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Deathless

deathlessA Morte de Koschei o Imortal, ou Marya Morevna, é um conto de fadas tradicional da cultura eslava, que conta a história do heroi russo Ivan Tsarevitch, o seu encontro com a princesa guerreira Marya Morevna e o seu confronto por ela com Koschei, uma espécie de demônio recorrente em diversas histórias dessa tradição. Deathless, de Catherynne M. Valente, é um romance que reconta essa história sob o ponto de vista de Marya, tendo como cenário não a Rússia idílica medieval, mas sim a Leningrado / São Petesburgo pós-Revolução de 1917.

É claro que esse resumo não faz realmente jus ao romance. Valente de fato reinventa a história, fazendo de Marya a protagonista e Ivan o coadjuvante, e mesmo Koschei, ainda que mantenha a sua faceta demoníaca e assustadora, é muito diferente de um vilão ou antagonista, mas forma com os dois um triângulo amoroso incrivelmente intenso e diversas vezes surpreendente. O tom de conto de fadas, no entanto, é mantido, com uma narrativa belíssima repleta de simbolismos e lirismo, e a presença de criaturas e personagens tradicionais do folclore eslavo, de demônios caseiros e espíritos da natureza até as próprias Baba Yaga e Likho.

O cenário na Rússia pós-revolucionária é explorado de forma bastante criativa. Há um resumo bastante inteligente da história anterior do país nos casamentos sobrenaturais das três irmãs de Marya, e então você logo começa a encontrar situações como um soviete formado por fadas caseiras ou um dragão que dorme sobre os “ossos” (qual seja, documentos de execução) de presos políticos. A autora joga bastante com as mudanças trazidas pela revolução, a paranoia da delação de espiões e informantes, e a forma como ela afeta o mundo dos seres mitológicos. Uma parte importante do livro ocorre ainda durante o cerco de Leningrado na Segunda Guerra Mundial, que reflete a guerra que ocorre no mundo sobrenatural, e serve de pano de fundo para a divisão e conflito internos da personagem sobre os seus dois amantes.

Acima de tudo, no entanto, há o personagem Koschei conforme descrito por Valente, que tem talvez uma das caracterizações mais fascinantes da literatura fantástica recente, e o relacionamento que ele desenvolve com Marya, remetendo aos romances góticos e com um certo quê de Labirinto no meio do caminho. Boa parte dos temas do romance dizem respeito às relações de poder no casamento entre eles, visto mais de uma vez sob a metáfora da guerra, com combates e manobras táticas. Koschei é um marido abusivo e violento, mas também amargurado e dependente emocionalmente da esposa, e Marya, antes de apenas se submeter, possui personalidade e força próprias, e aos poucos vai conseguindo dele a mesma submissão que ele exige dela. O breve momento de equilíbrio na sua relação é talvez a descrição mais verdadeira da felicidade que há no romance, e o seu momento de catarse antes da tragédia final da história, com o encerramento um pouco abrupto que o deixa perplexo e olhando para o vazio por vários minutos após a última linha.

Como complemento, a narrativa de Valente se apoia ainda em uma prosa bastante viva e envolvente, repleta de poesia e passagens que você tem vontade de sair citando em redes sociais. A sua descrição de paisagens e personagens fantásticos evocam uma sensação de maravilhamento que por vezes lembra uma animação do Studio Ghibli; ela é muito bem sucedida naquilo que o Neil Gaiman tenta fazer com seus romances mais fantásticos, mas não consegue tantas vezes quanto os fãs querem acreditar.

No fim, Deathless é um romance muito intenso e envolvente, talvez um dos mais fortes livros de fantasia que li nos últimos tempos. Recomendo muito.

The Grass-Cutting Sword

cover-myths-of-origin1Já falei da relação da autora Catherynne M. Valente com o Japão em outro momento, e não vou me repetir. Para além dela, no entanto, Valente também é conhecida por cunhar o nome do subgênero literário mythpunk – você sabe, essa mania de adicionar o sufixo punk após qualquer palavra e chamar de subgênero (aguardem o meu revolucionário universo punkpunk pra qualquer dia desses). Embora originalmente tenha sido um termo meio irônico, ela própria parece tê-lo abraçado eventualmente, e muitos dos seus trabalhos de fato usam os preceitos que ela indicou, misturando mitos e fábulas tradicionais de diversas culturas com reinvenções temáticas e estruturas narrativas pós-modernas.

A novela The Grass-Cutting Sword está exatamente na intersecção destes dois elementos. Trata-se de uma reinvenção dos mitos formadores do Japão antigo, contando a história do deus Susano-O-no-Mikoto, a sua expulsão do paraíso pela sua irmã Amaterasu-Oho-Kami, e o seu embate com a serpente de oito cabeças Yamata-no-Orochi, do corpo da qual tirou a espada cortadora de gama do título (Kusanagi-no-Tsurugi, em japonês), até hoje uma das relíquias imperiais da família real japonesa. O mito original é contado nos livros Kojiki e Nihongi, os mais antigos da literatura japonesa; Valente, no entanto, os recriou com técnicas literárias modernas, preenchendo algumas lacunas mas sendo de maneira geral bastante fiel aos originais.

A história de fato começa com a chegada de Susano-O à terra, mas não demora em fazer um recuo no tempo para recontar o próprio mito de criação do mundo japonês, com o nascimento dos deuses Izanagi- e Izanami-no-Mikoto. Juntos eles deram à luz a todas as ilhas japonesas, além de um sem número de deuses e criaturas míticas, sendo os últimos a própria Amaterasu, deusa do sol, Susano-O, deus das tempestades, e o menos importante Tsukuyomi-no-Mikoto, deus da lua. Os mitos japoneses mais conhecidos – a morte de Izanami e a viagem de Izanagi ao mundo dos mortos para buscá-la; o encontro entre Amaterasu e Susano-O nas planícies do paraíso; a eventual desavença entre eles, levando à expulsão do segundo e a reclusão da primeira em uma caverna, trazendo a escuridão à Terra – são todos contados em detalhes na prosa poética e envolvente de Valente.

Ao mesmo tempo, no entanto, e aqui entra a principal criação literária da autora, temos em capítulos intercalados a história da própria Yamata-no-Orochi, a serpente de oito cabeças cuja origem nunca conhecemos realmente nos mitos, e as sete filhas que ela devora antes que Susano-O entre em cena para salvar a oitava. Valente descreve o livro como escrito em um “surto de raiva feminista,” ao entender o papel relegado à mulher nos mitos orientais; e isso é bastante visível nestes capítulos: cada uma das sete filhas possui muita personalidade e força, e justamente por isso são segregadas e culpadas, e por fim sempre terminam por escolher a serpente ante à própria família. Como em uma versão peculiar de A Bela e A Fera, é apenas o monstro que parece reconhecê-las, entendê-las e respeitar a sua individualidade, frente a uma família que esperam pouco mais do que moças servis que cuidem do seu marido nem-bonito-nem-feio e façam sopas de olhos de peixe saborosas.

Toda a história é contada com habilidade pela autora, poetisa de formação e que faz uso de imagens bastante vívidas na sua prosa, explorando com muita criatividade os absurdos da própria lógica mitológica – cenas como o deus Izanagi raspando a sujeira dos pés e criando uma dúzia de novas divindades no processo meio que falam por si só, acredito. Quando entram em cena as donzelas devoradas, no entanto, e os capítulos tornam-se na verdade grandes diálogos entre elas e a serpente, a narrativa fica também muito mais intensa, envolvendo e comovendo o leitor.

A edição mais recente da novela está reunida com outros dos primeiros trabalhos de Valente em uma coletânea chamada Myths of Origin. Acredito, no entanto, que seja o melhor trabalho dos quatro que fazem parte dela; os demais são ainda muito crus, tendo a influência muito forte do seu lado poetisa, com enredos e tramas por demais enigmáticos e vazios de sentido. Mas aqui já temos um bom exemplo do que ela seria capaz posteriormente como autora, e certamente é uma leitura interessante para os que gostam de mitologia oriental e histórias fantásticas em geral.


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