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Cowboys do Asfalto

cowboysAcho que um dos temas mais recorrentes aqui no blog é a música. Falo muito de jazz, blues e rock, minhas paixões; mas acabo falando bastante também de músicas mais populares, como o sertanejo ou o funk. Tendo a ver elas sob uma perspectiva histórica, de média ou longa duração – para um historiador, é realmente difícil não comparar todo o preconceito que se vê com respeito a elas ao preconceito que outros estilos também sofreram, desde o rock ou jazz recentemente, até a polka ou a valsa em séculos já mais passados. Acho que o meu texto mais visitado na história do blog inclusive é sobre isso, um dos primeiros que publiquei aqui no wordpress também, e acabo voltando ao tema com muita frequência.

Mais do que observações empíricas, no entanto, é bom ter um referencial mais técnico para falar a respeito. E foi isso que ganhei com Cowboys do Asfalto – Música sertaneja e modernização brasileira, tese de doutorado do historiador carioca Gustavo Alonso recentemente publicado como livro.

Fundamentalmente, o livro corrobora muitas das teses que eu já defendia aqui, como a de que o preconceito musical muitas vezes é apenas o que está na superfície de um preconceito muito mais profundo, com origem no embate de classes e na oposição entre cultura erudita/de elite e a cultura popular. No caso da música sertaneja, no entanto, esse embate raramente esteve muito dissimulado, por ela ser muito identificada praticamente desde o seu início com um fenômeno social bem específico (o êxodo rural), e também pela sua identificação posterior com um determinado período político da história brasileira (a era Collor). O preconceito com o sertanejo tem muito a ver com o preconceito que existe entre a população do litoral – em especial do litoral sudeste, a terra do samba e da MPB – com as populações do interior, oposição que vem praticamente desde a colonização portuguesa original, o que fica muito evidente quando o autor nota que boa parte dos artistas clássicos do gênero eram migrantes, saídos do interior do Paraná, de São Paulo e de Goiás para a cidade grande.

Isso tudo é sintetizado na tese que o livro apresenta já na sua introdução, que acredito ser bastante acertada: a de que o povo brasileiro, embora tenha tido tendências políticas conservadoras durante a maior parte da sua História, foi na verdade bastante progressista no campo cultural – exatamente ao contrário das classes mais intelectualizadas, tanto as de esquerda como as de direita. O livro também me enriqueceu bastante ao me tornar ciente de diversos debates que eu jamais imaginaria existir dentro do gênero, como aquele que opunha a música caipira (essencialmente saudosa e nostálgica do campo) e a sertaneja (do camponês já urbanizado, vivendo na cidade grande), que parece ter sido resolvido nas gerações mais recentes; bem como na própria origem dos ritmos sertanejos, que trazem influências estrangeiras de países periféricos como o México e o Paraguai, o que contribuiu para as décadas de preconceito sobre ele.

Há algumas críticas pontuais a serem feitas. O estilo do texto é meio exagerado, com muitos clichês e frases feitas, e às vezes carece de uma estrutura mais cadenciada, alternando longas narrativas biográficas com contextualizações de períodos políticos e eventuais debates analíticos. Na verdade, achei que ele poderia se focar mais na última parte, e talvez reduzir o papel das biografias dos artistas, que realmente ocupam um espaço demasiado. O que senti falta realmente foi de uma análise mais social, e menos política, da música sertaneja como fenômeno. Há pouco espaço dado a como se formou e desenvolveu o público destes artistas, por exemplo; apenas no capítulo final, debatendo a emergência do sertanejo universitário, o papel do público é problematizado. Fiquei imaginando como seria uma linha de análise que relacionasse o fato dos artistas sertanejos serem em sua maioria migrantes com o seu público ser formado muitas vezes também por migrantes, ou por filhos de famílias migrantes.

Também achei que o autor muitas vezes foi conivente com as escolhas políticas dos artistas em muitos momentos da História do país. Talvez possa se ver nisso uma ênfase, louvável, em compreender, ao invés de julgar, o seu papel na sociedade nestes períodos; no entanto, algumas vezes parece que há realmente uma esquiva de adotar uma postura mais crítica, como se escolhesse poupar os artistas de encarar o que estava acontecendo então.

Em todo caso, é um livro muito instigante e enriquecedor, fruto de uma pesquisa profunda cruzando fontes bastante diversas, de artigos de jornais a entrevistas diretas com os artistas. Recomendo para qualquer um que queira entender a música sertaneja como fenômeno social, bem como tentar rever alguns preconceitos bastante comuns ainda nos dias de hoje.

Rolando e Tombando

Aí eu tava vendo o show de reunião que o Cream, uma das melhores bandas de todos os tempos, fez no Royal Albert Hall, em Londres, em 2005. Lá pela metade da apresentação, eles tocam um dos clássicos que praticamente todo roqueiro inspirado pelo blues já regravou. Essa aí de baixo:

 

Lá pelos 2:30 de vídeo, aproximadamente, uma imagem me pegou: um cara no meio da plateia, ela toda sentada, enquanto ele de pé se mexia ao som da música. Fiquei imaginando o que o resto do público tava pensando ao ver ele assim, e do mico que ele estava pagando… Até que percebi que talvez ele fosse o único que estava realmente fruindo a música da forma como ela foi feita para ser fruída.

Quer dizer, por toda a sua história, o blues, assim como o rock depois dele, foram o exato oposto daquilo que se vê ali: uma apresentação de conservatório, com todos os espectadores sentados e bem comportados fruindo o seu recital. Ele era, muito ao contrário, a música das festas das classes baixas do campo, dos “bailes” em que eles deixavam escorrer todo o estresse da semana pesada em trabalhos. Quer dizer, basta ver o próprio nome da música: Rollin’ and Tumblin’, “rolando e tombando” – qualquer semelhança com um clássico nacional como este aí embaixo…

 

…não é mera coincidência não.

Levanto essa semelhança principalmente para destacar o quanto de hipocrisia se tem ao falar de estilos musicais mais recentes, quando apreciamos sentados e bem comportados em nossa sala, com uma dose de uísque na mão, canções que, na verdade, surgiram quase que exatamente do mesmo contexto.

Você pode pegar praticamente qualquer crítica que se faz hoje em dia ao sertanejo ou ao funk carioca e aplicar, quase palavra por palavra, ao blues, ao jazz e ao rock de menos de um século atrás, ao menos da forma como eram vistas pela classe média e alta da época. Veja o que diz o mestre Robert Crumb, por exemplo, sobre um livro que fala a respeito dos bailes de jazz da década de 1920: ele fala da Chicago dos anos 1920, de todos os grupos conservadores que pensavam que os salões eram antros de iniquidade, corrompendo os jovens para uma vida de bebidas, de libertinagem sexual, etc. (Blues, p. 98).  Não é a mesma coisa que se diz de um baile funk hoje em dia? E foi desse ambiente que saíram Bessie Smith, Billie Holliday e tantos outros que são ouvidos hoje nas salas de estar de apreciadores brancos de classe média-alta.

“Ah, mas é muito diferente!,” diz você. “Eles eram muito melhores naquela época do que esses estilos de hoje, com os refrães silábicos, os ritmos repetitivos, a falta de técnica em geral…” Bem, deixa eu mostrar abaixo uma outra regravação do Eric Clapton, essa do seu acústico.

Se isso não é um refrão silábico, eu não sei o que é. Se você tirar todos os hey, hey, baby, hey da música, deve sobrar uma estrofe inteira, talvez. A própria questão da técnica é relativa: volte ao primeiro vídeo, o do show do Cream, e preste atenção em como o mesmo Clapton toca a guitarra. Praticamente todo ele é feito no slide; não há qualquer acorde formal ou técnica tradicional. Reza a lenda (não sei até onde isso pode ser verdade) que o próprio acessório que ele usa para tocar teria sua origem em gargalos de garrafa de bebidas, que os bluesmen da época quebravam e usavam para tocar violão – daí o nome do estilo bottleneck slide, ou slide do gargalo de garrafa. Mas para um músico erudito, que aprendeu a tocar em um conservatórios com o apoio de regentes e partituras, deve soar como algo não muito melhor do que um chiado de televisão (a menos que ele seja o Hermeto Pascoal, é claro). Não é bem à toa que o blues, como o jazz, só foi ser formalizado e convertido em linguagem de partituras muito recentemente, coisa de poucas décadas atrás.

Na verdade, se você reparar bem, a própria sequência de acordes de ambas as músicas é muito fácil de se pegar: mi, lá e si, repetidos à exaustão; a famosa seqüência I – IV – V do blues, que tanto se vê em incontáveis outras canções – procure no repertório do próprio Clapton. E existem blues ainda mais simples – Spoonful, outro clássico regravado por mais roqueiros do que uma banda militar, usa apenas duas notas repetidas a música inteira. Se você acha a batida do funk repetitiva, pergunte para alguém que não gosta de blues ou de rock o que ele pensa a respeito. Ora, essa semana mesmo, vi gente comparando o funk ao heavy metal sob o pretexto de “ser tudo barulho indiscriminado.”

Enfim, a verdade é que falar desse tema já é meio repetitivo para mim. Vez por outra volto no assunto, e um dos meus posts mais visitados do blog fala justamente sobre isso. Poderia me estender mais sobre diversos outros aspectos – mal falei sobre a questão das letras, por exemplo. Tanto se fala que “funk é só baixaria,” mas poucos lembram que o termo rock, e até mesmo o jazz, na verdade, surgiram como gírias para o ato sexual – dá toda uma nova perspectiva sobre músicas como We Will Rock You e I Wanna Rock and Roll All Night, não? Poderia ainda citar outras músicas que, olhadas friamente, falam praticamente da mesma coisa, mas, por não serem cantadas por funkeiros de favela, são consideradas belíssimas letras de rock, MPB ou outros estilos.

A questão é que esse preconceito sobre a música é, na imensa maioria das vezes, apenas um preconceito social, ou até racial, disfarçado. Nisso, pelo menos aqueles que reclamam do funk como cultura da pobreza estão sendo pelo menos um pouco mais sinceros: é a perplexidade de quem está acostumado a pensar no trabalho e dinheiro como valores maiores do homem sobre uma parcela da população que não precisa disso para ser feliz, mas quer apenas andar tranqüilamente na favela onde nasceu.

Sertanejo Blues

Vou falar de um estilo musical cuja origem está no campo, na área rural. Seus músicos são filhos de gente simples, muitas vezes peões e camponeses mesmo, que aprenderam a tocar com parentes, outros músicos errantes, na igreja, ou às vezes sozinhos mesmo. A busca pelo dinheiro e a fama eventualmente os levou à cidade grande, onde começaram suas carreiras tocando em pequenos bares e festas populares. Entre a população proletária mais simples e alguns membros da classe média buscando diversão, conseguiram um sucesso razoável, vendendo grandes quantidades de discos e, posteriormente, chegando às rádios de massas. Músicos inspirados por eles algum tempo depois iriam fazer o mesmo na televisão, conquistando o público jovem e consolidando o estilo de vez no imaginário popular. Nada disso, no entanto, impediu que fossem criticados por suas letras simples, que falavam sobre a vida no campo, situações do cotidiano, ou, mais freqüentemente, sobre as dores do amor e a vida bebendo, fazendo farra e “pegando” mulher. Música séria, afinal, era a que esses críticos ouviam, longas sinfonias com variações rítmicas e cuidado técnico apurado.

De qual estilo estou falando? Do blues de raiz norte-americano, é claro. Mas não se assuste se pensou em outro. A sua história e a dos seus artistas é, de fato, muito parecida com a do nosso sertanejo. Gente do campo, de origem simples, que buscou fugir do trabalho duro em sítios e fazendas indo para cidade grande, tentando a sorte através da música. Alguma diferença significativa, talvez, possa se dar nas suas origens e influências prévias, em especial na influência da música africana sobre o blues, que não me parece tão evidente no sertanejo (e algum especialista sério no assunto pode me corrigir se for o caso) – a nossa influência musical do continente negro está muito mais no samba mesmo, que, pela sua origem urbana e mesmo a posterior transformação em um estilo semierudito, lembra mais o jazz do que o blues propriamente dito. O contexto social e cultural de ambos, no entanto, é sim muito parecido. Ambos são mesmo reconhecidos pela virtuose de alguns de seus praticantes, e até a famosa “dor de cotovelo” das canções sertanejas tem muito em comum com o feeling blue do blues (que também é muitas vezes causado pela rejeição de uma mulher – ou homem, tanto faz).

O ponto em que quero chegar é que muitas vezes, numa ânsia civilizatória tosca e que tem muito de mentalidade colonizada, parece fácil querer desmerecer a nossa música popular só por ser, bem, popular, e ignorar que a própria música que ouvimos na verdade tem origens e premissas muito semelhantes, que nos parecem mais dignas apenas por virem de fora ou terem se originado décadas atrás. Quem ouve Cream, Rolling Stones, Led Zeppelin ou qualquer outro herdeiro dos velhos bluesmen errantes não tem exatamente muita moral para falar mal de quem ouve Michel Teló ou outro dos herdeiros contemporâneos do sertanejo de raiz. Vamos refletir um pouco e admitir: ai, ai, se eu te pego, enquanto letra, não é muito pior do que hey, hey, baby, hey que um Big Bill Broonzy cantava oitenta anos atrás, e que já foi regravado por artistas do cacife do Eric Clapton, por exemplo. E o tal Teló pelo menos ainda tem mais de sertanejo de verdade, com o seu gingado dançante e riffs de acordeão, do que um Luan Santana, de quem eu já falei um tanto anteriormente.

É bom, enfim, tentar ver as coisas de uma perspectiva histórica, de longa duração, e se dar conta de que esse tipo de crítica não passa mesmo de um preconceito tosco, o mesmo que tanto se desdenhava da high society WASP norte-americana de sessenta anos atrás, por não entender os méritos do rock derivado do blues enquanto movimento social e cultural. É claro que ninguém é obrigado a gostar da música do rapaz, e eu mesmo não sou exatamente um fã, embora já tenha me pego cantarolando ela inocentemente algumas vezes… Mas dar chiliques por causa dele ser capa de revista é um pouco de recalque demais, a meu ver. Goste ou não, ele é sim um fato cultural relevante dessa temporada, desses que geralmente são esquecidos até o fim do ano – ou não, é claro, nunca se pode prever com certeza. E vocês podem mesmo estar falando mal do nosso Elvis – ok, ok, compará-lo ao Rei é exagero sensacionalista meu, no nível desses que são feitos por revistas semanais; mas pelo menos o nosso Bill Haley da vez ele pode muito bem ser sim.

Pop Universitário

Então, dia desses, não perguntem o porquê, eu tava tentando lembrar como era aquela música do Luan Santana, o tal rei do sertanejo universitário. Essa aqui, ó:

 

Façam um esforço e tentem ouvir até o fim. Por algum motivo, a música que me vinha na cabeça quando eu tentava lembrar dela era essa aqui:

 

Fiquei um tanto intrigado pelo fato… Tipo, teoricamente eu estava tentando lembrar de uma música de um estilo derivado do sertanejo, mas o que me vinha na cabeça era um pop rock adolescente. Por que não lembrei de um sertanejo mais clássico? Algo tipo isso aqui:

 

Curioso, não? Ouçam as três canções e vejam quais vocês acham mais parecidas entre si. Acho bem provável que vocês tenham a mesma impressão que eu.

No fundo, acho que não faz diferença se é sertanejo universitário, pagode pós-graduando, funk de ensino médio… O que esses estilos todos são mesmo é música pop adolescente. Comparem bem: todos possuem as mesmas letras românticas cheias de lugares comuns, o mesmo ritmo agitado pra dançar nas festinhas de colégio… É algo como a versão nacional do Justin Bieber, digamos assim, apenas trocando as referências artísticas – ao invés do R&B e black music norte-americanos, a música brega/popular brasileira mesmo.

Não estou criticando o fato, é claro, até por ser um admirador confesso da nossa música brega de raiz. O que eu acho curioso mesmo é essa necessidade de criar rótulos, de dizer que uma coisa é tão diferente da outra. É uma necessidade muito mais comercial, na verdade – não tenho dúvidas de que o próprio rótulo “sertanejo universitário” tenha surgido de uma referência artística autêntica, de músicos que vieram a ser identificados com ele que de fato buscavam inspiração nas duplas sertanejas de raiz mais tradicionais; mas ele pegou mesmo foi pela propaganda e o marketing, de se anunciar como algo novo para o público jovem, livre do estigma de ser “música de velho.” E pouco importa se a música em si é apenas uma reciclagem da mesma coisa que tem sido feita nos últimos vinte anos da indústria fonográfica, senão mais.

Mas, enfim, quem é que liga realmente pra música esses dias, né?


Sob um céu de blues...

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