a quantidade de experiência recebida, acelerando consideravelmente o ganho de níveis. O jogo é razoavelmente difícil normalmente, mas na minha experiência as dificuldades que encontrei jogando com o bárbaro não apareceram quando decidi recomeçar e testar a elfa, e vi que conseguia passar da maioria das fases quase sem perder vidas.

Há outras questões a serem destacadas no design também. Me incomodou não ter uma opção de seleção de fases, por exemplo – você pode retornar a um save antigo se quiser, mas se o fizer perderá todo o avanço que fez desde então; isso diminui bastante a vida útil do jogo, já que você só pode jogá-lo do início ao fim sem desvios, além de que é frustrante se ver travado em um determinado ponto e se dar conta que não pode retornar para acumular mais experiência e itens (jogos modernos me deixaram mal acostumado, admito). Outro detalhes são mais técnicos – há alguns pequenos bugs (em um determinado momento da fase de Lenórienn, por exemplo, caí de uma ponte e fiquei travado no fundo do cenário), e quedas de framerate em certos pontos, especialmente jogando com o joystick (anos de consoles me desacostumaram de usar teclado, e prefiro evitar a tendinite…).

Mas, claro, não pense que essas críticas significam que eu não gostei do jogo! Esses detalhes me incomodaram, mas no geral, como alguém que acompanha o cenário quase desde a sua criação, e ainda tem uma memória afetiva bastante forte dos beat ‘em ups do passado, me diverti muito com ele. Acredito que o roteiro do Leonel Caldela seja uma boa explicação para isso. Samson e Sellena são combatentes do Exército do Reinado durante a batalha do Forte Amarid, que, ao derrotar um demônio especialmente poderoso, acabam tentados pelo Lorde local Gatzvalith a se tornarem servos lefeu. Salvos no último instante por Khalmyr e Wynna, recebem uma missão: salvar Niala, atual sumo-sacerdotisa da deusa da magia, antes que ela seja corrompida. Claro, enfrentar o próprio Gatzvalith ainda está muito longe de ser possível para os herois. Assim, os deuses os enviam para o passado do mundo, onde eles devem acumular experiência vivenciando alguns momentos históricos do cenário antes de seguirem com a sua missão verdadeira.

Não se trata do mais épico ou profundo roteiro (e alguns dos diálogos estão longe de serem os melhores já escritos pelo Caldela), mas há algo nele que tem um apelo bem único para os fãs: é apenas uma desculpa para transformar em jogo eletrônico personagens e momentos marcantes para a história do cenário. Ao longo dos cinco estágios do jogo, você deve passar pela própria batalha do Forte Amarid, a Lenórienn durante o ataque da Aliança Negra, a guerra de secessão de Portsmouth e o Kishin do Mestre Arsenal; e entre os chefes que você enfrenta estão os próprios Gatzvalith, Thwor Ironfist e Arsenal, além do Cavaleiro Risonho da Trilogia Tormenta. Das grandes sagas do cenário, acho que a única que faltou aparecer foi Holy Avenger (que na verdade acredito que seria o tema do estágio extra caso a última meta do financiamento coletivo tivesse sido atingido – uma pena, adoraria dar uma surra no Paladino também!). Ao longo das cenas, personagens icônicos como Niele, o casal Orion e Vanessa Drake, e Katabrok, o bárbaro, se misturam aos criados pelos colaboradores do projeto. Tudo tem um ar muito forte de homenagem, até mais do que de saga épica pelo destino do mundo.

Enfim, não vou ser desonesto e dizer que o jogo é perfeito, ou que ele passa perto de redefinir as suas ideias sobre jogos eletrônicos. É um jogo simples, que não se propõe realmente a ser diferente, e alguém sem ligação afetiva com o cenário talvez não encontre muito o que gostar. Mas ele é sim muito divertido para quem é fã. Você não terá uma oportunidade parecida de surrar o Thwor Ironfist, ou pelo menos de destruir vasos élficos de valor inestimável atrás de poções de cura. E, é claro, há a esperança de que seja só o primeiro de muitos, e novos jogos bacanas inspirados no cenário apareçam daqui para frente.

Para quem se interessar e não participou do financiamento original, o jogo já está disponível na plataforma de jogos independentes SplitPlay. Você também pode adquirir na Loja Jambô o livro que adapta o jogo para o RPG “de mesa,” e de quebra ganhar um descontinho na compra da versão eletrônica.

O Terceiro Deus

lit-otd_gBueno, o que começar dizendo sobre O Terceiro Deus? Talvez que é um livro cheio, daqueles que reúnem uma quantidade tamanha de elementos, tanto no próprio conteúdo como no que representa, que é difícil achar um bom ponto de partida para uma resenha, e de não sentir um certo medo de esquecer de comentar alguma coisa importante. E também que é o terceiro e último livro da já batizada Trilogia Tormenta, escritos por Leonel Caldela, que começou despretensiosa com O Inimigo do Mundo, seguiu com o ótimo O Crânio e O Corvo, e agora se encerra de maneira épica e grandiosa como toda história de fantasia e aventura deve fazer.

Pessoalmente, não acho que seja o melhor dos três, que para mim é facilmente o segundo. A narrativa segue técnica e bem-cuidada, como já é marca do autor, apesar de eu ter notado um ou outro deslize, como uma ou duas frases que parecem mal-escritas ou parágrafos mal-encadeados – mas, claro, aí também é só o meu lado de pseudo-escritor arrogante e chato querendo aparecer, e mesmo assim são em quantidade mínima demais pra fazer alguma diferença no final. O enredo geral, no entanto, parece sofrer de alguma falta de foco, de um fio condutor mais evidente, culpa provavelmente da quantidade de pontas soltas que era necessário resolver desde o primeiro livro. Mesmo o tema que o título sugere (que qualquer um familiar com o cenário vai saber qual é) acaba sendo meio periférico, só envolvendo os personagens principais pra valer lá pelos momentos finais, e no fim parece um pouco vago e inconclusivo.

Outro problema que eu notei foi a falta de naturalidade no desenvolvimento da história em alguns pontos. Não é nada que a torne realmente fraca, mas é que se tem alguma coisa que nunca me desceu bem são cenas e situações que evoluem apenas a partir do maravilhoso e inexplicável, de caminhos apontados em sonhos ou reencarnações aleatórias, ou qualquer outra variação do “aconteceu assim porque tinha que ser assim”. Entendo que isso faz parte do cenário e do gênero, claro, mas é algo que não me agrada, gosto pessoal mesmo. Até gosto, por exemplo, da forma como isso aparece n’O Crânio e O Corvo, onde um sonho chega a ter um papel menor em um determinado momento, fazendo uma conexão entre dois personagens; mas aqui às vezes parece que algumas coisas simplesmente não aconteceriam não fosse toda uma conjunção planetária estar a seu favor.

E tem os deuses também. Já disse algumas vezes que não sou muito fã de politicagem divina, mas isso não é uma verdade completa – gosto quando deuses têm personalidade, quando são de fato personagens, e os de Tormenta certamente são assim, sobretudo na visão do Leonel. Eles têm participações decisivas e muito interessantes e bem encaixadas, certamente; no entanto, achei estranho a forma como se relacionam com o mundo, especialmente após um certo acontecimento bombástico lá pelo meio da história. Parece que não passam de algum tipo de celebridades instantâneas, como uma grande edição do Big Brother Panteão, que alimenta revistas de fofocas e conversas de donas de casa sobre os casos e brigas dos participantes, os últimos indicados ao paredão, os novos que podem entrar para a casa…

Mas chega de falar de defeitos – assim até parece que eu não gostei do livro. Pra além de tudo isso, O Terceiro Deus segue a viagem pelo mundo de Arton sob a ótica do Leonel, com a sua visão rica sobre reinos, situações e personagens, revelando aquelas nuances e elementos inesperados que sempre estiveram lá, escancarados, e só não eram vistos do ângulo correto. Acho ótimo a forma como ele assume Arton como um pastiche, uma colcha de retalhos, e assim não tem medo ou vergonha de retirar do fato o melhor que ele pode oferecer – caubóis, tropas de elite medievais, bardos punks; o céu é o limite, e talvez nem ele, em uma chuva de referências que vão desde As Mil e Uma Noites até teorias da conspiração. A abordagem do fantástico feita pelo Leonel, ao menos da forma como eu a vejo, lembra algo da New Weird; os monstros insetóides impossíveis, a magia exuberante da Academia Arcana, pseudo-ciências como as da tecelã de realidades e da Ordem de Vidência e Numerologia: tudo isso poderia estar facilmente entre os melhores momentos de um livro do China Miéville, por exemplo.

Os novos personagens não chegam a ser os mais inspirados e cativantes da trilogia, mas ela ainda vale, e muito, pelos antigos. De Orion Drake, o Bruce Willis artoniano, ao seu rival Crânio Negro, talvez aquele cuja personalidade e motivações são mais aprofundados neste volume, são muitos os que valem a leitura, e fazem ela fluir rapidamente pelo simples fato de que você se importa com eles, e quer saber o que lhes acontecerá. É ótimo saber o destino final de personagens e situações que nos cativam desde O Inimigo do Mundo, além de sorrir timidamente com algumas participações especiais inesperadas.

E também o destino final de muito mais, na verdade – O Terceiro Deus não conclui apenas a história dos três romances, mas também de enredos e ganchos que estão soltos no cenário desde a sua criação. Se O Inimigo do Mundo era tímido e despretensioso em fazer mudanças e avanços, e O Crânio e O Corvo já se sentia um tanto mais solto e ousado, o que se tem aqui é a maior quantidade de reviravoltas reunidas que Tormenta já sofreu, justificando a nova edição do RPG que deve ser lançada até o fim do ano. Depois de uma década de passos de formiga, é ótimo ver um avanço tão grande. Aliás, é um pouco curioso como alguns ainda chamam Tormenta de fantasia juvenil e cor-de-rosa, quando todas as suas sagas épicas parecem acabar de alguma forma com a punição de heróis e o sucesso de vilões.

Enfim, vale a pena correr atrás d’O Terceiro Deus? Sinceramente, não sei. Não sei até que ponto, por exemplo, ele pode ser lido de forma independente, sem conhecimento do cenário ou dos romances anteriores – a mim pareceu que pelo menos a leitura d’O Crânio e O Corvo é importante, para entender o significado que têm as mudanças e atitudes de alguns personagens; e talvez seja mesmo necessária alguma familiaridade e simpatia pelo cenário para apreciar a importância de alguns acontecimentos, mesmo que não ao nível do fã acéfalo ou de acompanhar todos os lançamentos de perto (até porque eu mesmo não compro os livros de RPG há um bom tempo). Para quem tem essa familiaridade e simpatia, no entanto, é uma grande leitura, que recompensa todas as horas gastas para usufruí-la. E, felizmente, é justamente esse o meu caso.

O Crânio e O Corvo

lit-ceoc_gO Crânio e O Corvo é o segundo romance ambientado no cenário de Tormenta – mas quem realmente se interessar pelo livro provavelmente já sabia disso, não? É uma continuação mais do que apenas espiritual de O Inimigo do Mundo, o romance anterior, dando continuidade aos eventos nele relatados, com a tempestade profana que dá nome ao cenário se espalhando, corrompendo e contaminando todo o mundo conhecido, além de trazer de volta muitos dos personagens que tomaram parte neles então, ainda que os principais protagonistas sejam, aqui, novos (ou quase novos, mas não vou estragar a surpresa final sobre um dos personagens que dá título ao livro).

Bueno, o livro faz o possível para poder ser lido sem a necessidade do anterior, ou mesmo de qualquer conhecimento sobre Tormenta ou cenários fantásticos de RPG em geral – tudo o que há de importante para entendê-lo é cuidadosamente explicado, sempre que necessário, durante a própria narrativa -, mas é impossível pra mim fazer uma análise dele sem me desvincular do fato de que eu conheço o cenário desde algum tempo já, vi muito da evolução pela qual ele passou desde que foi oficialmente concebido, e de que li o livro anterior; é difícil não comparar os dois, de uma forma ou de outra. Então nem vou tentar fugir disso, e já vou começar dizendo: O Crânio e O Corvo é muito melhor que O Inimigo do Mundo. Muito mesmo. Não que o outro fosse ruim, claro, bem pelo contrário; mas O Crânio e o Corvo consegue pegar boa parte daquilo que ele tinha de bom, superar alguns dos defeitos, e ainda trazer coisas novas que adicionam muito ao resultado final.

Primeiro, ele é muito mais drástico na relação dos acontecimentos narrados com o cenário. Não há tanto aquele medo de mudar e avançar as situações dos lugares e personagens principais de Tormenta, que havia em O Inimigo do Mundo por questões editoriais e por se passar no que seria o “passado” em relação à situação corrente do cenário. O Crânio e O Corvo é uma história do presente, e as coisas que acontecem nele alteram radicalmente muito do que já havia sido estabelecido anteriormente – e não pouca coisa também, mas alterando seriamente o status quo de reinos e organizações de relativo destaque. Mas, claro, isso é algo que já era um pouco previsível, e até anunciado em certo nível.

Vamos falar de algumas coisas novas, então, como alguns dos vícios do livro anterior da qual este se livrou. Há menos comentários em parênteses, por exemplo, apesar de ainda aparecerem vez por outra. Os capítulos são menores, o que torna a leitura mais fácil, e o livro é consideravelmente maior. E também não há tanto no enredo aquela síndrome de Final Fantasy – qual seja, a velha história de juntar um grupo de heróis aleatórios e se limitar a jogar eles de canto a canto do mundo por conta de uma missão esdrúxula qualquer, tentando fingir deslumbramento a cada nova localidade fantástica encontrada (e não que isso seja exclusivo ou mesmo originário de Final Fantasy, claro, antes que alguém faça questão de mencionar). A trama aqui é mais ampla e complexa: há vários focos de personagens que se encontram e se relacionam em diversos pontos, formando o enredo maior da história; e a ação tende a se focar em alguns aspectos, em especial a movimentação do exército de simbiontes da Tormenta e os dramas de um certo cavaleiro e seu círculo de relações, ainda que também haja, para alguns mais do que outros, um tanto de viagens episódicas e tentativas de deslumbramento com a descrição de locais fantásticos. Só na parte final que ela perde um pouco o ritmo, e se extende demais em alguns enredos secundários justamente quando se está mais curioso com o desenrolar da trama principal (ou, pelo menos, é o que aconteceu comigo); mas, uma vez que retoma o foco, haja fôlego para acompanhar! O desfecho, mesmo deixando muito em aberto para a inevitável continuação (todos sabem que romances de fantasia baseados em jogos de RPG vêm em trilogias), é dramático e épico, e não poucas vezes bastante inesperado para quem conhece algo mais do cenário.

Outra diferença marcante – e positiva – está na concepção dos personagens. O Inimigo do Mundo apresentava um grupo um tanto mais tradicional de heróis de fantasia – havia, claro, um minotauro, um samurai, um paladino que sempre voltava da morte, e mesmo os demais passavam longe do estereótipo e do clichê; mas todos ainda estavam dentro de alguns conceitos típicos: o guerreiro corajoso, o mago frágil, o ladrão esperto, etc. O Crânio e O Corvo aposta em personagens mais exóticos, com características menos genéricas e mais ligadas aos diferenciais de Tormenta enquanto cenário de RPG – coisas como um anão pistoleiro ou um médico ateu (que, aliás, formam a melhor dupla de personagens do livro, ou pelo menos a mais divertida), ou ainda um druida centauro alcoólatra, que bem podia ser um personagem de campanha meu (e quem já jogou mais do que algumas sessões comigo certamente vai saber dizer o porquê); há até um personagem nativo de Moreania, o cenário afiliado descrito nos primeiros números da revista DragonSlayer. E sempre, é claro, com aquele que já era um dos pontos positivos do livro anterior – personagens vívidos e bem construídos, com motivações, virtudes e defeitos próprios, que sustentam e levam adiante a história contada através das suas relações e envolvimentos, sem precisar de alguma força invisível ao leitor guiando seus passos (ainda que os próprios personagens, por vezes, acreditem nisso).

Outro aspecto interessante da história que não nos deixa enganar sobre estarmos em Arton é a presença maciça de simbiontes, especialmente bioarmaduras, os mais conhecidos do cenário; há um exército inteiro deles. E, especialmente no início, cada vez que um era descrito, com suas carapaças insteóides, antenas e redomas oculares multi-focais, eu não conseguia pensar em outra imagem que não a de um Kamen Rider, mesmo me esforçando para imaginar alguma coisa mais grotesca, talvez algo parecido com o filme A Mosca, sei lá. Não que eu queira criticar o fato, muito pelo contrário – eles estão muito bem caracterizados dentro da sua proposta, e têm um papel central e bem encaixado no enredo do livro. Apenas acho um dado interessante a destacar, especialmente para aqueles que insistem em denfender uma classificação genérica de anime/mangá que vá além de um apelo visual específico de algumas imagens. Pois, vejam só, basta trocar estas imagens por narrativa em prosa de tendências sádicas/escatológicas, colocar uma capa do Evandro Gregório (ou Greg Tochini, tanto faz), e até Kamen Rider parece ser outra coisa, ou pelo menos não faltam, certamente, os que defendem essa tese, como já acontece desde O Inimigo do Mundo. E, por favor, vômito e tripas à mostra também têm aos montes em Evangelion!

Mas enfim. Dentre as características que se mantiveram, temos essa tendência ao sadismo e à escatologia, que o próprio Leonel Caldela admite ser uma das marcas do seu estilo. Vômito, tripas à mostra, urina, pilhas de excremento, palavrões nem um pouco contidos ditos com mais do que alguma freqüência – a fantasia de O Crânio e o Corvo é suja e enojante, como já era a d’O Inimigo do Mundo, e nem um pouco inocente ou juvenil, como a de Holy Avenger. Antes de ser um demérito, no entanto, essa é uma característica que se presta muito bem para tratar de um tema como a Tormenta, que dá nome ao cenário e é um dos elementos principais do livro, dando um vigor descritivo ao horror que ela causa que seria difícil de conseguir de outra forma.

No mais, pode-se esperar tudo o que se esperaria de uma grande história épica de fantasia. Há aquela moralidade preto no branco típica, com alguma constância de tons de cinza, apesar de os verdadeiros vilões serem de uma cor totalmente diferente, provavelmente vermelho (e eu sempre disse que vermelho era coisa ruim). Há ação, muita ação, como um grande blockbuster cinematográfico de aventura cheio de efeitos especiais – algumas cenas de ação quase parecem saídas de um videogame, é possível até se imaginar apertando os botões, e é claro que eu digo isso de forma positiva, como gamemaníaco assumido que sou. Há magia também, embora ela não seja tão freqüente, mas contando com algumas ótimas descrições, como a sufocante sensação de ser pego em um feitiço de paralisia. Há combates épicos de grandes proporções, com generais exaltados discursando para suas tropas sobre defender valores maiores que a vida. E há também um punhado de referências diversas aqui e ali que vão causar alguns sorrisos simpáticos durante a leitura, sem dúvida (Um Certo General Orion? Hum, sei… Mas quem tem faca na bota mesmo é o povo de Namalkah, aparentemente). Uma vez que se comece a ler, é difícil parar e largar o livro para fazer outra coisa; ele realmente prende a atenção. Não vejo como alguém que goste de Tormenta ficaria menos do que embasbacado com O Crânio e o Corvo, e possivelmente ele vai ser capaz de agradar a muitos que não gostem também; acho que até alguns daqueles que se esforçam em odiar o cenário (por mais cansativo e trabalhoso que seja odiar qualquer coisa), mas ainda assim gostam de épicos de aventura e fantasia, podem achar coisas legais, nem que apenas pontualmente. E quem não gosta de nada disso, bem, que vá ler sobre pipas no Afeganistão então.


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