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Nádegas a Declarar

policia-sao-paulo-reprime-manifestacaoNão tenho nada a dizer sobre as manifestações em São Paulo que já tenha sido dito por aí com muito mais propriedade. Me sinto até um pouco intimidado, vendo textos tão lúcidos e incisivos, quando eu mal e mal consigo tecer meia dúzia de linhas a respeito. Recomendo muito o texto do site Impedimento – um site sobre futebol, vejam só -, que cita uma música do Raul Seixas e faz uma reflexão brilhante sobre o papel da mídia e os espólios sociais do ocorrido; e o do jornalista e escritor Carlos Orsi, que se concentra mais especificamente no histórico repressivo da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Eles dizem tudo que eu não tenho capacidade pra dizer. Só não me venham levar a sério qualquer coisa que saia na revista Veja, por favor.

Mas esse é um blog pessoal, então me perdoem se eu me concentro nos meus próprios sentimentos pessoais um pouco aqui também. Ninguém é obrigado a dar a mínima. Não é nada que vá mudar a opinião de ninguém sobre o ocorrido, já que não é um relato político. O que me chocou mesmo nisso tudo foi ver pessoas com quem eu convivi boa parte da minha adolescência, com quem eu posso dizer até que cresci um pouco junto, defendendo com todas as letras que manifestante tem mais é que apanhar mesmo. Eu não era exatamente um cara muito popular na escola, e na verdade me repreendo bastante por ter assumido a persona do anti-social amargurado e deixado de aproveitar muita coisa do meu segundo grau. Sei que muita gente prefere fingir que essa época da sua vida não aconteceu, esquecer todo o bullying e repressão típicos dessa fase da vida, mas o meu sentimento é um pouco diferente; tem mais a ver com um tipo de lamento saudoso, uma nostalgia do que eu nunca tive. Um arrependimento, pra resumir.

Ao ver esse tipo de comentário, então, acabo olhando em retrospecto, e de repente o abismo que me separa daquela época fica muito maior. Não dava pra esperar que fosse diferente, visto todas as diferenças que existiam já naquela época, e só se intensificaram. Aquela coisa de estudar em um colégio particular morando em um bairro pobre, ou de ter estudado História em uma universidade federal e não Economia em uma norte-americana de renome internacional. E não que eu queira desprezar estas diferenças também, é claro, pois a oportunidade de sair do meu cubículo acadêmico é algo que eu gostaria de ter também, e ainda pretendo aproveitar algum dia.

Mas sei lá. Eu lembro dessas horas do meu texto Náufrago, que eu republiquei dias atrás. E é por não querer republicar de novo que eu prefiro só deixar o link para quem quiser ler mesmo.

O Beco

Escuro, úmido, frio – assim era o beco onde ele se encontrava. Não havia saídas por onde ir, portas dos fundos por onde entrar, nem mesmo guias a quem seguir; apenas a barreira sem cor nem solidez que o prendia, e no mais o vazio, infinito e interminável. O caminho de volta se desfazia no horizonte, deixando-o para trás, perdido e só, com a sacola vazia de truques aos quais recorrer. E em algum lugar ao longe se ouvia o som de um violão, vindo de onde algum outro ser solitário dedilhava notas dissonantes que se perdiam, também elas, em seus próprios becos escuros, úmidos e frios.

Vertigem

Tudo era movimento: as nuvens, a terra, o mundo. Passavam como vertigens, lá fora, enquanto ali dentro tudo era imóvel e estático. Via pelo outro lado do vidro, confortável, sem perceber a diferença. Até que parou – mas já não sabia onde estava, ou para onde ia.


Sob um céu de blues...

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