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Ninja Attack!

ninjaattackNinja! Acho que não preciso dizer mais nada. Essa é uma daquelas palavras que adquiriram com um tempo todo um significado próprio, e resumem em cinco letras o máximo de incredibilidade possível nas línguas humanas. Ou pelo menos é assim desde a década de 1980, quando eles invadiram a cultura pop ocidental entre os quadrinhos do Frank Miller e os filmes do Michael Dudikoff.

Ninja Attack! – True Tales of Assassins, Samurai, and Outlaws é um pouco uma homenagem a essa figura icônica, e também um belo estudo cultural sobre a sua história e significado. Escrito pelo casal Hiroko Yoda e Matt Alt, com ilustrações muito legais de Yutaka Kondo, ele é na verdade o volume do meio de uma série maior, em que outros elementos da cultura japonesa são estudados e apresentados ao público leigo – ele se completa, até o momento pelo menos, com Yokai Attack!, o primeiro volume, que fala de monstros e criaturas folclóricas orientais; e Yurei Attack!, que fala sobre histórias de fantasmas tradicionais e modernas (pensem em O Chamado, O Grito e toda a onda de filmes de horror orientais de um tempo atrás).

Todos os três seguem um modelo parecido: um grande catálogo de personagens e criaturas dentro do seu tema, contando a sua história, analisando a sua possível veracidade, e mesmo adicionando algumas notas eventuais sobre a sua importância cultural nos dias de hoje, incluindo ilustrações de época e fotos do Japão moderno que a explicitem. O tema deste, especificamente, são os ninja mais famosos da história japonesa, mas é claro que há algo mais além deles – há um espaço dedicado aos seus mestres, os senhores da guerra orientais que os empregavam nas suas batalhas; e, sob o pretexto de serem “rivais dos ninja,” até mesmo alguns samurai e outros guerreiros famosos, como Miyamoto Musashi e Yagyu Jubei.

A grande maioria das figuras relatadas são personagens históricas, o que adiciona uma camada a mais ao livro como uma versão bastante única da história japonesa. Apenas na sessão final, que se dedica à transformação dos ninja em lenda e figura literária, somos apresentados a algumas figuras ficcionais marcantes – inclusive o famoso Jiraiya, para quem sempre teve curiosidade de saber a sua origem (aliás, o livro todo nos faz impressionar ainda mais com a qualidade de uma série como Naruto, por exemplo, por nos mostrar a quantidade de referências existentes que passam despercebidas por alguém que não conhece a história do país). E intercalando cada conjunto de personagens, há ainda o “Guia do Ninja Ilustrado,” algumas páginas que explicam os equipamentos e técnicas próprios dos ninja tradicionais, e inclui até mesmo, na sua parte final, uma sugestão de roteiro turístico temático por Tóquio.

Ninja Attack! é, enfim, um livro muito legal e gostoso de ler e folhear, que, além de divertir, realmente nos ensina algo novo sobre os ninja e o próprio Japão praticamente a cada página. Recomendo para quem for interessado em cultura oriental, ou apenas quiser saber um pouco mais sobre estas figuras tão icônicas da cultura pop contemporânea.

Cata-Corno

Gatas orientais,
Justin Bieber de calcinha.
O Naruto se transforma
Na Sandy peladinha.

Naruto e Eu

narugamabyak46ny9Dá até um pouco de vergonha de admitir, mas, bem, eu gosto de Naruto.  Pois é, eu sou um narutard. Resisti bastante à entrar na onda, é bem verdade, mas, logo que comecei a assistir e acompanhar, de alguma forma acabei me viciando, literalmente – deve ter alguma mensagem subliminar nos episódios de TV ou capítulos do mangá, só isso poderia explicar a forma tão súbita como a série me fisgou.

Havia um bom tempo já que, por pura falta de paciência, eu tinha voluntariamente me afastado de qualquer comprometimento de longo prazo com séries de TV, quadrinhos ou o que for; em outras palavras, eu simplesmente não tinha mais saco pra reservar horários semanais, comprar revistas seriadas todo mês, e etc. No máximo, comprava edições especiais, de séries curtas, com hora certa para acabar; e TV, basicamente, se resume  ainda hoje para mim em futebol e filmes esporádicos. Mas de repente, quase sem aviso, alguns anos atrás me vi preso a duas séries relativamente novas – Naruto e Heroes. E, mesmo entre elas, Naruto ainda me pegou de uma forma um tanto diferente: Heroes eu assisti toda a primeira e segunda temporadas a conta-gotas, como exibido na TV, sem recorrer aos subbers de internet, e perdi totalmente o pique durante o terceiro ano, deixando de acompanhá-la; Naruto, por outro lado, talvez até pelo seu tamanho astronômicamente maior, eu recorri quase imediatamente aos scans e afins, e ainda me vejo esperando ansioso a cada semana por um novo capítulo.

E o que diabos tem em Naruto que me cativou tão profundamente assim? Trata-se, à primeira vista, de uma série de anime/mangá shonen típica, daquelas de combates intermináveis, treinamentos esdrúxulos e dramalhões exagerados, feita para vender bonecos e videogames; aquelas séries criadas sob medida para garotos japoneses de 14 anos, e que de uns quinze anos pra cá, se não mais, invadiram também o ocidente (ou pelo menos o Brasil), fazendo a alegria daquela turma de marmanjões que se recusam a crescer. Eu mesmo faço parte dessa turma em alguma medida, é bem verdade, e estaria sendo hipócrita se não admitisse; mas mesmo outras séries do mesmo gênero que marcaram minha adolescência, como Cavaleiros do Zodíaco ou Dragon Ball Z, hoje me soam um tanto enfadonhas, e não consigo assistir à maioria dos episódios sem uma ponta de constrangimento. E outras séries novas, ainda, de One Piece a Bleach, que fazem a alegria desse público, também não me atingiram da mesma forma que Naruto fez. O que o garoto ninja tem de tão especial, afinal? Pensei muito sobre isso já, e o que escrevo aqui em parte é resultado dessas reflexões, uma espécie de análise de “por que raios de eu acho que gosto de Naruto”; não exatamente como uma justificativa, mas apenas alguns devaneios aleatórios sobre a série que me deu na telha escrever, por conta do meu vício já bem conhecido nessa atividade.

naruto3Bem, meu primeiro chute tem a ver com o fato de que eu gosto de ninjas. Gosto mesmo; gostei até do filme da Elektra, vejam só! De samurais e nipofilias em geral eu já enjoei, mas, droga, ninjas são sempre ninjas, foda-se o resto do Japão; American Ninja manda! E mesmo assim, Naruto ainda tem uma abordagem um pouco diferente do conceito de “ninja”, que é outro ponto que definitivamente me pegou. Não é tanto como um assassino misterioso, aquela coisa do demônio das sombras ou afins – tem sim um pouco disso na caracterização dos ninjas na série, claro, e alguns personagens que encarnam esse estereótipo mais à risca; mas eles em geral se parecem mais com uma espécie de tropa de elite, um Comandos em Ação nipônico, tanto no aspecto visual, com aqueles uniformes padronizados cheio de bolsos e acessórios, como na própria função, servindo como tropas militares das vilas ocultas.

Todo esse universo das vilas ocultas, aliás, é outro ponto muito legal da série. Naruto é uma aula de criação de cenários fantásticos através de referências contemporâneas, e é claro que, para um jogador de RPGs de fantasia que gosta brincar de construir mundos, esse é outro aspecto que facilmente se destaca. À primeira vista, pela identidade visual geral do cenário e o fato de ter ninjas como elemento principal, parece que estamos falando de uma representação do Japão feudal; mas basta um olhar um pouco mais profundo para perceber que se trata de uma construção um tanto mais complexa que isso.

Pra começar, há muitos elementos contemporâneos, da vestimenta de alguns personagens principais e secundários até algumas das tecnologias que aparecem sendo usadas. O mundo Naruto, antes do que um mundo feudal, é um grande pastiche do imaginário japonês em geral: lojas de ramen dividindo espaço com restaurantes tradicionais; ninjas usando kunais, shurikens e rádios de comunicação; casas de jogos típicas e literatura de massas – tudo reunido em um universo kitsch incrivelmente delicioso de assistir.

Além disso, há todo o elemento fantástico como parte intrínseca do funcionamento do mundo. Nada daquela fantasia oculta à lá Dragon Ball, em que existe todo um universo de lutadores super-poderosos que parecem não fazer diferença nenhuma no mundo, a ponto de alguém apenas acima da média como um Mr. Satã poder aparecer e dizer-se o mais forte sem ser questionado; o aspecto fantástico, aqui, faz parte do cotidiano da vida nas vilas: você pode contratar os serviços de ninjas com habilidades especiais para resolver problemas tão simples quanto achar um gato perdido, e em barracas de jogos nas grandes feiras populares há placas de proibido o uso de jutsus. O mundo de Naruto é um legítimo mundo de alta fantasia contemporânea, que pouco deve a qualquer Arton ou Toril da vida, e esse é, inclusive, um aspecto muito bem explorado em algumas das malfadadas sagas de fillers que foram feitas entre o fim primeira fase da série e o início da fase Shipuuden.

Claro, há alguns problemas na forma como a série constrói esse cenário, e acho justo de minha parte destacar isso também. A construção temática do mundo pode ser excelente, mas uma olhada mais cuidadosa em alguns detalhes específicos permite notar alguns elementos um tanto frágeis, como a sua constituição política e as formas de relações entre as vilas ocultas. Mas, como são elementos raramente colocados em primeiro plano na história, acaba sendo fácil deixá-los passar para aproveitar o resto, que funciona tão bem, de forma que é preciso ser excessivamente chato para realmente se incomodar com eles.

naruto1No roteiro e concepção de personagens, Naruto também possui alguns elementos à parte que o destacam da maioria das séries do mesmo gênero, a começar pela abordagem que faz do aspecto de aperfeiçoamento pessoal, que parece ser o tema fundamental dessas séries japonesas baseadas em lutas e conflitos entre personagens. Veja lá Dragon Ball Z ou Cavaleiros do Zodíaco, e compare o desenrolar dos seus combates com os de Naruto: a ênfase nos primeiros é muito maior em ser o mais forte, o mais poderoso; a vitória geralmente vem pelo uso de uma técnica ultra-poderosa desconhecida até então, ou uma transformação súbita que inesperadamente conceda mais poder ao personagem – aquilo que críticos literários e escritores em geral geralmente chamam de “saque”, na sua forma mais descarada possível.

Os combates de Naruto vão por um lado um pouco diferente. Aqui, tática e estratégia valem mais que poder puro e simples: o importante não é ter a técnica mais forte, mas usar bem as técnicas que você tem, a ponto de haver até um personagem cuja principal vantagem sobre os demais está, justamente, na sua capacidade de observação dos adversários e criação de uma estratégia eficiente. Há dezenas de armadilhas, técnicas de ilusão, blefes táticos; isso se reflete muito bem nos games da série, aliás, com uma presença maciça de itens e elementos do cenário que influem sobre as táticas de jogo. Há ainda o uso do recurso do saque com mais freqüência do que deveria, mas mesmo ele acaba assumindo uma forma um pouco mais sutil em boa parte das vezes.

Essa diferença de abordagem se reflete também nos tipos de treinamentos pela qual os personagens passam em momentos diversos da série. Em Dragon Ball, por exemplo, que é a minha comparação principal já que se trata do paradigma quintessencial do gênero, vê-se muito uma ênfase quantitativa nesses treinamentos; o objetivo é sempre torná-lo mais forte, mais próximo do seu limite, e isso dita o tipo de evolução pela qual eles passam: Goku começa treinando com pesos, depois vai para um planetóide com gravidade dez vezes superior à da terra, depois passa para uma gravidade cem vezes superior, etc. Os treinamentos de Naruto, no entanto, valorizam muito mais o aspecto qualitativo: ele começa subindo em árvores, depois caminha sobre a água, depois estoura bexigas d’água, depois bolas de boarracha, e assim por diante – a idéia fundamental não é fazer mais, mas fazer melhor; e não fazer o melhor que você conseguir fazer, mas o melhor com o que você conseguir fazer. Há a exceção do treinamento do Rock Lee, claro, mas ele próprio aparece mais como uma sátira desse mesmo método quantitativo; lembre-se do Kakashi comentando o fato do uso de pesos ser um método antiquado. E, enquanto o Goku tem que apelar constantemente para kaiokens duplos, triplos, aumentados dez vezes, ou super sayajins 2, 3, 4, 5, 1000, o Naruto se sai muito bem por mais de dez temporadas com duas técnicas básicas e o poder da raposa de nove-caudas apenas nos casos mais extremos.

E, por fim, há o aspecto que eu pessoalmente acredito ser o principal, que é o subtexto do roteiro e o desenvolvimento dramático dos personagens. Pois Naruto é mais do que simplesmente uma série sobre lutadores super-poderosos se degladiando em combates épicos pelo destino do mundo; é também o drama de um jovem garoto discriminado e segregado, buscando ser aceito por aqueles à sua volta. É, por assim dizer, uma versão atualizada do clássico conto infantil do Patinho Feio, e é isso que vai definir muito da construção e concepção dos seus personagens e enredos principais, sobretudo nas primeiras temporadas.

Vejamos como é caracterizado o próprio Naruto, por exemplo. Tem muito pouco em comum com o ingênuo até doer Goku, ou com o chato bom-samaritano Seiya; a princípio, pela sua espontaneidade, cara-de-pau e estupidez, parece-se muito mais com um Yusuke Urameshi. Mas até ele é forte e respeitado entre os seus, um protagonista natural para uma série de ação e aventura; Naruto, por outro lado, não inspira qualquer respeito naqueles próximos a ele, e é frequentemente humilhado e escrachado por todos à sua volta – em um determinado episódio, um personagem chega mesmo a comentar que ele jamais funcionaria como protagonista de uma série assim. É, enfim, o arquetípico patinho feio, fácil de reconhecer e quase tão fácil quanto de se reconhecer nele – eu, pelo menos, me identificaria bastante, em certos momentos da minha vida, com alguns dos dramas pela qual ele passa, e o fato de eu entender isso talvez explique um pouco também o quanto a série foi capaz de me cativar.

E é justamente por ser tão bem (e tão cruelmente) construído enquanto patinho feio que, quando Naruto afinal se revela como aquele belo cisne que ninguém esperava que fosse, o efeito de catarse seja tão eficiente, e a sensação de satisfação que se sente seja tão grande. Eu, pelo menos, sorri de orelha a orelha quando vi o pau federal que ele dá no Neji, no primeiro combate do torneio de ninjas do exame chuunin; é o pico apoteótico do seu desenvolvimento enquanto personagem dramático, o ponto exato em que todos aqueles que o segregavam e humilhavam gritam o seu nome, e reconhecem nele alguém especial.

Naruto_Vs_SasukeE segue-se, então, aquele que é, pra mim, o momento máximo da série, quando Naruto, em frente aos seus colegas de equipe (e mais especificamente ao Sasuke) totalmente atônitos, enfrenta e derrota o demônio da areia, Gaara, e, devido à semelhança entre suas histórias particulares, tem a oportunidade de refletir sobre aquilo que acabara de conquistar. Se a série terminasse ali, eu, ao menos, me sentiria plenamente satisfeito com ela, e até se pode considerar que o autor peca um pouco do ponto de vista artístico-literário em estendê-la tão além desse ponto; mas é claro também que Naruto não foi concebido para ser uma obra de arte, e sim uma obra de entretenimento, e então muitas outras pontas que ficam soltas precisam ser fechadas e sub-enredos terminados para que o encerramento seja completo. O fato é que, a partir daí, o próprio Naruto não tem muito mais para onde evoluir, de forma que o desenvolvimento dramático acaba passando mais para o outro personagem principal da série, Sasuke.

Sasuke é o exato oposto de Naruto – Naruto usa roupas de cores quentes (laranja e preto), Sasuke usa roupas de cores frias (azul e branco); Naruto é barulhento e cheio de energia, Sasuke é quieto e soturno; Naruto é estúpido e apressado, Sasuke é talentoso e cuidadoso; Naruto é ignorado e discriminado, Sasuke é admirado e invejado. Até as suas motivações fundamentais diferem radicalmente: Naruto é movido pela sua vontade de ser aceito por aqueles à sua volta, de forma que tende a se preocupar na maioria das vezes mais com seus amigos do que consigo mesmo, enquanto Sasuke possui um objetivo mais específico e pessoal, levando-o muitas vezes a agir de forma egoísta. É fácil, assim, entender o que ele representa: é um dos arquétipos míticos/literários mais básicos, o “gêmeo maligno” que fecha o par de opostos que se completam, como na figura do YangYin chinês. Acho até que Sasuke deveria, inicialmente, fazer o papel do Gaara como contraponto do Naruto, algo que acabou não acontecendo; e justamente por isso, os melhores momentos dramáticos dele sempre são em comparação com os do Naruto. É fato que ele não consegue segurar a série tão bem quando está sozinho – vide o longo período do Shipuuden em que ele é foco principal da narrativa, o que também explica um pouco a queda de empolgação que senti nessa segunda fase da série; mas funciona incrivelmente bem junto com o Naruto, um fazendo sombra para o outro, seus dramas se contrapondo e completando, sendo o ponto máximo dessa relação até o momento a luta entre os dois quando Sasuke tentava fugir de Konoha. E é certo que o destino deles está profundamente entrelaçado, e eu aguardo ansioso para ver o desfecho final que os aguarda, o que, felizmente, já não deve demorar a acontecer.

Mas, enfim, longe de mim querer soar tão pretensioso e intelectualóide quanto inegavelmente acabei soando mais do que algumas vezes nesse meu longo devaneio. No fundo, toda essa ladainha trata-se só de uma tentativa de racionalizar o irracionalizável; tentar entender e discutir o meu gosto pessoal, justamente aquilo que, dizem as más línguas, não se discute. O fato mesmo é que Naruto é, pura e simplesmente, uma série legal e divertida, que reúne num pacote só muitas coisas legais e divertidas. Tem, por exemplo, ninjas, que são legais. Também tem tropas de elite especializadas, que também são legais. Tem combates épicos pelo destino do mundo, que são legais. E tem monstros gigantes, que são legais também. Droga, tem até um sapo samurai gigante, o que é muito legal!


Sob um céu de blues...

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