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The Magicians, de Lev Grossman

– Eu tenho uma teoriazinha que eu gostaria de compartilhar, se eu puder. O que você acha que faz de você um magos? – Mais silêncio. Fogg já estava muito dentro no território das perguntas retóricas de qualquer forma. Ele falou mais levemente. – É porque vocês são inteligentes? É porque vocês são corajosos e bons? É porque vocês são especiais?

“Talvez. Quem sabe. Mas eu vou dizer uma coisa: eu acho que vocês são magos porque vocês são infelizes. Um mago é forte porque ele sente dor. Ele sente a diferença entre o que o mundo é e o que ele faria dele. Ou o que você pensa que aquela coisa no seu peito era? Um mago é forte porque ele sente mais dor do que os outros. Sua dor é sua força.

“A maioria das pessoas leva essa dor dentro delas por toda sua vida, até que matam a dor por outros meios, ou a dor mata elas. Mas vocês, meus amigos, vocês encontraram um meio, um meio de usar a dor. De queimá-la como combustível, para luz e calor. Vocês aprenderam a quebrar o mundo que tentou quebrar vocês.

Lev Grossman, The Magicians.

O Rei Mago

O Rei Mago é, sem firulas, a continuação de Os Magos, livro que eu havia resenhado ainda na edição importada, The Magicians, antes de uma edição nacional ser sequer sonhada. Vale destacar, aliás, a velocidade da editora Amarilys em trazer o livro tão rápido para cá – ele foi lançado em língua inglesa em agosto passado, e no começo deste ano já era possível encontrar a tradução nas lojas! Preferi valorizar o nosso mercado local, assim, e comprar esta versão, ao invés de ter todo o trabalho de importá-lo de terras estrangeiras, por mais que a capa britânica tenha ficado absurdamente mais bonita.

Em todo caso, o livro continua a história de Quentin Coldwater, o nosso misto de Holden Caulfield e Harry Potter preferido, já anos depois de se formar na universidade mágica de Brakebills e ter a sua primeira viagem trágica para o reino encantado de Fillory. Agora, junto com alguns antigos colegas e amigos, ele se tornou um dos quatro reis do local, passando seus dias entre banquetes vistosos, caçadas mágicas e aparições públicas na varanda do seu castelo. Seria um belo de um final feliz para a sua história, não fosse o fato de que ele ainda sente falta de alguma coisa, algo que deixou para trás mas que não consegue exatamente nomear – e será esse sentimento, é claro, que porá tudo a perder, e o forçará a entrar em uma nova jornada de auto-descoberta até os confins do mundo conhecido.

Paralelamente a esta viagem conhecemos a história de Julia, amiga de infância de Quentin e agora também uma rainha de Fillory, que havia sido recusada em Brakebills e teve que descobrir a magia sozinha, pagando um preço altíssimo por ela. Na verdade, aqui ela é muito mais propriamente uma protagonista do que Quentin: aproximadamente metade do livro envolve a sua história pessoal atrás dos segredos arcanos que lhe foram negados no livro anterior, e é através dela que todo o seu cenário e o universo, antes praticamente restritos a Brakebills e Fillory, se desenvolve e expande, tomando ares de uma fantasia urbana que não deve nada a qualquer história do Neil Gaiman.

É também a história de Julia que compreende o lado mais intenso do livro, aquele que nos dá um nó na garganta ao se aproximar do desfecho e nos deixa pensativos por dias a fio. O autor Lev Grossman costuma se basear e fantasiar a sua própria história pessoal, muitas vezes levada na base de consultas psiquiátricas e anti-depressivos, para criar seus personagens, e isso dota eles de uma força e realidade bastante únicas, mesmo quando jogados em um mundo repleto de magia e seres mitológicos. Já falei um pouco sobre estas histórias antes, que ele costuma relatar algumas vezes no seu blog pessoal, e a forma como eu me identifiquei e relacionei com elas. Acho que a melhor descrição que vi sobre o resultado está em alguma resenha que li algum tempos atrás, embora não consiga me lembrar onde: ele é ao mesmo tempo uma homenagem sincera e envolvente às histórias de fantasia clássicas como as Crônicas de Nárnia e Harry Potter, e uma desconstrução extremamente crítica delas e daqueles que as lêem; ao mesmo tempo em que nos encanta com um mundo maravilhoso repleto de fantasia, ele também nos puxa bruscamente de volta à realidade, chutando o escapismo para longe e nos fazendo parar e refletir sobre nós mesmos, raramente de forma elogiosa.

Na soma geral, em todo caso, acho que me envolvi e cativei mais com o primeiro livro do que este. Ele tem o lado positivo de ser mais direto e objetivo na ação, sem se estender por metade do livro em desventuras estudantis; por outro lado, por ter lido o anterior justamente durante o meu período de ressaca pós-formatura, acho que elas ajudaram mesmo que eu me identificasse com os personagens e situações, e tornasse a experiência toda de ler ele um tanto mais intensa. Não sei também até que ponto o fato de eu ter lido uma tradução atrapalhou nisso, mas eu senti o estilo um pouco mais exagerado e cru do que o anterior, nem sempre com frases e parágrafos muito bem aparadas e retinhos. Aliás, se anteriormente eu elogiei a velocidade da editora em lançá-lo, aqui vale um puxão de orelha também: o texto final em português me pareceu um tanto mal revisado, errando, por exemplo, praticamente todos os particípios do verbo pagar, além de algumas frases que alguém com algum conhecimento de inglês consegue facilmente reverter para a língua original e pensar em uma tradução melhor. Não é nada que realmente prejudique a leitura, mas incomoda um pouco, especialmente se pensarmos que são coisas que poderiam ser evitadas com uma ou duas revisões a mais; alguns meses a mais para ter o livro em mãos não me incomodariam nem um pouco para ter um produto melhor acabado.

É interessante destacar também a forma como o livro deixa a a possibilidade aberta para ainda outra continuação, provavelmente fechando uma trilogia (ou até mesmo uma série maior, vai saber). Antes que critiquem, no entanto, é bom deixar claro que a história é perfeitamente autocontida, resolvendo de forma satisfatória todas as tramas e subtramas que ela mesma propõe, com todos os três atos narrativos perfeitamente bem estabelecidos; se você consegue perceber esta abertura, é muito mais por dicas e comentários laterais, deixados entendidos nas entrelinhas, e no final um tanto melancólico que na verdade nos deixa desejando que uma continuação venha, mais do que meramente esperando. Sem contar, é claro, em todos os personagens cativantes que conhecemos ao longo do livro, que passamos às vezes a ver mesmo como amigos pessoais, e que sinceramente gostaríamos de ter a oportunidade de encontrar novamente. Bom, eu gostaria, pelo menos.

Enfim, O Rei Mago é um ótimo livro, uma continuação perfeitamente a altura de um livro tão marcante como foi o primeiro Os Magos para mim. Recomendo ambos enormemente.

Lev Grossman e a Depressão

Um texto recente no blog do Lev Grossman, colunista da Time e autor do livro The Magicians, fala de algumas experiências dele quando tinha seus vinte e poucos anos, tinha saído da faculdade e começava a tentar ganhar a vida; um texto anterior também já tinha explorado algumas experiências semelhantes, falando de quando ele se isolou no estado do Maine pra tentar escrever um livro. Ler estes relatos foi de certa forma catártico pra mim, em parte porque eu me sinto atualmente em uma situação muito semelhante, e, à parte por diferenças óbvias de contexto, conseguia me ver muito bem em cada parágrafo e entendia perfeitamente cada atitude que ele dizia tomar. E é curioso como eu também conheço um punhado de gente que provavelmente se identificaria com os casos contados.

Isso me remete a uma das histórias autobiográficas do Robert Crumb no livro Minha Vida, em que ele relembra um pouco de como foram os “loucos anos 60” pra ele. Em um determinado momento, ele comenta que os pais dele e de outros jovens da época contavam histórias de suas participações na guerra, em especial a Segunda Guerra Mundial, enquanto eles agora contam histórias sobre uso de LSD e outras drogas de alteração da consciência como as principais experiências que marcaram a sua juventude. O que me lembra também algumas das histórias que eu já ouvi dos meus próprios pais, falando de como foram os vinte e poucos anos deles durante os “loucos anos 80”.

Às vezes eu me pego imaginando que tipo de histórias eu vou contar para os meus filhos. A conclusão que eu chego é que elas muito provavelmente serão parecidas com as do Grossman – ao invés de falarem sobre experiências de guerra ou drogas, falarão sobre solidão, sobre se sentir sem rumo na vida, e sobre estar desperdiçando os anos de juventude. Serão histórias de depressão.

Parece um pouco lógico, até, quando se para pra pensar a respeito: uma geração de soldados criados na rigidez da guerra e dos valores tradicionais foi seguida por uma geração de rebeldes e drogados, que, por sua vez, precedeu uma geração de solitários sem rumo. Sei que dificilmente isso também valha para os meus amigos em situação semelhante, mas eu me sinto um pouco intimidado ao pensar nessas histórias dos meus pais. É engraçado lembrar que eles, com a minha idade, já tinham dois filhos; faz eu pôr muita coisa em perspectiva.

Mas enfim, talvez também não dê para generalizar. Conheço um punhado de gente em situação parecida, mas é um pouco de pretensão minha querer chamar esta de a “geração da depressão”. Só sei que muitas das minhas histórias na velhice muito provavelmente começarão com um então, eu tava na maior fossa…

The Magicians: A Novel

Quentin Coldwater era um adolescente normal, que levava uma vida normal. Pais ausentes, poucos amigos, e, vá lá, uma inteligência bastante acima da média, que o levou a escolas especiais para jovens super-dotados, mas ainda assim nada tão fora da realidade. E, como a maioria das pessoas normais, também não acreditava na existência de magia ou poderes sobrenaturais de qualquer tipo – ao menos até ser convidado para ser aluno em uma instituição exclusiva onde poderia de fato aprendê-los.

Se a premissa parece familiar, é porque realmente é. The Magicians: A Novel, em um primeiro momento, é abertamente inspirado na série Harry Potter, fato que sequer tenta esconder, enchendo-se de referências ao mundo dos bruxos e trouxas. Ao mesmo tempo, no entanto, é uma história completamente diferente: Quentin não é um garoto de doze anos, mas um adolescente de dezessete, e Brakebills, a instituição mágica da vez, não é uma escola secundária como Hogwarts, e sim uma universidade. Claro, temos ainda as aulas de magia, os professores rigorosos, até mesmo os grêmios / fraternidades estudantis; mas, no lugar de jogos e picuinhas juvenis, o seu ambiente e dia-a-dia é preenchido com festas, álcool e sexo – muito sexo. Como diz George R. R. Martin, autor da série A Song of Ice and Fire, já na contra-capa, The Magicians está para Harry Potter como uma dose de uísque irlandês está para um copo de água pura.

Isso resume muito bem toda a primeira metade do livro, que aborda o período de estudante de Quentin e seus amigos do vestibular até a formatura, com o ritmo de uma comédia universitária. Poderia acabar aí, claro, e já seria uma história bastante interessante e divertida, mas também de alguma forma incompleta – há vida após a universidade, e a segunda metade do livro se dedica a mostrar como os recém-formados fazem essa transição, buscando alguma utilidade para os seus poderes mágicos tão arduamente conquistados. A inspiração principal, a partir de então, passa a ser As Crônicas de Nárnia e todas as outras histórias sobre crianças solitárias que visitam mundos de fantasia, mas com uma levada um tanto mais sombria, afinal, novamente, não são simples garotos que fazem a viagem, e sim jovens adultos no auge dos seus vinte e poucos anos.

Por trás de toda a fantasia, é fácil notar o subtexto que fala da passagem para a vida adulta e o amadurecimento, presente de forma bastante envolvente e intensa. Os personagens são críveis e bem desenvolvidos, fugindo dos clichês fáceis e arquétipos superficiais – há espaço até mesmo para um homossexual assumido, que foge muito bem de virar uma mera caricatura ou alívio cômico. É digno de nota como o autor consegue fazer você se preocupar mais com as suas questões mundanas do que com o universo exuberante que os rodeia, e muitas vezes você está mais interessado em saber como eles vão resolver seus problemas de relacionamento do que no feitiço ou item mágico que irá enfim derrotar o vilão. E, à medida que as reviravoltas acontecem, e você os pega cometendo mais erros do que acertos, começa a ficar claro que este não se trata do seu conto de fadas padrão, onde tudo se resolve no fim e todos vivem felizes para sempre, sem maiores marcas do que passaram – ao contrário, mesmo com toda magia que existe no entorno, o livro faz um excelente trabalho em puxá-lo de volta para a realidade, fugindo de ser uma mera literatura escapista, que o afasta dos seus próprios problemas enquanto durar a leitura. Ou, ao menos, funcionou assim comigo, talvez por eu estar passando por um momento na vida semelhante ao de alguns personagens, o que pode ter feito eu me envolver um pouco além da conta com o enredo todo; apenas a cena final acaba fugindo um pouco desse tom, talvez para tentar deixá-lo menos desolador, e manter em aberto a possibilidade de uma seqüência.

The Magicians: A Novel, enfim, é, antes de tudo, um ótimo livo de fantasia – uma história que nunca poderia acontecer em Hogwarts ou Nárnia, e uma boa, ainda que trágica, fábula sobre o amadurecimento. Apesar do nó na garganta que deixa no final, não há como não recomendar.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

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