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Ms. Marvel & Gavião Arqueiro

Recentemente tem sido lançadas por aqui, em encadernados de capa dura bastante caprichados, duas das séries mais bacanas produzidas pela Marvel em muitos anos. Como os volumes de ambas estão saindo praticamente ao mesmo tempo, acho que podemos falar delas em conjunto, ao invés de gastar um post inteiro apenas para cada uma.

ms-marvelEm primeiro lugar temos a nova Ms. Marvel. Kamala Khan é uma adolescente comum de Jersey City, que, após fugir de casa para ir a uma festa com os colegas de escola, se vê inalando uma névoa misteriosa que atingiu a cidade e lhe concedeu superpoderes metamórficos. Fã dos Vingadores, se inspira em uma de suas heroínas preferidas para escolher uma alcunha e proteger a cidade de perigos e vilões.

Kamala pertence àquele nicho muito particular dos super-herois, os herois adolescentes. Em certo sentido, ela faz aquilo que personagens como o Homem-Aranha, por toda a sua história prévia, já deixaram de fazer há algum tempo: cumpre o papel do herói que deve salvar a cidade, enfrentar vilões, e terminar tudo antes de se atrasar para a escola. Seu universo, no entanto, é atualizado em relação ao cabeça de teia, e por isso muito mais contemporâneo, com direito a celulares e internet onipresentes. Entre uma aventura e outra, espere vê-la lidando com dilemas muito mundanos, do conflito da sua rebeldia adolescente com a família tradicional até o relacionamento com colegas e amigos na escola.

Acima de tudo, Kamala esbanja carisma. É uma personagem com quem é muito fácil se identificar, pelo menos para quem passou pela experiência de ser um fã de quadrinhos adolescente. Nerd, chega mesmo a tietar seus ídolos quando os encontra em meio às histórias – o seu encontro com o Wolverine no segundo volume é simplesmente sensacional. O mesmo vale para os coadjuvantes das histórias, indo desde a família e amigos próximos, passando pelo mascote Dentinho, e até o próprio vilão Inventor; é fácil criar histórias envolventes e cativantes quando se tem um elenco de personagens tão carismático e imaginativo, e isso fica muito evidente quando se lê estes volumes.

Note que tentei evitar até aqui falar aquela palavrinha mágica, que por alguma razão além da minha compreensão virou meio que tabu e muito associada a essa última reinvenção do universo Marvel. Mas vou dizer logo então pra me livrar desse peso: representatividade.

Ms. Marvel é, sim, uma série que busca a representatividade. De alguma forma apenas ter uma protagonista mulher se tornou hoje algo quase subversivo; e a série ainda vai além, representando uma população (os muçulmanos americanos) que não costuma aparecer em destaque com muita frequência nos quadrinhos mainstream. E não pense que ela tenta fugir ou se esconder desse subtexto: ele é sim colocado em primeiro plano, na própria Kamala, a forma como a cultura da família traz conflitos e dilemas à personagem, e mesmo a trama desses primeiros arcos de histórias, que envolve adolescentes aliciados para um culto que os convence a se sacrificar por um suposto bem maior (defina alegoria). A autora, G. Willow Wilson, ela própria uma muçulmana americana, traz muito da sua experiência pessoal para a série, dando-a mais significado e verossimilhança.

Se eu não mencionei esse aspecto até aqui, é porque não queria reduzir uma série tão fantástica apenas a ele. Ao mesmo tempo, no entanto, ele não pode realmente ser separado dela – Ms. Marvel não é uma série fantástica “apesar da representatividade;” ter esse elemento faz parte do que a torna tão legal. Torna os conflitos e dilemas da personagem mais reais, deixa o seu universo mais contemporâneo e significativo, e de uma maneira geral a reveste de personalidade e atitude. O fato de ser uma série tão bem escrita, e ter personagens tão carismáticos, apenas potencializa isso. Mas se ainda assim você não conseguir gostar, apenas porque a protagonista é mulher ou muçulmana… Olha, sinto muito dizer, mas não é a representatividade que é o problema aqui.

gav-arqueiroA segunda série recebendo encadernados nacionais não chega a tratar de temas tão polêmicos. Vendo em um primeiro momento, aliás, chega a parecer o exato oposto: uma série sobre um protagonista homem, branco, cis-hétero. Mas isso não a torna menos bacana também – na verdade, é um mérito e tanto conseguir pegar um dos personagens normalmente tidos como mais sem graça da editora, e reinventá-lo como um dos mais legais e carismáticos.

Em Gavião Arqueiro, vemos a vida de Clint Barton quando não está se aventurando com os Vingadores. Aqui o fato de ele ser o “cara normal” do super-grupo – pelo menos tão normal quanto alguém capaz de enfrentar uma horda de mafiosos armados usando apenas arco e flecha pode ser – se torna o mote condutor da história: o vemos no dia-a-dia, em atividades cotidianas, lidando com problemas da vizinhança, e, claro, enfrentando a eventual gangue de mafiosos.

Há uma pegada meio noir contemporâneo nos roteiros, dos antagonistas oriundos do mundo do crime até a presença constante de femme fatales (algumas das quais entre suas companheiras de equipe). A caracterização do herói mesmo bebe muito dessa fonte: vemos Clint como um personagem mal compreendido, emocionalmente destruído, que busca de alguma forma fazer o que parece certo por meios nem sempre assim tão corretos. Como qualquer detetive durão de Raymond Chandler, espere vê-lo apanhando bastante de capangas e oponentes antes de conseguir resolver os problemas em que acaba se metendo.

É muito fácil se identificar com a relutância de Clint, que não é bem um super gênio, soldado experimental, nem portador de poderes radioativos; e os autores se aproveitam muito disso nas histórias. Longe das ameaças cósmicas de destruição do planeta, seus problemas são de fato muito mais mundanos, envolvendo relacionamentos com mulheres, a preparação para festas natalinas, até a forma como ajuda seus vizinhos a lidar com uma enchente na cidade.

O ponto em que a série mais se destaca, no entanto, mais do que os próprios roteiros, é a narrativa arrojada desenvolvida pelos autores. O enquadramento dos quadrinhos são muito dinâmicos, como em um filme de ação tarantinesco, buscando ângulos inesperados para mostrar o que está acontecendo. Em algumas histórias você quase consegue ouvir a trilha sonora de rock independente. E frequentemente há espaço para experimentalismos narrativos, que exploram as características dos quadrinhos que não podem ser replicadas em outras mídias – como idas e vindas no tempo entre as páginas, ou uma história inteira contada do ponto de vista de Sortudo, o cachorro de Clint, com sacadas visuais geniais para dar conta da sua percepção guiada pelo faro.

Tanto Ms. Marvel como Gavião Arqueiro, enfim, representam o melhor que a Marvel produziu nos quadrinhos em muito tempo. São séries fantásticas, que simplesmente não podem ser ignoradas por quem gosta do gênero.

Guardiões da Galáxia

guardians_of_the_galaxy_ver2_xlgMesmo que a minha ciência de profissão seja uma mais mundana, eu sou realmente fascinado pelo espaço e a astronomia. Quando criança mesmo sonhava mesmo em ser astronauta, como já comentei em outro momento. Acho que em grande parte é porque cresci vendo as space operas oitentistas – você sabe, desde a trilogia original de Guerra nas Estrelas (antes de os produtores nos obrigarem a chamá-la Star Wars também em países não anglófonos), bem como outros que hoje são um tanto mais cult, como O Último Guerreiro das Estrelas ou o trashíssimo Krull (sem entrar, é claro, nos animes como Robotech/Macross e os filmes do Capitain Harlock). Por isso, poucas coisas me deixavam mais chateados do que passar tanto tempo sem ter uma história realmente boa do gênero, uma vez que nova trilogia Star Wars não é exatamente um grande primor de narrativa, e (um pouco envergonhado) vou confessar que ainda não vi nenhum dos dois filmes de Star Trek recentes. No máximo, acho que temos os jogos da série Mass Effect, muito embora se trate também de outra mídia.

E então temos Guardiões da Galáxia, novo filme do universo cinematográfico da Marvel. Em tese poderíamos considerá-lo mais um filme de super-herois, com personagens de poderes extraordinários, vilões cósmicos e todo o resto; no entanto, ele realmente se esforça para levar mais a sério a sua herança das space operas, o que acaba influenciando muitas das mudanças que faz com relação ao material original. Trata-se de uma aventura espacial como já não se fazia mais, com ênfase na diversão e na fantasia mas sem deixar de ser séria e ter seus momentos dramáticos desde o prólogo, com personagens carismáticos e com os quais você  aprende realmente a se importar – mesmo que entre eles estejam uma árvore andante e um guaxinim falante.

Vou confessar aqui que, apesar de ter sido um marvete na maior parte da minha vida nerd, não conheço muito das histórias do grupo – a sua primeira aparição foi muito antes de eu nascer, e a encarnação mais recente da qual o filme é adaptado foi lançada anos depois de eu encher o saco e desistir de acompanhar séries de quadrinhos regulares. Acho todo o universo espacial Marvel muito legal, mas conheço pouco mais do que o que foi mostrado nas mega sagas como a Trilogia do Infinito (justamente, aliás, a que começou a ser armada desde a famosa cena pós-créditos de Os Vingadores, e que segue desenvolvida pelo McGuffin escolhido para mover o enredo deste aqui); por isso, talvez tenha sido mais fácil para mim relativizar as mudanças do material original aqui do que foi em outros casos. A única coisa que doeu um pouco foi ver a Tropa Nova se tornar meros pilotos de caças – mas no fundo talvez tenha sido uma mudança necessária mesmo para ajudar a estabelecer o universo como de ficção científica antes do que de super heróis espaciais.

Em todo caso, a verdade é que você teria mesmo que ser um tanto chato demais para se incomodar com fidelidade à fonte quando se tem um filme tão carismático e divertido de assistir. Os atores estão impecáveis – bom, com uma exceção, talvez, achei a atuação de Dave Bautista tão literal e vazia quanto parece ser a mente do seu personagem; por outro lado, Vin Diesel parece ter encontrado o seu personagem perfeito na árvore andante Groot e a única frase que ela é capaz de falar. Há também uma boa desculpa narrativa pra que a trilha sonora seja feita apenas de clássicos dos anos 1970 e 1980, economizando orçam… Digo, ajudando a criar um clima leve e divertido e dando mote para boas piadas e tiradas do protagonista em muitos momentos.

Muitas das seqüências do filme já nasceram clássicas. A fuga da prisão armada pelo Rocket Raccoon é perfeita. E toda a cena inicial do Starlord nas ruínas é ótima, com referências algo mais do que sutis a’Os Caçadores da Arca Perdida, e usando o recurso do 3D como poucos filmes conseguiram para causar maravilhamento – infelizmente, no entanto, no resto do filme esse recurso parece ser esquecido, e não há nenhuma outra cena em que a sensação de profundidade faça qualquer diferença.

No fim, Guardiões da Galáxia é um filme muito legal, divertido e com o carisma que já se tornou a grande marca dos filmes da Marvel Comics. Com o sucesso que tem tido, é bem capaz que consiga sozinho a façanha de transformar um grupo de personagens de segundo escalão nas novas estrelas da editora. No fundo, no entanto, acho que pra mim o que mais valeu foi me remeter à minha formação na ficção científica cinematográfica, e resgatar um pouco daquele garoto de oito anos que imaginava os mundos que podiam existir entre as estrelas.

Homem-Aranha Noir

Homem-Aranha Noir é, como o nome bem indica, mais um título da série Marvel Noir, que reimagina os personagens da editora em um ambiente inspirado pelas séries de literatura policial da década de 1930. Junto com X-Men Noir foi um dos primeiros títulos dessa linha a serem lançados por aqui, em uma luxuosa edição encadernada de capa dura, mas com um preço até que bem convidativo levando-se isso em consideração.

A ação desta vez ocorre em 1933, apenas quatro anos depois da quebra da bolsa de Nova Iorque, em um país ainda mergulhado na crise econômica e social. O crime e a corrupção prosperam, e, no caso da principal metrópole norte-americana, possuem como figura central um chefe de quadrilha enigmático conhecido apenas como o Duende. É nesse cenário que vive Peter Parker, um jovem idealista que mora com os tios, um casal de ativistas políticos, e que, após a morte de um deles, é eventualmente tomado como pupilo por Ben Ulrich, repórter do Clarim Diário, e aos poucos passa a ser apresentado ao lado mais sujo da cidade.

Uma diferença fundamental desta para a história dos mutantes resenhada anteriormente é que os personagens aqui de fato possuem super-poderes. No caso de Parker, eles são concedidos por uma misteriosa aranha mística, fazendo com que ele vista um velho uniforme de aviador pertencente ao seu tio enquanto começa a limpar a cidade, sempre honrando os ensinamentos sobre poderes e responsabilidades que recebeu dele – que possuem um leve twist subversivo e anti-institucional, para combinar com o seu background mais politizado, mas continuam com a mesma idéia básica do personagem original.

A história também é muito bem desenvolvida, pegando bem o clima noir a que a série se propõe. Há ambientes luxuosos, femme fatales, crimes violentos; e também inúmeras participações especiais, desde os obrigatórios J. J. Jameson e May Parker, até aliados e adversários clássicos. Nenhum deles está deslocado ou fora de contexto, nem apenas ocupando espaço para completar o álbum de figurinhas – todos são reinterpretados conforme o ambiente, e possuem funções bem definidas e encaixadas no enredo geral. O resultado é um conto policial muito bacana e bem executado, e que conta ainda com uma arte excelente retratando a Nova Iorque da época.

Enfim, Homem-Aranha Noir é um lançamento muito bacana, que eu recomendo para fás do herói ou da literatura policial em que o cenário é inspirado. Tenho gostado bastante dessa série Marvel Noir, a forma como ela reinterpreta personagens clássicos sem deixar de contar histórias interessantes e bem desenvolvidas, e estou bem curioso para ver o que foi feito com outros personagens.

X-Men Noir

Marvel Noir é uma série de histórias lançada pela Marvel Comics desde 2008, e que agora chega ao Brasil com os encadernados X-Men Noir e Homem-Aranha Noir, os dois primeiros a saírem por aqui. Ela tenta reimaginar os personagens clássicos da editora em um ambiente diferente, nos Estados Unidos da década de 1930, com uma influência pesada da literatura policial da época, que viria a ser conhecida como noir no cinema devido seus ambientes escuros e violentos (para quem não sabe, noir significa preto em francês) – enfim, fazendo aquilo que eu costumo chamar de pastiche, e que eu, pelo menos, tendo a achar muito divertido.

A versão dos heróis mutantes deste novo universo Marvel possui algumas diferenças significativas para os seus originais. A mais importante é que não há super poderes – ao invés disso, os alunos da Escola Xavier para a Juventude Excepcionalmente Transviada são simples sociopatas, isolados da sociedade por não serem capazes de viver corretamente dentro dela. Isso dá margem a algumas idéias bastante toscas – em especial a tese do Professor X da sociopatia como um estágio evolucionário da humanidade, que certamente está lá apenas para manter a referência ao material original. Por outro lado, traz também algumas coisas bem interessantes, como a forma em que os poderes são reinterpretados de forma mais mundana, com destaque para os da Jean Grey e da Vampira.

Outro detalhe relevante é que os protagonistas da história não são os X-Men propriamente ditos. Ao invés disso, os roteiristas resgataram um personagem clássico da editora da década de 1940, o Anjo (não confundir o Anjo dos próprios X-Men, que tem apenas uma ponta rápida), e, além dele, a história também é contada do ponto de vista de Eric e Peter Magnus (ou Magneto e Mercúrio), aqui transformados em um inspetor corrupto da polícia e o seu filho idealista. Acho que o primeiro, principalmente, poderia ter sido trocado por algum personagem do próprio universo dos mutantes, já que acaba ficando um pouco deslocado no contexto, sem contar nas confusões devido ao seu nome; poderia ser mesmo o Jamie Madrox, por exemplo, devido a um certo “poder” dele que é revelado no último capítulo.

A parte por isso, em todo caso, a história é bem interessante, um conto policial que abraça muito bem todo o ambiente noir, sem abandonar as referências ao universo fantástico que lhe deu origem. Há espaço para um assassinato misterioso, uma femme fatale e chefões do crime, além, é claro, de dúzias de participações especiais de personagens clássicos das franquias mutantes. A história possui um desenvolvimento muito bom, com viradas ao fim de cada capítulo que te deixam com vontade de seguir lendo, e algumas reviravoltas finais bastante surpreendentes (ainda que uma delas, ao menos, seja descaradamente plagiada do filme O Grande Truque).

O volume também termina com um pequeno conto chamado Os Sentinelas, que seria uma história de ficção científica publicada em revistas pulp dentro do universo da série. É uma leitura muito divertida, pelo menos para quem acompanhou os personagens a vida toda – é escrita propositadamente com um estilo tosco e exagerado, e faz referências a diversas sagas famosas e personagens do universo, do Massacre de Mutantes à Era do Apocalipse, com participação dos Sentinelas, dos Morlocks e mesmo da Fênix.

Em todo caso, X-Men Noir é um lançamento muito bacana, uma reinvenção criativa de personagens clássicos em um ambiente diferente, e muito bem executada. Além disso, foi lançado em um formato luxuoso, com papel especial e capa dura, e ainda assim com um preço até bem razoável. Recomendo para quem é fã dos mutantes.

Capitão América: O Primeiro Vingador

Capitão América: O Primeiro Vingador é, bem, a adaptação do famoso personagem dos quadrinhos da Marvel Comics para o cinema. Ele faz parte dessa nova leva de filmes dos heróis da editora, como Homem de Ferro e Thor, produzidos por um estúdio subsidiário dela própria, o que garante ao menos algum respeito à sua história, diferente de certas… Coisas que já foram feitas no passado. E, como o próprio título já deixa bem claro, ele também é uma introdução ao grande projeto deste estúdio, o filme dos Vingadores que deve ser lançado no próximo ano.

É difícil falar do Capitão sem destacar o seu símbolo e aquilo que, por trás de toda a fantasia, ele realmente representa. Talvez (aliás, certamente) mais até do que o Super Homem, que é o personagem da editora rival com as cores da bandeira norte-americana no uniforme, ele já é desde o nome uma ode de exaltação ao país onde foi criado – vide, aliás, esta ótima montagem que foi feita em cima do trailer, com uma música dos criadores de South Park. E um dos méritos que o filme tem é de fato reconhecer e incorporar isso, mas de uma forma que não chega a ser ofensiva a outras nacionalidades, e tem até um certo tom de paródia bem divertido em alguns momentos. Há mesmo o cuidado de colocar um grupo de soldados multiétnico na sua equipe de suporte, para não parecer (ou ao menos não tanto) que só os norte-americanos fizeram alguma coisa relevante na guerra.

A produção do filme também é muito bem feita, desde o figurino e o cenário, que dão a ele um certo quê de matinê e filme de época. Marvetes de longa data vão ter orgasmos múltiplos com as referências ao início da editora na feira de tecnologia no início, além do Howard Stark caracterizado como uma versão vintage do seu filho. E os atores em geral estão bem escalados, a começar pelo próprio Chris Evans, que encarnou muito bem o protagonista; apenas o Hugo Weaving é meio decepcionante como Caveira Vermelha, mas eu tendo a achar que isso é mais pelo filme dar pouco tempo de tela a ele do por qualquer outra coisa.

Nada disso salva, no entanto, o roteiro sem brilho e cheio de buracos (feitos por balas de fuzis alemães, muito provavelmente). O diretor não conseguiu conduzi-lo nem dar o ritmo certo, e a edição tem alguns cortes de cena tão toscos que parecem reminescentes do filme do Demolidor estrelado pelo Ben Affleck. A partir de um certo ponto, em especial, parece que o filme vira um grande videoclipe de tiros e explosões em cenas dispersas, tentando encaixar de alguma forma os acontecimentos que o encaminhem para o confronto final entre o herói e o vilão.

Também é interessante destacar que eu assisti o filme em um cinema 3D, mais por conveniência de horários do que qualquer coisa. E, sinceramente, não há nada nele que justifique que seja exibido desta forma – exceto, é claro, a necessidade dos produtores de dar volume a arrecadação com os ingressos mais caros. As únicas cenas com um mínimo de profundidade eram as explosões, em que era possível ver os estilhaços voando em frente ao fogo. Todos os trailers antes do filme começar, sem exceção, tinham mais elementos em 3D do que ele.

Em todo caso, não vou dizer que o filme seja, pura e simplesmente, uma bomba, até porque ele não é. É divertido, tem seus bons momentos, o Chris Evans está bem caracterizado como o Steve Rogers, e o Tommy Lee Jones rouba a cena na meia-dúzia de vezes em que aparece. Só não vá esperando muito mais do que isso mesmo. E também não saia antes do fim dos créditos, especialmente se for um marvete assumido – a surpresa que há depois deles certamente compensa toda a espera.

X-Men: Primeira Classe

Como alguns já devem saber, eu sempre fui um marvete assumido desde pequeno, e, mais do que isso, um x-maníaco. Os mutantes (e, como onze em cada dez leitores deles, o Wolverine) foram os meus personagens preferidos praticamente desde que eu comecei a ler histórias em quadrinhos a sério. Acompanhei toda a fase clássica escrita pelo Chris Claremont e desenhada pelo John Byrne primeiro e depois pelo Jim Lee, e na verdade foram justamente estas histórias que me puxaram pra todo esse universo dos leitores de quadrinhos em primeiro lugar.

Essa é uma informação importante, porque deve explicar um tanto do meu sentimento ambíguo a respeito de X-Men: Primeira Classe (e não, o título do filme não diz respeito à primeira classe do Pássaro Negro), e algumas das críticas que eu vou necessariamente ter que fazer a ele. Elas podem parecer em um primeiro momento ranço de fã, e na verdade é justamente isso que são. Eu sempre fui um defensor das adaptações livres nos cinemas, aquela coisa de tentar pegar o cerne do personagem e fazer uma versão dele, e não apenas transferir ipsis litteris tudo o que aconteceu em cinqüenta anos de histórias ininterruptas para um filme de duas horas; por isso consigo gostar de um filme bacana como Constantine, por exemplo, e ao mesmo tempo fazer críticas duras a Watchmen. Mas é verdade também que desta vez eles puxaram certas coisas um pouco além do limite.

Claro que eu não vou reclamar de coisas menores como a escalação de Angel e Darwin entre os primeiros mutantes da vez, já que eles estão lá pra cumprir a cota genérica de poderes únicos praticamente da mesma forma como nos quadrinhos. Até o Azazel com teletransporte, vá lá, dá pra engolir. Todo o Clube do Inferno talvez pudesse ser melhor aproveitado em um roteiro sobre ele próprio, mas tudo bem, não deixou de ficar interessante da forma como foi feito. Mas um Destrutor trinta anos mais velho do que o Ciclope é duro é de aceitar – dá pra ver uma tentativa clara de não colocar os mutantes que aparecem nos outros filmes, exceto em algumas pequenas participações especiais (principalmente do Wolverine, na melhor cena de todo o filme), para manter-se fiel à “cronologia” própria do cinema; então escalar o Alex Summers, que deveria ser o irmão mais novo do Scott, acaba tendo justamente esse efeito colateral. Outra liberdade criativa dura de engolir é o relacionamento entre Charles Xavier e a Mística, que além de tudo ainda adiciona um tom de melodrama totalmente descartável à história; a cada cena em que os dois apareciam juntos o meu estômago de fã se revirava.

O pior de tudo, no entanto, é que, apesar de todas essas, ahem, liberdades, o resultado final não é ruim. Bem pelo contrário, até – o filme todo é muito bem feito, tem um roteiro interessante, ainda que com alguns furos menores, fundamentado em um fato histórico, a Crise dos Mísseis de Cuba de 1962, e tem cenas bem filmadas e divertidas. Mais do que tudo, tem excelentes atores. Jason McAvoy está ótimo como um Charles Xavier jovem e mulherengo, enquanto o Michael Fassbender rouba a cena como o jovem Erik Lensherr. Kevin Bacon também está excelente como Sebastian Shaw – ele rouba a cena mesmo na sua primeira aparição no campo de concentração nazista, e depois se mantém regular até o fim.

Enfim, como eu já destaquei, meus sentimentos a respeito de X-Men: Primeira Classe são bastante ambíguos. Por um lado, o filme é muito bem feito e divertido, não se pode dizer que seja um filme ruim. Por outro, as liberdades tomadas com respeito a alguns dos personagens realmente incomodam bastante. Se você não liga para isso, vai fundo, não há muito o que não gostar. Se, por outro lado, for um fã dos mutantes… Talvez seja melhor ver também, e tirar as suas próprias conclusões no final.

X-Men – Garotas em Fuga

X-Men – Garotas em Fuga é uma edição especial do grupo mutante, mas estrelando apenas as suas garotas – no caso, Vampira, Lince Negra, Garota Marvel, Psylocke, Tempestade e a Rainha Branca; o título original do projeto, inclusive, era X-Women, para destacar este fato. A história escrita por Chris Claremont conta qualquer coisa sobre um resgate na ilha de Madripoor, mas, francamente, quem é que tá prestando atenção? O que realmente importa é o artista convidado para ilustrá-la, o mestre dos quadrinhos eróticos Milo Manara.

Da primeira à última página, é a arte de Manara a grande estrela da edição, enquanto o roteiro de filme de Sessão da Tarde está lá apenas como ornamento. O destaque, como seria de imaginar, são as mulheres: diferente daquela volúpia inverossímil tradicional dos comics, com suas cinturas impossivelmente finas e bustos impossivelmente largos, as mulheres de Manara são curvilíneas e sensuais, mas sem deixarem de parecer reais; como diz Nick Lowe no posfácio, elas não são como a sua vizinha, mas poderiam ser (se você tivesse a sorte de morar ao lado da garota mais gostosa da cidade). Algumas delas inclusive lembram mulheres reais – olhem para a Vampira em algumas cenas e digam se ela não está a cara da Liv Tyler. É difícil não se deixar levar pelo voyeurismo e apenas admirar alguns quadrinhos, sem prestar muita atenção no que está acontecendo.

Claro, ainda é uma história de super-heróis Marvel antes de uma do Manara, o que quer dizer que a censura não é de 18 anos. Há alguns ângulos estratégicos aqui e ali, mas o máximo de nudez de fato que você vai encontrar são um biquini fio dental e uma coadjuvante vestindo apenas um casaco aberto da cintura para cima (que logicamente oculta os detalhes mais interessantes da sua anatomia). O resultado final lembra um pouco o reboot cinematográfico d’As Panteras, aquele com a Drew Barrymore, a Lucy Liu e a Cameron Diaz, inclusive por ter mais explosões do que conteúdo. Também falta um pouco de dinamismo na arte em algumas cenas de ação, embora não seja nada que atrapalhe demais.

Enfim, X-Men – Garotas em Fuga não é lá a melhor coisa que já foi feita com o grupo, e alguém esperando uma história especialmente inovadora ou cativante provavelmente vai se decepcionar bastante, mas não deixa de ser uma releitura interessante das personagens. E, é claro, as mulheres do Manara sempre valem a pena…


Sob um céu de blues...

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