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Osama

osamaComo todo noir que se preze, Osama abre com uma femme fatale adentrando o escritório de um investigador particular. A missão que ela traz também é típica: encontrar o autor recluso dos romances da série Osama bin Laden: Vigilante, da qual nada se sabe exceto o seu pseudônimo, Mike Longshott.

Estamos em um mundo um pouco diferente do nosso, como se pode ver: um século XXI alternativo onde o terrorismo global não existe exceto como literatura barata. A busca de Joe, o detetive, no entanto, o levará a descobrir um mundo secreto sob a superfície, uma região de sombras habitadas por entidades fantasmagóricas chamadas Refugiados. Na medida em que se envolve com elas, entre os trechos dos romances que investiga e encontros surreais com viciados em ópio, a sua própria identidade começará também a se fragmentar, enquanto ele se aproxima da verdade misteriosa por trás daquele universo literário.

É difícil imaginar uma trama dessas se desenvolvendo sem conotações políticas, e é claro que elas estão lá de alguma forma, mas o ponto que o autor Lavie Tidhar quer fazer diz muito mais respeito à própria alma humana e a sua relação com acontecimentos catastróficos. Israelense de nascimento, ele e sua esposa estiveram mais de uma vez muito próximos de ataques da Al-Qaeda na África, Europa e Ásia; o sentimento que ele busca evocar com a sua obra tem muito mais a ver com a sensação de estranhamento da própria realidade que nasce destas situações, aquele momento em que ela parece, como diz a famosa frase, mais inverossímil que a ficção.

Se estruturando como um neo-noir weird, é possível ver no livro algum eco do premiado The City and The City, de China Miéville; mas é claro que a principal referência é o clássico O Homem no Castelo Alto, de Phillip K. Dick, provavelmente a mais conhecida obra de história alternativa, e não há como não se remeter diretamente a ele durante a leitura. Abraçando com mais intensidade a fantasia e o surrealismo, no entanto, Tidhar parece se aproximar mais de um Borges ou, principalmente, Kafka, com seu enredo labiríntico e melancólico, que funciona em última análise como uma metáfora para a própria confusão mental e isolamento do protagonista. Nisso, há algo nele que me lembrou também O Alienado, do brasileiro Cirilo S. Lemos.

Osama é, enfim, um livro bastante interessante, daqueles que causam uma impressão forte durante a leitura. É difícil não devorá-lo em poucos dias, e há muito nele a se refletir mesmo após o ponto final.

Homem-Aranha Noir

Homem-Aranha Noir é, como o nome bem indica, mais um título da série Marvel Noir, que reimagina os personagens da editora em um ambiente inspirado pelas séries de literatura policial da década de 1930. Junto com X-Men Noir foi um dos primeiros títulos dessa linha a serem lançados por aqui, em uma luxuosa edição encadernada de capa dura, mas com um preço até que bem convidativo levando-se isso em consideração.

A ação desta vez ocorre em 1933, apenas quatro anos depois da quebra da bolsa de Nova Iorque, em um país ainda mergulhado na crise econômica e social. O crime e a corrupção prosperam, e, no caso da principal metrópole norte-americana, possuem como figura central um chefe de quadrilha enigmático conhecido apenas como o Duende. É nesse cenário que vive Peter Parker, um jovem idealista que mora com os tios, um casal de ativistas políticos, e que, após a morte de um deles, é eventualmente tomado como pupilo por Ben Ulrich, repórter do Clarim Diário, e aos poucos passa a ser apresentado ao lado mais sujo da cidade.

Uma diferença fundamental desta para a história dos mutantes resenhada anteriormente é que os personagens aqui de fato possuem super-poderes. No caso de Parker, eles são concedidos por uma misteriosa aranha mística, fazendo com que ele vista um velho uniforme de aviador pertencente ao seu tio enquanto começa a limpar a cidade, sempre honrando os ensinamentos sobre poderes e responsabilidades que recebeu dele – que possuem um leve twist subversivo e anti-institucional, para combinar com o seu background mais politizado, mas continuam com a mesma idéia básica do personagem original.

A história também é muito bem desenvolvida, pegando bem o clima noir a que a série se propõe. Há ambientes luxuosos, femme fatales, crimes violentos; e também inúmeras participações especiais, desde os obrigatórios J. J. Jameson e May Parker, até aliados e adversários clássicos. Nenhum deles está deslocado ou fora de contexto, nem apenas ocupando espaço para completar o álbum de figurinhas – todos são reinterpretados conforme o ambiente, e possuem funções bem definidas e encaixadas no enredo geral. O resultado é um conto policial muito bacana e bem executado, e que conta ainda com uma arte excelente retratando a Nova Iorque da época.

Enfim, Homem-Aranha Noir é um lançamento muito bacana, que eu recomendo para fás do herói ou da literatura policial em que o cenário é inspirado. Tenho gostado bastante dessa série Marvel Noir, a forma como ela reinterpreta personagens clássicos sem deixar de contar histórias interessantes e bem desenvolvidas, e estou bem curioso para ver o que foi feito com outros personagens.

X-Men Noir

Marvel Noir é uma série de histórias lançada pela Marvel Comics desde 2008, e que agora chega ao Brasil com os encadernados X-Men Noir e Homem-Aranha Noir, os dois primeiros a saírem por aqui. Ela tenta reimaginar os personagens clássicos da editora em um ambiente diferente, nos Estados Unidos da década de 1930, com uma influência pesada da literatura policial da época, que viria a ser conhecida como noir no cinema devido seus ambientes escuros e violentos (para quem não sabe, noir significa preto em francês) – enfim, fazendo aquilo que eu costumo chamar de pastiche, e que eu, pelo menos, tendo a achar muito divertido.

A versão dos heróis mutantes deste novo universo Marvel possui algumas diferenças significativas para os seus originais. A mais importante é que não há super poderes – ao invés disso, os alunos da Escola Xavier para a Juventude Excepcionalmente Transviada são simples sociopatas, isolados da sociedade por não serem capazes de viver corretamente dentro dela. Isso dá margem a algumas idéias bastante toscas – em especial a tese do Professor X da sociopatia como um estágio evolucionário da humanidade, que certamente está lá apenas para manter a referência ao material original. Por outro lado, traz também algumas coisas bem interessantes, como a forma em que os poderes são reinterpretados de forma mais mundana, com destaque para os da Jean Grey e da Vampira.

Outro detalhe relevante é que os protagonistas da história não são os X-Men propriamente ditos. Ao invés disso, os roteiristas resgataram um personagem clássico da editora da década de 1940, o Anjo (não confundir o Anjo dos próprios X-Men, que tem apenas uma ponta rápida), e, além dele, a história também é contada do ponto de vista de Eric e Peter Magnus (ou Magneto e Mercúrio), aqui transformados em um inspetor corrupto da polícia e o seu filho idealista. Acho que o primeiro, principalmente, poderia ter sido trocado por algum personagem do próprio universo dos mutantes, já que acaba ficando um pouco deslocado no contexto, sem contar nas confusões devido ao seu nome; poderia ser mesmo o Jamie Madrox, por exemplo, devido a um certo “poder” dele que é revelado no último capítulo.

A parte por isso, em todo caso, a história é bem interessante, um conto policial que abraça muito bem todo o ambiente noir, sem abandonar as referências ao universo fantástico que lhe deu origem. Há espaço para um assassinato misterioso, uma femme fatale e chefões do crime, além, é claro, de dúzias de participações especiais de personagens clássicos das franquias mutantes. A história possui um desenvolvimento muito bom, com viradas ao fim de cada capítulo que te deixam com vontade de seguir lendo, e algumas reviravoltas finais bastante surpreendentes (ainda que uma delas, ao menos, seja descaradamente plagiada do filme O Grande Truque).

O volume também termina com um pequeno conto chamado Os Sentinelas, que seria uma história de ficção científica publicada em revistas pulp dentro do universo da série. É uma leitura muito divertida, pelo menos para quem acompanhou os personagens a vida toda – é escrita propositadamente com um estilo tosco e exagerado, e faz referências a diversas sagas famosas e personagens do universo, do Massacre de Mutantes à Era do Apocalipse, com participação dos Sentinelas, dos Morlocks e mesmo da Fênix.

Em todo caso, X-Men Noir é um lançamento muito bacana, uma reinvenção criativa de personagens clássicos em um ambiente diferente, e muito bem executada. Além disso, foi lançado em um formato luxuoso, com papel especial e capa dura, e ainda assim com um preço até bem razoável. Recomendo para quem é fã dos mutantes.

Annabel & Sarah

Quando resenhei A Viagem de Chihiro, tempos atrás, gastei a maior parte do texto em uma longa digressão sobre os filmes mágicos que assistimos na infância e acabam virando memórias muito vívidas da vida adulta, praticamente bombas de nostalgia prontas para explodir à menor menção. Clássicos Disney, filmes de fantasia, desenhos animados orientais – tanto faz, na verdade, e cada época há de possuir os seus, ou será uma época muito triste no fim das contas. Annabel & Sarah, romance de estréia do escritor mineiro Jim Anotsu, conseguiu a façanha de me remeter praticamente desde a primeira linha a esses momentos, e me lembrar com os seus animais falantes e cenários surreais as horas e dias passados em frente à televisão e ao videocassete.

As protagonista deste conto de fadas pós-moderno são as irmãs adolescentes Annabel e Sarah (de onde o leitor astuto perceberá que veio o título do livro), que, apesar de serem gêmeas, não possuem praticamente nada em comum. A primeira é cheia de atitude e sarcasmo, veste jeans surrados e tênis All-Star, enquanto a segunda, ao contrário, é alegre e apaixonada por moda, e sonha mesmo em se tornar uma top model. Como seria de esperar, ambas também se odeiam mutuamente. As coisas mudam, no entanto, quando Sarah é seqüestrada por uma mão monstruosa que sai de dentro de uma TV, e resta à irmã ir atrás da flor Amor-Perfeito que poderá libertá-la.

A partir daí o livro se divide em dois, contando em capítulos alternados as aventuras pelas quais cada uma delas passa, os perigos que enfrentam, e como aprendem eventualmente o quanto precisam realmente uma da outra. Sarah vai parar em um mundo onde a felicidade é a lei, literalmente, e quem não a obedece corre o risco de sumir da sociedade; e Annabel, na sua busca para salvar a irmã, se alia com um lobo detetive particular em um mundo de animais falantes inspirado na literatura noir. E a história segue assim, um misto de Lewis Carrol e George Orwell de um lado e Jack Kerouac e Dashiell Hammett do outro; perdidas no meio do caminho, dúzias de referências literárias e ao universo pop, de nomes de músicas e bandas a personagens e autores, que adicionam toda uma camada extra muito bacana à leitura.

Jim possui um estilo muito gostoso de se ler, dando muita vida e expressividade às personagens. Não há como não ser cativado pela personalidade das duas irmãs, bem como todos os coadjuvantes surreais que encontram pelo caminho, sejam mímicas com problemas de dicção ou raposas, lobos e gatas falantes. Há apenas alguns problemas menores em alguns momentos,  coisas que talvez pudessem ser ajeitadas em uma última revisão, mas na maior parte do tempo o texto é fluido e impecável. De defeito mesmo, acho que só o fato de ser um livro curto – não necessariamente pequeno, mas o roteiro é bastante linear e direto ao ponto, e é uma leitura simplesmente tão deliciosa que é difícil não chegar no final querendo mais.

Em todo caso, Annabel & Sarah é um excelente livro, e um dos começos de carreira mais promissores da literatura nacional recente. Recomendo muito.

Sam Noir: Detetive Samurai

Eu gosto de pastiches, não preciso me repetir muito sobre isso. Talvez seja devido à minha infância e criação em meio a um mundo pós-moderno com uma sociedade globalizada, ou então ao fato de eu ter nascido no Brasil, o país do grande caldeirão racial/cultural, ou seja lá qual for a explicação mais plausível. O fato é que tenho uma atração natural por eles, pela forma como eles conseguem misturar elementos diversos para criar um resultado inesperado, ou simplesmente criar um ambiente diferente a partir de temas comuns e que evocam algum tipo de familiaridade. Tanto faz.

Sam Noir: Detetive Samurai é um história em quadrinhos que deixa bem claro o seu pastiche já no nome. Ela mistura a estética dos detetives noir do início do século ao lirismo e violência do Japão feudal, criando um cenário de época indefinida, em que guerreiros com katanas montam impérios do crime e são desafiados por investigadores com um fraco por mulheres bonitas e uma tendência ao sarcamo e ironia. É nesse mundo que acompanhamos a história do personagem-título e a sua busca por vingança pela morte de uma cliente.

É uma história de clichês, antes de mais nada, e é bom pegar ela já sabendo disso. O roteiro não é exatamente surpreendente ou bem encadeado; você apenas acompanha a vendeta de Sam e como ele descobre aos poucos a trama maior por trás dela, com revelações e reviravoltas convenientemente situadas no final de cada capítulo. Mas são clichês misturados, o que ajuda a dar alguma sensação de novidade ao menos na aparência, da narração em off de mortes sangrentas até a femme fatale e os membros decepados. O resultado pode não ser uma obra-prima da literatura, mas ao menos é divertido, com direito a alguns bons comentários sarcásticos pontuando a ação (meu preferido: dizem que a vingança deixa o homem vazio por dentro. Eu digo que deixa apenas mais espaço para sushi e cerveja).

Já a arte em preto e branco é um ponto alto. Há um jogo de luz e sombra interessante, que emula muito bem o clima dos filmes noir dos anos quarenta. Apenas as feições dos personagens são em alguns momentos um tanto feios; não que isso seja necessariamente um problema, talvez seja só o estilo do artista, mas fica um pouco estranho quando o narrador anuncia que se apaixonou à primeira vista por uma moça nariguda e bocuda…

Enfim, é uma história divertida, pouco mais além de um exercício de estilo, mas bem concebido e executado. Alguém que saiba o que esperar dificilmente vai se decepcionar.

Noir

– Você é o detetive Philip Marlowe? – perguntou a voz ameaçadora ao telefone.

– Não. – respondi, antes de desligar e voltar para cama.

Iniciativa M&M – Noir

O tema da vez na Iniciativa M&M, desta vez apresentado dentro do prazo (heheh), é séries policiais. Apresento a seguir, então, dois arquétipos de personagens próprios para campanhas de NP6 em histórias estilo noir.

Warren_Beatty_as_Dick_TracyDetetive (NP 6)
For 14 (+2) Des 14 (+2) Con 14 (+2) Int 18 (+4) Sab 16 (+3) Car 14 (+2)
Res +6 For +5 Ref +6 Von +5
Feitos: Atraente, Bem-Informado, Contatos, Durão 4, Duro de Matar, Equipamentos 2, Foco em Esquiva 2, Maestria em Perícia (Blefar, Furtividade, Intuir Intenção, Notar)
Perícias: Arte da Fuga 8 (+10), Blefar 6 (+8/+12*), Conhecimento (atualidades) 4 (+8), Desarmar Dispositivo 6 (+10), Diplomacia 4 (+6/+10*), Dirigir 4 (+6), Furtividade 8 (+10), Intimidar 8 (+11), Intuir Intenção 8 (+11), Investigar 11 (+15), Notar 8 (+11), Obter Informação 11 (+13), Prestidigitação 6 (+8), Procurar 8 (+12)
*com o bônus de Atraente
Equipamento: pistola leve (Raio 3)
Combate: Ataque +6, Dano +2 (corpo-a-corpo) / +3 (pistola leve), Defesa 14, Iniciativa +2
Desvantagem: Vulnerabilidade (mulheres – menor, comum)

Atributos 30 + Salvamentos 9 + Feitos 13 + Perícias 25 (100 graduações) + Combate 16 – Desvantagem 3 = 90pp

O tradicional detetive hard-boiled de histórias noir. É inteligente, capaz de resolver mistérios complicados na base da dedução e investigação; sua principal ferramenta de trabalho, no entanto, são os diversos contatos no submundo, além, é claro, da capacidade de apanhar sem parar de capangas e continuar vivo pra solucionar o caso. Sua personalidade cínica e atitude durona o tornam especialmente atraente para mulheres – mas elas são também a sua maior fraqueza, capazes de facilmente vencer suas defesas com um simples olhar sedutor.

jessica_rabbitFemme Fatale (NP 6)
For 10 (0) Des 12 (+1) Con 12 (+1) Int 14 (+2) Sab 14 (+2) Car 18 (+4)
Res +1 For +4 Ref +4 Von +9
Feitos: Ataque Furtivo, Atraente 2, Bem-Relacionada, Benefício (status), Crítico Aprimorado (Controle Emocional/19-20), Distrair (Blefar), Equipamento 1, Especialização em Ataque (Controle Emocional) 2, Esforço Supremo (Diplomacia), Fascinar (Diplomacia), Inspirar 4, Sorte 2
Perícias: Blefar 3 (+7/+15*), Conhecimento (atualidades) 4 (+6), Diplomacia 3 (+7/+15*), Dirigir 4 (+5), Performance (atuação) 6 (+10), Performance (canto) 8 (+12), Performance (dança) 8 (+10), Prestidigitação 3 (+4), Notar 5 (+7)
*com bônus de Atraente
Poderes: Controle Emocional 6 (Ação +1/movimento, Duração +1/contínua, Alcance -1/distância, Dependente dos Sentidos -1/visão, Limitado -1/amor – 1pp/grad; Inato), Drenar Sabedoria 4 (Área +1/estouro, Duração +3/contínua, Salvamento Alternativo +0/Vontade, Dependente dos Sentidos -1/visão, Permanente -1 – 3pp/grad; Inato)
Equipamento: pistola de apoio (Raio 2)
Combate: Ataque +2 / +6 (Controle Emocional), Dano +0 / +2 (pistola de apoio), Defesa 12, Iniciativa +1

Atributos 20 + Salvamentos 13 + Feitos 18 + Perícias 11 (44 graduações) + Poderes 20 + Combate 8 = 90pp

Bela e sedutora, a femme fatale é também terrivelmente perigosa. Capaz de causar loucura com um simples olhar, pode rapidamente transformar o mais hostil inimigo no mais fanático aliado. Sua aparência deslumbrante a concede privilégios em qualquer lugar, e, em conjunto com um andar sexy e devastador, desvia olhares e prejudica a atenção. Mas não se engane: ela é também inteligente e manipuladora, capaz de quase qualquer coisa para atingir seus objetivos particulares.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

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