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O Ramo Dourado, de Sir James Frazer

Queen_of_the_-OromosEntre os Gallas [povo habitante do leste africano], quando uma mulher se cansa de cuidar da casa, ela começa a falar incoerências e a se comportar de maneira extravagante. Este é o sinal da descida do espírito santo Callo sobre ela. Imediatamente o seu marido se prostra ante ela e começa a adorá-la; ela deixa de usar o título humilde de esposa e passa a ser chada “Lorde;” deveres domésticos não possuem mais poder sobre ela, e o seu desejo é a lei divina.

Do capítulo sobre deuses encarnados do clássico sobre religião comparada O Ramo Dourado, de Sir James Frazer.

Habibi

Tenho um pouco de pena de quem ainda vê as histórias em quadrinhos como “coisa de criança,” pura e exclusivamente. Isso não vem de uma visão elitista que querer defender que só adultos possam apreciá-las adequadamente, é claro. Elas certamente são muito atrativas para elas, pelas suas imagens coloridas mescladas à leitura, o que as torna ferramentas muito úteis na alfabetização no desenvolvimento da leitura; mas não há nada intrínseco à mídia que impeça que uma obra realmente adulta e madura seja feita através dos seus códigos e linguagem. É só ver o que fizeram nomes como Will Eisner, Robert Crumb e Art Spiegelman nos últimos cinquenta anos, ora…

Habibi, do norte-americano Craig Thompson, é outro excelente exemplo de HQ que não faria feio em qualquer prêmio literário. Ela tem tudo o que se espera de uma grande obra em prosa: é ousada e ambiciosa na exploração da linguagem, tanto a visual como a escrita; trata de temas maduros e intrinsecamente humanos como o amor (em todos os seus sentidos), a sexualidade, a religião; é apoiada por uma pesquisa profunda sobre a cultura árabe; e constrói de forma única e envolvente todo um universo de personagens e as relações entre eles e o mundo à sua volta. Mais do que tudo isso, ela faz ainda uma das mais bonitas homenagens à própria arte de contar histórias.

Os personagens principais são Dodola e Zam, duas crianças escravas que fogem dos seus dos seus captores antes de serem vendidos. Vagando pelo deserto, encontram um barco semi-enterrado na areia, onde fazem o seu lar, crescem e amadurecem nos anos seguintes. Para passar o tempo entre as buscas por comida e água, Dodola conta a Zam as histórias que conhece, contos retirados do Corão, transformando inadvertidamente a sua própria história em uma versão moderna de As Mil e Um Noites.

Claro que coisas acontecem e ambos são obrigados eventualmente a abandonar este Éden, partindo para enfrentar o mundo em jornadas separadas até a sua reunião arrebatadora. Mesmo distantes, no entanto, um está sempre com o outro, e, principalmente, à procura do outro. As histórias que contam então passam a ser um ponto norteador, um guia que os ajuda a enfrentar as dificuldades que encontram, e que os lembra constantemente daquele que os espera no fim das suas provações, e por quem nenhum deles pode desistir e ficar para trás.  Tudo isso em um cenário atemporal, em que um suntuoso palácio de prazeres pode estar ao lado de um lixão repleto de sucata e sujeira.

É uma história fantástica e cativante, complementada ainda pela arte maravilhosa. Will Eisner já dizia que a linguagem dos quadrinhos, ou arte sequencial, como ele a chamava, é o que se encontra na junção do texto e da imagem: nenhum deles é negligenciável; mesmo que você faça uma história sem palavras e diálogos, a simples disposição das imagens em uma determinada sequência já dá um novo significado para as suas paisagens e personagens, transformando-as, efetivamente, em um texto. Poucas vezes eu vi uma obra que explore esta idéia de forma tão profunda: palavras e imagens se mesclam, bordas belíssimas são usadas para destacar as histórias dentro da história, o próprio formato dos quadros e páginas é cheio de significados, colocando a ação dentro de símbolos místicos e religiosos. Em um determinado momento, por exemplo, Dodola está na chuva, e as gotas de água na verdade formam palavras em árabe – o autor, aliás, aprendeu a língua apenas para produzir a obra; em notas explicativas no final, sabemos que estas palavras formam na verdade uma canção sobre a chuva de um poeta iraquiano. A narrativa toda é cheia de jogos semelhantes, que dão novos significados a imagens que parecem simples, e novas camadas de profundidade à leitura.

Enfim, não posso recomendar Habibi o suficiente. É a melhor leitura que eu fiz este ano, seja entre quadrinhos ou literatura em prosa, de longe. Não me surpreenderia se o Craig Thompson ainda fosse o primeiro autor de quadrinhos a ser consagrado com um Nobel de literatura ou outro prêmio semelhante.

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Uma História de Deus

21312747_4É sempre polêmico falar de religião e religiosidade, ainda mais em tempos de avanços científicos e questionamentos éticos e morais que parecem colocá-los sempre em embate com a ciência e o espírito modernos – é muito fácil cair em algum tipo de extremismo, seja o fundamentalismo religioso, que nega qualquer tipo de teoria ou prova científica, ou então um certo tipo de fundamentalismo ateu, que não só nega a religião como ainda tenta desconsiderá-la e desmerecê-la por completo, ignorando que a sua função nunca foi a de apenas explicar o mundo. Por outro lado, é difícil achar algum tipo de meio-termo, não necessariamente de conteúdo, mas principalmente de abordagem; não falo de conciliar os dois lados do embate, mas simplesmente de entendê-los e respeitá-los simultaneamente. Pra mim, o caso mais emblemático que consegue esse feito é o de Joseph Campbell, que estudou a história das mitologias e da religião de um ponto de vista assumidamente ateu, mas nem por isso desprovido de espiritualidade; alguns mais religiosos que lêem sua obra chegam mesmo a dizer que ela foi capaz de reforçar e desenvolver sua fé ao invés de negá-la, como relatou Bill Moyers na famosa entrevista que deu origem ao livro e à série O Poder do Mito.

Karen Armostrong é outra estudiosa que segue pelo mesmo caminho, em grande medida influenciada pelo trabalho de Campbell. Essa abordagem é bem visível em Uma História de Deus, trabalho de pesquisa histórica em que ela analisa o desenvolvimento da idéia e do conceito de Deus nas três grandes religiões monoteístas, a partir de um estudo crítico e detalhado não só da Bíblia e do Corão, mas também das idéias e trabalhos dos grandes pensadores e teólogos judeus, cristãos e muçulmanos de diversas épocas. Desde o Deus-Céu dos povos primitivos até a anunciada morte de Deus no século XIX e ainda hoje, ela evidencia e avalia as diversas modificações e metamorfoses por que o conceito e a visão de Deus passou, constantemente se reinventando e adaptando a necessidades históricas bem mais mundanas do que alguns esperariam; como ela própria diz freqüentemente, uma idéia religiosa, para ter sucesso, precisa, antes de mais nada, funcionar para seus devotos em um determinado momento. E ainda que a sua própria visão da religiosidade fique bastante clara já na introdução da obra, em que relata as razões e o desencanto que a levaram a abandonar o convento onde estudava para se tornar freira, ela em momento algum chega a desprezar a visão religiosa – ao contrário, entendendo e tentando deixar claro que não se trata tanto de um capricho, mas sim de uma necessidade básica do homem, respeita esse culto ao espírito presente nas religiões corretamente concebidas, ainda que não deixe de criticá-las quando lhe parecem não cumprir adequadamente estas necessidades.

Enfim, a obra de Armstrong (e não só este livro), como a de Campbell, é fundamental para qualquer um que queira entender a lógica e o funcionamento do pensamento religioso, sem necessariamente desmerecê-lo. No fim, o grande questionamento que fica não é tanto se há um papel para a religião e a religiosidade no mundo moderno, mas sim que formas ela pode assumir para cumprir o seu papel social e, principalmente, psicológico no homem moderno, sem entrar em conflito com um pensamento científico que, por mais lógico, racional e irrefutável que pareça a muita gente, não consegue satisfazer plenamente a estas necessidades.


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