Posts Tagged 'mitologia japonesa'

The Grass-Cutting Sword

cover-myths-of-origin1Já falei da relação da autora Catherynne M. Valente com o Japão em outro momento, e não vou me repetir. Para além dela, no entanto, Valente também é conhecida por cunhar o nome do subgênero literário mythpunk – você sabe, essa mania de adicionar o sufixo punk após qualquer palavra e chamar de subgênero (aguardem o meu revolucionário universo punkpunk pra qualquer dia desses). Embora originalmente tenha sido um termo meio irônico, ela própria parece tê-lo abraçado eventualmente, e muitos dos seus trabalhos de fato usam os preceitos que ela indicou, misturando mitos e fábulas tradicionais de diversas culturas com reinvenções temáticas e estruturas narrativas pós-modernas.

A novela The Grass-Cutting Sword está exatamente na intersecção destes dois elementos. Trata-se de uma reinvenção dos mitos formadores do Japão antigo, contando a história do deus Susano-O-no-Mikoto, a sua expulsão do paraíso pela sua irmã Amaterasu-Oho-Kami, e o seu embate com a serpente de oito cabeças Yamata-no-Orochi, do corpo da qual tirou a espada cortadora de gama do título (Kusanagi-no-Tsurugi, em japonês), até hoje uma das relíquias imperiais da família real japonesa. O mito original é contado nos livros Kojiki e Nihongi, os mais antigos da literatura japonesa; Valente, no entanto, os recriou com técnicas literárias modernas, preenchendo algumas lacunas mas sendo de maneira geral bastante fiel aos originais.

A história de fato começa com a chegada de Susano-O à terra, mas não demora em fazer um recuo no tempo para recontar o próprio mito de criação do mundo japonês, com o nascimento dos deuses Izanagi- e Izanami-no-Mikoto. Juntos eles deram à luz a todas as ilhas japonesas, além de um sem número de deuses e criaturas míticas, sendo os últimos a própria Amaterasu, deusa do sol, Susano-O, deus das tempestades, e o menos importante Tsukuyomi-no-Mikoto, deus da lua. Os mitos japoneses mais conhecidos – a morte de Izanami e a viagem de Izanagi ao mundo dos mortos para buscá-la; o encontro entre Amaterasu e Susano-O nas planícies do paraíso; a eventual desavença entre eles, levando à expulsão do segundo e a reclusão da primeira em uma caverna, trazendo a escuridão à Terra – são todos contados em detalhes na prosa poética e envolvente de Valente.

Ao mesmo tempo, no entanto, e aqui entra a principal criação literária da autora, temos em capítulos intercalados a história da própria Yamata-no-Orochi, a serpente de oito cabeças cuja origem nunca conhecemos realmente nos mitos, e as sete filhas que ela devora antes que Susano-O entre em cena para salvar a oitava. Valente descreve o livro como escrito em um “surto de raiva feminista,” ao entender o papel relegado à mulher nos mitos orientais; e isso é bastante visível nestes capítulos: cada uma das sete filhas possui muita personalidade e força, e justamente por isso são segregadas e culpadas, e por fim sempre terminam por escolher a serpente ante à própria família. Como em uma versão peculiar de A Bela e A Fera, é apenas o monstro que parece reconhecê-las, entendê-las e respeitar a sua individualidade, frente a uma família que esperam pouco mais do que moças servis que cuidem do seu marido nem-bonito-nem-feio e façam sopas de olhos de peixe saborosas.

Toda a história é contada com habilidade pela autora, poetisa de formação e que faz uso de imagens bastante vívidas na sua prosa, explorando com muita criatividade os absurdos da própria lógica mitológica – cenas como o deus Izanagi raspando a sujeira dos pés e criando uma dúzia de novas divindades no processo meio que falam por si só, acredito. Quando entram em cena as donzelas devoradas, no entanto, e os capítulos tornam-se na verdade grandes diálogos entre elas e a serpente, a narrativa fica também muito mais intensa, envolvendo e comovendo o leitor.

A edição mais recente da novela está reunida com outros dos primeiros trabalhos de Valente em uma coletânea chamada Myths of Origin. Acredito, no entanto, que seja o melhor trabalho dos quatro que fazem parte dela; os demais são ainda muito crus, tendo a influência muito forte do seu lado poetisa, com enredos e tramas por demais enigmáticos e vazios de sentido. Mas aqui já temos um bom exemplo do que ela seria capaz posteriormente como autora, e certamente é uma leitura interessante para os que gostam de mitologia oriental e histórias fantásticas em geral.

Nihongi

nihongi[1 d.C.] 30º ano, primavera, 1º mês, 6º dia. O Imperador chamou Inishiki no Mikoto e Oho-tarashi-hiko no Mikoto, dizendo: “Cada um de vocês diga alguma coisa que gostaria de ter.” O Príncipe mais velho disse: “Eu gostaria de ter um arco e flechas.” O Príncipe mais novo disse: “Eu gostaria de ter a Distinção Imperial.” Então o Imperador mandou, dizendo: “Que o desejo de cada um de vocês seja concedido.” Então um arco e flechas foi dado a Inishiki no Mikoto, e um decreto foi endereçado a Oho-tarashi-hiko no Mikoto, dizendo: “Você será o sucessor da Nossa Distinção.”

(Nihongi, também chamado Nihon Shoki, “Crônicas do Japão,” é o segundo livro mais antigo da literatura japonesa, que conta a história do país desde a criação do mundo até aproximadamente o começo do século VIII d. C. O trecho teria acontecido durante o reinado do 11º Imperador do Japão, Suinin).

Eu… Nem sei o que comentar.

Okami HD

okamihdAcho que é pelo menos desde a última geração de consoles que os videogames têm se consolidado como, mais do que uma mera forma de entretenimento, uma verdadeira forma de arte. (Seria, acho, a décima arte?) Mesmo fora de ícones pop como Mario e Zelda, o fato é que temos tido um grande acréscimo na própria ambição de jogos, que buscam, mais do que nos impressionar com cores vibrantes e luminosas, realmente nos fazer sentir algo através de imagens, sons e narrativa. Quer dizer, basta olhar jogos como Shadow of the Colossus e Journey para entender o que eu estou falando.

Foi no meio desta geração de transição que tivemos Okami, talvez um dos exemplos mais bem acabados em termos artísticos, mas que ao mesmo tempo não se furta de oferecer uma experiência extremamente profunda de jogo. A sua ambição artística é vista desde o estilo gráfico, que simula o estilo de pintura oriental tradicional de tinta aguada (sumi-e, no japonês), e mesmo na própria jogabilidade, que tem no uso de um pincel mágico um elemento central. Simultaneamente, ele oferece no seu enredo um mundo cativante e único inspirado quase na sua totalidade na mitologia japonesa.

O jogo nos conta a história de Amaterasu, a deusa-sol do mundo de Nippon que vive entre os mortais com a forma de um lobo, e a sua batalha contra a serpente de oito cabeças Orochi. No passado, com a ajuda de um guerreiro lendário chamado Nagi, o demônio foi vencido e prendido em uma caverna, embora ao custo da vida da própria deusa. No centenário desta batalha lendária, no entanto, o monstro retornou à vida, e ela deve mais uma vez caminhar entre os vivos para impedir que as trevas tomem o mundo em definitivo.

Não há praticamente nada no jogo que não faça referência a algum elemento da cultura japonesa. Seja nos protagonistas, vilões, monstros, mesmo os NPCs aleatórios que andam pelas cidades, todos remetem a personagens e eventos históricos ou lendários, ainda que interpretados livremente. O estilo gráfico, como já dito, referencia o estilo de arte tradicional do país; a música também é feita com instrumentos e estilos tradicionais; as próprias opções de armas disponíveis para Amaterasu no seu combate aos demônios fazem referência aos três artefatos imperiais do Japão. Mais adiante, próximo aos momentos decisivos, a mitologia nipônica propriamente dita dá lugar ainda à da cultura ainu, uma etnia aborígene que vive no norte do país, na ilha de Hokkaido.

O resultado é um mundo extremamente colorido e brilhante, repleto de lugares a se visitar e pessoas a se conhecer. O seu objetivo é menos o de sair batalhando monstros aleatórios do que explorá-lo em sua totalidade, buscando revitalizar a natureza morta e resolver os problemas das pessoas, usando a sua prerrogativa de deusa para incitá-las a realizar grandes feitos. Okami é um jogo muito mais de aventura de que de ação; o combate propriamente dito é bem secundário na maioria das vezes, e não é o que oferece os maiores desafios, salvo algumas batalhas com chefes.

Jogando pela segunda vez na versão HD (é claro que já o conhecia na versão original), me surpreendi com quanto ele ainda é capaz de encantar e maravilhar mesmo quando eu já sabia praticamente tudo o que ia acontecer. Os gráficos estão mais bonitos e bem acabados, mesmo que eu não tenha podido vê-los na melhor resolução (minha TV suporta apenas 720p, e o jogo foi remasterizado em 1080p); mas o que ele possui de verdadeiramente único, que é o seu mundo e a sua experiência de jogo, são independentes disso. Meu único remorso é o de não possuir um controle PlayStation Move para poder experimentar a jogabilidade com sensor de movimentos.

Enfim, Okami é um jogo único e envolvente, que eu recomendo demais para quem quiser ver o que a mídia é capaz, como arte tanto como entretenimento. Uma overdose de mitologia japonesa, um mundo fantástico repleto de cor, vida e boas doses de humor, uma ótima mensagem final deixada aos jogadores, e mesmo um certo quezinho de ficção científica; não há muito mais o que pedir de um grande jogo.

A Outra Face da Lua

outrafacedaluaExiste uma certa fixação sobre o Japão e tudo o que é japonês no mundo ocidental, da qual nem mesmo eu estou exatamente livre – vide certas coisas que me despertam o interesse praticamente apenas devido a isso, meu encantamento com a obra de autores como Haruki Murakami e Kobo Abe, ou até o meu gosto pelo sushi e a culinária oriental de maneira geral, que não imagino existindo com a mesma intensidade de outra forma. De minha parte, sei que posso justificar isso pela onipresença da cultura pop nipônica na minha geração, com a invasão que tivemos de animes e mangás pelo menos desde Cavaleiros do Zodíaco, lá nos idos dos anos 1990; fui criado entre Evangelion e Final Fantasy, e é difícil imaginar que isso não tenha deixado algumas marcas na minha personalidade. Recuando um pouco mais, o Japão, seus ninja e mecha também tiveram uma presença forte na cultura pop da década de 1980, em grande parte devido ao próprio prodígio econômico que era o país naquele período, que atraía os olhares de todo o mundo para o arquipélago. Mas quando temos o peso de um Claude Lévi-Strauss, maior nome da antropologia contemporânea e considerado mesmo por muitos o maior intelectual do século XX, confessando a sua paixão pela cultura japonesa… Bom, talvez já possamos desconfiar de que há algo de realmente especial nela.

Como descobrimos já na introdução de A Outra Face da Lua, uma pequena coletânea de textos dele sobre a terra do sol nascente, Lévi-Strauss justifica esse interesse pelas estampas japonesas que recebia de presente do seu pai na infância, como recompensa por boas notas na escola, e que desde muito cedo o encantaram e despertaram a curiosidade sobre o estilo e cenas que eram retratadas. Mesmo assim, foi só em 1977, já um pesquisador consagrado, que ele teve a oportunidade de visitar o país pela primeira vez, dando início à série de viagens e textos que são reunidos no volume. As fontes variam bastante – há discursos em congressos sobre a cultura oriental, artigos acadêmicos, mesmo a transcrição de uma entrevista para a rede de televisão NHK -, o que justifica até algumas idéias bastante repetidas entre eles, como a da inversão das técnicas japonesas em relação às do resto do mundo (por exemplo, o fato de cavaleiros japoneses montarem o cavalo pelo lado direito, enquanto os europeus montam pelo lado esquerdo), ou comentários sobre as obras de artistas tradicionais como Hokusai e Sengai; mas o que se sobressai, principalmente, é a vasta erudição e conhecimento que ele possui sobre os mitos e costumes não só locais como de todo o globo, fazendo diversas ligações e paralelos entre histórias como as da Lebre de Inaba e dos deuses Amaterasu e Susanoo com mitos americanos, europeus e insulíndios.

E então, agora com o aval do monsieur Lévi-Strauss, será possível entender o que causa esse fascínio todo das coisas japonesas? Nunca haverá uma resposta definitiva, acredito, muito menos em um livro com textos de origens tão heterogêneas e que não buscam diretamente responder a esta pergunta, mas há sim algumas pistas interessantes a se pescar. Para além do chavão da dicotomia país-ultramoderno-versus-sociedade-tradicional, o antropólogo, buscando referências em todos os seus estudos e bagagem intelectual a respeito de mitologia universal, destaca o relativo primitivismo dos mitos japoneses, e a forma como, ainda hoje, eles se fazem tão vivos na cultura local. Foi esse elemento que despertou a curiosidade ocidental já em fins do século XIX, como se preservasse algo que, para nós, há muito havia se perdido; e é em parte ele também que, mesmo em meio a revoluções tecnológicas e mudanças políticas e sociais que parecem torná-los anacrônicos, persiste na sua vitalidade e continua a fascinar e encantar os olhos estrangeiros.

A Outra Face da Lua, enfim, é uma coletânea de textos bem interessantes, tanto para os interessados na obra de Lévi-Strauss como para os curiosos em entender um pouco melhor a cultura japonesa. E a edição da Companhia das Letras também está linda, com uma sobrecapa em papel vegetal com o título sobrescrito em caracteres ideográficos, além de um encarte central com fotos do autor em suas viagens pelo país. Recomendado.


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