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Batidão

monaComo fosse um par que
Fazendo rimas tristes
Se desenvolvesse
Ao som do batidão

E como não,
E por que não dizer
Que o mundo requebrava mais
Nas batidas do seu coração?

Seu colo como
Se não fosse um tempo
Em que já fosse impróprio
Descer até o chão

Ela desceu e enfrentou
O mundo
Requebrando ao som
Do batidão!

Filmes de Guerra, Canções de Amor

Ontem, na sua twitcam mensal, o Humberto Gessinger, eterno líder dos Engenheiros do Hawaii, preparou uma pequena apresentação de um disco escolhido pelos fãs. Diz-se que a votação até foi meio injusta: Filmes de Guerra, Canções de Amor, disco ao vivo de 1993, ganhou por uma larga diferença frente às outras opções. É um dado curioso, quando se lembra que o disco não foi exatamente o mais bem sucedido do grupo – na verdade foi mesmo o último antes da saída de Augusto Licks, marcando o fim da fase clássica -, e, mesmo sendo um disco ao vivo, sequer teve muitos sucessos no set-list. Mesmo assim, é considerado por muitos, inclusive este que vos escreve, e melhor de toda a sua carreira. Acho que vale a pena discorrer um pouco, então, sobre a razão de tanta babação de ovo.

Pois o que é, afinal, Filmes de Guerra, Canções de Amor, além de uma expressão bonita? Basicamente, é o disco que justifica a existência dos EngHaw, quer você goste da banda, quer não; algo assim como o The Dark Side of the Moon do Pink Floyd ou o (What’s the Story?) Morning Glory do Oasis. E, como já destaquei, nem precisa ser um disco de inéditas pra isso: é um disco ao vivo, ainda que com características um pouco diferentes dos discos ao vivo tradicionais. Nada de rever grandes sucessos; a maioria das músicas são lados B, músicas de menor expressão, junto com algumas canções novas. E todas elas ganharam roupagens novas, diferentes do que a banda fazia até então: são arranjos mais intimistas, quase como essa onda de discos acústicos que infestaram o mercado nacional alguns anos atrás, mas com pelo menos dez anos de antecipação.

Também não se trata exatamente de um disco acústico, no entanto, como esses que saiam quase todo mês pouco tempo atrás. É um disco elétrico, mas sem efeitos digitais ou distorções de guitarra; nada de peso nas guitarras ou linhas de baixo frenéticas. Mas tinha, sim, muito experimentalismo e virtuosismo: Carlos Maltz parece uma criança em uma loja de brinquedos, divertindo-se com toda sorte de instrumento de percussão; e Augusto Licks rouba a cena em todas as músicas, sem exceção, com um virtuosismo limpo e elegante na guitarra. Tudo sempre apoiado, é claro, nas melodias e letras do Humberto Gessinger, especialmente daquelas músicas freqüentemente esquecidas da banda – Além dos Outdoors, Pra Entender e Crônica simplesmente valem o disco (curioso, aliás, ver uma música de 1985 falar de Palestina e da Coca-Cola invadindo a China – acho que ainda somos todos, a despeito de nossas idéias tão modernas, os mesmos homens que viviam nas cavernas, como diz o refrão da última); Alívio Imediato ficou, talvez, com a sua melhor versão; e Muros e Grades ficou perfeita com a levada meio bossa nova, com uma melodia suave e quase irônica em contraste com a letra pesada da música. De participação especial, pode-se considerar o maestro Wagner Tiso regendo a orquestra, com resultados fantásticos – vide a seqüência formada por Ando Só e O Exército de um Homem Só I e II, que ficou com jeito de épico cinematográfico.

Além dessas regravações, quatro novas músicas também foram lançadas no disco, as duas últimas gravadas em estúdio. Mapas do Acaso tem uma das letras formalmente mais bem trabalhadas da banda, com um arranjo que parece velejar, como a própria música. Quanto Vale a Vida cai um pouco no lugar comum, mas conta com uma interpretação inspirada do Licks na harmônica. Às Vezes Nunca é um devaneio sobre o tédio, viajando entre o jazz, o folk e terminando e um petardo de rock pesado. E Realidade Virtual acredito que seja uma das mais épicas composições do Gessinger, anunciando de forma quase religiosa que viver não é preciso, e nem sempre faz sentido; é preciso muito mais: fé cega, e um pé atrás.

Enfim, Filmes de Guerra, Canções de Amor é, como já disse, o tipo de disco que justifica a existência de uma banda. Uma ilha perdida no meio da carreira do grupo e do oceano da música pop: totalmente contra as marés da época em que foi lançado, e talvez ainda um tanto incompreendido. Mas não por isso menos imperdível; é o disco do EngHaw que merece ser ouvido livre de pré-conceitos, seja por fãs, por indiferentes e talvez até por alguns detratores.

!Tchau Radar!

edh_tradarEu sei que vou cair no conceito de um punhado de gente ao admitir isso (também não é como se eu me importasse tanto assim), mas eu sou fã de Engenheiros do Hawaii. Tá certo que a banda já passou por um punhado de fases diferentes, com músicas por vezes tão distintas que é difícil de acreditar serem o mesmo grupo, mas, pelo menos na formação clássica – Gessinger, Licks e Maltz -, eu realmente acho ela uma das mais interessantes e originais – eu chegaria até a dizer a mais interessante e original – bandas de rock brasileiras, pra não dizer uma das poucas com músicas boas o suficiente para sobreviverem aos 20 anos e ainda serem ouvidas sem aquele pensamento chato de “só naquela época eu ouviria algo assim mesmo”. Mas vá lá, talvez seja mesmo algo que escape à compreensão de quem ouve NXZero ou, hum, Detonautas Roque Clube, ou que leve a sério demais as opiniões musicais de gente como Penélope Nova ou quem quer que seja o VJ do momento na MTV.

Além dessa fase mais reverenciada, ainda, há uma outra que eu considero muito acima da média, e que em geral parece ser negligenciada até por alguns fãs: a que se seguiu ao desmanche do grupo com a saída do baterista original Carlos Maltz, formada pelo Humberto Gessinger no baixo e vocais, Luciano Granja nas guitarras, Adal Fonseca na bateria, e Lúcio Dorfman nos teclados. O primeiro disco dessa formação, que saiu sob o nome de Gessinger Trio, na época ainda sem o tecladista, é bem bacana, um rock setentista direto e sem firulas, calcado nos riffs de guitarra e linhas de baixo; e Minuano, o trabalho seguinte, tem uma levada mais pop, com arranjos mais radiofônicos, mas ainda com alguns momentos interessantes. A pérola desse período, no entanto, acredito que seja o terceiro disco, !Tchau Radar!.

Em certo sentido, pode-se dizer que ele seja um disco conceitual, ou algo próximo disso, uma vez que quase todas as músicas possuem temas comuns, como a viagem e a separação. Dentro destes temas, no entanto, são músicas muito bem compostas e arranjadas, longe do experimentalismo de estúdio que marcou o power trio GLM, mas tendendo muitas vezes à MPB (o que quer que ela seja) e ao erudito. É um disco de sonoridade ímpar dentro da carreira do Engenheiros; talvez o mais próximo dele seja o Filmes de Guerra, Canções de Amor, o sublime disco semi-acústico ao vivo de 1993, muito antes da modinha da MTV e com os melhores arranjos que muitas músicas da banda jamais tiveram.

Ele contou com apenas dois hits, Eu Que Não Amo Você e Negro Amor, que são provavelmente os principais sucessos dessa formação. A primeira é uma balada de rock com guitarras distorcidas, pegada pesada e refrão grudento, enquanto a segunda é um cover de It’s All Over Baby Blue, do Bob Dylan, em versão do Caetano Veloso; possuem seus méritos, claro, mas as verdadeiras pérolas do disco estão escondidas entre as músicas que nunca chegaram ao grande público. Concreto e Asfalto, por exemplo, tem uma levada muito gostosa de ouvir, com um ritmo leve sem chegar a ser uma balada. Seguir Viagem é outra pérola sobre a viagem e a solidão, com um arranjo de violões feito sob medida pra se tocar sozinho, pensando na vida e na estrada correndo até a praia; e 3×4 é talvez a grande injustiçada, com uma letra mais intimista e cheia de imagens poéticas, além de um belo arranjo de gaita e violão que foi bastante prejudicado na versão do Acústico MTV – não consigo deixar de pensar que, fosse cantada por um dos medalhões da MPB, como uma Marisa Monte ou Maria Rita da vida, seria sucesso instantâneo, e talvez até tema de novela (bom, não que isso seja um mérito, claro). E encerrando o disco, ainda, temos a inesperada Cruzada, versão de uma música de Tavinho Moura e Márcio Borges, do Clube da Esquina, levada toda por um arranjo de violinos, parecendo quase uma ópera (muito embora as versões de outros artistas em geral ainda sejam bem superiores, na minha opinião).

Enfim, !Tchau Radar! é um trabalho bastante subestimado de uma banda que geralmente também é bem subestimada. Passando por todo preconceito que normalmente se tem contra o grupo e, mesmo entre os fãs dele, contra o disco, é possível encontrar aqui muitas ótimas canções, com algumas das composições mais bonitas que o Humberto Gessinger já escreveu.

Auto-Retrato

belchior1ai2A MPB é um bicho esquisito, a começar pela própria definição do gênero, que é um tanto dúbia e questionável. Nunca me esqueço de algumas entrevistas do Lenine, em que ele dizia que MPB, pra ele, era Música Popular Babilônica, bem como outras do Zezé di Camargo dizendo que a MPB de verdade era o que ele e outros artistas sertanejos-pagodeiros-românticos faziam, que é a música realmente popular do Brasil, aquela que se ouve em rádios de empregadas domésticas e botecos de pedreiros. Há quem diga também que a MPB são os ritmos brasileiros, incluindo aí o próprio sertanejo e o pagode; tudo bem, mas aí vai tentar dizer pra alguém que Gilberto Gil tocando reggae não é MPB.

No fundo, MPB é só mais um daqueles rótulos aleatórios que se coloca em artistas e que pouco dizem a respeito de música propriamente dita; algo assim como rock. Em geral, principalmente em tempos mais recentes, o termo é associado principalmente a um certo tipo de elite pretensamente intelectual, querendo abordar ritmos populares de forma erudita ou com excesso de pompa. Gente chata, pra resumir, como a maioria da música que é associada ao rótulo. Pois é, sejamos honestos uma vez na vida: apesar de Geni e o Zeppelin ser legal, Chico Buarque é muito chato, e o mesmo vale para Caetano Veloso e um punhado de outros medalhões e pseudo-medalhões (mas Gilberto Gil é legal).

O que não quer dizer que não haja música interessante na assim chamada MPB, claro. Eu gosto muito de Oswaldo Montenegro, por exemplo, apesar de ele estar justamente em um dos extremos desse excesso de pompa. Em geral, no entanto, são os artistas mais periféricos do pseudo-gênero que possuem os trabalhos mais interessantes; gente tipo Alceu Valença, por exemplo, ou Zé Ramalho, que é realmente muito bom. Principalmente, no entanto, estou me referindo a Belchior.

Cortando então esse longo e pretenso monólogo pseudo-intelectual da minha parte, Auto-Retrato é, justamente, uma coletênea de músicas do cantor cearense, que é o artista que pessoalmente mais me cativa nessa assim chamada MPB. Dividido em dois discos – Perfil do Cidadão Comum e Pequeno Mapa do Tempo -, ele reúne muito do melhor que o cantor já fez. Há desde o romantismo pop de Medo de Avião à anti-filosofia de Alucinação, passando pela introspecção de Pequeno Mapa do Tempo, pelo surrealismo pós-moderno de Balada de Madame Frigidaire, e, claro, clássicos como Como Nossos Pais, Mucuripe e Apenas um Rapaz Latino-Americano.

Certamente, o grande destaque de todas as músicas são as letras, misturando referências de cultura pop com uma visão de mundo bastante pessoal, sempre com grande habilidade e poesia, repleto de introspecção, filosofia e imagens fortes. Talvez haja quem reclame da voz fora do tom e muitas vezes fora do tempo também, mas são apenas detalhes técnicos; na prática, isso até colabora para destacar a beleza das letras, tornando sua atuação mais potente e expressiva, especialmente nas apresentações ao vivo. A linhagem a qual Belchior pertence é muito mais a de gente como os Refugee All-Stars e certos artistas de blues e rock proletário do que do samba eletrônico erudito da nova MPB; é muito mais a dos bardos e trovadores do que a das apresentações pomposas em teatros aristocráticos.

Enfim, é um artista que me agrada aos ouvidos, e que eu certamente recomendo.


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