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A Revolução Numérica

Dizem que tudo começou em uma quinta-feira de agosto pela manhã, quando o Prof. Dr. Ernest Blamingham, do Instituto de Matemática de Cambridge, Inglaterra, trabalhando em uma de suas equações matinais, tentou somar 2 e 2 e, por algum motivo, não conseguiu achar uma resposta. Pensou e refletiu por horas, repetindo o cálculo, até que, enfim, chegou a um resultado: 357,23. Espantado, ligou para um colega, que também relatou resultados absurdos que estava obtendo em operações simples; e para outros e outros colegas, todos descrevendo situações semelhantes. Logo o problema já estava na boca do povo, e era notícia em todos os lugares do mundo: a matemática havia enlouquecido!

Na verdade, diversas horas antes, em um pequeno armazém de um bairro pobre em Bombaim, na Índia, o problema já havia sido destacado por um dos clientes, que foi obrigado a pagar 50 mil rúpias por um pedaço de pão após uma longa discussão com o vendedor, que eventualmente o convenceu de ser a vontade de Visnu que um dalit como ele pagasse tal valor. O governo chinês anunciou posteriormente que também lá o problema já havia sido notado, mas não fora noticiado por suspeita de envolvimento de grupos rebeldes que visam a liberação do Tibete; e é possível que no Japão a situação também já fosse semelhante, mas ninguém havia reparado pois estavam todos ocupados jogando videogames e realizando seus alongamentos matinais junto aos colegas de empresa.

O fato é que os números haviam se revoltado: se rebelaram contra a matemática, esta rainha tirânica que por tanto tempo os havia governado, impondo um regime mecânico e totalizante sobre suas vidas. Mas não mais – naquele dia, sob o comando de um grupo para-militar de dezenas, todos haviam enfim se libertado das amarras da exatidão, e estavam livres para viver como bem entendessem. 2 e 2 não mais seriam 4; a raiz quadrada de 3 seria 7; e Pi poderia decidir, em uma manhã de sábado chuvoso, ser igual a 6,444, ou então, em um domingo ensolarado à tarde, 2,15648.

A humanidade se dividiu a respeito da situação. A economia entrou em colapso, sem uma base de números exatos sobre os quais se fundamentar; empresas que num dia eram mais poderosas que governos no seguinte beiravam a falência, enquanto fortunas se desfaziam ante a inconstância dos números que as representavam. Fome e miséria se espalhavam pelos países; nerds CDFs eram reprovados em provas escolares, ao contrário dos valentões de times de futebol, que mostravam orgulhososos suas novas notas aos pais; fortunas eram cobradas por balas de hortelã, enquanto quilos de ouro poderiam ser adquiridos por poucos centavos. E, entre o pânico e desespero geral, havia também aqueles que se sensibilizavam com a causa numérica – afinal, após tantos séculos de prisão e servidão aos nossos caprichos, como podíamos recusar a eles um momento sequer de liberdade como pagamento?

Foram meses de caos e desordem, até que finalmente, em uma pequena escola primária do interior de Gana, um professor de filosofia propusesse uma solução. O status de ciência exata da matemática foi revogado, e agora ninguém mais podia propor uma solução para uma equação sem antes desenvolver uma argumentação lógica e discussão teórica explicando por que os números e valores envolvidos deviam se comportar daquela forma, e possivelmente estaria ainda sujeito a toda sorte de críticas, contra-argumentações e contra-provas. Fazer matemática ficou mais complicado e trabalhoso, mas pelo menos era mais uma vez possível estabelecer uma base sobre a qual fundamentar a economia mundial – e, talvez o mais importante, sem precisar impôr um novo regime tirânico aos números, que podiam enfim gozar da doce liberdade após incontáveis eras de opressão.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

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