Posts Tagged 'mitologia'

O Ramo Dourado, de Sir James Frazer

Queen_of_the_-OromosEntre os Gallas [povo habitante do leste africano], quando uma mulher se cansa de cuidar da casa, ela começa a falar incoerências e a se comportar de maneira extravagante. Este é o sinal da descida do espírito santo Callo sobre ela. Imediatamente o seu marido se prostra ante ela e começa a adorá-la; ela deixa de usar o título humilde de esposa e passa a ser chada “Lorde;” deveres domésticos não possuem mais poder sobre ela, e o seu desejo é a lei divina.

Do capítulo sobre deuses encarnados do clássico sobre religião comparada O Ramo Dourado, de Sir James Frazer.

Naia Contra o Rei dos Dragões

Momento nostalgia: acho que esse foi o primeiro “anime” que eu assisti. Ok, é uma animação chinesa, não japonesa, mas vocês entenderam… Eu tava há anos tentando descobrir o nome dela pra procurar por aí, a única coisa que me lembrava era do enredo e algumas cenas esparsas, como a festa dos dragões embaixo do mar, que ainda era bem vívida na minha memória.

Enfim, é uma animação muito legal. Guardar o link pra mostrar pros meus filhos eventualmente.

A Escolha de Pégaso

pegaso– E então, Pégaso, fez a sua escolha? – a voz poderosa ressoava pelas paredes do aposento, como se viesse de todos os lugares e lugar nenhum ao mesmo tempo.

Fora difícil, mas, afinal, depois de refletir, de pesar as consequências, de considerar todas as alternativas, ele a havia feito. Sabia que o que falasse ali, naquele momento, poderia determinar o futuro da sua busca: permitiria que ele conquistasse o prêmio supremo, ou determinaria de vez a sua derrota. Uma última gota de hesitação percorreu o seu pensamento antes de abrir a boca. Enfim, encheu-se de determinação e falou:

– Eu escolho a Medusa para ir para o Paredão, Bial.

Ten Billion Days and One Hundred Billion Nights

TenBillionDaysTen Billion Days and One Hundred Billion Nights, de Ryu Mitsuse, é anunciado na capa como o maior romance de ficção científica japonesa de todos os tempos. Apesar de não ser citada, aparentemente há uma fonte concreta para esta afirmação – uma pesquisa de 2006 feita pela revista literária SF Magazine, principal publicação dedicada ao gênero no Japão. Se ela corresponde mesmo à verdade eu não sei, mas posso dizer com certeza que este é um dos romances mais ambiciosos no seu escopo e conteúdo que já li. Ele começa com o surgimento da vida na Terra e em cerca de trezentas páginas faz um grande salto até o quase desaparecimento do universo pela entropia no século XL, onde ocorre o embate decisivo entre a semideusa Asura, Sidarta Gautama e Platão, de um lado, e Jesus de Nazaré e a divindade budista Maitreya, do outro.

Só pela escolha dos personagens já dá pra perceber que esse não é o seu romance de ficção científico típico. Ele se enquadra, na verdade, em uma vertente semelhante à de um 2001: Uma Odisseia no Espaço, do Arthur C. Clarke (citado pelo autor como referência no posfácio, inclusive), no sentido em que explica o desenvolvimento humano a partir influências externas – no caso, seres exteriores ao nosso próprio universo, que travariam um embate entre si a respeito da destruição da humanidade ou a sua sobrevivência -, e se desenvolve como uma jornada em que os protagonistas buscam desvendar o seu mistério. Que essa jornada perpasse por uma busca pela cidade perdida de Atlântida na Grécia antiga, a transformação do príncipe indiano Sidarta em Buda e a crucificação de Cristo é apenas parte do que a torna mais única e especial.

Aqui é bom abrir um parênteses para falar sobre essa própria noção de influências externas na história humana, que muitos levam a sério demais. Só de citar coisas como “Atlântida” e “deuses astronautas” já deve ativar o sinal de alerta sobre possíveis esoterismos; mas, como na obra de Clarke, ou mesmo um Stargate, ela está lá muito mais como um meio, uma forma pela qual o verdadeiro escopo do enredo pode se revelar, transformando toda a magnitude do universo em puro sense of wonder. Há um foco maior no embate filosófico entre os personagens, muito embora algo que poderia ser muito interessante nessa premissa – filósofos e profetas de diversas correntes e religiões debatendo as idéias pelas quais ficaram conhecidos – não seja plenamente aproveitado. Em especial após o salto temporal que leva os protagonistas ao conflito decisivo, há uma certa descaracterização das suas personas históricas, apresentadas de forma muito vaga e podendo até mesmo causar alguma polêmica entre leitores mais fundamentalistas (leia-se: Jesus é um dos vilões da história).

O que há de realmente interessante é justamente a viagem feita até lá, e as especulações sobre os futuros da humanidade e a sua tendência à auto-destruição. Uma passagem especialmente marcante envolve Sidarta explorando um planeta em que há um embate entre duas classes de cidadãos. No entanto, ele encontra apenas membros da classe mais baixa pelas ruas; quando solicita que o levem até os cidadãos da classe alta para questioná-los, é levado a uma grande sala coberta de gavetas do chão ao teto, sobrevistas por um grande robô com o formato de um caranguejo. O robô, que se identifica como um deus, explica que cada uma dessas gavetas contém um microchip com todos os dados de uma pessoa, e que ela está neste momento vivendo em uma simulação virtual criada por ele da sua vida. Conseguem pegar a imagem? É quase um misto de Matrix com Charles Stross, mas com trinta anos de antecedência (o livro foi publicado no Japão em 1967, e revisado em 1973).

E, claro, há também o fato de que estamos falando de um livro em que há uma longa cena de combate entre o Sidarta Gautama ciborgue contra o Jesus de Nazaré com um canhão de microondas nas ruínas de Tóquio do século XL… E isso tem contexto e faz todo o sentido dentro da história (além de ser uma das aplicações mais lindas da Rule of Cool que eu já encontrei).

Há que se destacar também que a prosa é bastante densa, e por vezes até confusa. Há muitas explicações e detalhes técnicos, embora a ciência propriamente esteja algumas vezes datada e ultrapassada. Estes são os momentos onde o livro se encontra no seu ponto mais baixo, mas acredito que o escopo da história e o ritmo rápido do desenvolvimento, que não o deixa ficar entediado, ajude a superá-los de forma razoavelmente satisfatória. Muita coisa também é deixada para interpretação do leitor, não se revelando de forma clara e objetiva, em especial no final cataclismático e melancólico.

Enfim, não sei dizer se Ten Billion Days and One Hundred Billion Nights é um livro que qualquer um possa pegar, ler e se maravilhar. Pra ser sincero, eu mesmo acho que só vou conseguir firmar uma opinião concreta depois de ler ele mais uma vez ou duas ou dez. O que ele é com certeza é uma grande viagem de imaginação, capaz de causar um sense of wonder bastante particular no seu escopo e ambição, deixando-o perplexo e reflexivo após a leitura. É daqueles livros que causam uma impressão forte, e certamente não vai ser apagado da minha memória com muita facilidade.

A Outra Face da Lua

outrafacedaluaExiste uma certa fixação sobre o Japão e tudo o que é japonês no mundo ocidental, da qual nem mesmo eu estou exatamente livre – vide certas coisas que me despertam o interesse praticamente apenas devido a isso, meu encantamento com a obra de autores como Haruki Murakami e Kobo Abe, ou até o meu gosto pelo sushi e a culinária oriental de maneira geral, que não imagino existindo com a mesma intensidade de outra forma. De minha parte, sei que posso justificar isso pela onipresença da cultura pop nipônica na minha geração, com a invasão que tivemos de animes e mangás pelo menos desde Cavaleiros do Zodíaco, lá nos idos dos anos 1990; fui criado entre Evangelion e Final Fantasy, e é difícil imaginar que isso não tenha deixado algumas marcas na minha personalidade. Recuando um pouco mais, o Japão, seus ninja e mecha também tiveram uma presença forte na cultura pop da década de 1980, em grande parte devido ao próprio prodígio econômico que era o país naquele período, que atraía os olhares de todo o mundo para o arquipélago. Mas quando temos o peso de um Claude Lévi-Strauss, maior nome da antropologia contemporânea e considerado mesmo por muitos o maior intelectual do século XX, confessando a sua paixão pela cultura japonesa… Bom, talvez já possamos desconfiar de que há algo de realmente especial nela.

Como descobrimos já na introdução de A Outra Face da Lua, uma pequena coletânea de textos dele sobre a terra do sol nascente, Lévi-Strauss justifica esse interesse pelas estampas japonesas que recebia de presente do seu pai na infância, como recompensa por boas notas na escola, e que desde muito cedo o encantaram e despertaram a curiosidade sobre o estilo e cenas que eram retratadas. Mesmo assim, foi só em 1977, já um pesquisador consagrado, que ele teve a oportunidade de visitar o país pela primeira vez, dando início à série de viagens e textos que são reunidos no volume. As fontes variam bastante – há discursos em congressos sobre a cultura oriental, artigos acadêmicos, mesmo a transcrição de uma entrevista para a rede de televisão NHK -, o que justifica até algumas idéias bastante repetidas entre eles, como a da inversão das técnicas japonesas em relação às do resto do mundo (por exemplo, o fato de cavaleiros japoneses montarem o cavalo pelo lado direito, enquanto os europeus montam pelo lado esquerdo), ou comentários sobre as obras de artistas tradicionais como Hokusai e Sengai; mas o que se sobressai, principalmente, é a vasta erudição e conhecimento que ele possui sobre os mitos e costumes não só locais como de todo o globo, fazendo diversas ligações e paralelos entre histórias como as da Lebre de Inaba e dos deuses Amaterasu e Susanoo com mitos americanos, europeus e insulíndios.

E então, agora com o aval do monsieur Lévi-Strauss, será possível entender o que causa esse fascínio todo das coisas japonesas? Nunca haverá uma resposta definitiva, acredito, muito menos em um livro com textos de origens tão heterogêneas e que não buscam diretamente responder a esta pergunta, mas há sim algumas pistas interessantes a se pescar. Para além do chavão da dicotomia país-ultramoderno-versus-sociedade-tradicional, o antropólogo, buscando referências em todos os seus estudos e bagagem intelectual a respeito de mitologia universal, destaca o relativo primitivismo dos mitos japoneses, e a forma como, ainda hoje, eles se fazem tão vivos na cultura local. Foi esse elemento que despertou a curiosidade ocidental já em fins do século XIX, como se preservasse algo que, para nós, há muito havia se perdido; e é em parte ele também que, mesmo em meio a revoluções tecnológicas e mudanças políticas e sociais que parecem torná-los anacrônicos, persiste na sua vitalidade e continua a fascinar e encantar os olhos estrangeiros.

A Outra Face da Lua, enfim, é uma coletânea de textos bem interessantes, tanto para os interessados na obra de Lévi-Strauss como para os curiosos em entender um pouco melhor a cultura japonesa. E a edição da Companhia das Letras também está linda, com uma sobrecapa em papel vegetal com o título sobrescrito em caracteres ideográficos, além de um encarte central com fotos do autor em suas viagens pelo país. Recomendado.

Fúria de Titãs

É um pouco engraçado, para quem já esteve em uma mesa de RPG ao menos uma vez, ver como essa onda recente de filmes épicos é tão descaradamente feita por nerds que passaram a adolescência rolando dados em masmorras imaginárias. Não digo nem a respeito dos temas – até porque em séries como Underworld e O Senhor dos Anéis a influência já é por demais óbvia -, mas na própria forma como eles são escritos e realizados. Pode parar pra reparar: os personagens principais sempre seguem os mesmos arquétipos – sempre há o rogue, o warrior, o sage… -, e o roteiro segue tão à risca a jornada do herói campbelliana que poderia ter saído de algum videogame japonês. O ponto extremo possivelmente seja, acredito, Rei Arthur, aquele com o Clive Owen e a Keira Knightley, em que até os combates parecem acontecer por turnos, com cada personagem tendo direito a exatamente um golpe em um inimigo antes de a câmera passar para o próximo. Isto é, pelo menos até o lançamento desta nova versão do Fúria de Titãs.

O filme, que resgata um daqueles velhos clássicos do Cinema em Casa do SBT, realmente eleva a idéia do “cinema de RPG” a um novo nível: você consegue imaginar até os jogadores por trás de cada personagem. Há lá o cara tímido que não fala muito e só quer rolar dados; o ex-jogador de Vampiro: A Máscara que escreveu um histórico de dez páginas mas não teve tempo de revelar nem metade; a única menina do grupo; até o par de malas que fizeram personagens totalmente fora do contexto e só querem fazer piadinhas em off sobre cavalgar escorpiões gigantes, além de faltarem nas últimas sessões pra jogar videogame, forçando o mestre a tirá-los da história com alguma desculpa esfarrapada qualquer. Mesmo os vilões e personagens secundários (vulgo NPCs) você consegue imaginar sendo interpretados por um mestre empolgado – pelo menos a voz rouca do Hades me lembrou muito bem as peripécias dramáticas de alguns com quem já joguei, eu mesmo entre eles.

Com tudo isso, é natural esperar que o roteiro não vá muito além do que se teria em uma aventura pronta genérica. Não espere aprender muito sobre mitologia grega – a versão contada da história de Perseu é bem livre e sincrética, com direito a krakens e djinns, como, aliás, já era no filme anterior. A motivação dos personagens passa por todos os clichês clássicos, da vingança ao salvamento da princesa, e na verdade só servem de desculpa para reuni-los e colocá-los em marcha pelo mundo (já que todo filme épico precisa de uma cena de viagem por um deserto, montanha ou geleira com trilha sonora incidental), enfrentando monstros e reunindo itens mágicos para a batalha final. Mas os monstros são legais – de escorpiões gigantes ao kraken, passando pela medusa e um Caronte que parece saído de um filme do Guillermo del Toro -, e rendem boas cenas de ação, apesar do excesso de câmera lenta obrigatório desde 300 incomodar. Os deuses também ficaram muito bacanas visualmente, com direito a homenagem aos Cavaleiros do Zodíaco.

Outro ponto importante de destacar é que o filme está disponível para ser visto em 3D. Pessoalmente, no entanto, não vi nada de muito impressionante neste aspecto que justifique a diferença de preço – não sei se sou eu que não consigo me enganar pela ilusão (também não vi muita diferença nos poucos outros filmes que assisti nesse formato, incluindo Avatar), ou se os filmes atuais ainda não conseguem aproveitar o recurso de forma adequada. A única cena que valeu o incômodo dos óculos foi a abertura, que conta a história dos deuses e da criação dos homens a partir das constelações, e ficou bastante bonita em três dimensões.

Em todo caso, para resumir a ópera toda, consigo imaginar muita gente ficando decepcionada com esta nova versão de Fúria de Titãs, então pense bem no que você quer ver antes de ir atrás; mas também pode ser um filme bem divertido para quem já rolou um d20 uma vez na vida e souber entrar no clima. Tudo bem, ele avacalha com toda mitologia grega pra contar uma historinha tosca de aventura de RPG, mas pelo menos tem uns monstros legais…

Cybermancy

cybermancyVocês não odeiam quando tem uma idéia que acham bacana, contam pra algumas pessoas, elas acham legal também, aí de repente, meio que por nada, acaba descobrindo que outra pessoa teve a mesma idéia mais ou menos ao mesmo tempo que você e já está ganhando alguma coisa com ela? Bem, uns tempos atrás, inspirado pelo livro Neuromancer, que eu estava lendo no momento, eu apresentei a idéia do Maginauta, um novo tipo de personagem para mundos fantásticos-medievais, uma espécie de hacker da magia. E não é que, casualmente, olhando pela sessão de livros importados da Livraria Cultura (que curiosamente conseguem se manter mais baratas que as edições nacionais mesmo nos momentos de dólar alto), eu encontro um certo livro chamado Cybermancy, e, vendo a sinopse na contra-capa, descubro que ele é baseado em uma idéia incrivelmente parecida?

Claro, não é exatamente a mesma coisa que eu fiz. O universo criado por Kelly McCullough é bem mais carregado no pastiche; é um mundo contemporâneo ao nosso, mas onde os deuses e toda a mitologia clássica grega são verdadeiros e, mais do que isso, adeptos das facilidades do mundo digital. Um dos elementos principais da série, por exemplo, são os webgoblins, uma espécie de laptop mágico capaz de conjurar feitiços através de linhas de código binário e de acessar a mweb, uma rede de comunicação mística que liga os diversos mundos da existência e é administrada pelas Parcas, as deusas do destino do mundo grego. Esse pastiche caótico todo é, sem dúvida, o que há de mais divertido no livro, pelo menos para quem não for essencialmente chato e/ou purista (o que certamente não é o meu caso) – coisas como o personagem principal jogando cartas com Cerberus, ou a invasão do sistema interno do Hades, ou a óbvia piada de Eris com a Apple, ou ainda todas as pequenas tiradas que permeiam a narrativa e atualizam a situação de deuses e personagens clássicos das histórias gregas para o século XXI, são engraçadíssimas, às vezes de rir em voz alta mesmo, e valem muito bem a leitura (vide aí o próprio subtítulo que dá pra ver na imagem da capa – Hades tem um firewall dos infernos).

De resto, não há muito mais o que destacar. É um típico exemplar daquela literatura de massas norte-americana, com uma grande aventura épica de fantasia / ficção científica, incluindo aí boa parte dos elementos que você encontra em qualquer trilogia de histórias de Shadowrun ou outros cenários de RPG do gênero. Mas até é uma história legal, pelo menos para quem gosta do estilo, com personagens carismáticos, bons momentos de ação, algum mistério, toda uma rede de intriga divina que se desenvolve aos poucos, e tudo mais que couber aí no meio. Só o lado que tenta ser romântico realmente é um pouco superficial e enfadonho, parecendo às vezes uma daquelas séries de comédia/drama norte-americanas de segunda categoria. A narrativa também não é exatamente um ponto forte – o livro é todo em primeira pessoa, e o protagonista tem uma certa tendência em se deixar levar por longos monólogos de recapitulação do enredo bem no meio de algumas cenas importantes, o que fica um tanto irritante lá pela metade final.

Enfim, acho que, não fosse a inventividade do seu universo, Cybermancy não seria lá um livro muito destacável na multidão, ainda que isso não fizesse dele necessariamente uma obra ruim. Eu gostei, de qualquer forma, e me interessei pela série – já corri atrás e li o primeiro e o terceiro livros, WebMage e CodeSpell, respectivamente (Cybermancy é o segundo), e esse mês está sendo lançado o quarto volume, MythOS. Para quem gosta de mitologia grega, cyberpunk, pastiches insólitos, e não tem problemas com a língua inglesa, é uma boa recomendação.


Sob um céu de blues...

Categorias

Arquivos

@bschlatter

Estatísticas

  • 217.990 visitas