Posts Tagged 'rap'

A Morte é Legal

amorteA Morte é Legal é o segundo livro de Jim Anotsu, que, apesar do nome, é um escritor bem brasileiro. Depois da deliciosa, mas broxantemente curta, aventura de Annabel & Sarah, ele nos traz desta vez um romance sobrenatural com ares de épico juvenil, sempre nos encantando com a sua imaginação fértil e referências pop.

A história desta vez é protagonizada por Andrew Webley, um garoto apaixonado e, por isso mesmo, muito ridículo, vivendo na cidadezinha inglesa de Dresbel. As coisas começam a mudar para ele, no entanto, quando conhece uma garota estranha de mechas verdes que lhe faz uma proposta irrecusável, e ele logo descobre ser ninguém menos que Ive, a Princesa do Fim Inevitável, filha mais nova da própria Morte. Paralelamente, seguimos também a história da irmã de Andrew, Amber, e a sua busca pessoal para ganhar credibilidade nas ruas e se tornar a próxima rainha do hip hop.

Mais do que um mero romance sobrenatural, o que esta história apresenta é um conto sobre a maturidade e os sacrifícios que temos que fazer para atingi-la. Ao longo do texto, todos os protagonistas devem eventualmente passar por situações de crise, escolhas difíceis e decisões irreversíveis, do tipo que depois os moldará enquanto adultos. A intensidade com que tais situações são descritas – seja nas discussões de Andrew com o pai, as decepções de Amber com as próprias limitações, mesmo o desespero de Ive para evitar o destino que sua mãe decidiu para ela – é arrebatadora, e pode-se ver a sinceridade do autor escrevendo sobre si próprio por meio de seus personagens.

Há alguns pontos negativos, é claro, mas eu acredito que seja principalmente pela falta de um trabalho de edição mais incisivo. Não digo nem das dúzias de referências literárias e musicais que percorrem o livro – há sim um pouco de quebra de clima quando um dos personagens compara os seus sentimentos com uma música de uma banda obscura da qual você nunca ouviu falar, mas é também parte do jogo que o autor propõe, e do que torna a história tão sincera e cativante. Incomoda mais o fato de que a escrita por vezes parece crua e descuidada, com advérbios sobrando e frases que poderiam ser divididas ou reformuladas; uma revisão cuidadosa e reescrita de algumas passagens não faria mal. Mas o que mais me marcou negativamente mesmo foi a quantidade de simples erros de copidesque mesmo – coisas como artigos repetidos, frases que não terminam, o tipo de coisa que seria o papel de um editor mesmo consertar. Não é a primeira vez que destaco isso em um (bom) livro desta editora, e acho que vale o puxão de orelha para que os próximos lançamentos sejam mais cuidadosos.

Nada disso, no entanto, chega sequer perto de arranhar os méritos que o livro possui. Mesmo com as falhas apontadas, ainda temos um universo surreal delicioso que poderia estar em uma HQ do Neil Gaiman ou livro do Michael Ende, um enredo extremamente envolvente, com personagens e mesmo vilões que cativam e criam empatia com o leitor, e um final de partir o coração. É o tipo de história que dá até pena de ver ser publicada por um autor brasileiro – nada contra autores nacionais em si, mas pelo fato de que seria um verdadeiro pote de ouro nas mãos de um empresário que o vendesse a um estúdio de cinema, que facilmente o transformaria no filme do verão estrelando o Michael Cera ou coisa que o valha. Por aqui, vai precisar de um bocado de sorte para que um Jorge Furtado da vida o encontre e dê a ele o tratamento que a história merece.

Enfim, A Morte é Legal é, sim, um livro muito legal. Leiam, não vão se arrepender.

The Refugee All-Stars – Um Drama Musicado

allstar2Lembro de algumas conversas com certos amigos em que não raramente o assunto acaba desviado para o tema da música, interesse comum que temos de forma mais ou menos aprofundada. Falamos de coisas como descobertas de antropologia musical, pagação de pau pura e simples, oposições entre saudosismo e inovações, e o que mais vier na telha discutir; às vezes acho que falamos tanto, e com tanto interesse e paixão, que acabamos por perder de vista a real dimensão do assunto que discutimos, e nos deixamos levar por devaneios que exageram muito a importância e o papel da música no mundo. E acredito que, provavelmente, o que mais me tocou em The Refugee All-Stars – Um Drama Musicado foi a forma como ele me ajudou a recuperar um pouco a noção dessa dimensão, me atingindo com um contundente choque de realidade.

O documentário fala da banda The Refugee All-Stars, formada por refugiados da guerra civil que aconteceu entre 1991 e 2002 em Serra Leoa, país da costa ocidental africana. Juntaram-se para dar uma opção de entretenimento aos demais habitantes do campo de refugiados onde viviam em Guiné-Bissau, que muitas vezes não tinham mais o que fazer com seus dias do que esperar a hora de comer e dormir, cantando sobre a sua situação e a forma como tentam seguir a vida. É uma música simples, claro; pode-se ver alguma influência forte do reggae jamaicano e também do rap contemporâneo, mas o estilo de fato é, aqui, o elemento menos relevante – trata-se, antes de qualquer outra coisa, de música espontânea, legitimamente popular, sem qualquer pretensão pseudo-artística ou interesse por normas rígidas de classificação (ou rotulação), composição e execução. São como bardos (ou melhor, griots) que cantam aquilo que vêem e vivem, mais do que eruditos e teóricos que lêem partituras em papel escritas em salas fechadas e mal-iluminadas.

O filme, é claro, não é focado apenas na música da banda. Ele fala bastante da trajetórias dos músicos, da forma como se reuniram, das suas apresentações em diversos campos de refugiados, e, principalmente, da sua volta a Serra Leoa, após a pacificação do país, para gravar um disco em estúdio. Mas não é um documentário narrativo – ele é todo centrado nas entrevistas e depoimentos dos seus personagens, entrecortados por trechos de apresentações e da gravação do disco, o que o ajuda a manter o foco; é um filme sobre esperança, acima de qualquer outra coisa, dando uma nova dimensão não só sobre a música, mas também sobre a religiosidade, o cotidiano e outras características dos refugiados dos conflitos africanos. Não digo ainda que alguém mais bem-informado e embasado sobre a situação política e social africana  não poderia questionar e discordar de muitas das opiniões ditas pelos músicos e outros entrevistados; no entanto, esse não é o ponto fundamental do filme, que é muito mais o de registrar e documentar o contexto da banda do que propriamente fazer um manifesto político de qualquer tipo.

Li certa vez uma resenha que falava sobre ser difícil avaliar objetivamente um documentário, pois a nossa opinião em geral depende muito mais do nosso interesse pelo assunto abordado do que da sua qualidade técnica de fato. Acho que isso é verdade – e é inegável eu tenho grande interesse sobre todos os assuntos aqui presentes, de antropologia musical à geopolítica contemporânea. No entanto, é certamente digno de nota que The Refugee All-Stars – Um Drama Musicado é um documentário bem produzido e executado sobre a região, e que consegue chamar a atenção para ela sem cair naquele chavão repetitivo e (infelizmente) já enfadonho de adesismo à causa africana, nem qualquer outro clichê bono-voxiano do tipo.


Sob um céu de blues...

Categorias

Arquivos

@bschlatter

Estatísticas

  • 217.990 visitas