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A Ilha

ilhadA primeira impressão foi a de um sonho: ele, uma ilha deserta, e tudo o que já havia incluído em listagens de “10 coisas que você levaria para uma ilha deserta”. Esfregou os olhos, sacodiu a cabeça, se beliscou até quase arrancar a pele – tudo apenas confirmava: era real; fora alvo de alguma mágica maravilhosa, da graça dos deuses, ou de qualquer outra coisa que o houvesse mandado para o paraíso.

Logo, no entanto, percebeu que não fora uma sorte assim tão grande. Primeiro foram os filmes; todos os DVDs que ele gostaria de assistir até o fim dos dias: Os Caçadores da Arca Perdida, De Volta Para o Futuro, M*A*S*H*, Curtindo A Vida Adoidado… Mas onde estava a TV para exibi-los? Ou, mesmo que estivesse lá: como gerar energia elétrica para mantê-la ligada? O mesmo acontecia com os discos – estavam lá os de Derek and Dominos, Neil Young, Belchior, Engenheiros do Hawaii, Fito Paez… Mas como faria para ouvi-los?

Os livros, ao menos, eram mais simples de se apreciar – bastava levá-los até um rochedo com uma boa sombra, se acomodar, e se deixar levar pela ironia de Calvino, os labirintos de Borges, as sátiras de Vonnegut. Quem dera fosse tão simples! A fome não o deixava se concentrar nas palavras – e lá ia para o meio do mar pescar com as mãos nuas, ou, após alguns insucessos, um par de pedras. Um dia inteiro e, com sorte, dois ou três peixes de bom tamanho. No que sobrava de sol, não possuía vigor para muito mais do que deitar na areia e descansar; e à noite, quando talvez estivesse disposto, não havia luz – a menos, é claro, que fizesse uma fogueira, mas com que combustível? Não havia árvores na ilha; talvez o musgo nas rochas próximas à água servisse, mas era um inferno raspá-lo, e ainda por cima secá-lo. Por quilômetros e quilômetros, o único combustível que havia para usar eram… As páginas dos livros. E, por mais que gostasse do humor de Veríssimo, não era tanto quanto gostava de uma noite bem aquecida e livre de mosquitos.

E ainda haviam as mulheres – ah, as mulheres! Que sonho, se encontrar sozinho em uma ilha com Jessica Biel, Scarlett Johansson, Eva Mendes, Adriana Lima… Quanta ingenuidade. Pareciam estar todas de TPM, ou talvez fosse apenas o fato de terem sido transportadas sem consulta para uma ilha deserta de localização desconhecida. E, claro, não havia por que acreditar que seria capaz de despertar nelas qualquer interesse ou desejo – bom, ao menos nos primeiros dias, antes da falta de opção se tornar evidente e todas subitamente se voltarem para ele. E então, paraíso? Não! Quanta pretensão, se achar capaz de satisfazer sozinho a dez mulheres! E não apenas nos assuntos íntimos – ou alguém acredita que as belas damas de hollywood dividiriam com ele as tarefas de subsistência? Se já era difícil pescar o bastante para uma pessoa, imagine onze. Sem contar, ainda, em sobreviver às brigas e disputas cada dia mais intensas pela sua atenção.

Foram dias tortuosos, até concluir que não havia como continuar – precisava sair dali, ou então suicidar-se. Decidiu pela primeira opção: durante vários dias, juntou os discos e DVDs com trapos das roupas, formando uma pequena embarcação que manteve escondida junto a um dos rochedos na costa da ilha. E uma noite, enfim, lançou-se ao mar durante a maré alta, aproveitando enquanto as mulheres estavam adormecidas. Mandaria alguém buscá-las quando atingisse algum porto seguro, é claro, mas não imediatamente; antes havia algo mais importante a fazer, algo que, percebia agora, deveria ter feito há muito tempo: uma lista das dez comodidades do mundo moderno que levaria para uma ilha deserta.

X-Men – Garotas em Fuga

X-Men – Garotas em Fuga é uma edição especial do grupo mutante, mas estrelando apenas as suas garotas – no caso, Vampira, Lince Negra, Garota Marvel, Psylocke, Tempestade e a Rainha Branca; o título original do projeto, inclusive, era X-Women, para destacar este fato. A história escrita por Chris Claremont conta qualquer coisa sobre um resgate na ilha de Madripoor, mas, francamente, quem é que tá prestando atenção? O que realmente importa é o artista convidado para ilustrá-la, o mestre dos quadrinhos eróticos Milo Manara.

Da primeira à última página, é a arte de Manara a grande estrela da edição, enquanto o roteiro de filme de Sessão da Tarde está lá apenas como ornamento. O destaque, como seria de imaginar, são as mulheres: diferente daquela volúpia inverossímil tradicional dos comics, com suas cinturas impossivelmente finas e bustos impossivelmente largos, as mulheres de Manara são curvilíneas e sensuais, mas sem deixarem de parecer reais; como diz Nick Lowe no posfácio, elas não são como a sua vizinha, mas poderiam ser (se você tivesse a sorte de morar ao lado da garota mais gostosa da cidade). Algumas delas inclusive lembram mulheres reais – olhem para a Vampira em algumas cenas e digam se ela não está a cara da Liv Tyler. É difícil não se deixar levar pelo voyeurismo e apenas admirar alguns quadrinhos, sem prestar muita atenção no que está acontecendo.

Claro, ainda é uma história de super-heróis Marvel antes de uma do Manara, o que quer dizer que a censura não é de 18 anos. Há alguns ângulos estratégicos aqui e ali, mas o máximo de nudez de fato que você vai encontrar são um biquini fio dental e uma coadjuvante vestindo apenas um casaco aberto da cintura para cima (que logicamente oculta os detalhes mais interessantes da sua anatomia). O resultado final lembra um pouco o reboot cinematográfico d’As Panteras, aquele com a Drew Barrymore, a Lucy Liu e a Cameron Diaz, inclusive por ter mais explosões do que conteúdo. Também falta um pouco de dinamismo na arte em algumas cenas de ação, embora não seja nada que atrapalhe demais.

Enfim, X-Men – Garotas em Fuga não é lá a melhor coisa que já foi feita com o grupo, e alguém esperando uma história especialmente inovadora ou cativante provavelmente vai se decepcionar bastante, mas não deixa de ser uma releitura interessante das personagens. E, é claro, as mulheres do Manara sempre valem a pena…


Sob um céu de blues...

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