Posts Tagged 'oasis'

Noel Gallagher’s High Flying Birds

Todos já devem saber, é claro, mas o Oasis, uma das últimas realmente grandes bandas de rock britânicas (e mesmo mundial), acabou faz algum tempo. Na divisão de bens entre os irmãos Gallagher, o Liam ficou com a banda, e anunciou já pouco tempo depois o surgimento do grupo Beady Eye, cujo primeiro disco, Different Gear, Still Speeding, eu já resenhei por estas bandas. E o Noel… Bem, o Noel ficou com o próprio nome, já que era reconhecidamente o compositor de todos os principais hits do grupo.

Como eu comentei no texto anterior, o Beady Eye em certo sentido continuou o mesmo tipo de som que o Oasis vinha fazendo nos seus últimos discos. Se você gostava do barulho e da energia roqueira intensa que eles tinham em músicas como Lyla ou The Shock of the Lighting, ou mesmo, vá lá, aquele pseudo-messianismo do Liam em Guess God Thinks I’m Abel e I’m Outta Time, é a sua banda. Já o Noel continuou com a outra parte desse som – representado nas músicas que ele próprio cantava nesses últimos discos, como The Importance of Being Idle, Waiting for Rapture ou Falling Down, que se destacavam mais pelos arranjos maduros e melodias cuidadosas do que simplesmente pelo barulho e distorções de guitarras. Qualquer destas músicas poderia estar tranquilamente em Noel Gallagher’s High Flying Birds, lançado no último mês, e não estariam de qualquer forma deslocadas.

O disco é composto por apenas dez canções, mas são mais do que o suficiente pra ele demonstrar quem era o talento verdadeiro por trás do Oasis (não que a maioria dos fãs tivesse qualquer dúvida, é claro). Com uma pegada mais pro lado do folk do que o rock propriamente dito, com direito a bases de violões mesmo nas músicas mais agitadas, ele se destaca pelos arranjos criativos e diversos, que praticamente não se repetem. Há espaço mesmo para um náipe de metais e instrumentos inusitados como o serrote musical e taças de cristal. Para os mais tradicionalistas, o uso de uma orquestra de cordas também está perfeito, passando longe do kitsch para deixar músicas como Everybody’s on the Run e (I Wanna Live in a Dream) In My Record Machine com ares épicos.

Por trás de tudo, é claro, está principalmente o talento do Noel de criar melodias e refrões, notável desde os tempos de Cigarettes & Alcohol e Wonderwall. É fácil imaginer os refrões de Everybody’s on the Run e (I Wanna Live in a Dream) In My Record Machine cantados em coro por um estádio de futebol lotado (sim, novamente as duas; preciso dizer quais foram as minhas faixas favoritas?). Dream On, The Death of You and Me, AKA… Broken Arrow e (Stranded on) the Wrong Beach são outros pontos altos, com aquelas melodias gostosas que nos dão vontade cantar junto já na primeira ouvida.

Pra não dizer que o disco é perfeito, enfim, duas das faixas estão um pouco abaixo da qualidade das demais, na minha opinião. A primeira é justamente a primeira música de trabalho, If I Had a Gun, que tem um verso inicial bem bacana (If I had a gun / I’d shoot a hole into the sun / And love would burn this city down for you), mas depois vira uma baladinha romântica genérica cheia de lugares comuns, falando sobre como você é tudo pra mim, e sem você eu não sou nada, e eu sempre te observei andando pela sala… Lembrou os momentos mais sonolentos do Coldplay. E a outra é Stop the Clocks, música já antiga que nunca foi gravada pelo Oasis mas chegou a ser título de uma coletânea de sucessos, e também tem uma melodia chatinha e um arranjo de balada soturna genérica, apesar da aceleração bacana do tempo no fim, no estilo de algumas bandas de rock pesado setentistas, salvar ela pra mim.

Enfim, pra resumir a ópera, Noel Gallagher’s High Flying Birds é um disco muito bacana mesmo, acredito que um dos melhores lançamentos do ano (bom, não é como se eu tivesse acompanhado muitos lançamentos também). É um belo amadurecimento artístico do Noel, passando longe da barulheira genérica na qual o seu irmão mais novo preferiu apostar. Recomendo bastante para os antigos fãs do Oasis, e mesmo quem não gostava muito deles talvez devesse dar ao menos uma chance.

Different Gears, Still Speeding

Beady Eye, para quem ainda não sabe, é a banda formada pelo Liam Gallagher e os demais remanescentes do Oasis depois do fim repentino do grupo em 2009. O Noel foi para um lado e apenas recentemente anunciou o início de uma carreira solo, enquanto os demais se reuniram já pouco depois do ocorrido e gravaram este Different Gears, Still Speeding, seu primeiro disco. A grande questão, é claro, é até que ponto o Gallagher mais novo é capaz de manter um trabalho de qualidade sem a tutela do mais velho, que desde o início era o principal compositor da banda e responsável pelos seus maiores hits.

De início, a bem da verdade, o disco até é bem promissor. Four Letter Word é um rock muito bacana, com um ritmo contagiante e riffs interessantes, e uma letra que manda uma mensagem bem direta aos fãs quando diz que nothing ever lasts forever. Já Millionaire, a segunda faixa, é uma baladinha também bem bacana com um certo quê de nostalgia, levada por um ótimo riff acústico, e The Roller também não é de todo ruim.

O problema começa mesmo na quarta faixa, Beatles and Stones. Liam sempre foi o mais problemático dos irmãos Gallagher, e o que levava mais a sério toda aquela história deles serem os “novos Beatles” – foi ele mesmo quem deu as declarações dizendo que era a reencarnação do John Lennon, por exemplo, o que poderia até ser plausível não fosse um certo probleminha de datas (ele nasceu quando o beatle ainda estava vivo). A música mostra bem isso: tenta fazer uma homenagem ao rock sessentista, mas não consegue evitar de soar falsa e nostálgica demais, desta vez de uma forma negativa (além de que, de alguma forma, consegue lembrar muito mais The Who do que as bandas citadas no título…).

A partir daí, pode-se dizer que o disco se divide entre as músicas que trazem ainda a marca da última fase do Oasis, com arranjos muito bem feitos pelos músicos experientes, ainda que faça falta o talento inegável do Noel para criar melodias gostosas e assobiáveis; e os delírios messiânicos do Liam, em que dos arranjos aos vocais à letra tudo parece evocar algum tipo de mensagem edificante genérica. Do primeiro grupo temos músicas até bem bacanas, desde baladas razoáveis como Wind Up Dream e Wigwam, até os rocks mais agitados como a ótima Standing on The Edge of the Noise e Three Ring Circus. E do segundo temos as músicas que dão vontade de avançar o disco pular para a próxima faixa, seja pela nostalgia vazia (Bring The Light e The Beat Goes On) ou pelo clima metafísico genérico (Kill For a Dream e The Morning Son).

No fim, Different Gears, Still Speeding até não é ruim. Pelo menos metade do disco é muito bacana e tem ótimas músicas, e eu apostaria que boa parte dos velhos fãs do Oasis vão gostar até mesmo da outra metade. Só é difícil não ficar com a impressão de que, na divisão de bens dos Gallagher, a maior parte do talento ficou mesmo com o irmão mais velho.

Dig Out Your Soul

Oasis-Dig Out Your Soul [Front]Bueno, depois de algumas divagações e resenhas aleatórias, falemos um pouco sobre esse último disco do Oasis, de cuja turnê fazem partes os shows que eles vieram fazer aqui em terras tupiniquins, incluindo – uh-huh /o/ – Porto Alegre. Pessoalmente, eu gostei bastante das novas músicas; certamente não são as melhores que eles já fizeram, até porque, convenhamos, nenhum deles tem mais a energia de um garoto de vinte anos, mas são todas honestas e competentes, com ótimas melodias e arranjos. Acredito que este seja o melhor disco da banda desde… Bem, talvez desde mesmo o Be Here Now, justamente o último grande trabalho deles na época em que eram a maior banda do mundo.

Não que seja um trabalho especialmente original, é claro – Oasis nunca foi uma banda marcante pela originalidade; eles fazem um rock assumidamente genérico e kitsch, mas pelo menos são honestos e, principalmente, competentes nessa abordagem. As primeiras faixas mostram bem isso, condensando suas diversas influências muito bem; as duas primeiras músicas – Bag It Up e, principalmente, The Turning, a melhor do disco na minha opinião – estão facilmente entre as mais bacanas que eu ouvi recentemente, nessa época de revivals atrás de revivals e micro-bandas de MySpace, e The Shock of the Lightning, o primeiro single, poderia muito bem ter entrado no Definetly Maybe ou (What’s the Story) Morning Glory – até o vocal do Liam está parecendo com o daquela época, mais limpo, diferente da rouquidão que tem marcado os últimos discos, e você fica com vontade de sair cantando o refrão Love is time machine / Up on the silver screen quando sai na rua.

As outras músicas não chegam a se destacar tanto quanto estas três, na minha opinião, mas ainda apresentam um rock eficiente e bem acima da média. Há algumas baladas bacaninhas – como I’m Outta Time, que remete aos (…suspense!…) Beatles -, e é notável como a banda está entrosada, com os instrumentos de apoio mais altos, fazendo algumas variações rítmicas e experimentando com percussões, sons e ruídos, como em (Get Off Your) High Horse Lady. To Be Where There’s Life, com a bateria e o baixo em primeiro plano, lembra um pouco as bandas de funk/rock psicodélico dos anos 80 e 90; Falling Down tem um arranjo de base bem interessante; e Ain’t Got Nothing tem uma melodia que me lembrou Cream. Apenas os vocais do Noel nas faixas em que ele canta desta vez acabam sendo um pouco decepcionantes, muito mais do mesmo – não que sejam ruins, bem pelo contrário, mas não há nada do nível de uma The Importance of Being Idle, por exemplo, apesar de que as versões alternativas de Waiting for the Rapture e The Turning no disco extra da edição especial ficaram bem bacanas.

No fim, Dig Out Your Soul é um disco muito bom, um dos melhores que eu ouvi recentemente (não que eu tenha ouvido muita coisa nova, de qualquer forma), e uma surpresa para quem não esperava do Oasis muito mais do que um rock com formol (mas não necessariamente ruim) como o do Don’t Believe the Truth. Eu, pelo menos, gostei bastante.

Standing on the Shoulder of Giants

album-standing-on-the-shoulder-of-giantsSeguindo com a minha preparação para o show do Oasis em Porto Alegre semana que vem, acho que posso dedicar algumas linhas para falar de um disco da banda que muitos desprezam, mas que, na minha opinião, esses anos todos depois, merece bem uma nova audição mais cuidadosa – Standing on the Shoulder of Giants, de 2000. É um disco que certos fãs tendem a ver com certo ceticismo, e não é difícil, acredito, entender o porquê.

Como todos (ou ao menos a maioria) devem saber, o Oasis chegou ao topo do mundo com um dos melhores discos pop/rock dos anos 90, o clássico indiscutível (What’s the Story?) Morning Glory, de 1995, que não só rodou o mundo todo como ainda alavancou as vendas do Definetly Maybe, disco de estréia da banda que havia feito um sucesso mais localizado na Inglaterra e acabou se tornando mundialmente conhecido e atingindo o status de clássico também nessa época. O grupo então entrou em uma fase de excessos típicos de astros do rock, com todas as drogas, festas e escândalos a que tinham direito, culminando em 97 com o lançamento do Be Here Now, que retrata perfeitamente toda essa fase com a produção exagerada, as músicas épicas de duração homérica, e também as letras, que, nessa época, falavam predominantemente do deslumbramento de ter saído dos bairros proletários de Manchester e atingido fama mundial através da música.

Be Here Now, apesar de ter atingido um recorde de vendas ainda na semana de lançamento, também acabou marcando o declínio do Oasis do posto de maior banda do mundo, em parte justamente pela super-produção de algumas músicas ter resultado em um álbum antipático e enfadonho ao ouvido de algumas pessoas, ainda que eu, pessoalmente, considere ele também um tanto injustiçado. Seguiram-se quatro anos de relativo ostracismo, apesar do lançamento em 1998 da ótima coletânea de b-sidesThe Masterplan, enquanto os irmãos Gallagher cuidavam de assuntos pessoais como família e tratamentos para se livrar do uso de drogas. Quando se reuniram novamente para começar a trabalhar neste Standing on the Shoulder of Giants, enfim, estavam dispostos a dar uma guinada no som que faziam.

Aqui eu posso estar entrando mais na área do achômetro e das suposições, mas não são poucos os indícios de que, ao menos o Noel Gallagher (que era quem de fato mandava na banda então, se é que já não é mais), realmente queria mudar o som do Oasis nesse período. Lembro de entrevistas dele na época em que ele falava que, agora que estava livre das drogas, queria fazer o melhor disco da carreira; ao mesmo tempo, o design visual do álbum e dos singles mudou, trazendo um logotipo diferente para o nome da banda que só foi usado nessa época e no ao vivo Familiar to Millions, logo voltando à tradicional caixa preta plagiada da EMI. Nessa época também saíram da banda Paul Guigsy e Bonehead, respectivamente o baixista e guitarrista-base originais, provavelmente por não suportarem a pressão que devia estar sendo imposta; como resultado, Noel acabou tocando sozinho a grande maioria dos instrumentos usados nas gravações.

Assim, não é difícil perceber o que torna esse um disco tão alienígena em meio à discografia do Oasis. Ele realmente soa diferente de muito do que eles já haviam feito antes, e mesmo que fizeram depois – as linhas de baixo estão mais altas, os timbres estão mais limpos, os arranjos estão mais compactos, as letras estão mais soturnas e até pessimistas, e há mesmo o uso de samplers com diálogos de filmes e arranjos de outras músicas em algumas faixas. O resultado? Fãs atônitos que não sabiam o que dizer do disco, e críticos que já não estavam dispostos à dar muita atençâo à banda em primeiro lugar. No entanto, passados oito anos desde então, acho que já é possível reconhecer as qualidades que o tornam um disco digno de ser ouvido de novo – ou pela primeira vez, para aqueles que antipatizam com os irmãos Gallagher e por isso não costumam dar muita atenção ao que eles fazem.

Standing on the Shoulder of Giants tem, antes de mais nada, duas músicas que se tornaram bem conhecidas e de presença constante nos shows da banda, apesar do gelo recebido pelo disco de forma geral – a instrumental Fuckin’ in the Bushes, abertura oficial da maioria das apresentações, e a balada Go Let it Out, que foi o primeiro single. Mas é claro que, não desmerecendo ambas, que são ótimas, eu escrevo essa resenha justamente para destacar as músicas que foram marginalizadas dessa época – em especial, duas delas.

A primeira, Gas Panic!, que chegou a ter um certo reconhecimento, tem um arranjo literalmente tenebroso. Os primeiros minutos, com os instrumentos preenchendo pouco o som e realçando os versos cantados, chegam a dar arrepios, especialmente pela letra soturna sobre fantasmas silenciosos em noites tempestuosas, aberta a toda sorte de interpretações de significado perturbadores.

A segunda, Roll it Over, é a que fecha brilhantemente o disco, e em geral é reconhecida apenas pelos fãs mais versados no trabalho da banda. Possui também um arranjo soturno e um tanto reflexivo, abusando de timbres limpos e cordas soltas até chegar no refrão gritado quase em desespero. O resultado é quase um épico de introspecção – e uma obra-prima.

E, claro, ainda há todo o resto do álbum. Who Feels Love é outra música que chegou a ser razoavelmente conhecida; ela retoma o tema da espiritualidade oriental conhecido da música pop pelo menos desde os Beatles, mas faz isso de forma competente e com um arranjo bem acabado. Where Did it All Go Wrong é outra grande música pouco conhecida, como uma letra deliciosamente pessimista e bem arranjada para a voz do Noel. E I Can See a Liar e Put Yer Money Where Yer Mouth Is são dois rocks de primeira com timbres limpos, muito bem arranjados e executados. Apenas duas músicas são realmente abaixo do nível das demais: Little James é a primeira composição do Liam gravada pela banda, o que talvez justifique o fato de ser provavelmente a pior música lançada em um disco oficial deles, mas com certeza não o muda; e Sunday Morning Call até não é ruim ou inaudível como a anterior, mas é um tanto sem sal e previsível.

Enfim, Standing on the Shoulder of Giants é, acredito, um disco do Oasis que merece ser ouvido novamente por fãs e críticos da banda, por representar um período diferenciado na carreira do grupo e terrivelmente subestimado. Pode não estar no nível da trindade sagrada Definetly MaybeMorning GloryBe Here Now, que certamente representam o auge de tudo o que já foi feito por eles; mas ainda assim é um disco muito bem trabalhado e executado, com muito mais altos do que baixos. Só não consigo deixar de pensar como estaria a banda hoje se as mudanças sonoras que eles tentaram promover na época tivessem vingado, e eles não tivessem decidido retornar, ainda que consideravelmente mais maduros, ao rock tradicional com barragem de guitarras sujas e baladas assobiáveis nos discos seguintes.

Heróis da Classe Operária

oasis-nySemana que vem, então, vem o Oasis para o Brasil, e, mais importante, para Porto Alegre, e eu, claro, já estou com o meu ingresso garantido, yeah /o/ Sim, eu sou fã de Oasis, f*da-se quem não gostar. Já falei um pouco disso antes, entre devaneios sobre história pessoal e coletâneas; é uma banda que me acompanhou por boa parte da minha adolescência, entre afastamentos e aproximações, e é inegável que, pelo menos pra mim, tem muito de nostalgia na forma como eu os idolatro. Mas acho que ela sozinha não poderia explicar o quanto a banda ainda me toca, bem como a tantos fãs ao redor do mundo, a despeito do que podem pensar os críticos mais ferrenhos do grupo; há algo mais neles que vai além dela, algo que tem a ver, em certo sentido, com a própria natureza o e o papel da música na vida das pessoas.

O Oasis não é exatamente uma banda inovadora, não é por ser fã que eu vou tentar esconder. Não falo nem da cópia aos Beatles, o lugar-comum que todo mundo fala; essa influência está lá sim, na mesma medida que está em toda a música pop contemporânea (já que, bem, os Beatles fizeram tudo), mas, à parte por algumas referências diretas, não é tão óbvia assim quanto a maioria dos críticos quer fazer crer. Dá pra encontrar influências muito mais evidentes na música do Oasis que remetem ao The Who, por exemplo, ou aos Rolling Stones, ou ao T-Rex, ou ao Stone Roses, entre outros. Essencialmente, enfim, não dá pra dizer que eles reinventaram a roda da música, da mesma forma como dá pra dizer em algum sentido sobre certas bandas de grunge ou punk ou rock progressivo de épocas anteriores.

Também não dá pra dizer que o som que eles fazem, apesar de certamente não ser ruim, seja especialmente técnico ou bem cuidado. Dá pra notar um avanço significativo nesse sentido pelo menos desde o ótimo (e injustiçado) Standing on the Shoulder of Giants, claro, mas Oasis definitivamente não é o tipo de banda que você ouve para encontrar sons incomuns, melodias inesperadas, harmonias cuidadosas ou qualquer tipo de iluminação ou epifania auditiva. Não há hinos instrumentais de 10 minutos (apesar de, na contramão da maioria das bandas mais recentes, eles possuírem também algumas músicas instrumentais bem bacanas), nem experimentalismos sonoros intrigantes. O seu som é indiscutivelmente pop, até kitsch em certo sentido, e era ainda mais na sua época áurea, quando tinha uma energia e expressividade mais juvenis, quase punk em alguns momentos.

O que muita gente se esforça pra não admitir, no entanto, é que esse tipo de coisa nem sempre é tão importante assim na música. Ouvir música é, certamente, uma experiência, funcionando como um tipo de catalisador emocional; mas às vezes é fácil se deixar levar por essa idéia, e cair na ilusão de que a música não pode ser só música, que ela tem que ser necessariamente algo mais do que isso – uma experiência epifânica, iluminadora; ou então um experimento para desvendar novas técnicas e instrumentos, de forma que, mesmo tendendo à cacofonia e ao inaudível, ela torna-se válida apenas por ser ‘diferente’. Uma idéia de que a música, enfim, não pode ser apenas gostosa de ouvir; precisa ser uma construção intelectual, uma transgressão aos nossos ouvidos. Acho que dá pra traçar esse pensamento desde o bebop, corrente do jazz de meados dos anos 40, talvez mesmo de algumas correntes de música erudita anteriores, passando por todos aqueles movimentos jovens dos anos 60 e depois, quando realmente pareceu por algum tempo que a música sozinha podia mudar o mundo.

A música do Oasis entra um pouco como um choque de realidade contra essa idéia. É uma música com os pés no chão, para se ouvir, tocar e cantar, e não apenas fruir; música como a dos Refugee All-Stars, consciente da sua própria dimensão, de ser feita para pessoas comuns, para a classe operária. Não é exatamente por acaso, afinal, que mesmo nos seus anos de relativo ostracismo internacional o Oasis continuou como uma das mais populares bandas da Inglaterra; e ainda hoje, na era das micro-bandas do MySpace, segue como uma das poucas capazes de lotar em poucas horas os grandes estádios de futebol do país – uma massa de hooligans e proletários, que não estão lá para ouvir um concerto erudito tanto quanto para participar ativamente do show, cantando junto com a banda canções que falam sobre eles próprios e participando de um tipo de experiência que passa apenas superficialmente pela apreciação estética das próprias músicas.

É preciso entender que o Oasis, mais do que uma banda de músicos, é uma banda de operários, que canta sobre sonhos proletários e angústias mundanas. Isso está na atitude do grupo – o Liam, com toda a sua persona arrogante e inconseqüente, é a caricatura de um hooligan -, na sua própria história – Noel e Liam, como os primeiros músicos do grupo, cresceram em bairros operários de Manchester, não muito diferentes de certas vilas de trabalhadores daqui do Brasil, com uma infância que ainda vai fazer a alegria de algum diretor atrás de uma cine-biografia musical fácil -, e é bastante visível mesmo na sua música, especialmente a dos primeiros anos. Quem acha que Cigarettes & Alcohol fala sobre fumar e beber nunca prestou atenção realmente nos versos da música – basta ouvir a segunda estrofe, que canta É digno de irritação / Ter que procurar um trabalho quando não há nada pela qual valha a pena trabalhar? / É uma situação louca / Mas eu só preciso de cigarros e álcool. Rock n’ Roll Star chega a ser até um pouco claustrofóbica no seu libelo contra a opressão da vida urbana – Eu vivo minha vida na cidade / Não há saída fácil / Os dias passam rápidos demais para mim. E uma rápida passada pelos ótimos b-sides da banda, muitos dos quais melhores que algumas músicas de trabalho de outras bandinhas por aí, também revelam isso muito bem – ouça lá Rockin’ Chair (Eu sou mais velho do que gostaria de ser / Esta cidade não significa mais nada para mim / Toda a minha vida eu tentei encontrar um caminho melhor), ou Fade Away (Enquanto vivemos / Os sonhos que tínhamos quando criança / Se apagam), ou D’You Wanna be a Sapceman (A cidade em que vivemos / Te tranformou num homem / E todos teus sonhos foram levados pela areia), ou dúzias de outras.

É essa a dimensão do trabalho do Oasis que a maioria dos críticos parece ignorar – não a de roqueiros eruditos, com arranjos sinfônicos e versos divagando sobre a condição humana e pesadelos freudianos de infâncias problemáticas mas ainda, curiosamente, confortáveis; mas a de, nas suas devidas proporções, bardos do proletariado, da vida comum e das aspirações de pessoas comuns. A sua dimensão de working class heroes, enfim, os heróis da classe operária que o próprio John Lennon, vejam só, tanto celebrava e anunciava como algo digno de ser.

Enfim, não, claro, que eu queira mudar a opinião de qualquer um sobre o Oasis. Esses devaneios são mais para mim mesmo do que qualquer outra pessoa em especial; independente de qualquer opinião alheia, o fato é que eu vou continuar gostando de ouvir a banda, e considerando os 140 reais do ingresso até baratos para ter, afinal, a oportunidade de vê-los ao vivo, oportunidade essa que eu já desperdicei pelo menos duas vezes antes e não pretendo perder de novo. E quem não gostar, bem, que se foda, não sou eu, entre todos os oasers do mundo, que vou me importar.

Stop the Clocks

oasis_stop_cloksStop the Clocks é a primeira coletânea oficial do Oasis (a menos, claro, que vocês considerem como coletânea o ao vivo Familiar to Millions), banda que, não tenho vergonha de admitir, idolatro incondicionalmente. Tudo bem que eles realmente estão um tanto velhos, que já não têm a mesma energia e espontaneidade dos tempos áureos, e algumas decadências a mais; mas ainda são uma banda de importância pessoal para mim, talvez a que mais esteve comigo desde a adolescência, e responsáveis diretos por eu começar a me interessar por tocar violão e outros instrumentos, embora isso muito provavelmente esteja longe de ser um mérito.

Mas, enfim, falemos do disco. Em meados dos anos 90, o Oasis foi, talvez, a última grande banda de rock a estourar mundialmente antes da massificação da internet, que mudou radicalmente a forma como as pessoas sentem e usufruem da música. São ainda de um tempo em que uma banda estourava através de shows em bares sujos e fedorentos antes do que de programas de compartilhamento de arquivos, quando um telão e um refrão grudento bastavam para levantar um estádio, e a música da banda era mais importante que o projeto político do letrista. Claro, talvez eu esteja sendo exageradamente saudosista, e nem tudo tenha mudado tanto assim, ou mesmo fosse de fato tão diferente naquela época; mas, de alguma forma, ouvir jovens ingleses de um distrito operário de Manchester cantando sobre precisar mais de cigarros e álcool do que de um emprego e sonhar em se tornar estrelas do rock tem um ar de espontaneidade que parece ter se perdido em algum lugar dos bits do novo milênio. Ou talvez seja só eu que envelheci junto com a música, o que é uma possibilidade bem plausível também.

Pode parecer que eu continuo enrolando e ainda não comecei a falar de fato do disco, mas não é bem assim – falar de uma coletânea é, inevitavelmente, falar de história; é “parar os relógios” e olhar para trás por um momento, resgatando o que a banda e a sua música significaram. E o significado mais profundo do Oasis está, sem dúvida, em algum lugar entre esses seus anos iniciais e o seu período como a maior banda do mundo; não por acaso, os discos com mais canções na coletânea são justamente os dois primeiros, Definetly Maybe e (What’s the Story?) Morning Glory, de Rock ‘n Roll Star e Supersonic a Don’t Look Back in Anger e Champagne Supernova.

Don’t Believe the Truth, disco de inéditas mais recente na época do lançamento da coletânea, é representado por seus dois maiores hits, Lyla e The Importance of Being Idle, enquanto o Heathen Chemistry e o Standing on the Shoulder of Giants tem, cada um, uma música. Pelo menos esse último, na minha opinião, poderia ter mais algumas, como Gas Panic ou Roll it Over, mas isso é também porque eu sou um desses chatos metidos a entender mais que os outros a respeito de música. Não há músicas do Be Here Now, no entanto, que é um disco um tanto subestimado por muita gente, aparentemente incluindo a própria banda; Stand by Me e Don’t Go Away realmente fazem falta, especialmente a primeira. Mas, enfim, completam os dois discos alguns lados B dos singles da banda, outro fato peculiar do Oasis, que consegue fazer com que esses lados B tenham tanto sucesso quanto as outras músicas, a ponto de ser realmente difícil imaginar uma coletânea deles sem, pelo menos, Acquiesce e The Masterplan.

Enfim, acho que não consegui fazer um texto muito conciso ou coerente, mas é realmente difícil pra mim falar do Oasis de forma objetiva. Relembrar a música deles é, inevitavelmente, relembrar a mim mesmo, quando passava madrugadas em claro tentando tirar os acordes de Wonderwall para impressionar aquela paixão platônica da adolescência. No meio disso tudo, está Stop the Clocks, essa coletânea dupla deles – no fundo, como qualquer coletânea, é boa para quem quer conhecer a banda mas não tem um ponto de partida concreto por onde começar, para os fãs relembrarem os bons momentos vividos com aquelas músicas, e para os críticos relembrarem como era divertido falar mal dos irmãos Gallagher. E também foda-se quem não gostar, não é como se eu, entre todos os oasers do mundo, vá me importar.


Sob um céu de blues...

Categorias

Arquivos

@bschlatter

Estatísticas

  • 230.938 visitas