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Édens Perdidos

Um tempo atrás li esse livro da Scholastique Mukasonga, uma autora tutsi de Ruanda, chamado A Mulher de Pés Descalços. Trata-se de uma biografia parcialmente ficcionalizada da mãe dela, e a sua própria infância na terra natal, sofrendo com o domínio hutu que levou a um dos maiores genocídios do fim do século passado. Cheguei a fazer uma longa citação aqui no blog de uma das muitas partes que me encataram no livro.

Acredito que a história contada que mais me marcou, no entanto, e na qual eu ainda me pego pensando a respeito praticamente toda semana, é a que fecha a obra – e que é grande demais pra citar inteira. Ela conta a história de uma moça tutsi da aldeia, que, em um dado momento, ao sair sozinha para ir até o rio, foi encontrada e estuprada por um soldado hutu. Encontrada e trazida de volta, descobriu-se grávida.

O que se seguiu foi um relato extremamente tocante de acolhida comunitária. Sem a possibilidade de acusar o agressor – que, afinal, pertencia à etnia dominante do país, que tratava os tutsis da aldeia como menos que animais -, as mulheres locais buscaram uma forma de atenuar a tragédia. Quem deu o veredicto foi a própria mãe da autora: a água lava tudo, disse; portanto, bastava um banho purificador no rio, ministrado pelas mulheres mais velhas, e ela estaria apta a retornar à comunidade, com um status próprio de mãe solteira.

Com muita frequência me pego pensando nessa história, e comparando com a forma com que a nossa própria sociedade lida com o estupro e o abuso. É óbvio que sei que não é o meu lugar de fala, e longe de mim querer apontar como alguém deve ou não se sentir nessa situação; mas fico imaginando como nós mesmos lidamos com pessoas que sofreram com isso, entre a pena pelo “destino pior que a morte” e os dedos acusadores contra quem “tava se exibindo mais do que devia,” completamente dessensibilizados e incapazes de fazer uma acolhida como aquela.

Lembro que em outro momento, falando a respeito de autores negros africanos como a Scholastique e o Ngugi wa Thiong’o no Twitter, mencionei que via na literatura deles algo de “edênico,” relativo ao Éden, como se falassem de algo que há muito perdemos na nossa sociedade ocidental. Me referia a coisas como essa. Quando foi que perdemos esse sentimento coletivo? Quando foi que deixamos de ter essa sensibilidade comunitária? Tudo no nosso mundo é tão individualizado, tão pessoalizado, que qualquer pequena solidariedade causa espanto.

Sempre me pego pensando nisso, e imaginando o que seria necessário para nos reconciliar com esse espírito de comunidade. Cada vez mais tenho a impressão de que é a única solução para os dilemas que nos afligem enquanto sociedade.

O País das Histórias, Scholastique Mukasonga

Eu não sou uma estrangeira no país das histórias. Eu sei o que as abóboras falantes disseram para a grama. Sei por que o sapo coaxa e se enche de ar todo orgulhoso: ele abateu a alvéola-branca no meio do voo. Eu sei de quem é o grito insuportável, no meio da savana: é do imperyi, esse bichinho que não ganhou de Imana uma cauda. Todas as noites, ele grita, grita, grita, tentando fazer nascer esse belo apêndice que lhe foi recusado. Não é bom ouvir seu pranto de lamento e nem virar o pescoço para tentar ver a traseira dele. Eu sei por que esse homem sai de casa todas as noites. Ele vai até a floresta. Nesta noite, ele carrega um pequeno cesto. Nesse cesto há o seio de uma mulher, o seio que ele arrancou da própria esposa e prometeu dar à amante, filha da floresta, que tem apenas um seio. Mas, bem antes de amanhecer, o sábio arrancou sua lança (e o que seria de um homem sem sua lança?); ao longo do dia ele andará na trilha pelo alto das montanhas e, à noite, no terreno da casa, onde os sábios se reúnem, ele conversará com a criança de cabelos brancos. O pequeno pastor pode fazer a pergunta: “Existe amor recíproco?” Eu sei a resposta: “O seu mestre, pequeno pastor, ama apenas a esposa estéril e ela, por sua vez, só tem olhos para o primo que partiu para a terra do rei de Cyamakombe, que ele admira mais do que tudo, mas o rei só preza a própria filha que se apaixonou por um carneiro com a lã imaculada…” E você sabe por qual motivo o insaciável Sebugugu chora? Ele seguiu os conselhos do melro e matou sua única vaca: “Sacrifica sua vaca, sussurrou o melro, e você terá cem vacas.” Desconfie também das moças bonitas demais, às vezes, são leoas disfarçadas: ao ver uma carne crua, serão obrigadas a revelar sua natureza selvagem. Além disso, não vamos contar o que tem no ventre da hiena, mas ao rei contarei onde está a mulher com quem ele deve casar: a pobre órfã, cativa dos malefícios da madrasta, está escondida num barril…

Não quero ir até os confins do país das histórias, pois sei quem me espera lá. Na beira dos grandes pântanos, mora uma velhinha corcunda. Ela esconde o rosto debaixo dos trapos, mas sei que seus olhos estão fixos em mim.

Em seu ventre estéril, ela aceitou hospedar a Morte.

(De A Mulher de Pés Descalços).


Sob um céu de blues...

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