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O Oceano no Fim do Caminho

oceano-no-fim-do-caminhoUm homem de meia-idade volta à sua cidade natal natal no interior da Inglaterra para um funeral. Para fugir de conhecidos e conversas indesejadas, acaba se desviando para uma velha propriedade que havia no fim da sua rua, onde se lembrava morar uma velha amiga, uma das poucas que tivera na infância. Ao sair pelos fundos e encontrar um velho lago, no entanto, as memórias suprimidas de quarenta anos antes começam a retornar, junto com todo o terror e a culpa pelo que se passou.

Essa é a premissa básica de O Oceano no Fim do Caminho, novo livro de Neil Gaiman, anunciado como o seu retorno à literatura “adulta” depois de algumas muito bem sucedidas incursões pela infanto-juvenil. O romance se passa em um universo típico do autor, em que o nosso mundo moderno (ou, no caso, de algumas décadas atrás) se mistura com acontecimentos fantásticos e personagens maiores que a vida. E é um mundo bastante envolvente e único, como de costume – achei que ele possui mais de um realismo mágico, como em todos os clássicos autores latino-americanos, e com um certo quê de conto de fadas contemporâneo, do que da sua típica fantasia urbana; mas é repleto de magia e encantamento da mesma forma.

A história em si também é bem encadeada, com personagens marcantes, e, numa demonstração bastante clara do autor de crescimento técnico, não cai naquela mesma armadilha de tantas obras anteriores, em que há um mundo fantástico e cheio de vida mas que você conhece por meio de um enredo fraco, que não se sustenta até o fim. A trama aqui, ao contrário, é envolvente, e mais do que uma vez até bastante assustadora, e tem um desfecho daqueles de partir o coração – quase que literalmente, aliás.

Acho que o grande problema mesmo é aquele ponto do livro se anunciar como uma obra de literatura “adulta.” Numa ânsia de deixar isso claro, Gaiman acaba colocando algumas situações gratuitas que parecem estar lá apenas para justificar essa classificação, e destoam do clima geral de todo resto. É como se fosse um aviso de “olha só, tem uma cena de sexo, então não é um livro para crianças, ok?,” mesmo que seja a única em todo o livro (e me lembre um continho recente meu), não tenha uma função muito bem definida, e que o resto da trama se desenvolva em um universo infantil, ou no máximo juvenil, com personagens e situações que seguem as leis próprias deste tipo de história. Não é necessariamente um grande defeito, mas causa um pouco de estranhamento.

Mas o fato é que, esse pequeno detalhe à parte, O Oceano no Fim do Caminho ainda é um livro bastante envolvente e cativante. Ele trata com bastante propriedade da nostalgia da infância, e nos faz parar para pensar no quanto ela ainda nos influencia e define os parâmetros mesmo da nossa vida adulta. Talvez seja mesmo o seu melhor livro desde o clássico Deuses Americanos.

Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas

Entrei em contato pela primeira vez com o intrigante trabalho do Dr. Thackery T. Lambshead através de alguns escritos do Dr. China Miéville, onde constava o seu relato bastante curioso a respeito da Praga de Buscard, retirado do famoso Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas. Tendo meu interesse despertado, busquei saber mais a respeito, mas à época o volume era disponível apenas em poucas e esparsas cópias britânicas e norte-americanas, de forma que não obtive sucesso em adquiri-lo.

Recentemente, no entanto, através da intervenção de uma conhecida a quem sou por isso muito grato, soube que era iminente o lançamento de uma edição portuguesa da importante obra, de forma que fui atrás de informações. Descobrindo também que estavam atrás de relatos de terras lusófonas para adicionar ao material original, prontamente preparei um pequeno artigo a respeito do Cancro de Meme, esta odiosa doença que há anos tem ocupado minhas pesquisas. Para minha surpresa, o relato foi considerado digno de ser incluído junto aos demais, e assim me uni a nomes como o dos Drs. Alan Moore, Neil Gaiman, Michael Moorcock e outros nesta belíssima edição da editora lusitana Saída de Emergência.

Deixo, portanto, minhas sinceras recomendações a respeito deste lançamento, para aqueles que por ventura forem capazes de adquirir livros de além-mar.

Stardust

Neil Gaiman é um autor um pouco complicado de resenhar, por causa de uma certa tendência que possui de formar aquele tipo de tiete chato que vai elogiar qualquer coisa que ele escreva antes mesmo de ler. Assim, se a resenha for positiva, pipocam comentários sobre como ele é o máximo e que sequer citam a obra que se está resenhando; e se for negativa, vai dar margem para começar uma daquelas discussões intermináveis de internet na qual nenhum dos lados está disposto a abrir mão do seu ponto de vista. Felizmente, no entanto, essa tietagem toda é justificada em boa parte dos casos, já que Gaiman é em geral um autor com mais acertos do que erros. No entanto, alguns de seus trabalhos, mesmo quando bons, acabam sendo valorizados um pouco além da conta. Stardust (que na edição nacional recebeu o subtítulo de O Mistério da Estrela) vai um pouco por este lado.

O livro narra as aventuras de Tristran Thorne, habitante de Wall, uma pequena vila inglesa de meados do século XIX, que parte em uma busca por uma estrela cadente para dar de presente à garota por quem ele nutre uma daquelas paixões platônicas típicas da adolescência, e acaba por isso indo parar em um mundo mágico repleto de seres maravilhosos. É uma história que se assume desde o princípio como juvenil, daquelas até um pouco bobinhas, do tipo em que um garoto aparentemente comum parte em uma jornada fantástica em direção, entre outras coisas, à maturidade – mas isso não chega a ser necessariamente um demérito, claro; apenas acho que seria uma história juvenil melhor não fosse o seu protagonista um personagem um tanto bobinho demais na maior parte do tempo, apesar de que isso também é um mal de heróis juvenis em geral.

Em todo caso, se a história em si deixa a desejar, o grande mérito do livro está no mundo fantástico que ele constrói como cenário. O ambiente de Stardust transborda magia e fantasia; é um mundo de contos de fadas completo, por vezes de forma bem exagerada e até cômica, onde todo animal é algum ser enfeitiçado e pequenas rimas infantis ganham status de informações privilegiadas. A própria leitura do livro lembra bastante certos filmes clássicos de fantasia dos anos 80, como Labirinto ou História Sem Fim, e não é por acaso que a versão cinematográfica da obra tenha sido bastante comparada a eles. É certo que algumas vezes esta magia toda parece passar do ponto, soando mais como desculpa para resolver situações em que o autor coloca os personagens e da qual não parece haver outra saída – o velho truque literário do deus ex machina; mas é justamente nas descrições deste ambiente fantástico, com suas bruxas ambiciosas e nobres traiçoeiros, que brilha a prosa de Gaiman, e justifica um pouco aquela tietagem toda que existe em cima dele.

Stardust é, enfim, um belo exemplar daquilo que os norte-americanos chamam de pageturner, ou vira-páginas, do tipo que você vai lendo página após página com tanta naturalidade que, quase sem perceber, já se vê chegando no final. Juvenil e bobinho que seja, até que é uma boa história juvenil e bobinha, que, acredito eu, tietes do Neil Gaiman e qualquer um com algum gosto pelo fantástico hão de achar no mínimo agradável.

Neverwhere

neverwhere1Eu gosto muito da temática de “mundos secundários”, o que, acredito, não deve ser exatamente tão incomum assim entre jogadores de RPG. Acho que é algo de toda a idéia de um universo alternativo, onde as coisas nem sempre estão sujeitas às mesmas leis e a mesma lógica do nosso mundinho comum cotidiano, que me tem tanto apelo; por vezes, até uma história meia-boca acaba me rendendo uma leitura cativante apenas por explorar bem esse aspecto fantástico, brincando com palavras, situações e outros elementos de maneira inesperada e imaginativa. E vez por outra eu mesmo gosto de viajar nessas possibilidades, jogando com o surrealismo e a fantasia apenas pela brincadeira.

Se por um lado, no entanto, se deixar levar por estes mundos alternativos pode ser encantador e cativante, desenvolvendo a imaginação e a criatividade, por outro também pode ser uma armadilha, e acabar nos afastando e fechando os olhos para os mundos secundários presentes na nossa própria realidade. Não é preciso, afinal, ir para uma Arton ou Bas-Lag da vida para encontrar um local onde as coisas funcionam por outras leis e outras lógicas – basta sair da vidinha fechada de cidadão de classe média para explorar os submundos das favelas e moradores de rua; ou então, na direção oposta, subir ao topo mais alto da pirâmide social, com os jovens de elite em seus Édens de luxo isolados da selva urbana pelas grades do condomínio. Também aí temos mundos praticamente paralelos, com outras regras de funcionamento; e também eles tem seu apelo exótico e idealizado, causando choques e conflitos vastamente explorados na ficção, desde o clássico O Príncipe e O Mendigo, de Mark Twain, até as telenovelas globais e filmes sobre favelas do cinema nacional recente.

Acho que o primeiro ponto que me chamou a atenção em Neverwhere (ou Lugar-Nenhum, na versão nacional lançada pela Conrad), do ímã de tietes Neil Gaiman, foi a forma como ele extrapola essa idéia, partindo de um mundo que, em um primeiro momento, poderia ser apenas um aspecto da nossa própria realidade, e então transformando-o em um cenário de fantasia rico e exuberante, do tipo que não faria feio em qualquer livro de RPG (inclusive, aliás, há um jogo não-oficial inspirado na obra, disponível gratuitamente em PDF). Se a idéia de um outro mundo nas sombras do mundo real não é exatamente novidade – qualquer RPG da linha Storyteller já faz isso, bem como dezenas de outras obras de terror e fantasia contemporâneas; e o próprio Gaiman trabalha o tema com maestria em outros dos seus livros, como Anansi Boys e o genial American Gods -, e a história do cara normal em algum tipo de crise existencial que de repente é jogado do nada em um mundo fantástico também é completamente manjada, a leitura toda acaba tendo um outro sabor na medida em que se faz essa associação, e você se pega imaginando sobre os mundos que devem existir sob as pontes do Arroio Dilúvio, por exemplo, ou da qual fazem parte todos aqueles mendigos folclóricos que existem em qualquer cidade grande, do tipo que fala com ETs e outros seres invisíveis.

A história foi criada, ao que parece, para uma mini-série de TV da rede britânica BBC, que posteriormente teve o roteiro adaptado pelo Gaiman para o formato de um romance, e depois também para uma história em quadrinhos; acredito que seja daí que vêm as principais virtudes e também os maiores problemas do livro. Por um lado, toda a caracterização dos personagens tem uma teatralidade muito interessante, repleta de gestos e tiques exagerados e expressivos, remetendo muitas vezes aos trejeitos de animais e tornando muito fácil imaginá-los; e a descrição dos cenários também é bastante rica, tornando toda a narrativa muito visual e interessante. Por outro, no entanto, o roteiro todo acaba sendo um pouco convencional e sem brilho; é notável como ele perde bastante o ritmo quando se afasta da descrição do cenário fantástico e seus personagens peculiares e passa a se dedicar mais ao desenvolvimento linear dos acontecimentos e relacionamentos entre eles, caindo em tramas e conflitos fáceis, com vilões confusos e seus planos mirabolantes de dominação, mistérios e soluções manjadas, e uma moral final óbvia e previsível.

Não ajuda muito, ainda, o fato do protagonista ser um tanto vazio de personalidade e motivação – problema que acontece também em American Gods, aliás, o que me leva a imaginar até que ponto não seja um vício do autor. Às vezes chega a parecer que toda a viagem fantástica e maravilhosa aconteceu apenas porque ele não tinha nada melhor para fazer. Mas há de se destacar que foi bastante fácil ver, tanto no Richard Mayhew de Neverwhere como no Shadow de American Gods, alguns traços da minha própria personalidade, então talvez se possa questionar também até que ponto não é algo que ajuda a torná-los personagens mais universais.

De qualquer forma, mesmo com estes poréns, ainda acho que a experiência toda de ler Neverwhere é bastante positiva, por tudo que ela provoca na imaginação e nas idéias. Acho que Gaiman é, provavelmente, o grande autor da fantasia contemporânea, capaz de criar magia e criaturas fantásticas no mundo atual sem precisar apelar para vampiros, lobisomens e todos os outros lugares-comuns do gênero. E eu sei que eu, pelo menos, nunca mais vou olhar para um sem-teto da mesma forma outra vez.


Sob um céu de blues...

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