Posts Tagged 'mitologia grega'

A Escolha de Pégaso

pegaso– E então, Pégaso, fez a sua escolha? – a voz poderosa ressoava pelas paredes do aposento, como se viesse de todos os lugares e lugar nenhum ao mesmo tempo.

Fora difícil, mas, afinal, depois de refletir, de pesar as consequências, de considerar todas as alternativas, ele a havia feito. Sabia que o que falasse ali, naquele momento, poderia determinar o futuro da sua busca: permitiria que ele conquistasse o prêmio supremo, ou determinaria de vez a sua derrota. Uma última gota de hesitação percorreu o seu pensamento antes de abrir a boca. Enfim, encheu-se de determinação e falou:

– Eu escolho a Medusa para ir para o Paredão, Bial.

Fúria de Titãs

É um pouco engraçado, para quem já esteve em uma mesa de RPG ao menos uma vez, ver como essa onda recente de filmes épicos é tão descaradamente feita por nerds que passaram a adolescência rolando dados em masmorras imaginárias. Não digo nem a respeito dos temas – até porque em séries como Underworld e O Senhor dos Anéis a influência já é por demais óbvia -, mas na própria forma como eles são escritos e realizados. Pode parar pra reparar: os personagens principais sempre seguem os mesmos arquétipos – sempre há o rogue, o warrior, o sage… -, e o roteiro segue tão à risca a jornada do herói campbelliana que poderia ter saído de algum videogame japonês. O ponto extremo possivelmente seja, acredito, Rei Arthur, aquele com o Clive Owen e a Keira Knightley, em que até os combates parecem acontecer por turnos, com cada personagem tendo direito a exatamente um golpe em um inimigo antes de a câmera passar para o próximo. Isto é, pelo menos até o lançamento desta nova versão do Fúria de Titãs.

O filme, que resgata um daqueles velhos clássicos do Cinema em Casa do SBT, realmente eleva a idéia do “cinema de RPG” a um novo nível: você consegue imaginar até os jogadores por trás de cada personagem. Há lá o cara tímido que não fala muito e só quer rolar dados; o ex-jogador de Vampiro: A Máscara que escreveu um histórico de dez páginas mas não teve tempo de revelar nem metade; a única menina do grupo; até o par de malas que fizeram personagens totalmente fora do contexto e só querem fazer piadinhas em off sobre cavalgar escorpiões gigantes, além de faltarem nas últimas sessões pra jogar videogame, forçando o mestre a tirá-los da história com alguma desculpa esfarrapada qualquer. Mesmo os vilões e personagens secundários (vulgo NPCs) você consegue imaginar sendo interpretados por um mestre empolgado – pelo menos a voz rouca do Hades me lembrou muito bem as peripécias dramáticas de alguns com quem já joguei, eu mesmo entre eles.

Com tudo isso, é natural esperar que o roteiro não vá muito além do que se teria em uma aventura pronta genérica. Não espere aprender muito sobre mitologia grega – a versão contada da história de Perseu é bem livre e sincrética, com direito a krakens e djinns, como, aliás, já era no filme anterior. A motivação dos personagens passa por todos os clichês clássicos, da vingança ao salvamento da princesa, e na verdade só servem de desculpa para reuni-los e colocá-los em marcha pelo mundo (já que todo filme épico precisa de uma cena de viagem por um deserto, montanha ou geleira com trilha sonora incidental), enfrentando monstros e reunindo itens mágicos para a batalha final. Mas os monstros são legais – de escorpiões gigantes ao kraken, passando pela medusa e um Caronte que parece saído de um filme do Guillermo del Toro -, e rendem boas cenas de ação, apesar do excesso de câmera lenta obrigatório desde 300 incomodar. Os deuses também ficaram muito bacanas visualmente, com direito a homenagem aos Cavaleiros do Zodíaco.

Outro ponto importante de destacar é que o filme está disponível para ser visto em 3D. Pessoalmente, no entanto, não vi nada de muito impressionante neste aspecto que justifique a diferença de preço – não sei se sou eu que não consigo me enganar pela ilusão (também não vi muita diferença nos poucos outros filmes que assisti nesse formato, incluindo Avatar), ou se os filmes atuais ainda não conseguem aproveitar o recurso de forma adequada. A única cena que valeu o incômodo dos óculos foi a abertura, que conta a história dos deuses e da criação dos homens a partir das constelações, e ficou bastante bonita em três dimensões.

Em todo caso, para resumir a ópera toda, consigo imaginar muita gente ficando decepcionada com esta nova versão de Fúria de Titãs, então pense bem no que você quer ver antes de ir atrás; mas também pode ser um filme bem divertido para quem já rolou um d20 uma vez na vida e souber entrar no clima. Tudo bem, ele avacalha com toda mitologia grega pra contar uma historinha tosca de aventura de RPG, mas pelo menos tem uns monstros legais…

Cybermancy

cybermancyVocês não odeiam quando tem uma idéia que acham bacana, contam pra algumas pessoas, elas acham legal também, aí de repente, meio que por nada, acaba descobrindo que outra pessoa teve a mesma idéia mais ou menos ao mesmo tempo que você e já está ganhando alguma coisa com ela? Bem, uns tempos atrás, inspirado pelo livro Neuromancer, que eu estava lendo no momento, eu apresentei a idéia do Maginauta, um novo tipo de personagem para mundos fantásticos-medievais, uma espécie de hacker da magia. E não é que, casualmente, olhando pela sessão de livros importados da Livraria Cultura (que curiosamente conseguem se manter mais baratas que as edições nacionais mesmo nos momentos de dólar alto), eu encontro um certo livro chamado Cybermancy, e, vendo a sinopse na contra-capa, descubro que ele é baseado em uma idéia incrivelmente parecida?

Claro, não é exatamente a mesma coisa que eu fiz. O universo criado por Kelly McCullough é bem mais carregado no pastiche; é um mundo contemporâneo ao nosso, mas onde os deuses e toda a mitologia clássica grega são verdadeiros e, mais do que isso, adeptos das facilidades do mundo digital. Um dos elementos principais da série, por exemplo, são os webgoblins, uma espécie de laptop mágico capaz de conjurar feitiços através de linhas de código binário e de acessar a mweb, uma rede de comunicação mística que liga os diversos mundos da existência e é administrada pelas Parcas, as deusas do destino do mundo grego. Esse pastiche caótico todo é, sem dúvida, o que há de mais divertido no livro, pelo menos para quem não for essencialmente chato e/ou purista (o que certamente não é o meu caso) – coisas como o personagem principal jogando cartas com Cerberus, ou a invasão do sistema interno do Hades, ou a óbvia piada de Eris com a Apple, ou ainda todas as pequenas tiradas que permeiam a narrativa e atualizam a situação de deuses e personagens clássicos das histórias gregas para o século XXI, são engraçadíssimas, às vezes de rir em voz alta mesmo, e valem muito bem a leitura (vide aí o próprio subtítulo que dá pra ver na imagem da capa – Hades tem um firewall dos infernos).

De resto, não há muito mais o que destacar. É um típico exemplar daquela literatura de massas norte-americana, com uma grande aventura épica de fantasia / ficção científica, incluindo aí boa parte dos elementos que você encontra em qualquer trilogia de histórias de Shadowrun ou outros cenários de RPG do gênero. Mas até é uma história legal, pelo menos para quem gosta do estilo, com personagens carismáticos, bons momentos de ação, algum mistério, toda uma rede de intriga divina que se desenvolve aos poucos, e tudo mais que couber aí no meio. Só o lado que tenta ser romântico realmente é um pouco superficial e enfadonho, parecendo às vezes uma daquelas séries de comédia/drama norte-americanas de segunda categoria. A narrativa também não é exatamente um ponto forte – o livro é todo em primeira pessoa, e o protagonista tem uma certa tendência em se deixar levar por longos monólogos de recapitulação do enredo bem no meio de algumas cenas importantes, o que fica um tanto irritante lá pela metade final.

Enfim, acho que, não fosse a inventividade do seu universo, Cybermancy não seria lá um livro muito destacável na multidão, ainda que isso não fizesse dele necessariamente uma obra ruim. Eu gostei, de qualquer forma, e me interessei pela série – já corri atrás e li o primeiro e o terceiro livros, WebMage e CodeSpell, respectivamente (Cybermancy é o segundo), e esse mês está sendo lançado o quarto volume, MythOS. Para quem gosta de mitologia grega, cyberpunk, pastiches insólitos, e não tem problemas com a língua inglesa, é uma boa recomendação.


Sob um céu de blues...

Categorias

Arquivos

@bschlatter

Estatísticas

  • 230.900 visitas