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Estação Perdido

estação perdidoUns anos atrás, o autor britânico China Miéville causou um certo frisson no mundinho da literatura fantástica nacional. Acho que eu mesmo tenho um pouco de culpa no cartório, uma vez que embarquei no hype train, li quase tudo de sua autoria que consegui por as mãos, e divulguei impressões em resenhas numa época em que blogs literários ainda engatinhavam. Em um mundo ainda pré-Game of Thrones, de poucas opções além do seu feijão-com-arroz tolkeniano, ele parecia mesmo diferente de tudo o que tínhamos disponível: linguagem ambiciosa, cenários urbanos decadentes, e uma orientação política progressista e assumidamente marxista, batendo de frente com o conservadorismo mais retrógrado de certos dinossauros do gênero.

Esse hype todo foi um pouco do que pautou o lançamento do seu primeiro romance, Rei Rato, pela hoje finada editora Tarja; mas seriam mais alguns anos antes que ele encontrasse uma casa mais definitiva (e alguns diriam adequada) na Boitempo, entre autores como Slavoj Žižek e Leonardo Padura. O primeiro romance publicado na editora foi A Cidade e A Cidade, pelo qual ganhou o prêmio Hugo de ficção fantástica; e, agora, temos finalmente em português Estação Perdido, provavelmente o seu livro mais conhecido. Acredito que seja uma boa oportunidade, assim, de retornar ao mundo de Bas-Lag, e ver o que você pode encontrar de mais provocante e revolucionário dentro dele.

Estação Perdido (ou Perdido Street Station) é o primeiro livro de uma trilogia, que se completa com The Scar (A Cicatriz?) e Iron Council (Conselho de Ferro? – estou chutando possíveis nomes traduzidos). Eles não contam exatamente uma história contínua, mas cada um possui um enredo fechado com personagens próprios, ainda que haja uma linearidade cronológica e acontecimentos de livros anteriores tenham consequências diretas nos posteriores. Principalmente, no entanto, os três livros dividem o cenário fantástico de Bas-Lag, em especial a metrópole pseudo-vitoriana New Crobuzon, onde se passa toda a ação do primeiro volume.

A verdade é que todo hype passa eventualmente, e gera aquela ressaca em que você se pega perguntando a respeito do que fez durante ele. Olhando hoje, tantos anos depois, penso que Estação Perdido é um livro irremediavelmente datado. É muito próprio do período em que foi escrito, ou ao menos de quando o li pela primeira vez. Tenho uma impressão sobre ele parecida com a que tenho sobre Neuromancer, do William Gibson, também fundador de um gênero: a de que pode-se com certeza reconhecer as suas qualidades e a revolução que causou; mas, quando o seu primeiro contato é com os imitadores, acaba parecendo algo menos do que foi no contexto original.

Há no livro uma ânsia muito evidente de ser uma ruptura, e chocar, às vezes até gratuitamente, o leitor. Falamos de um livro que praticamente abre com uma cena de sexo bastante gráfica entre o protagonista e uma mulher-besouro. Muitas das escolhas de enredos, personagens e ambientação parecem claramente feitas para gerar contraste com clichês e padrões da literatura fantástica mais tradicional – da ambientação urbana e decadente, muito distante da utopia idílica do Condado, até os próprios protagonistas de ocupações um tanto mais mundanas do que os guerreiros, reis e aventureiros que você encontrará num romance de Dragonlance ou Forgotten Realms. Uma das passagens mais comentadas entre os leitores, aliás, é a contratação de um grupo de mercenários exploradores de masmorras pelos protagonistas, e o quanto ele difere da visão que se tem ao ler um cenário de campanha de um jogo de RPG.

Essa ênfase na ruptura, e o seu próprio sucesso em fazê-la, é uma das razões pelas quais ele hoje, quinze anos depois da publicação original, soa um pouco diminuído. Mas isso não quer dizer que o livro simplesmente não seja mais recomendável, muito longe disso. Se tudo o que você conhece de literatura fantástica for Tolkien, George R. R. Martin e produtos relacionados de cenários de RPG – em outras palavras, se as suas próprias referências ainda não passaram do período em que ele foi publicado originalmente -, ele ainda pode acertá-lo como um soco no estômago. Se a sua contestação literária soa um pouco datada, a sua contestação social e política, os seus amores proibidos e revoltas populares, permanecem – e, em tempos como os atuais, temo dizer que não serão diminuídos tão cedo. E acima de tudo, Miéville é um autor com uma imaginação única, capaz de criar cenários, personagens e criaturas que são ao mesmo tempo assustadoras, cativantes e absolutamente fascinantes. Você não vai terminar a leitura sem ter uma impressão muito forte causada pelo monstro-aranha Weaver, o imponente Construct Council, ou os tenebrosos slakemoths.

Olhando em retrospecto, no entanto, tantos anos depois, tenho a impressão mesmo de que Estação Perdido é menos sobre contar uma história, e mais sobre provar um ponto. O verdadeiro astro não parece ser realmente qualquer um dos personagens, mas sim a ambientação, o clima e a própria cidade de New Crobuzon; um pouco como a Terra-Média de Tolkien, transformada aqui em uma megalópole decadente, que os protagonistas devem explorar e viajar de um lado a outro para cumprir a sua missão, e chega mesmo a, como uma entidade dotada de vontade própria, agir e interferir com as suas ações.

Quem conhece a obra posterior do autor sabe que há uma evolução muito clara com o passar dos livros. Mesmo os seguintes ambientados em Bas-Lag me parecem ser mais bem realizados, uma vez que já tinham o terreno preparado pelo anterior. The Scar é um épico fantástico sobre piratas – mas também, e talvez muito mais, sobre política, imperialismo e feminismo. E Iron Council é talvez a verdadeira magnum opus de Miéville, onde a sua visão de uma fantasia concebida por ideais políticos é levada mais longe; é ambiciosa desde a própria linguagem, nos personagens e protagonistas, até a própria trama épica de fantasia revolucionária.

No fim, Estação Perdido talvez chegue sim um pouco tarde, mas há quem argumentará que nunca é tarde para se conhecer uma obra como essa. Se as suas tentativas de ruptura hoje parecem fora de contexto, em grande parte é pelo próprio sucesso que ele teve originalmente. De um jeito ou de outro, China Miéville continua sendo um dos meus autores preferidos, e qualquer lançamento com o seu nome é capaz de me animar e empolgar.

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Aniquilação

aniquilaçãoJeff VanderMeer tem um problema com fungos. Não se tratam de micoses ou pés-de-atleta, claro (ou pelo menos até onde eu posso falar); mas é uma fixação tão constante na sua obra que chega a ser curioso, no mínimo. O ciclo de histórias de Ambergris, por exemplo, que são as suas obras mais conhecidas, possui como elemento central uma civilização de cogumelos que existiria sob a cidade, influenciando de alguma toda a sua história repleta de mistérios – algo assim como um gritty reboot de Super Mario Bros., digamos. E também na sua trilogia do Comando Sul, cujo primeiro volume, Aniquilação, foi lançado recentemente em português, o tema volta a ser recorrente.

Mas vamos por partes. Segundo a sinopse do livro, décadas atrás algum tipo de catástrofe ambiental se abateu sobre uma região do planeta, cuja localização exata nunca sabemos realmente, isolando-a do resto do mundo. Aos poucos a natureza foi tomando os últimos vestígios da presença humana, dando origem a uma fauna e flora exótica e surpreendente. Para entender exatamente o que aconteceu, uma série de expedições foram organizadas e enviadas para lá. Nem todas retornaram; algumas tiveram mesmo resultados catastróficos, com o desaparecimento, morte ou mudança de todos os membros enviados.

No livro conhecemos o destino da décima segunda destas expedições, formada por quatro mulheres: uma antropóloga, uma topógrafa, uma psicóloga, que é também a líder da missão, e uma bióloga, a narradora da história. Não sabemos, a princípio, quase nada sobre seus passados, apenas que foram escolhidas por critérios obscuros e enviadas para lá de uma maneira misteriosa. Aos poucos, no entanto, o que ocultam sobre suas vidas é justamente o que vai semear a catástrofe na missão, sobretudo na medida em que elas se depararem com situações imprevisíveis e encontros que desafiam a sua sanidade e o seu entendimento sobre o mundo.

VanderMeer domina como poucos a narrativa de suspense. Há algo de tenso e sombrio na sua escrita praticamente desde a primeira frase – você consegue perceber logo de início que algo muito errado acontecerá, e a tensão sobre o que o desencadeará o acompanha a cada virada de página. Essa sensação se intensifica a cada novo encontro com os horrores impossíveis que se escondem na Área X. Para quem joga videogames, a história lembra um jogo do auge dos survival horrors, como Silent Hill ou os primeiros Resident Evil: há um ambiente misterioso e perigoso, em que você nunca sabe ao certo o que está acontecendo; e a ansiedade a cada parágrafo de não saber se ele será seguido um novo confronto aberrante ou uma revelação perturbadora sobre aquilo que o cerca. Cada solução encontrada se abre em dez novos mistérios, porém sem a garantia de que tudo acabará bem no final.

Uma coisa muito pontual, apenas, acaba quebrando o clima que o autor constrói com tanta habilidade no resto do tempo. Há um papel muito grande dado aos efeitos da hipnose sobre as personagens, usado como deus ex machina para garantir certos desenvolvimentos em alguns momentos importantes. Para os céticos (como eu), é preciso forçar um pouco a suspensão de descrença e passar por cima deste detalhe. (Por outro lado, estamos falando de um livro de horror cósmico de ascendência lovecraftiana, então há quem vá dizer que este é o elemento menos fantástico da história de qualquer forma…)

Em todo caso, Aniquilação ainda é uma história de suspense e horror cósmico muito bem escrita e executada, recomendadíssima. Aguardo com bastante ansiedade pelos próximos livros da trilogia, que lancem mais luzes (e consequentemente tragam mais mistérios) sobre o que se esconde afinal sob a assustadora Área X.

Embassytown

Já falei um pouco em outra resenha sobre as razões que eu acredito explicarem como a ficção científica perdeu tanto espaço para a fantasia recentemente, e não vou me repetir. Acho curioso como certos paradigmas são difíceis de fugir, e acabam colaborando para torná-la anacrônica e até um pouco cômica com uma rapidez espantosa. Por exemplo, os aliens em si: quantas histórias que os envolvem vocês conhecem que realmente os tratam como, bem, aliens? Não como meramente seres humanos com outras cores, altura reduzida ou aumentada, às vezes um ou dois membros a mais? E que fazem isso sem tentar cair em um pseudo-misticismo, transformando-os em alguma espécie de ser transcendental, acima dos meros mortais?

Bem, China Miéville, em Embassytown, sua primeira incursão oficial pelo gênero (muito embora mesmo suas histórias de fantasia tivessem já um certo ar de FC), de fato tentou fugir deste paradigma. Seus ariekei são realmente aliens, seres diferentes e incompreensíveis para a mente humana. Suas formas evocam algo de um terror lovecraftiano, com descrições que fogem de desenhá-los nos mínimos detalhes, e a própria forma como entendem o mundo é diferente da nossa, através de uma linguagem que também é, ela própria, alienígena e semi-incompreensível.

Esta linguagem, conhecida como a Linguagem, em letras maiúsculas, é o mote principal de boa parte do livro. Exótica e alienígena, baseada menos em uma significação direta e mais em uma espécie de empatia sonora, ela é impossível de ser reproduzida por humanos comuns; apenas embaixadores alterados e treinados desde o berço para utilizá-la são capazes de se comunicar com eles. Isso nos traz uma parte do elemento político que também é tradicional nas obras de Miéville, pela forma como este corpo de funcionários diplomáticos se transformou em uma aristocracia insubstituível para a cidade que dá o título do livro. A própria ação principal da história começa com a chegada de um novo embaixador, criado longe de Embassytown e treinado pelo governo metropolitano, o que acaba tendo um efeito inesperado sobre os alienígenas que habitam o planeta.

Isso nos leva também ao que me parece ser o elemento principal do livro, uma espécie de fábula sobre a colonização de regiões distantes, e um estudo antropológico e literário sobre a linguagem e a comunicação. As tensões políticas entre Embassytown e a sua metrópole, bem como a relação entre os nativos e os seres humanos vindos de uma terra distante, remetem de forma bastante direta à nossa própria história, à colonização de países da África e da Ásia, e a luta deles pela sua independência. Há espaço para narcóticos linguísticos (que lembram um pouco a Praga de Buscard, que Miéville havia criado para o Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas), e mesmo citações a histórias clássicas da antropologia sobre o contato com povos nativos, como os relatos do Capitão Cook.

Outro elemento interessante é a própria construção do futuro da humanidade no livro. Miéville é um cientista social, e não físico ou químico, de forma que os seus questionamentos sobre como será a vida no futuro dizem menos respeito a gadgets e tecnologia e mais às próprias pessoas e as relações que elas possuirão entre si. É interessante ver, nas entrelinhas do enredo principal, a visão do autor sobre temas como a sexualidade e o casamento, entre outros.

Claro, Miéville é um autor que em geral rejeita o rótulo de alegorista, e que faz questão de sempre se manter fiel às suas raízes na literatura pulp. Isso significa que, para além de uma alegoria sociológica, o que o livro se propõe realmente é ser uma espécie de thriller político, em que a personagem principal, em princípio sem muita importância, se envolve com as intrigas e políticas coloniais, em uma espiral de tensão que não faria feio como um filme hollywoodiano. Há pontos positivos e negativos nisso: por um lado, torna a leitura mais dinâmica e envolvente, sem perder por isso a profundidade e o questionamento sobre os temas levantados; por outro, no entanto, nos momentos finais ele acaba caindo em um jogo fácil de perseguição e corrida contra o tempo, com resoluções finais acabam vindo mais de epifanias espontâneas com ares mesmo de deus ex machinas. Em um determinado momento a própria narradora chega a anunciar que irá postergar a revelação da idéia que teve para resolver os conflitos, apenas para não estragar a surpresa do leitor…

Enfim, embora não seja perfeito, Embassytown ainda é uma leitura bastante provocante e envolvente, daquelas que te deixam refletindo por horas após a leitura de cada capítulo. É uma ficção científica que realmente soa contemporânea e responde a questionamentos contemporâneos, sem cair em anacronismos e paradigmas ultrapassados. Recomendo bastante.

A Situação

A Situação é o primeiro livro do norte-americano Jeff VanderMeer publicado no Brasil, pela Tarja Editorial, que, lançando-o em conjunto com Rei Rato, tem tentado trazer para cá alguns nomes importantes do movimento conhecido como new weird, que fez algum barulho no mercado editorial lá fora nos últimos dez anos. Diferente do livro de estréia de China Miéville, no entanto, este aqui é uma obra bem mais modesta, tanto em tamanho quanto em pretensões. Ao invés de um grande romance, trata-se de uma pequena novela, não muito mais do que um conto alongado, desses que você consegue ler tranqüilamente em uma sentada ou duas.

O tema central do livro é o mundo corporativo e as suas normas e burocracias, mas extrapolados ao nível do caos absoluto, enquanto um determinado funcionário é gradualmente isolado na empresa pelos seus colegas de trabalho sem motivo aparente. Pense nos personagens e histórias em quadrinhos do Dilbert, mas jogados em meio a um cenário surreal repleto de horrores biomecânicos e criaturas monstruosas. O resultado final lembra algo dos Laundry Files do Charles Stross, com os seus horrores cósmicos perambulando em meio aos corredores de um órgão público; e muito dos pesadelos clássicos de Franz Kafka, tendo me remetido durante a leitura tanto às transformações psicológicas de A Metamorfose como aos labirintos normativos de O Processo.

Não sei exatamente como classificar o livro. É sim um trabalho de fantasia, certamente, mas me parece um pouco vazio querer classificá-lo com o mesmo rótulo de um Tolkien ou George Martin, por exemplo. Ele parte muito mais da nossa própria realidade, adicionando elementos fantásticos em situações pontuais; mesmo assim, não acho também que realismo fantástico seja uma boa classificação – não é a mesma cosia que fazem um Gabriel García Marquez ou Haruki Murakami, afinal. As imagens que me vinham a cabeça durante a leitura eram muito mais as das pinturas de artistas como Salvador Dali e Max Ernst: a fantasia usada não como justificativa de todo o enredo, e nem como ferramenta dele; mas sim como subversão da realidade, formando uma espécie de lente de aumento em que os absurdos da rotina em um escritório se tornam mais claros e evidentes. Por isso, acho que talvez a melhor classificação para ele seja mesmo o de surrealista.

Uma coisa que torna a leitura um tanto maçante, em todo caso, é justamente a forma como essa lente parece se aplicar a praticamente tudo. O TVTropes tem uma denominação própria para isso: Our Dragons Are Different (ou Nossos Dragões São Diferentes); é a tentativa de fazer com que uma coisa familiar e clichê fique subitamente original simplesmente trocando algum elemento dela por outro completamente diferente. Então se dragões normalmente cospem fogo, você irá fazer os seus cuspirem relâmpagos; e se arquivos geralmente são grandes armários repletos de papéis e pastas, você os fará como, hum, um tipo de mamífero exótico em estado de decomposição. VanderMeer faz isso o tempo todo neste livro, e depois de encontrar com besouros-espiões, lesma-elevadores e baratas-revólveres, é difícil se impressionar muito.

É interessante também destacar o trabalho gráfico feito pela editora. Até para dar um pouco mais de volume para uma obra que não é assim tão grande em primeiro lugar, foram adicionadas algumas imagens na abertura de cada segmento, sempre acompanhada de versão em negativo no verso da página. Misturando desenhos das criaturas descritas no livro com colagens de fontes, elas conseguem reforçar bem o clima de estranhamento e surrealismo da história, criando um efeito bem interessante como resultado final. Só a fonte escolhida talvez pudesse ter sido menos exagerada (podem ver ela na capa aí em cima), acho, mas aqui é só o meu designer amador interno dando palpites mesmo.

Em todo caso, A Situação é sim uma leitura bem interessante, que usa a fantasia como forma de nos fazer pensar e refletir sobre o nosso próprio mundo um pouco, além dar alguns sorrisos com algumas piadas de humor negro aqui e ali. Mas bacana mesmo seria ver uma obra como Veniss Undergroud, essa sim mostrando tudo que o autor é capaz de fazer, lançada por aqui.

Rei Rato

Rei Rato traz de volta um velho conhecido do blog, mas de quem eu não falava fazia algum tempo – o escritor britânico China Miéville. Trata-se, no caso, do seu romance de estréia, e também o primeiro a ser traduzido para o português e lançado no Brasil pela Tarja Editorial, que, dizem os boatos, está trabalhando em uma edição nacional do clássico Perdido Street Station.

O livro conta a história de Saul Garamond, um jovem londrino que um dia é acordado pela polícia para descobrir que o seu pai está morto depois de cair da janela do apartamento. É claro que não foi um simples acidente, e esse é o estopim que o colocará em contato com todo o mundo estranho e fantástico que existe sob as ruas de Londres, bem como lhe revelar detalhes obscuros sobre o seu nascimento e ascendência.

Em alguns aspectos, o cenário e a história lembram bastante Lugar-Nenhum, do Neil Gaiman – ambos lidam, afinal, com universos escondidos sob as ruas londrinas, e a queda de alguém “de cima” até eles. Se Gaiman cria um mundo colorido e cheio de magia, no entanto, Miéville é muito mais duro na sua caracterização, enchendo a sua anti-Londres de sujeira e podridão, e até mesmo fazendo os seus protagonistas se alimentarem dela. Por outro lado, achei o cenário do primeiro muito mais vivo e pulsante, repleto de personagens únicos e ambientes envolventes, o que me levou mesmo mesmo a refletir algumas coisas sobre o nosso próprio mundo; o universo mágico de Miéville, ao contrário, parece mais simples e objetivo, quase um cenário teatral mesmo, apenas um pano de fundo para o seu roteiro se desenvolver. Muito mais viva são as suas descrições da Londres original, e da cultura urbana do drum and bass que permeia a narrativa.

Já no roteiro propriamente dito, Miéville é de fato muito mais eficiente do que o Gaiman. Trata-se de uma história de jornada do herói, auto-descoberta e amadurecimento bastante simples, a bem da verdade, mas muito bem executada. Ela reconta e atualiza um conto de fadas clássico – O Flautista de Hamelin -, trazendo-o para a Londres moderna, recheando-o com drum and bass e transformando-o, em alguns momentos, quase em uma história de super-heróis, ou mesmo em um mangá shonen, desses em que personagens super-poderosos se debatem por sobre os prédios da cidade. Longe de ser uma história juvenil, no entanto, ela é também pesada e forte, sem se furtar de descrever mortes e amputações de forma bastante gráfica, e com um quê de romance policial em alguns momentos.

Considerando o meu conhecimento de obras posteriores do autor, é interessante notar também a sua evolução enquanto escritor. Pode-se ver bem que se trata do seu primeiro romance, pela forma como ele organiza as descrições e o roteiro, e também como tateia um tanto receoso em algumas delas. A sua ideologia política assumida também se faz presente, embora raramente de forma panfletária – apenas a cena final quase me fez rir em voz alta, pelo seu exagero intrínseco.

A tradução de Alexandre Mandarino também merece todos os méritos. Pela apresentação já dá pra perceber que se trata de uma obra difícil – muitas passagens e diálogos são escritos no dialeto cockney, que é falado pela classe trabalhadora em alguns locais de Londres, o que torna uma tradução e adaptação bastante complicadas. O uso de gírias comuns acabou funcionando bem, acho eu, e o resultado é uma leitura fluida e fácil. O uso extensivo de notas de tradução, algo com a qual eu geralmente tenho algumas reservas, também serviu bem pra elucidar as poucas dúvidas que surgiram, e o seu posicionamento no fim dos capítulos não atrapalha o fluxo da narrativa – você pode facilmente ignorá-las por completo se assim quiser.

Enfim, Rei Rato é um livro muito interessante, o livro de estréia de um dos principais e mais premiados autores de fantasia atuais, finalmente publicado em português. Para os que liam o blog e ficavam curiosos a respeito mas não entendem o suficiente de inglês para ir atrás dos originais, essa é a chance de vocês.

Veniss Underground

Jeff VanderMeer é, junto com China Miéville, um dos principais nomes do movimento new weird, que teve algum destaque na literatura de gênero internacional no início do século mas só agora começa a aportar por aqui através de alguns lançamentos recentemente anunciados pela Tarja Editorial. É dele alguns dos principais títulos do movimento, em especial o premiado City of Saints and Madmen, um livro tão complexo que, apesar de já ter lido, eu simplesmente não tive coragem de resenhar. E além de autor ele também é reconhecido pelo seu trabalho na organização de coletâneas, como The New Weird, reunindo alguns dos principais nomes associados ao rótulo, e o Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditas, no qual eu tive a honra de ser selecionado para participar na edição portuguesa.

Veniss Underground foi o seu primeiro romance publicado, uma vez que mesmo seus lançamentos anteriores, como o próprio City of Saints…, eram na verdade antologias de contos e novelas. Nele acompanhamos a história de Nicholas e Nicola, gêmeos ligados intimamente desde o nascimento, e de Shadrach, ex-amante e ainda apaixonado pela segunda, na cidade sombria de Veniss, que algumas dicas dispersas pela narrativa levam a crer ser localizada na própria Terra alguns séculos no futuro, quando algum tipo de desastre a transformou em um vasto deserto inabitável exceto por pequenos enclaves e cidades-estado. Apesar disso, no entanto, não podemos dizer que se trate de uma ficção científica pura – há espaço, é claro, para especulação e extrapolação científicas, em especial com respeito à cibernética e a engenharia genética, mas de maneira geral o cenário se encontra muito mais naquele território nebuloso onde a FC se confunde com a fantasia e o terror, e que é tão característico do new weird.

Em todo caso, os problemas e relacionamentos entre os três eventualmente os levarão atrás de Quin, uma figura poderosa e enigmática comparada nas sinopses ao próprio demônio, e a uma jornada pelos subterrâneos da cidade com fortes ecos d’A Divina Comédia e do mito de Orfeu e Eurídice. VanderMeer narra toda a história com muita habilidade, fazendo um jogo em que cada um dos personagens é protagonista em uma parte da história, que são mesmo escritas em pessoas diferentes e vão aumentando em tamanho até chegar ao desfecho. Nesse meio tempo, conhecemos o universo surrealista do autor, repleto de paisagens caóticas e criaturas maravilhosas capazes de encantar e assustar com praticamente a mesma força, como em uma pintura do artista medieval Hieronymus Bosch.

Além da narrativa principal, o livro também conta com um apêndice chamado Veniss Stories, que inclui três contos (The Sea, Mendeho, and the Moonlight, Detectives and Cadavers e A Heart for Lucretia) e uma novela (Balzac’s War), todos situados no mesmo universo. Com histórias mais simples, mas não menos envolventes, o autor retoma elementos marcantes do cenário, muitas vezes com fins trágicos. Apesar de serem tecnicamente independentes, um olhar atento pode mesmo reparar em uma certa continuidade, com o cumprimento ao fim da última história de acontecimentos previstos ainda da primeira parte do livro.

Veniss Underground, enfim, é um livro excelente, repleto de momentos cativantes e envolventes, o new weird no que ele tem de melhor. Recomendo muito, para quem não tiver problemas com a língua inglesa.

Escape From Hell!

Imagine que Snake Plissken, o clássico herói de ação pós-apocalíptica interpretado por Kurt Russel, foi finalmente pego pelos seus inimigos e executado friamente. Não imagino, é claro, que ele fosse para o paraíso – bem pelo contrário, desceria diretamente a algum dos níveis mais baixos do inferno. Depois de fugir de Nova Iorque, Los Angeles e, hum, Valkaria, no entanto, certamente não seria o inferno que iria segurá-lo…

Esta é a premissa básica de Escape From Hell!, de Hal Duncan. O próprio Snake Plissken não chega a aparecer, claro, mas a inspiração é bastante óbvia, tanto no tema da fuga impossível como na própria descrição do inferno imaginada pelo autor, uma versão distorcida de Nova Iorque governada por demônios e anjos caídos. No lugar do brucutu, temos quatro protagonistas: um assassino de aluguel, uma prostituta, um homossexual e um suicida sem-teto (a hitman, a hooker, a homo and a hobo, como o próprio livro os descreve), que decidem que suas não-vidas não eram exatamente muito boas e resolvem se arriscar por uma esperança de melhora.

Estes personagens são, inclusive, o elo fraco do livro. Todos são mais “tipos” do que propriamente personagens; o assassino e o sem-teto, em especial, são bastante estereotipados, apesar de o primeiro ter alguns momentos interessantes quando demonstra não ter nem o mínimo de remorso que se esperaria de qualquer protagonista de ação hollywoodiano. Por outro lado, também estão longe de serem o foco principal da história, que é muito mais a fuga alucinante que empreendem, quase um roteiro de blockbuster explosivo pronto para ser filmado.

A visão do inferno do autor é outro ponto alto, reimaginando e atualizando de forma muito criativa todas as referências clichês, de Dante à mitologia greco-romana. Como já destaquei, ele é descrito como uma visão distorcida de Nova Iorque, com ruas sujas e população decadente, administrada por demônios bem mais mundanos do que aparentam e governada por um anjo caído. Quem tiver uma visão religiosa mais ortodoxa, no entanto, pode se incomodar com alguns elementos, que assumem como verdade certas doutrinas mais próximas do gnosticismo do que das vertentes mais tradicionais do cristianismo.

A narrativa também faz um jogo muito interessante, ao enganar durante a maior parte do livro sobre o ponto de vista de quem a história é contada, uma vez que ele só faz a sua entrada triunfal na metade final. E o final, aliás, é arrasador – fecha bem o tema proposto para este volume, mas te deixa com aquela vontade sacana de ver uma continuação.

Escape From Hell!, enfim, é um livro muito divertido. De ponto fraco mesmo, eu diria que é um pouco curto demais, uma novela pequena e direta ao ponto ao invés de um grande e complexo romance. No entanto, para quem for fã de ação ininterrupta, explosões, brucutus cascas-grossas e do Kurt Russel, não há do que se arrepender.


Sob um céu de blues...

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