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Piteco – Ingá

Piteco-Ingá-CapaA série Graphic MSP tem se dedicado a reinventar os personagens clássicos de Maurício de Souza através de artistas contemporâneos, que geralmente dão a eles uma visão bastante única e pessoal. Desde Astronauta – Magnetar, já tivemos lançamentos sobre a Turma da Mônica clássica e também o Chico Bento. Em Ingá é a vez de Piteco, o homem das cavernas, e o artista escolhido para isso foi o ilustrador paraibano Shiko.

E há que se dizer que a escolha não poderia ter sido melhor: a arte é realmente linda, talvez a mais bonita da série até aqui. Segundo consta na introdução do próprio Maurício de Souza, cada quadro foi pintado em aquarela pelo artista, resultando em um trabalho de cores belíssimo. A reinvenção visual dos personagens está ótima, respeitando detalhes do seu desenho clássico mas em um traço mais realista – há quem diga por aí inclusive que a nova versão da Thuga é a primeira heroína plus size sexy dos quadrinhos…

Shiko também escolheu trazer a pré-história do personagem para o Brasil, e usar como referência básica do enredo a Pedra do Ingá, que fica na Paraíba e contém desenhos e inscrições rupestres. Segundo a sua interpretação, tais desenhos fariam referência a uma seca no rio que alimenta a Tribo de Lem, forçando-os a partir em uma jornada em busca de uma nova terra para viver. Antes da partida, no entanto, a xamã Thuga é sequestrada pela tribo dos homens-tigre, obrigando Piteco a sair em busca da amada.

O que se segue é uma história de aventura com certo ar de espada & feitiçaria (ou talvez o mais correto seria tacape & feitiçaria?). Piteco encontrará pelo caminho monstros e criaturas fantásticas, inclusive reinvenções do Boitatá e Caipora que não devem desagradar nem quem normalmente torce o nariz para folclore nacional; e também deverá eventualmente decidir o que afinal sente pela xamã sequestrada. Coadjuvantes próprios do mythos do personagem, como o inventor Beleléu e a guerreira Ogra, também aparecem, é claro.

No final, Piteco – Ingá é uma graphic novel de primeira linha, muito legal mesmo. Acho que foi a que mais me empolgou da série até aqui, e recomendo muito que dêem uma olhada.

Astronauta – Magnetar

Acho que o meu maior sonho de infância era ser astronauta. Era o que eu geralmente respondia quando me perguntavam o que você quer ser quando crescer? Olhando em retrospecto, acho que isso influenciou muito da minha personalidade posterior até – o meu interesse por ficção científica e fantasia, minha visão de mundo geralmente mais próxima da ciência do que da religião, e por aí vai. Até hoje uma das poucas coisas que eu ainda perco meu tempo vendo na TV são documentários sobre astrofísica e a ciência espacial, até aqueles bem sensacionalistas com mais efeitos especiais do que informação; e poucas coisas chamam tanto a minha atenção em uma história do que incluir nela de alguma forma viagens espaciais e a exploração dos confins do universo.

Assim, não é difícil imaginar o que despertou meu interesse por Astronauta – Magnetar. Para além disso, é claro que deve-se destacar o fato de ser a primeira graphic novel produzida pela Maurício de Souza Produções, que emprestou um dos seus personagens clássicos para ser reinventado nas mãos de Danilo Beyruth, conhecido por trabalhos premiados como Bando de Dois e Necronauta.

A releitura feita por ele é bastante fiel às características originais do personagem – o seu histórico e personalidade, a saudade da Terra e da Ritinha, o tom reflexivo da história, mesmo o design da sua nave e traje de exploração, apesar de estarem em um traço mais realista, foram minuciosamente respeitados. O encontramos aqui pesquisando um magnetar, um fenômeno magnético que ocorre ao redor de algumas estrelas de nêutrons (estrelas superdensas que podem surgir após uma supernova). Um acidente não calculado, no entanto, faz com que os sistemas da sua nave parem de funcionar, deixando-o preso e incomunicável com a sua base de operações

Após rapidamente estabelecer uma fonte de água e oxigênio através do gelo do cinturão de asteróides onde se encontra, o Astronauta passa a se concentrar em buscar um meio de fugir dessa situação. Há uma sacada narrativa muito interessante para demonstrar a passagem do tempo e a rotina auto-imposta em apenas quatro páginas; e então é hora do mote principal da história: os demônios da solidão, que passam a atacá-lo através de surtos de paranóia e mesmo alucinações.

Se há um ponto negativo, eu achei a história um pouco curta. Em apenas setenta páginas é difícil torná-la tão envolvente quanto foi um Habibi para mim, por exemplo, que possui centenas delas para desenvolver seus personagens e enredos. Mas mesmo assim ela cativa, e faz um trabalho muito eficiente de reimaginar um personagem tão querido dos nossos quadrinhos.

É um ótimo lançamento, enfim, que recomendo para fãs do personagem e histórias espaciais. Aguardo para ver os próximos lançamentos do selo.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

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