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Náufrago

a-deriva-a-derivaComo tudo havia começado? Como as coisas haviam chegado àquele ponto? Tudo o que lembrava era de acordar um dia e, como que por mágica, não ter mais quinze anos; e todos aqueles que sempre estiveram e sempre quis que estivessem com ele não estavam mais, ou era como se não estivessem, como se não fizessem mais a diferença que imaginou que fariam. E velha, tão velha!, era aquela fotografia! Tudo o que nela havia, tudo que representava, não existia mais. Os momentos de encanto que nunca aconteceram, as vidas sonhadas que nunca começaram, as pessoas imaginadas que nunca se conheceram.

Era ali que começava aquele oceano onde estava à deriva. Não era um mar de lágrimas, que há muito já haviam secado e não mais existiam para serem derramadas, mas algo como um mar de sonhos, ou talvez de vidas possíveis, que o cercavam e levavam em suas ondas e marés. E já nem mais se esforçava para evitá-las – depois de tantas tentativas frustradas de atingir terras firmes, aprendeu a se resignar na sua posição de náufrago fundamental, eternamente carregado para onde quer que o levassem.

Por vezes encontrava alguma embarcação, levada por um nobre capitão e seus marujos espirituosos, que o recolhiam e o ajudavam, e tentavam pô-lo novamente em uma ilha segura; e se esforçava para ser salvo, para ser digno e merecedor daquela atenção. Logo, no entanto, se perdia novamente nas águas, e voltava ao seu naufrágio quintessencial.

Outras vezes, ainda, encontrava novos náufragos como ele, também perdidos por águas labirínticas. Mas não demorava a perceber que, por mais que partilhassem do mesmo destino, não o faziam das mesmas formas: aqueles eram náufragos de outros mares e de outras vidas, sozinhos como ele, mas com mais nada em comum. E assim voltavam, cada um, para seus próprios oceanos solitários.

E talvez fosse esse, afinal, o seu destino último: o de ser sozinho, perdido; pertencente a todas as praias e ilhas paradisíacas banhadas por aquelas águas, e, ao mesmo tempo, a nenhuma delas; podendo participar de tudo, mas, por isso mesmo, participando de nada. E assim seria, até que uma onda mais violenta finalmente o derrubasse e o afogasse definitivamente.

Por vezes se perguntava se tal onda já não o havia atingido, e em não poucas delas de fato desejava que assim fosse.

O Mar

Chuáááá…. ChuááááChuáááá… As ondas chegam até a beira da praia, e voltam para o mar. O sol recém nasceu: apenas alguns metros de areia me separam do mundo, mas – ah! – quantos anos-luz parecem! Jamais seria longe o bastante, no entanto, e aquele momento eterno em que tudo faz sentido nunca dura o suficiente, nem a praia deserta no centro do universo é deserta o suficiente.

Tec tec tecTec tec tec… As teclas ecoam pela sala vazia. A música terminou: resta apenas o vácuo melancólico que se segue à última nota. Onde está o sol? Onde estão as dunas de areia que me protegem de tudo? Estou no meio do mundo, mas ao mesmo tempo tão distante. Aquele momento efêmero nunca é passageiro o bastante, e nada parece haver em mim além das ondas chegando até a beira da praia e voltando para o mar…. ChuááááChuááááChuáááá


Sob um céu de blues...

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