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Um Réquiem para a Representação Política

bandeira-vermelhaA bandeira do meu partido
Vem entrelaçada em outra bandeira,
A mais bela, a primeira,
Verde-e-amarela, a bandeira brasileira.

Você pode discordar completamente da ideologia de um partido como o PC do B, ainda mais levando em consideração a sua história e representantes mais recentes, mas não dá pra negar que esses versos do seu hino são lindos. Colocar a bandeira do seu partido junto à bandeira nacional – uma forma de demonstrar que, independente das idéias que você defenda, acima de tudo o que você quer é o bem do país, e apenas acontece de você acreditar que tais ideias são o melhor para ele.

Acho que hoje, no entanto, alguém (ou alguma revista semanal) poderia ver estes versos de outra forma. Afinal, você está levantando a bandeira do seu partido tão alto quanto a bandeira nacional; é um exemplo claro da submissão da nação à ideologia! Saia já daqui, seu mensaleiro oportunista!

O ponto é que, ao ver as notícias das manifestações ao redor do país, tem me chamado um bocado a atenção a forma como eles repudiam agressivamente qualquer tentativa de associação com partidos políticos. A função dos partidos, afinal, deveria ser justamente esta – assumir as demandas da população e levá-las para o debate político. É assim que funciona (ou deveria funcionar) o sistema de representação que é a base da democracia moderna.

No entanto, também não dá pra simplesmente discordar da atitude dos manifestantes. A verdade é que eles têm razão. O sistema partidário brasileiro está tão deslegitimado que se associar com ele de qualquer forma diminuiria o movimento, e o faria ser visto como massa de manobra, joguete político ou apenas partidarismo descarado mesmo; seria um descrédito para as próprias demandas que eles estão fazendo. E quem se enfiou nesse buraco foram os próprios partidos, que em apenas trinta anos conseguiram acabar com todo o crédito adquirido nas lutas pela abertura política.

Todos os partidos têm um pouco de culpa no cartório. Isso tem a ver com o nosso sistema eleitoral proporcional surrealista, em que o seu voto em um candidato pode ajudar a eleger outro completamente diferente, que talvez sequer pertença ao mesmo partido (pois ele pode estar em uma coligação). Tem a ver com a forma como partidos como o PC do B, PSol e o PSTU se apropriam da política sindical e estudantil, usando-a como plataforma para lançar seus candidatos, e minando a própria credibilidade destes movimentos. Tem a ver com a forma como o próprio PT fez a mesma coisa no passado para crescer e adquirir relevância política – e, tão logo se lançou a voos mais altos, esqueceu completamente da sua base histórica, e o reflexo disso já pôde ser sentido nas últimas eleições municipais, como em Porto Alegre, por mais de uma década reduto eleitoral PTista, que no último ano elegeu uma mísera vereadora para o partido. E tem muito a ver também com a forma como praticamente todos os demais partidos, seja o PSDB, o PMDB, o PP, o DEM/PFL/PSD/qual seja a sua sigla atual, se apropriam da política nacional, tratando-a como um bem particular.

Chegamos a um ponto em que um partido nada mais é do que uma sigla, um conjunto aleatório de letras sem nenhum significado ou valor além de reunir qualquer número de pessoas com um mínimo de interesses comuns. Vejam só: o Partido dos Trabalhadores é formado por empresários; o do Movimento Democrático Brasileiro é autoritário; o da Social-Democracia Brasileira é neoliberal (e se você não entende como isso pode ser uma contradição, vá estudar história e ciência política, diacho); o Progressista é um dos mais reacionários; o Democratas possui as mesmas características, incluindo ideologias e até o viés religioso, dos republicanos norte-americanos; e eu poderia ir adiante.

Resumindo, o sistema partidário brasileiro está moralmente falido, e com ele o próprio sistema de representação política. O futuro talvez seja o que estamos vendo agora: a política da ruas, em que, ao invés de delegar um representante, é o próprio povo que declara diretamente suas demandas. Seria lindo, embora me pareça pouco prático (imagino se toda votação de orçamento tivesse que ser decidida com passeatas de apoio ou repúdio…). Ou talvez sigamos um modelo de democracia direta, nos moldes do chavismo venezuelano, em que tudo é decidido por plebiscitos. O tiro pode até sair pela culatra, e daqui a pouco nós vermos uma resposta dos “donos do poder” faorianos com um retorno a um autoritarismo ainda mais incisivo.

Mas isso já é futurologia. Não sou bom com conjecturas, queria apenas fazer algumas reflexões. E a constatação a que cheguei é essa: a representação política morreu.

Vida longa à próxima política (seja ela qual for).


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