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Ele Está de Volta

er_ist_wieder_daEstava lendo recentemente uma resenha da biografia de Daniel Binchy, um diplomata irlandês que viveu no começo do século passado, quando um trecho destacado me chamou bastante atenção. Segundo relatado em seu diário, ele estava em Munique em 1921 quando, em um bar junto com um amigo, assistiu ao discurso exaltado de um então jovem e desconhecido aspirante a líder político e seu pequeno séquito de admiradores. Você sabe de quem estou falando.

– Um lunático inofensivo com o dom da oratória. – teria dito a seu respeito para o amigo que o acompanhava.

– Nenhum lunático com o dom da oratória é inofensivo. – foi a resposta que obteve.

Quando você olha representações mais recentes do nazismo e os seus líderes, pode ser desculpado por não lembrar disso. Já destaquei outras vezes como eles viraram vilões tão fáceis para a ficção contemporânea. De Indiana Jones a Bastardos Inglórios, do Capitão América ao Hellboy, você os encontrará tendo delírios de grandeza, fazendo experimentos ocultos, e sendo, de maneira geral, a sua caricatura de vilão megalomaníaco. A famosa lei de Godwin talvez seja a expressão máxima desse descrédito: o simples fato de mencioná-los em uma argumentação a joga no ridículo, tanto quanto se mencionasse Mickey Mouse ou o Pato Donald. E os próprios discursos de Hitler são lembrados mais pela encenação exagerada, considerada hoje até um pouco cômica, com gestos expansivos e oratória inflamada, do que pela forma magnética, ao ponto de ser assustadora, com que capturava a atenção dos ouvintes, tão bem documentada por mais de um correspondente internacional incrédulo.

O filme alemão Ele Está de Volta, adaptado a partir do romance homônimo de Timur Vermes, não comete esse erro. Ele faz, de fato, um jogo muito bom de se disfarçar de comédia. A sua própria premissa parte do absurdo: Adolf Hitler simplesmente acorda em Berlim setenta anos após o fim da guerra. Encontrado por um diretor de televisão desesperado por um programa, é confundido com um comediante especialmente imersivo no seu método de atuação, e prontamente levado à rede nacional.

Logo, toda uma nação acostumada a vê-lo quase como um personagem de desenho animado basicamente entra em tilt. Um pouco incrédula, sem saber como reagir, aplaude calorosamente aquilo que acredita ser nada mais do que uma grande performance artística. Os programas onde aparece repercutem em redes sociais, e ele próprio é atirado meio caoticamente na cultura dos memes de internet. E encontra aí a brecha que pode levá-lo de volta ao topo: encarando-o como mais uma piada, as pessoas voltam a lhe dar ouvidos, e a tratar as ideias que expõe com naturalidade e mesmo alguma seriedade.

O ator Oliver Masucci parece entender muito bem todo esse contexto, compondo um Hitler como personagem que foge da caricatura usual que se acostumou a fazer, sem delírios imperiais ou afetações ridicularizantes. Chega mesmo a ser um pouco assustador na sua impassividade, ainda que sem cair na seriedade dramática de um Bruno Ganz. Num dos toques de gênio da produção, ele saiu às ruas caracterizado, conversando com as pessoas como se fosse o próprio ditador. As gravações foram então incluídas no roteiro, emulando um documentário de forma semelhante a Borat.

É nesse ponto que o filme passa a se tornar muito mais sombrio, ao refletir sobre a ressurgência contemporânea de ideias e situações semelhantes às que levaram à formação do nazismo originalmente. A sua tese fundamental é a de que Hitler não seria capaz de fazer o que fez sem alguma conivência do próprio povo alemão, ou de uma parcela significativa dele – algo que é muito  bem explícito nestes comentários colhidos na rua. Diferente do livro, que tem muito mais um tom de brincadeira com uma figura polêmica deslocada do seu tempo, o filme, mesmo com algumas pequenas incoerências históricas (e que não diminuem em nada a sua mensagem), é realmente muito mais incisivo nesse comentário. Se é verdadeiramente engraçado, com momentos de rir em voz alta mesmo quando brinca com memes famosos do seu personagem principal, acaba deixando no monólogo final uma nota bastante sorumbática, quase como um aviso daquilo que podemos estar prestes a deixar acontecer de novo.

E seria muito reconfortante pensar que é um exagero, ou mesmo que é algo distante, próprio da sociedade alemã ou europeia. Mas qualquer um com alguma consciência política e social sabe que não é bem assim. Também sofremos aqui de uma certa negação do passado, e uma recusa a encará-lo e lidar com aquilo que ele representa sobre nós mesmos enquanto nação; e é nessa recusa que ele encontra as brechas por onde ressurgir, através de figuras públicas com discursos fáceis e inflamados, dizendo nas entrelinhas exatamente aquilo que certas parcelas da população querem ouvir. Usando de um lugar-comum bem clichê, se é verdade que o maior truque do diabo foi nos convencer da sua não existência, talvez o maior truque do nazismo – e do fascismo, autoritarismo e outras ideologias semelhantes de ignorância e intolerância – tenha sido nos convencer do seu ridículo, e de que não deve ser levado a sério.

Meu Desencanto

eleiçõesTempos atrás, no auge das “jornadas de junho,” eu fiz um pequeno desabafo de quanto certas opiniões e atitudes de conhecidos me faziam colocar a minha própria experiência em perspectiva, e me deixavam um tanto desanimado com a vida. Tenho experimentado um sentimento muito semelhante com os desenvolvimentos recentes da campanha eleitoral, esse tiroteio de acusações baixarias generalizadas de todos os lados que ela tem sido, e um pouco para exorcizar isso da minha mente volto a usar esse meu espaço pra debater comigo mesmo a minha própria dificuldade em tomar uma atitude e sair de cima do muro.

Acho que, no fundo, independente de quem saia vencedor no próximo domingo, eu sei que estou entre os perdedores. Perdi amigos, conhecidos, familiares – não no sentido “bati boca e não posso mais olhar na cara,” algo que pelo menos acho que sou inteligente o bastante para não fazer (muito), e sim na linha de um “passei a conhecer melhor e perdi o tesão de conviver” mesmo. Como resultado, perdi também um tanto mais do meu ânimo de viver e ser um cidadão social e politicamente ativo.

Só pra dar um exemplo, pra mim é muito surreal que haja um candidato com sérias chances de se tornar presidente do país incluindo na sua plataforma de campanha um ponto como a redução da maioridade penal. É uma idéia que pra mim só se justifica pela pura preguiça de entender o problema e procurar uma solução de verdade, e busque meramente números de estatística vazios para mostrar sem trazer nenhuma mudança concreta de médio ou longo prazo. E não é algo que você precise cavocar em citações fora de contexto retiradas de discursos obscuros – é anunciado em jornais, em outdoors, no horário eleitoral televisivo, com todas as letras: “no meu governo reduzirei a maioridade penal.” (Meu único consolo é que ele não terá esse poder sozinho de qualquer forma, mas deve passar pelo congresso primeiro; por outro lado, com as bancadas conservadoras que foram eleitas…) E ainda aponta o dedo e acusa o candidato adversário de ser contra, como se isso mesmo fosse um crime, fosse esse o ponto que irá mudar o destino dos seus votos. Certamente não mudará o do meu (muito pelo contrário, só me dá mais convicção dele), mas me incomoda e desanima a consciência de que não são poucos aqueles para quem isso é mesmo verdade.

E ai de mim se eu quiser discutir. De repente tudo o que eu passei os últimos doze anos estudando perde o valor – minha pós-graduação foi uma especialização em história do Brasil contemporâneo, p*rra. Não interessa qual teoria política de renome acadêmico ou dado concreto de estudo publicado em periódico científico sério eu cite, a frase pronta contra o Bolsa-Esmola e qualquer informação de alguma revista semanal são sempre mais corretos e confiáveis. Tudo porque alguém foi convencido por jornais da época de que teria um golpe comunista em 1964, abençoados sejam os militares que nos salvaram de se transformar em uma nova Cuba, e malditos sejam os corruPTos que hoje querem nos levar ao mesmo fim… Incomoda notar que gente na minha própria família despreza tudo o que eu fiz e estudei na última década, sabe.

Não que o outro lado seja muito melhor, é bom destacar. Não se pode fazer uma crítica honesta à forma como o governo maquia índices de inflação, algo que qualquer um que frequente super mercados e saiba fazer contas pode perceber, sem ser respondido com um TRENSALÃO TUCANO MARINA EXTREMA DIREITA AÉCIO CHEIRADOR!!!11!!1ONZEONZE!!!11 Sem nem mencionar temas muito mais espinhosos como os direitos humanos e de minorias políticas, e são muito mais desanimadores de discutir – e eu tenho lá minhas críticas ao pensamento econômico como centro supremo de toda política, afinal. Tem pombos enxadristas em todos os lados do espectro político, e isso é uma das coisas que no fundo desanima de sair do muro e tomar uma posição.

E o pior de tudo é quando eu faço uma auto-crítica do meu próprio discurso, e vejo todas as falácias a que me levam a mera preguiça de entrar em um debate em que nenhum dos lados está disposto a abrir mão do seu ponto de vista. Talvez o que mais me desanime seja justamente isso – ter que adotar um discurso de pseudo-autoridade só para evitar o desgaste de um confronto que não vai levar a nada de qualquer forma: “eu estudei isso; vocês que não são iluminados que não entendem.” Me corroi por dentro ser levado a pensar assim. Eu realmente gostaria de acreditar que um debate sério, em que ambos os lados apresentem seus argumentos de forma racional e desapaixonada, e saibam avaliar os do adversário e então reavaliar os seus próprios para chegar a uma síntese, fosse possível; mas me salva um bocado de úlceras e confrontações mais exteriores saber que não é.

Nos meus momentos mais sombrios eu chego mesmo a ir um passo além, e cortejar por um instante um pensamento mais radical, resgatando alguma coisa daquela república dos filósofos de Platão. É difícil não pensar que essa dificuldade de discussão tem a ver mesmo com a entrada no debate de interlocutores sem preparo, e que talvez houvesse uma razão para que aquela massa de alienados fosse, bem, alienada. Mas prefiro me afastar logo dessa idéia, e repetir como um mantra que o sistema que temos ainda é melhor do que qualquer alternativa…

Enfim. Um meme correndo pela internet, que tá ilustrando o post, parafraseia Renato Russo dizendo que é preciso amar as pessoas como se não houvesse eleições. Eu bem que tento, mas olha… É difícil. Depois eu prefiro fugir pro Japão feudal (de preferência com mechas) e ninguém me entende.

A Pátria (Pendurando As) Chuteiras – ou, Futebol e Política na Nova República

chuteirasNão sei quem foi o deus indígena, santo milagreiro ou gênio marqueteiro que definiu que as eleições da Nova República Brasileira pós-ditadura militar sempre cairiam em ano de Copa do Mundo. Em todo caso, basta chegar um novo ano fatídico e ouvimos sempre os mesmo chavões: “brasileiro só quer saber de futebol,” “o futebol aliena o povo,” “se a seleção ganhar vão todos votar no [insira  a sigla do partido de situação corrente que não deve ser reeleito sob hipótese alguma, mesmo que as alternativas sejam o Sauron e o Comandante Cobra]” e etc. etc. etc. Esse ano, em especial, em virtude de tudo o que ocorreu no país desde o ano passado, tem sido um argumento especialmente recorrente – não sei quantas variações do “ninguém está torcendo mais pra essa seleção do que a Dilma” que eu já ouvi. Bem, não quero me estender demais no assunto, mas apenas resgatar alguns fatos da história esportiva e política recente do país.

Vamos descontar aqui 1994, que tinha uma série de peculiaridades – segunda eleição direta para presidente desde 1960, considerando que o eleito na anterior havia sido impedido de terminar o mandato por um escândalo de corrupção, e toda a própria questão econômica que enfim se estabilizava após um período hiperinflacionário bastante tenso. Pulemos direto para 1998, ano em que o Brasil perdeu a final da Copa para a França, em uma partida humilhante e uma atuação mais do que luxuosa do capitão adversário (um certo Zinedine Zidane), envolvendo ainda polêmicas estranhas com nossos jogadores principais (ataque epilético na véspera do jogo e coisas assim). Considerando como o povo brasileiro é alienado pelo futebol, podemos imaginar que ele certamente se sentiria ultrajado com tal atuação, e iria demonstrar a sua revolta com toda a força nas urnas no mesmo ano… Exceto que o então presidente, Fernando Henrique Cardoso, foi reeleito para um segundo mandato na provável eleição mais fácil da história brasileira, decidida ainda no primeiro turno.

Mas quatro anos depois, em 2002, a glória! Desacreditada, com duas trocas de técnico nos período anterior, a seleção passou por cima de todos os céticos e venceu a Copa do Japão e Coreia do Sul com 100% de aproveitamento. Que felicidade! O povo não poderia estar mais feliz, e com toda certeza elegeria um presidente que continuasse com tudo o que estava sendo feito de certo para garantir esse resultado… E então tivemos a eleição do opositor mais antigo do partido no poder, um certo Luís Inácio Lula da Silva, que liderou as pesquisas do início ao fim e venceu no segundo turno, mas ainda com certa facilidade.

2006 e 2010 acredito que sejam próximas o bastante para não que eu não precise recapitulá-las em detalhes, mas, resumindo, o Brasil foi eliminado em ambas nas quartas de final, saiu da Copa desacreditado pela população, e tivemos eleitos presidentes que garantiam a continuidade política – o próprio Lula reeleito em 2006, a Dilma escolhida por ele como sucessora em 2010. Percebem uma tendência aqui?

Se seguirmos a lógica, me parece que o mais adequado para Dilma seria torcer contra a seleção nesta Copa… Mas vou confessar que não acredito que faça diferença, realmente. Pelo menos a minha visão empírica é a de que a seleção perdeu há muito o poder de influir na política nacional. É inegável que ela já teve essa capacidade – 1970 não faz tanto tempo assim -, mas hoje? Do tricampeonato ao tetra tivemos cinco Copas perdidas, pelo menos três delas ainda em período autoritário, e o regime ainda foi capaz de escolher como queria terminar, em uma eleição indireta para escolher o primeiro presidente civil em vinte anos.

Não sei se sou capaz realmente de diagnosticar as razões disso, a bem da verdade. Talvez seja um esgotamento natural, depois de 1970 e os anos seguintes sem muitas vitórias, que levou as pessoas a perceberem que uma coisa não tem nada a ver com a outra de verdade. Ou talvez seja o afastamento gradual da seleção das suas bases populares, com o crescimento geométrico dos ganhos dos jogadores e as suas carreiras cada vez mais associadas a times de outros países. Mas, na eventualidade de a seleção realmente ganhar a Copa, alguém consegue realmente imaginar que uma campanha baseada em “a Dilma nos deu a Copa, votem nela” seria levada a sério?

E não que eu não veja, é claro, o futebol em si como capaz de exercer influência política; apenas não é mais na seleção que este poder está, mas muito mais nos clubes. E é uma influência muito mais direta, na verdade (e por isso mesmo, talvez, mais perigosa): basta ver nomes como o de Marques, segundo deputado estadual mais votado em Minas Gerais nas últimas eleições para o cargo, ou Danrlei, quarto deputado federal mais votado no Rio Grande do Sul no mesmo ano, ambos fortemente associados aos clubes que defenderam, e sem uma plataforma de campanha que fosse muito além disso e os chavões sobre atuar com garra e determinação e fazendo o que o professor mandar. E mesmo antes deles, em tantos Paulos Odones e Euricos Mirandas que fizeram suas carreiras políticas em cima deste mote.

Enfim, não quero realmente fazer uma tese aqui, mas apenas encadear alguns fatos. É muito fácil concluir que o povo brasileiro é alienado e só quer saber de futebol, mas cavando um pouco mais profundamente pode-se ver que a coisa é mais complicada que isso, e que é preciso fugir de uma conclusão tão simplista para entender realmente o que há nesta relação.

Governismo, a doença infantil

governismoGostando muito desse tumblr, chamado Governismo, a doença infantil. Em meio a todas essas polêmicas recentes sobre mensalão, trensalão, privatarias e afins, parece ser uma única voz de lucidez política, e que faz as perguntas que a gente realmente quer saber a resposta.

Porque, na boa, quando penso nos problemas do governo atual, não é sobre o mensalão que eu me questiono. Até onde eu sei, eles só estão continuando a interminável prática política, existente pelo menos desde Roma, da corrupção. Não era Platão que dizia que um bom corrupto podia ser melhor para a república do que um honesto incompetente?

“Ah, mas o mensalão nunca aconteceu!” Sinceramente, não sei. Uma parte de mim realmente quer acreditar nisso. Outra acha muito difícil. A única verdade incontestável é que eu não sou jurista, não li as dez mil páginas de processo, então obviamente não sou a pessoa certa para julgar. Prefiro e escolho confiar em alguém que tem muito mais propriedade que eu pra falar a respeito, ou não seria escolhido pelo próprio partido que se diz prejudicado pra ocupar um cargo que lhe dá esse poder, a me juntar à turba de inconformados e suas ofensas de quinta série, imbuídas muitas vezes até de um racismo tosco que, eu queria acreditar, não deveria existir em uma corrente política que se diz tão progressista.

Os questionamentos que eu realmente me faço são esses que estão no tumblr. Enchentes no Rio de Janeiro? Comissão de direitos humanos nas mãos de pastores evangélicos? Quem deixou que isso acontecesse? Quem são os aliados desses políticos, cujas trocas de favores e nomeações permitiram que chegassem a ocupar esses cargos? Pois é.

Sob a grande justificativa de manter a governabilidade, se aceita muita coisa, se vira o rosto para muita coisa. Faz parte da democracia? Talvez faça. Mas não é menos frustrante por isso. Ou melhor, brochante mesmo. Vou precisar de muito viagra hermenêutico pra recuperar o tesão pela política.

No fim das contas, mantenho minha promessa: voto em qualquer candidato que der um soco na cara do Onyx Lorenzoni, ao vivo, durante um debate transmitido pela RBS.

A Revolta das Coxinhas

coxinhaA padaria entrou em alvoroço quando as coxinhas se revoltaram. De uma hora para outra todas se recusaram a cumprir com seus deveres e começaram a organizar piquetes nas estufas. Sequer podiam ser cozinhadas: a receita poderia ser seguida à risca, acompanhada por chefs renomados, e ainda assim saíam errado. Haviam, ainda, as vândalas, coxinhas mau intencionadas que, se se permitiam ser cozinhadas, queimavam a língua e a boca dos clientes na primeira oportunidade.

Diziam que era uma revolta contra tudo aquilo que estava ali. Protestavam contra os serviços de tele-entrega, que não eram confortáveis, as caixas não eram adequadamente ventiladas, e além de tudo ainda cobravam absurdos seis reais como taxa de entrega. A situação das estufas, então, era deplorável: sucateadas, velhas, caindo aos pedaços. A cozinha não era melhor – suja, sem as mínimas condições higiênicas, e, o pior, ainda foi anunciado que a padaria pretendia contratar chefs estrangeiros para preparar os pratos.

Os outros lanches, na verdade, haviam se antecipado a essa revolta. O protesto contra a tele-entrega havia começado entre os pães de queijo. As empadas também já possuam muitas reivindicações em pauta, como a melhora das condições das estufas e das cozinhas. E os croissants, trazendo seus conhecimentos teóricos da gastronomia francesa, também se juntaram à luta. Mas todos se entreolharam abismados quando as coxinhas se juntaram a eles.

A revolta começou a perder momento. Com a força com que as coxinhas tomavam o movimento, os demais passaram a questionar suas posições, e refletir sobre pelo que estavam realmente lutando. Teorias conspirarias começaram a surgir. No fim, ninguém queria era se misturar com lanches tão simplórios como as coxinhas, sem todo o refinamento e técnica adquirido em workshops e cursos superiores, e nem gastar o tempo necessário para aprimorá-las e melhorá-las.

E assim sobraram apenas as coxinhas nos protestos, que foram prontamente eliminadas do cardápio. O que ninguém lembrava é que, simplórias que fossem, elas eram também os lanches mais populares e que mais vendiam entre os clientes. Sem a sua principal receita, a padaria foi rapidamente à falência e fechou.

Um Réquiem para a Representação Política

bandeira-vermelhaA bandeira do meu partido
Vem entrelaçada em outra bandeira,
A mais bela, a primeira,
Verde-e-amarela, a bandeira brasileira.

Você pode discordar completamente da ideologia de um partido como o PC do B, ainda mais levando em consideração a sua história e representantes mais recentes, mas não dá pra negar que esses versos do seu hino são lindos. Colocar a bandeira do seu partido junto à bandeira nacional – uma forma de demonstrar que, independente das idéias que você defenda, acima de tudo o que você quer é o bem do país, e apenas acontece de você acreditar que tais ideias são o melhor para ele.

Acho que hoje, no entanto, alguém (ou alguma revista semanal) poderia ver estes versos de outra forma. Afinal, você está levantando a bandeira do seu partido tão alto quanto a bandeira nacional; é um exemplo claro da submissão da nação à ideologia! Saia já daqui, seu mensaleiro oportunista!

O ponto é que, ao ver as notícias das manifestações ao redor do país, tem me chamado um bocado a atenção a forma como eles repudiam agressivamente qualquer tentativa de associação com partidos políticos. A função dos partidos, afinal, deveria ser justamente esta – assumir as demandas da população e levá-las para o debate político. É assim que funciona (ou deveria funcionar) o sistema de representação que é a base da democracia moderna.

No entanto, também não dá pra simplesmente discordar da atitude dos manifestantes. A verdade é que eles têm razão. O sistema partidário brasileiro está tão deslegitimado que se associar com ele de qualquer forma diminuiria o movimento, e o faria ser visto como massa de manobra, joguete político ou apenas partidarismo descarado mesmo; seria um descrédito para as próprias demandas que eles estão fazendo. E quem se enfiou nesse buraco foram os próprios partidos, que em apenas trinta anos conseguiram acabar com todo o crédito adquirido nas lutas pela abertura política.

Todos os partidos têm um pouco de culpa no cartório. Isso tem a ver com o nosso sistema eleitoral proporcional surrealista, em que o seu voto em um candidato pode ajudar a eleger outro completamente diferente, que talvez sequer pertença ao mesmo partido (pois ele pode estar em uma coligação). Tem a ver com a forma como partidos como o PC do B, PSol e o PSTU se apropriam da política sindical e estudantil, usando-a como plataforma para lançar seus candidatos, e minando a própria credibilidade destes movimentos. Tem a ver com a forma como o próprio PT fez a mesma coisa no passado para crescer e adquirir relevância política – e, tão logo se lançou a voos mais altos, esqueceu completamente da sua base histórica, e o reflexo disso já pôde ser sentido nas últimas eleições municipais, como em Porto Alegre, por mais de uma década reduto eleitoral PTista, que no último ano elegeu uma mísera vereadora para o partido. E tem muito a ver também com a forma como praticamente todos os demais partidos, seja o PSDB, o PMDB, o PP, o DEM/PFL/PSD/qual seja a sua sigla atual, se apropriam da política nacional, tratando-a como um bem particular.

Chegamos a um ponto em que um partido nada mais é do que uma sigla, um conjunto aleatório de letras sem nenhum significado ou valor além de reunir qualquer número de pessoas com um mínimo de interesses comuns. Vejam só: o Partido dos Trabalhadores é formado por empresários; o do Movimento Democrático Brasileiro é autoritário; o da Social-Democracia Brasileira é neoliberal (e se você não entende como isso pode ser uma contradição, vá estudar história e ciência política, diacho); o Progressista é um dos mais reacionários; o Democratas possui as mesmas características, incluindo ideologias e até o viés religioso, dos republicanos norte-americanos; e eu poderia ir adiante.

Resumindo, o sistema partidário brasileiro está moralmente falido, e com ele o próprio sistema de representação política. O futuro talvez seja o que estamos vendo agora: a política da ruas, em que, ao invés de delegar um representante, é o próprio povo que declara diretamente suas demandas. Seria lindo, embora me pareça pouco prático (imagino se toda votação de orçamento tivesse que ser decidida com passeatas de apoio ou repúdio…). Ou talvez sigamos um modelo de democracia direta, nos moldes do chavismo venezuelano, em que tudo é decidido por plebiscitos. O tiro pode até sair pela culatra, e daqui a pouco nós vermos uma resposta dos “donos do poder” faorianos com um retorno a um autoritarismo ainda mais incisivo.

Mas isso já é futurologia. Não sou bom com conjecturas, queria apenas fazer algumas reflexões. E a constatação a que cheguei é essa: a representação política morreu.

Vida longa à próxima política (seja ela qual for).

Turbas & Tumultos

O povo foi às ruas! A inépcia e a corrupção dos governantes atingiu o seu nível máximo, fazendo com que todos se indignem, e chegou afinal a hora de mostrar isso a todos! Então pinte o seu rosto, coloque a sua máscara do Guy Fawkes e junte-se à massa na luta por um mundo (de campanha) melhor!

Não importa se você é um brasileiro indignado com o preço do transporte público, um turco protestando contra o corte de árvores, ou um goblin de Valkaria lutando por melhores serviços públicos na sua favela. Na hora de lutar pelos seus direitos, somos todos um!

guy fawkes Turbas & TumultosOrganizando a Manifestação
Para organizar a manifestação, cada um dos líderes (normalmente, os personagens dos jogadores) tem direito a realizar um teste de Manipulação, representando a sua tentativa de angariar seguidores com cartazes nas ruas ou através de redes sociais. A especialização pode variar dependendo do caso – Liderança é a mais adequada, mas Lábia pode ser uma substituta, por exemplo, ou outra a critério do mestre.

Note, é claro, que isso não significa que as pessoas são necessariamente “manipuladas” a participar de uma manifestação com a qual não teriam nada a ver em primeiro lugar. No entanto, animá-las e fazê-las se sentirem seguras e justificadas em lutar pelos seus direitos é uma habilidade importante, que é representada por especializações como Liderança. Com autorização do mestre, um jogador poderia trocar a perícia Manipulação por outra que pareça adequada – Artes seria uma boa sugestão -, mas o teste será considerado Difícil.

Em caso de sucesso, você pode adicionar o resultado do dado para a pontuação da sua manifestação. Por exemplo, se você rolou um 3 no dado do teste, seriam 3 pontos que você adiciona à sua ficha. Note que você ainda precisa de um sucesso: por exemplo, se você possui H2 e possui um bônus de +1 pelo uso da perícia, o valor máximo que você poderá adicionar serão estes 3 pontos.

Além da pontuação do teste, você também pode gastar os seus PEs para aumentar a pontuação final da manifestação. Cada PE gasto é concedido à manifestação; isso significa que cada 10 PEs que ela reunir, ganhará 1 ponto extra.

passe livre Turbas & Tumultos

A Manifestação
Uma vez que tenham reunido a pontuação, os organizadores podem montar a ficha da manifestação distribuindo-os. Ela possui as mesmas cinco características de um personagem comum (Força, Habilidade, Resistência, Armadura e Poder de Fogo), e pode adquirir algumas vantagens normalmente. Para todos os efeitos, no entanto, devido à quantidade de pessoas reunidas, ela é considerada uma criatura Sugoi– ou seja, uma manifestação inteira enfrentando um único personagem Ningen terá algumas de suas características multiplicadas por 10. Manifestações muito grandes, que reúnam a população de toda uma cidade ou Estado, poderiam ser consideradas Kiodai; e aquelas que englobem todo um país mediano poderiam ser até mesmo Kami.

Durante a manifestação, as pessoas devem se movimentar pelas ruas da cidade até um objetivo central – um local simbólico, como a Avenida Paulista ou a Praça Tahir, por exemplo. Cabe ao mestre definir exatamente o que acontece nesse trajeto: podem haver alguns desafios, como testes de perícia para manter a manifestação unida pelos percalços, ou então, nos casos mais extremos, até mesmo confrontos diretos com forças de resistência.

Caso necessário, o mestre pode construir a ficha das tropas de choque da mesma forma que a da manifestação, e rolar o confronto como um combate normal. Um líder que possua as perícias adequadas (Manipulação ou a especialização Liderança) pode “comandar” a manifestação como se fosse um Aliado, seguindo as regras adequadas e melhorando a sua Habilidade. Este mesmo líder também deve fazer um teste da perícia toda vez que a manifestação sofrer mais do que 1 ponto de dano: em caso de falha, alguns dos manifestantes se dispersam, dando à ficha dela um redutor de -1 em todas as suas características. Se não houver um líder assim, realize o teste com a Resistência da manifestação.

A manifestação será totalmente dispersada se chegar a 0 PVs de alguma forma, seja por ter perdido todos eles em confrontos ou se chegar a R0 devido aos redutores acima. Caso consiga chegar ao seu objetivo antes disso, no entanto, ela pode ser considerada um sucesso: os manifestantes foram ouvidos, seus feitos estampam as manchetes de jornais, e a causa avançou junto à sociedade!

tahir Turbas & Tumultos

Vitória!
Cada manifestação bem sucedida dá à causa que ela defende 1 Ponto de Vitória. Da mesma forma, no entanto, cada manifestação que seja dispersada antes de atingir o seu objetivo faz com que ela perca 1 Ponto de Vitória.

Os Pontos de Vitória facilitam novas manifestações, fazendo mais pessoas aderirem à causa e se sentirem seguras de que ela possa ter algum resultado. Assim, cada Ponto de Vitória da causa concede 1 ponto a mais para a ficha da manifestação. Além disso, eles também são aplicados como um bônus aos testes para organizar as manifestações, o que quer dizer que pontuações ainda maiores podem ser atingidas.

Os Pontos de Vitória também servem para saber o quão próxima a causa está de ser alcançada. Causas simples, como redução nas tarifas de transporte público, requerem poucos pontos – 2 ou 3 podem ser o suficiente. Para causas mais ambiciosas, no entanto, podem ser necessários até 10 Pontos de Vitória – por exemplo, para fazer com que um governante corrupto renuncie ao seu cargo.

E, é claro, na medida em que os Pontos de Vitória são acumulados e a causa passe a se tornar tangível no horizonte, a repressão a ela também irá aumentar. Se no início apenas alguns policiais faziam a segurança dos manifestantes, aos poucos o seu caminho já será pontilhado por tropas de choque. Nos níveis mais altos – quando ela chegar a 7 ou 8 Pontos de Vitória – o próprio exército nacional pode entrar nos conflitos. Daí, é apenas um passo para que a guerra civil verdadeira exploda…

Nesse ponto, no entanto, já estaremos em outra campanha.


Sob um céu de blues...

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