Posts Tagged 'quadrinhos'

Monstress – Despertar

monstress_despertarMonstress chama a atenção logo na capa. A imagem da protagonista em um majestoso unicórnio branco, dentro de uma construção misteriosa e com tentáculos negros pelo chão, é bastante evocativa por si só, realçado pelo traço belíssimo da artista Marjorie Liu. Há mesmo um alto relevo na capa dura, que revela uma série de símbolos místicos se olhada contra a luz, e as capas das edições avulsas são também sempre muito bonitas e evocativas. Elas chamam a atenção, e despertam a curiosidade sobre o que há dentro dos volumes.

Nas primeiras páginas então você já é jogado em um mundo vibrante de estilo art déco, repleto de detalhes em cada vestimenta, cada arma fantástica, cada construção. A arte sozinha preenche o mundo de vida e personalidade, antes que você sequer comece a se dar conta do que está acontecendo; quando após algumas páginas as interações entre personagens e situações apresentadas começam a fazer sentido, você já está dentro dele há muito tempo.

Esta é a história de Maika Halfwolf, uma arcânica em busca de vingança, que carrega dentro de si um poder misterioso que pode trazer a ruína para todo o mundo onde vive. Isso a faz perseguida pelas duas facções em conflito – tanto o império teocrático humano como a corte de seres fantásticos e seus descendentes arcânicos -, que, antes de representarem moralidades absolutas, acabam revelando muitos tons de cinza na forma como a tratam e nas ambições que possuem para ela. É uma história sobre guerra e sobreviventes, mas também sobre escravidão, preconceito e a dificuldade em conter – ou aceitar – nossos demônios interiores (estes, aliás, bem literais).

Buscando uma referência popular, a contracapa classifica o cenário da série como steampunk. Eu diria, no entanto, que está além disso – é mais próximo de uma tecnofantasy, um cenário de fantasia que explora aquele território nebuloso em que a magia e a tecnologia se misturam, como um jogo da série Final Fantasy (com a qual é frequentemente comparado em resenhas, inclusive). Há armas de fogo de design exóticos, compostos químicos misteriosos com poderes milagrosos, e também seres fantásticos como gatos falantes, animais humanoides e guerreiros-assassinos de técnicas mirabolantes. As autoras (além da artista Marjorie Liu, a roteirista Sana Takeda) misturam uma grande gama de influências, com influências bem claras dos tropos de fantasia dos mangás e outros quadrinhos orientais.

E há os deuses antigos – outra influência de origem bem óbvia. Seres ancestrais mortos séculos antes da história começar, vagam sem vida pela terra, causando desconforto e adoração. Cada página em que um deles aparece é um espetáculo à parte, dominando a paisagem com aquela sensação de assombro e maravilhamento.

Enfim, é uma obra espetacular, que não vejo sendo muito comentada – à parte por ter ganho o Hugo de melhor história em quadrinhos de 2017, um dos principais prêmios da literatura de terror, fantasia e ficção científica. Deixo muito a recomendação aqui, quebrando esse jejum de resenhas.

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Pantera Negra, de Ta-Nehisi Coates

Um dia depois de eu me tornar rei, S’yan ofereceu-me um conselho.

– O poder não reside no que um rei faz, mas no que seus súditos creem que ele possa fazer.

Foi profundo, pois significava que a majestade dos reis está na sua aura de mistério, não em sua força. Cada ato de força apequena o rei, pois reduz sua aura de mistério. Pode expor os poderes do rei e, portanto, seus limites. Pode tornar o rei humano. Quebrável.

Por isso, parte de minha força eu escondi do mundo, permitindo que as lendas e o mito preenchessem a lacuna. Pois o que as pessoas conhecem não é o verdadeiro poder dos reis.

Hoje, meu tio S’yan está morto. Assassinado por outro rei. Eu o amava, mas gostaria que ele tivesse me falado não só do poder dos reis, mas da força do povo. Gostaria que tivesse me alertado que a população também tem segredos. Também guarda mistérios.

Também possui um poder próprio.

(Pantera Negra, do Ta-Nehisi Coates, sensacional).

Ms. Marvel & Gavião Arqueiro

Recentemente tem sido lançadas por aqui, em encadernados de capa dura bastante caprichados, duas das séries mais bacanas produzidas pela Marvel em muitos anos. Como os volumes de ambas estão saindo praticamente ao mesmo tempo, acho que podemos falar delas em conjunto, ao invés de gastar um post inteiro apenas para cada uma.

ms-marvelEm primeiro lugar temos a nova Ms. Marvel. Kamala Khan é uma adolescente comum de Jersey City, que, após fugir de casa para ir a uma festa com os colegas de escola, se vê inalando uma névoa misteriosa que atingiu a cidade e lhe concedeu superpoderes metamórficos. Fã dos Vingadores, se inspira em uma de suas heroínas preferidas para escolher uma alcunha e proteger a cidade de perigos e vilões.

Kamala pertence àquele nicho muito particular dos super-herois, os herois adolescentes. Em certo sentido, ela faz aquilo que personagens como o Homem-Aranha, por toda a sua história prévia, já deixaram de fazer há algum tempo: cumpre o papel do herói que deve salvar a cidade, enfrentar vilões, e terminar tudo antes de se atrasar para a escola. Seu universo, no entanto, é atualizado em relação ao cabeça de teia, e por isso muito mais contemporâneo, com direito a celulares e internet onipresentes. Entre uma aventura e outra, espere vê-la lidando com dilemas muito mundanos, do conflito da sua rebeldia adolescente com a família tradicional até o relacionamento com colegas e amigos na escola.

Acima de tudo, Kamala esbanja carisma. É uma personagem com quem é muito fácil se identificar, pelo menos para quem passou pela experiência de ser um fã de quadrinhos adolescente. Nerd, chega mesmo a tietar seus ídolos quando os encontra em meio às histórias – o seu encontro com o Wolverine no segundo volume é simplesmente sensacional. O mesmo vale para os coadjuvantes das histórias, indo desde a família e amigos próximos, passando pelo mascote Dentinho, e até o próprio vilão Inventor; é fácil criar histórias envolventes e cativantes quando se tem um elenco de personagens tão carismático e imaginativo, e isso fica muito evidente quando se lê estes volumes.

Note que tentei evitar até aqui falar aquela palavrinha mágica, que por alguma razão além da minha compreensão virou meio que tabu e muito associada a essa última reinvenção do universo Marvel. Mas vou dizer logo então pra me livrar desse peso: representatividade.

Ms. Marvel é, sim, uma série que busca a representatividade. De alguma forma apenas ter uma protagonista mulher se tornou hoje algo quase subversivo; e a série ainda vai além, representando uma população (os muçulmanos americanos) que não costuma aparecer em destaque com muita frequência nos quadrinhos mainstream. E não pense que ela tenta fugir ou se esconder desse subtexto: ele é sim colocado em primeiro plano, na própria Kamala, a forma como a cultura da família traz conflitos e dilemas à personagem, e mesmo a trama desses primeiros arcos de histórias, que envolve adolescentes aliciados para um culto que os convence a se sacrificar por um suposto bem maior (defina alegoria). A autora, G. Willow Wilson, ela própria uma muçulmana americana, traz muito da sua experiência pessoal para a série, dando-a mais significado e verossimilhança.

Se eu não mencionei esse aspecto até aqui, é porque não queria reduzir uma série tão fantástica apenas a ele. Ao mesmo tempo, no entanto, ele não pode realmente ser separado dela – Ms. Marvel não é uma série fantástica “apesar da representatividade;” ter esse elemento faz parte do que a torna tão legal. Torna os conflitos e dilemas da personagem mais reais, deixa o seu universo mais contemporâneo e significativo, e de uma maneira geral a reveste de personalidade e atitude. O fato de ser uma série tão bem escrita, e ter personagens tão carismáticos, apenas potencializa isso. Mas se ainda assim você não conseguir gostar, apenas porque a protagonista é mulher ou muçulmana… Olha, sinto muito dizer, mas não é a representatividade que é o problema aqui.

gav-arqueiroA segunda série recebendo encadernados nacionais não chega a tratar de temas tão polêmicos. Vendo em um primeiro momento, aliás, chega a parecer o exato oposto: uma série sobre um protagonista homem, branco, cis-hétero. Mas isso não a torna menos bacana também – na verdade, é um mérito e tanto conseguir pegar um dos personagens normalmente tidos como mais sem graça da editora, e reinventá-lo como um dos mais legais e carismáticos.

Em Gavião Arqueiro, vemos a vida de Clint Barton quando não está se aventurando com os Vingadores. Aqui o fato de ele ser o “cara normal” do super-grupo – pelo menos tão normal quanto alguém capaz de enfrentar uma horda de mafiosos armados usando apenas arco e flecha pode ser – se torna o mote condutor da história: o vemos no dia-a-dia, em atividades cotidianas, lidando com problemas da vizinhança, e, claro, enfrentando a eventual gangue de mafiosos.

Há uma pegada meio noir contemporâneo nos roteiros, dos antagonistas oriundos do mundo do crime até a presença constante de femme fatales (algumas das quais entre suas companheiras de equipe). A caracterização do herói mesmo bebe muito dessa fonte: vemos Clint como um personagem mal compreendido, emocionalmente destruído, que busca de alguma forma fazer o que parece certo por meios nem sempre assim tão corretos. Como qualquer detetive durão de Raymond Chandler, espere vê-lo apanhando bastante de capangas e oponentes antes de conseguir resolver os problemas em que acaba se metendo.

É muito fácil se identificar com a relutância de Clint, que não é bem um super gênio, soldado experimental, nem portador de poderes radioativos; e os autores se aproveitam muito disso nas histórias. Longe das ameaças cósmicas de destruição do planeta, seus problemas são de fato muito mais mundanos, envolvendo relacionamentos com mulheres, a preparação para festas natalinas, até a forma como ajuda seus vizinhos a lidar com uma enchente na cidade.

O ponto em que a série mais se destaca, no entanto, mais do que os próprios roteiros, é a narrativa arrojada desenvolvida pelos autores. O enquadramento dos quadrinhos são muito dinâmicos, como em um filme de ação tarantinesco, buscando ângulos inesperados para mostrar o que está acontecendo. Em algumas histórias você quase consegue ouvir a trilha sonora de rock independente. E frequentemente há espaço para experimentalismos narrativos, que exploram as características dos quadrinhos que não podem ser replicadas em outras mídias – como idas e vindas no tempo entre as páginas, ou uma história inteira contada do ponto de vista de Sortudo, o cachorro de Clint, com sacadas visuais geniais para dar conta da sua percepção guiada pelo faro.

Tanto Ms. Marvel como Gavião Arqueiro, enfim, representam o melhor que a Marvel produziu nos quadrinhos em muito tempo. São séries fantásticas, que simplesmente não podem ser ignoradas por quem gosta do gênero.

Astro City

astro_city_herois_locaisEm um tempo onde cada temporada de cinema é dominada por adaptações de super heróis, pode ser difícil por certas coisas em perspectiva, e lembrar que, num passado não tão distante, ser um leitor destas histórias depois dos doze anos não era exatamente algo bem visto socialmente. Lembro bem dos meus quinze anos, rezando para o Vigia para que minhas coleções de gibis e bonecos dos X-Men não fossem descobertos, e meu já difícil relacionamento com colegas de escola só piorasse.

De alguma forma, no entanto, as coisas mudaram, e hoje os tais nerds tem o poder da cultura pop ao seu lado. Gostar de super-heróis aos quinze ou vinte ou trinta anos nem sempre é motivo de vergonha; na verdade, é bem possível que seja um aspecto bem importante do seu convívio social. Até pela minha profissão de historiador, não consigo não ter uma certa visão processual sobre esse fato, e não achar que os tempos atuais são, de certa forma, bastante estranhos (mas nunca vou achar que são piores por isso, é bom deixar claro).

Num contexto assim uma série como Astro City consegue atingir um zeitgeist bem particular, e é muito propício que esteja sendo relançada por aqui em encadernados regulares, obedecendo à ordem de publicação original. Já falei dela antes, quando outras editoras tentaram fazê-la emplacar; mas acho que poucas vezes estivemos em um momento tão potencialmente receptivo a ela.

A série foi criada por Kurt Busiek, Alex Ross e Brent Anderson, e revisita muitos dos temas que os dois primeiros já haviam explorado com personagens clássicos em suas obras-primas mais conhecidas, Marvels e Reino do Amanhã. Em certo sentido, é uma inversão de valores do cinema de super-heróis recente: ao invés de tentar imaginar como seriam super-heróis no mundo real, seguindo essa fórmula tão manjada que tem nos dado resultados tão duvidosos, Astro City busca imaginar como seria o mundo real se super-heróis existissem nele. Ou, talvez dito de forma melhor, como seriam as pessoas do mundo real em um universo assim. Mais do que o aspecto político ou social, é o aspecto cultural e humano que os autores buscam, o que já fez com que fosse chamada de “o romance de costumes do mundo dos super-heróis.”

Astro City deve ter sido a primeira série a seguir aquela fórmula de reimaginar os super-heróis mais icônicos em versões genéricas – você sabe, criar o Super-Homem, a Mulher Maravilha, o Capitão América locais, com outros nomes e uniformes -, e usá-las para contar as histórias que não poderiam com os originais, por tudo o que representam não apenas culturalmente, mas mercadologicamente mesmo. Isso não significa que todos os heróis presentes tenham um equivalente nas grandes editoras – há muitos conceitos originais, desde os mais esdrúxulos, como o Caixa-de-Surpresas e El Hombre, até os mais curiosos e fascinantes, como Léo Lelé -, mas, quando você lê uma história do Samaritano sobre como a atribulada vida de guardião maior da justiça o deixa com pouco tempo para aproveitar o simples prazer de voar, bem, você sabe de quem os autores estão falando.

Talvez seja justamente essa exploração do lado humano de um mundo onde ser apenas “humano” está longe de ser a regra que separe Astro City da maioria das outras reinvenções tomadas de nostalgia e saudosismo. Para um gênero (e uma mídia) muitas vezes relegadas a uma classificação de entretenimento menor, há muito ali de Literatura com L maiúsculo, de exploração de sentimentos e dramas e mesmo questionamentos sociais, éticos e morais. Então uma história da Primeira Família (uma versão local do Quarteto Fantástico) pode questionar o papel da infância, e as consequências de uma educação enclausurada e superprotegida. Outra, o longo arco que compõe o quarto volume encadernado, referencia a literatura noir com uma trama melancólica sobre redenção e desencanto (embora com um ato final que pareça jogar tudo pro alto em um blockbuster de ação, mas ei, não dá pra fugir sempre da sua referência base).

No fim das contas, Astro City é simplesmente uma série fantástica, que merece todo o hype que recebe da crítica especializada, e certamente muito mais popularidade e burburinho do que tem de fato. Talvez não seja para todo mundo – pode ser preciso mesmo uma história prévia com super-heróis para entender o que ela propõe, e entrar no jogo de referências -, mas, com a evidência do seu gênero atualmente, certamente há de encontrar o seu espaço. Para quem não conhece, recomendo muito que se aproveite o relançamento dos encadernados pela Panini.

A Balada de Halo Jones

BaladaHaloJonesAntes da Liga Extraordinária, de Watchmen, de V de Vingança e todas aquelas séries pela qual Alan Moore é mais conhecido, havia Halo Jones. A Balada de Halo Jones é uma das obras-primas cult do mago dos quadrinhos britânicos, uma das histórias que o lançou ao estrelato originalmente na Inglaterra, inspirando de peças de teatro até bandas de rock, antes da consagração definitiva que viria no mercado norte-americano.

A história se passa no século 50 – um futuro tão absurdamente distante que é difícil até de ser concebido amplamente. Tudo o que conhecemos da Terra dessa época é o Aro, uma grande colônia sobre o oceano que abriga desempregados e outros excluídos sociais, sustentados por uma ajuda financeira concedida pelo governo. É um ambiente perigoso, onde uma simples visita ao mercado envolve tensão e planejamento quase a nível militar; e é onde vive Halo Jones, a personagem principal, que leva uma vida entediada e sufocante até que, após uma série de acontecimentos chocantes no seu círculo de amigos, decide fugir para longe – apenas para longe.

Um dos grandes méritos da história, principalmente nas duas primeiras partes, é pegar esse cenário futurista e caótico, com suas modas exóticas e gírias esquisitas, e tratá-lo como um ambiente absolutamente normal, habitado por pessoas normais. Halo é exatamente o tipo de garota comum que você encontraria num bar ou shopping center; possui amigos comuns, interesses comuns, paixões comuns por astros de bandas de rock. A identificação com ela e com seus dilemas, assim, é bastante profunda, e faz com que a história toda seja bastante envolvente. E se a própria Halo já não é cativante o bastante, o tempo todo encontramos novos personagens interessantes, de Rodice, a melhor amiga que fica para trás nesse desespero da protagonista por fugir para longe, até à não-entidade sem nome na qual ninguém consegue prestar atenção, responsável por alguns dos momentos mais emocionalmente intensos e dramáticos do roteiro.

A narrativa é muito influenciada pelo formato original da história, em capítulos semanais de cerca de cinco páginas cada publicadas na revista de quadrinhos de ficção científica 2000 A.D. Ela acaba lembrando bastante uma telenovela, em que o enredo é contado em passagens curtas, sempre com um cliffhanger na última cena para fisgar o leitor para o próximo episódio. Para os fãs do autor, é bastante interessante ver como ele se adapta a esta limitação, e começa a desenvolver as técnicas arrojadas de narrativa pela qual ficaria famoso no futuro.

Talvez por focar tanto nessas questões mais cotidianas, no entanto, as duas primeiras partes também são um pouco mais vagarosas, construindo sem muita pressa, em paralelo ao plano principal, elementos e situações que só serão profundamente explorados mais adiante; talvez seja um pouco difícil mesmo apreciá-las se não se estiver disposto a entrar no clima e se deixar levar pela ambientação, como eu geralmente estou. Mas então chegamos no Livro Três, e o enredo dá uma virada total no clima e na temática, quando Halo se alista para a guerra na nebulosa da Tarântula. Mais do que apenas pelo ambiente neurótico e caótico com que é representada a zona de conflito – que encontra a metáfora perfeita nos efeitos da gravidade gigante de um dos planetas sobre o tempo, fazendo meses passarem em poucos minutos -, é toda a identificação com a personagem construída nas partes anteriores que torna marcante a transformação e degradação pela qual ela passa nesse ambiente. O efeito dramático, além da óbvia analogia com a situação dos veteranos da Guerra do Vietnã, é bastante eficiente, chocando e provocando reflexões a respeito por dias depois da leitura.

Na soma final, eu pessoalmente considero A Balada de Halo Jones uma obra-prima; talvez seja mesmo a minha história preferida de Alan Moore (talvez empatado com Promethea). Ela consegue mesmo estar à frente do seu tempo em muitos aspectos – em tempos em que a representatividade dos sexos em diferentes mídias é tão discutida, é bastante contundente encontrar uma história de ficção científica em quadrinhos de três décadas atrás que tem uma mulher não-sexualizada como protagonista. O único ponto que talvez não tenha envelhecido tão bem é a arte de Ian Gibson, que não é exatamente feia, mas também parece um tanto datada comparada ao trabalho de artistas mais modernos. Mas é muito bom ver ela ganhando finalmente uma edição digna nas mãos da Mythos, com capa dura, papel especial e galeria de capas no final (apesar dela estar incompleta, apenas com as capas da 2000 A.D., sem incluir capas das edições encadernadas), visto que a edição anterior, da (felizmente) finada Pandora Books, era bastante mal produzida. Apenas senti falta das introduções do autor para cada ato da história.

Mesmo assim, recomendo muito.

After School of the Earth

after schoolAcho que todos já devem ter tido em algum momento a fantasia do sobrevivente – de ser o último sobrevivente de alguma catástrofe, e como viver nessa situação. Pra um cara tímido e solitário como eu, que tem certa dificuldade em se relacionar intimamente com outras pessoas, o mundo de repente parece um lugar muito mais simples pra se viver quando se tira essas pessoas da paisagem, ou pelo menos a maior parte delas. Alguma parte do apelo de jogos como Shadow of the Colossus e Journey, ou mesmo livros/filmes como Eu Sou A Lenda e todos os demais que seguem o tropo do apocalipse zumbi, pelo menos para mim, está justamente em oferecer a visão de um ambiente assim, um mundo onde você é livre para explorar os cenários idílicos e desoladas sem o risco de dar de cara com outro ser humano no caminho.

After School of the Earth é um mangá que explora um pouco esse tema. Dois anos após figuras misteriosas conhecidas como phantoms começarem a capturar pessoas e fazê-las desaparecer, apenas quatro indivíduos sobraram em todo o Japão (ao menos, até onde eles mesmos saibam): o garoto Masashi e as garotas Anna, Yaeko e Sanae. Os capítulos então acompanham o seu dia-a-dia no mundo desabitado, buscando mantimentos e tentando sobreviver enquanto tentam descobrir as razões que levaram à situação atual.

O tom na maior parte do tempo é o que se costuma chamar de slice of life, ou seja, aquelas “fatias da vida,” histórias de tramas mundanas como fazer um filme, cuidar de uma gripe e os relacionamentos que se desenvolvem entre os personagens a partir disso. O próprio título é bem claro como metáfora: é o período “pós-escola” (ou talvez de férias escolares) da própria Terra, em que os personagens não têm mais responsabilidades além de se divertir e aproveitar o tempo livre para o lazer.

Vez por outra há um encontro com um phantom, e então a trama maior do desaparecimento da humanidade é retomada por algumas páginas. No entanto, achei estes os momentos mais descartáveis – a história está no seu auge enquanto explora os próprios personagens e seus relacionamentos, aquilo que perderam quando os phantoms atacaram, e a solidão que sentem no mundo desabitado e como os demais ajudam a superá-la. Os phantoms acabam funcionando mais como um lembrete de que aquilo não pode durar para sempre, e eventualmente a escola voltará para acabar com a alegria das férias.

A arte é boa, com personagens de traços mais mundanos e sem os exageros de estilização que são comuns em certos mangás com pitadas de humor. Gostei especialmente da composição das capas, evocando a idéia das férias com personagens em geral em trajes de banho em um cenário desolado qualquer na capa da frente, e então referindo o tema dos desaparecimentos ao mostrar o mesmo cenário mas sem os personagens na contra-capa.

E então há a questão do fanservice. O tema é polêmico, e não quero realmente fazer um juízo de valor aqui. Goste ou não, o fato é que ele meio que se tornou um elemento da própria linguagem dos mangás, ainda mais quando a trama já parte de elementos tão característicos do gênero infame dos haréns – fato do qual a própria história é bem consciente, e chega a usar como fonte de humor em alguns momentos. Pelo menos ele não chega a ser exagerado, talvez com exceção das piadas bobas sobre os peitos das protagonistas que cansam com certa rapidez, e não chega a ser usado como justificativa única da história na maior parte do tempo. Só o que incomoda é quando você se dá conta de que a fonte desse fanservice são personagens adolescentes; você tenta relevar isso com a consciência de que, bem, o próprio protagonista também é adolescente, e é impossível evitar alguma tensão sexual entre personagens na situação em que eles se encontram (e não é como se as minhas próprias fantasias de sobrevivente fossem totalmente livres de algumas perversões), mas também não há como evitar aquela pulguinha atrás da orelha durante a leitura. Pelo menos o autor sabiamente evita cruzar certos limites, e não sensualiza a personagem mais nova do grupo, que possui apenas onze anos.

Em todo o caso, mesmo com os poréns do parágrafo anterior, há algo nesse mangá que realmente me pegou e me envolveu. Provavelmente seja a aura de solidão dos personagens e da situação em que se encontram, algo com a qual eu posso me identificar e sentir empatia.

Pacific Rim – Tales From Year Zero

Pacific_Rim_Tales_from_Year_ZeroAcho que não preciso falar mais de como me apaixonei por Pacific Rim / Círculo de Fogo logo à primeira assistida. Talvez não seja o filme perfeito em todos os menores detalhes, com um ou outro buraco de roteiro ou desenvolvimento de personagem que poderia ter sido mais trabalho… Mas francamente, quem se importa com isso quando você tem um robô gigante batendo com um barco em um monstro do mesmo tamanho? E não também que o filme não seja nada além de pornografia para nerds, claro – há sim um bocado de coisas legais para ver nele além da simples (e, na minha nem tão modesta opinião, satisfatória em si mesma) pancadaria colossal.

Uma dessas coisas é todo o universo que o filme sugere existir além do que foi apresentado nesta história. É possível ver isso em todos os jaeger e kaiju que recebem nomes e são meramente mencionados, nas tatuagens do cientista interpretado por Charlie Day sugerindo uma espécie de kaijumania apesar de toda a destruição que causam, no mercado negro administrado por Ron Perlman, e em um punhado de outros pequenos detalhes e pormenores que passam rapidamente por uma cena ou outra; é um universo em que você tem vontade de mergulhar, jogar campanhas de RPG (e teria também de jogar videogame, se o jogo correspondente não fosse melhor deixar esquecido), e o que mais for possível. Na verdade, você tem mesmo a impressão de que o filme é um pouco como uma história de origem, que conta apenas o primeiro episódio do que poderia ser uma saga bem maior – o ato final mesmo, com aquela correria para explodir a fenda dimensional que traz os monstros gigantes para o nosso mundo, rola um pouco como overkill, com o papel único de oferecer uma resolução final que não necessite (mas também não necessariamente exclua) uma seqüência direta.

A graphic novel Pacific Rim: Tales From Year Zero tenta explorar um pouco mais deste universo, funcionando como uma introdução ao mundo do filme. Usando como deixa uma repórter que entrevista certos personagens chave a respeito do começo da invasão dos monstros e dos projetos de construção dos jaeger, ela resgata um tanto da história não contada na tela grande, bem como aprofunda um pouco mais certos personagens que vemos apenas de relance na trama maior. São três pequenos contos que resgatam o início da invasão dos monstros, o desenvolvimento dos primeiros jaeger, e o começo da carreira de certos personagens importantes para o filme.

Um dos pontos que achei mais interessante é notar como a pilotagem dividida, com dois pilotos que devem entrar em conexão neural para movimentar o jaeger, é bastante explorada. O diretor Guillermo del Toro sempre destacou em entrevistas antes do lançamento como foi este elemento que o fez acreditar de vez no projeto, por tornar possível que uma história sobre robôs combatendo monstros gigantes subitamente se tornasse também uma história sobre relacionamentos; mas a verdade é que, mesmo que bastante usada para mover o enredo e desenvolver personagens, ela acaba ficando bastante obscurecida atrás dos, bem, combates entre robôs e monstros gigantes. Aqui, no entanto, o conceito é explorado com mais profundidade, e você é capaz de ver como a conexão, mais do que fazer o robozão correspondente andar, une e separa os seus pilotos, e modifica os seus relacionamentos entre si e com as outras pessoas.

Não vou dizer que seja uma graphic novel imperdível, ou que as histórias sejam especialmente tocantes e envolventes. É um volume bastante curto, afinal – apenas 112 páginas -, e ainda divide este espaço entre três relatos distintos. Por isso, não funciona exatamente como um produto independente, mas, como acessório ao filme, cumpre muito bem o seu papel, e traz um pouco mais de camadas e elementos para quem já estava cativado pelo seu universo.


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