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47 Ronin

47 roninA historia, real, é uma das mais conhecidas do folclore japonês: no começo do século XVIII, inconformados com a sentença injusta que forçou seu mestre, Lorde Asano da província de Ako, a cometer seppukku, o suicídio ritual, 47 de seus samurai, agora convertidos em ronin (samurai sem mestre), planejaram e realizaram uma vingança sangrenta contra o seu inimigo, o Lorde Kira, cujas maquinações haviam colocado-os em desgraça em primeiro lugar. Imortalizada desde então em um sem número de pinturas, poemas, romances, peças de teatro e, mais recentemente, filmes, ela chega agora com toques ocidentalizados pelas mãos do diretor Carl Erik Rinsch e com Keanu Reeves, o próprio Neo, no papel principal.

Assim, logo na primeira cena somos transportados via Google Earth para um Japão mítico e fantasioso, onde se fala inglês com sotaque ao invés de japonês, e onde Reeves pode se passar por meio oriental. Lá descobrimos como um jovem garoto mestiço, fugindo de uma floresta sobrenatural habitada por demônios tengu, é salvo pelo Lorde Asano de ser morto por um de seus samurai. Corta então para o seu crescimento na província, o seu conhecimento das coisas da floresta, o amor proibido pela filha do seu senhor… Enfim, você pode imaginar.

O jovem, que recebe o nome de Kai, acaba se tornando o centro daquilo que o filme tenta possuir de original em relação às suas versões anteriores, que é o uso da mitologia e fantasia para criar um blockbuster épico nos moldes ocidentais, à lá Piratas do Caribe ou O Senhor dos Aneis. Surpreendentemente, a saga original até que foi razoavelmente bem respeitada (ou pelo menos mais do que eu esperava), com a presença dos seus elementos fundamentais em meio a algumas adaptações, incluindo, é claro, o seu final trágico inevitável. O figurino também ficou bastante bonito, abusando de cores fortes mas sem cair na caricatura (bem, com exceção da maquiagem de alguns figurantes), e de maneira geral ele se segura bem em aspectos mais técnicos.

No entanto, há uma certa hesitação entre a novidade e o tradicional que prejudica o resultado final. Enquanto os mais tradicionalistas certamente gostariam de ver uma adaptação mais fiel da lenda, eu não me incomodaria tanto se o lado fantástico fosse abraçado com mais vigor. Há monstros bem imaginados, que poderiam ter uma presença mais marcante, além de figuras proeminentes nos pôsteres e trailers que no final das contas acabam tendo uma participação de fato pífia no roteiro. Uma pegada mais próxima de um Tenra Bansho Zero, com seus samuraimecha e monstros conjurados, teria me agradado mais pessoalmente.

O elo mais fraco do filme, no entanto, se encontra justamente nos seus dois nomes mais conhecidos do elenco. Rinko Kikuchi tem uma atuação fraca e afetada como a bruxa má do extremo-oriente, bem longe do carisma da Mako Mori de Círculo de Fogo. E Reeves, bem, é o Reeves de sempre, com sua atuação mono-expressiva, adicionada ainda à total dissonância da sua presença em um elenco totalmente composto, exceto por ele, por nomes orientais. Há lá a desculpa esfarrapada, até bem aproveitada para construção de conflitos, de que ele é um mestiço em meio aos xenófobos locais, mas de maneira geral você sente que o filme faz muito mais sentido quando a ação foca em Hiroyuki Sanada como o líder do bando de ronin.

No fim das contas, 47 Ronin até que não é um filme tão ruim quanto os trailers anunciavam. Para quem já sobreviveu a coisas como a refilmagem de Fúria de Titãs e outras esquizofrenias inspiradas na mitologia grega, até que parece um pequeno sopro de originalidade nas inspirações e referências Hollywoodianas. Quem quiser uma versão mais bem acabada e fiel da lenda, a dica mesmo é procurar o box de DVDs lançado pela Versátil, com as três versões mais famosas para o cinema, todas de diretores japoneses; já para quem quer apenas um épico genérico para comer pipoca, ele até que vale um ingresso de meia-entrada sim.

Círculo de Fogo

pacific rimNão sei exatamente de onde vem esse fascínio por robôs gigantes. Talvez seja a sensação de segurança – se sentir protegido em uma cabine de comando por trás de placas de aço com vários metros de espessura -, ou de força mesmo – ter o seu próprio corpo projetado para um ser humanoide com dezenas de metros de altura. Tem também o fato de que, dentro de um, pouco importa o que você é do lado de fora; você pode ser um magrela mirrento ou um gordinho nem um pouco atlético, e ser um ás da mesma forma. Sei lá. Só sei que, tendo crescido em meio aos robôs dos tokusatsu e animes japoneses, eles sempre me pareceram fodas demais. Meu sonho de criança era ter um, de preferência um modelo Valkyrie de Super Dimension Fortress Macross, mas ok, eu me contentaria com qualquer gundam genérico também.

Somando tudo, é claro que eu estava ansiosíssimo praticamente desde o primeiro anúncio para ver Círculo de Fogo, filme em que o diretor Guillermo del Toro pretendia dar a sua interpretação ao gênero que tanto marcou a sua própria infância (e favor não confundir com o outro Círculo de Fogo, aquele dos duelos de franco-atiradores na Segunda Guerra Mundial). Não me decepcionei: desde o primeiro minuto, o que se tem é uma grande festa de robôs e monstros colossais se degladiando e destruindo tudo à sua volta; uma grande homenagem, e ao mesmo tempo um filme de ação puro e extremamente satisfatório.

O roteiro, é claro, não é lá especialmente surpreendente ou muito original. É uma história militar clássica, com ecos de real robots e outros, em que um destacamento especial do exército é formado para enfrentar invasores alienígenas. Pensou em Independence Day? É uma boa comparação; até a motivação dos invasores tem aquele mesmo ar genérico só pra justificar que não haja possibilidade de paz. No entanto, o diretor espertamente descarta todo o ufanismo, fazendo primeiro com que os pilotos sejam de várias nacionalidades (mas é óbvio que o mocinho é norte-americano, porque né?), e depois também deixando subjacente uma crítica à própria política na ameaça de fechamento do programa de jaegers que defende o planeta.

O grande mérito, acredito, é que del Toro sabe como ninguém equilibrar um roteiro que, ao mesmo tempo em que não é mais filosófico e profundo do que robôs gigantes batendo em monstros são capazes de ser, também não é completamente vazio de conteúdo a ponto de ter que se justificar com explosões indiscriminadas. Já havia provado isso com os seus ótimos (e subestimados) Hellboy, e agora ainda mais: ele não se deixa levar pela tentação de fazer um Neon Genesis Evangelion em live action (ainda hajam algumas óbvias semelhanças), e nem pela preguiça de ser só um novo Transformers do Michael Bay. Se não há grandes epifanias existenciais e debates críticos, ao mesmo tempo há bons conflitos e crescimento dos personagens. A própria idéia de fazer cada jaeger possuir dois pilotos foi um grande achado, não só para aumentar o número de dramatis personae, mas também pela própria forma de conexão que permite ao robô se movimentar, que influencia diretamente no relacionamento dos personagens.

Achei apenas que o ato final foi um pouco apressado demais. Dá pra sentir uma certa ânsia de terminar logo tudo, uma vez que o grande combate do filme já havia passado sem exatamente encerrar a ameaça de invasão. Então é preciso correr, acelerar a tomada de decisões, bem como os deus ex machina que forcem ao sacrifício derradeiro pela humanidade (e é claro que tem que ter um sacrifício derradeiro pela humanidade).

Mas sinceramente? Nesse ponto você já está tão embasbacado que nem se importa. Foi o primeiro filme que assisti em um cinema IMAX, e cara, que diferença! O tamanho dos jaegers e kaiju é ainda mais impressionante com o tamanho da tela, e mesmo os efeitos em 3D parecem ser menos descartáveis. Quando você vê um robô do tamanho de um arranha-céu usando um navio como clava pra bater em um monstro, você simplesmente não está mais se importando com os eventuais buracos do roteiro.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

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